1. INTRODUÇÃO
Desde que o Governo Brasileiro decidiu contribuir com a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), nossos soldados têm convivido com situações pouco convencionais. A complexidade do quadro psicossocial haitiano tem apresentado desafios constantes à nossa tropa, desde os níveis de comando até os escalões de execução.
O escopo deste artigo é o de repassar aos leitores a experiência de um comandante de subunidade blindada em operações de manutenção da paz no Haiti. Dessa forma, abordaremos o ambiente operacional, com suas principais ameaças contra a tropa. Discorreremos, ainda, sobre a organização da subunidade e as principais missões cumpridas por ela, descrevendo a forma de atuação das frações elementares.
2. AMBIENTE OPERACIONAL
A cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, caracteriza-se pela grande quantidade de favelas e bolsões de miséria, possuindo cerca de 2,5 milhões de habitantes.
Predomina, conseqüentemente, o ambiente urbano. As favelas apresentam construções de forma desordenada, com inúmeros becos, que por sua vez também ramificam-se irregularmente, sem qualquer padrão definido.
As duas principais favelas em que a tropa brasileira operava eram Bel Air e Cité Soleil. A primeira localiza-se próximo ao Palácio Presidencial, em uma área com predominância de morros, cujas construções são em sua maioria de alvenaria e dispondo de apenas alguns andares (de 5 a 7 metros de altura).
Na segunda o terreno apresenta-se plano, as construções são mais rudimentares, algumas de madeira e zinco. As ruas são mais permeáveis aos blindados, embora existam terrenos restritos devido à falta de consistência, criando verdadeiros atoleiros para as viaturas.

Em ambas, encontramos canais que dissociam e atrapalham o movimento das tropas, definindo compartimentos no terreno. Ainda como característica comum, citamos a imensa quantidade de lixo espalhada pela zona de ação, dificultando, sobremaneira, os deslocamentos de nossas frações, tanto embarcado quanto desembarcado.
Neste ambiente operacional, as principais ameaças sobre nossas frações eram o emprego de pequenos efetivos de forças adversas infiltrados nos becos e que, por vezes, executavam disparos de lajes no interior de vielas, pouco acessíveis, ou pela retaguarda das viaturas, evadindo-se depois pelos inúmeros becos da região. Tais disparos visavam, geralmente, a torre, o motorista e os pneus da VBTP.
Destaque-se, também, o emprego de pedras e coquetéis molotov contra nossas viaturas, causando efeito psicológico negativo na tropa, apesar de seu baixo índice de letalidade.
3. PRINCIPAIS MISSÕES CUMPRIDAS PELA CIA
Antes de abordar as missões cumpridas pelo Esqd Fuz Mec no Haiti, é importante frisar que o escalão superior esperava que nossa fração se constituísse em uma força de ação rápida, devendo apresentar-se pronta para qualquer eventualidade, em um intervalo de 20 a 30 minutos depois de acionada, em qualquer lugar da capital do Haiti. Além disso, contava com o poder dissuasório dos blindados.

Dentre a gama de missões atribuídas ao esquadrão, podemos citar as seguintes: patrulhamento em áreas de risco, ocupação de pontos fortes, reconhecimentos, desaferramento de frações engajadas, ocupação de posições de bloqueio, vigilância de zonas de ação, monitoramento de manifestações, desobstrução de vias públicas , escoltas de comboios e autoridades , apoio às ações da Polícia Nacional do Haiti, dentre outras.
O efetivo total do Esqd Fuz Mec era o de 150 militares, sendo composto por 4 pelotões de Fuz Mec e uma seção de comando. Contávamos, ainda, com 16 VBTP Urutu, dois caminhões de 5 Ton, uma Vtr Land Rover 90 e outra 120, além de uma ambulância bem equipada. Como elementos de saúde, dispúnhamos de um médico, um sargento enfermeiro e quatro atendentes.
4. FORMA DE ATUAÇÃO
De uma maneira geral, a forma de atuação do EsqdFuz Mec, na missão de paz do Haiti, seguia o padrão descrito a seguir.
4.1 CONCEPÇÃO DA MISSÃO
No início, tínhamos que concentrar nossos esforços no reconhecimento da área de operações, além da obtenção de informes valiosos para a montagem de um banco de dados fidedigno acerca da zona de ação. Entre os elementos essenciais de informação destacamos: levantamento de lideranças locais, identificação de necessidades da população, áreas de homizio de elementos de forças adversas, locais de reunião, principais vias de acesso utilizadas para deslocamentos de gangues, bem como limites territoriais entre elas.

4.2 PLANEJAMENTO
Cada pelotão recebia um determinado setor de patrulhamento e um horário a ser seguido.
O Cmt Pel distribuía uma zona de ação para cada GC blindado, realizando rodízios periódicos entre as frações. No respectivo setor de responsabilidade de cada Pel, eram informados os locais onde estes deveriam mobiliar pontos fortes temporários e onde deveriam concentrar seus esforços, a fim de obter informações de acordo com os elementos essenciais de informação recebidos . Para tanto, os GC eram reunidos e, então, eram lançados no patrulhamento a pé com a finalidade de reconhecer os becos e vielas da área de operações, além de levar a presença da tropa em locais inacessíveis aos blindados. Tais patrulhas contavam, algumas das vezes, com intérpretes locais, fundamentais para a coleta de informes.
A ocupação de postos de observação era imprescindível para a segurança dos deslocamentos, uma vez que, desta forma, poderíamos obter comandamento sobre as lajes da área de operações.
Quanto ao tempo de duração das patrulhas, a prática mostrou que o melhor rendimento era obtido quando estas duravam de 2, 5 a 3 horas.
4.3 EXECUÇÃO – PATRULHAS MECANIZADAS
Quando embarcados, os fuzileiros recebiam um setor de observação, incluindo as lajes acima da viatura. Nas escotilhas procurávamos manter apenas um militar, para evitar que dois combatentes entalassem nos casos em que se fazia necessário entrar rapidamente para dentro da VBTP. Outra vantagem desse sistema, era o de proporcionar rodízio entre os homens, de forma que cada esquadra permanecia cerca de 30 minutos atenta ao patrulhamento e 30 minutos em situação um pouco mais aliviada dentro da viatura.
Uma das maiores dificuldades para o comandante de GC blindado era o de controlar o motorista, haja vista o fato do sistema de intercomunicação ou apresentar defeitos, ou, mesmo quando funcionava a contento, o capacete não ter qualquer proteção balística. Como solução, os Cmt GC posicionavam um soldado no banco próximo à porta lateral da viatura para retransmitir ao motorista as ordens emitidas.

Outro problema grave era quando o motorista precisava “escotilhar” e tinha que conduzir a VBTP dessa forma. A visibilidade proporcionada pelos blocos de visão do Urutu é muito pobre, tornando esta tarefa muito difícil.
No aspecto blindagem, em geral a viatura suportava bem os impactos até mesmo de 7,62mm, desde que estes não fossem disparados a distâncias muito próximas (cerca de 20 a 50 metros). Nestas ocasiões houve casos em que projetis perfuraram a blindagem, colocando em risco a guarnição embarcada.
O reparo da metralhadora MAG apresentava o inconveniente de obstruir o curso da alavanca de manejo desta, por ocasião dos disparos, ocasionando interrupções indesejáveis na cadência de tiro. A solução adotada foi a adaptação de uma pequena barra de aço soldada no reparo a fim de fazer com que a alavanca de manejo pudesse se posicionar em plano mais elevado ao do berço do reparo. Outro problema era a incapacidade de executar disparos com a metralhadora de dentro da viatura.
Os maiores obstáculos à movimentação dos blindados eram os fossos escavados nas ruas, com o propósito de restringir a mobilidade das forças de segurança. Além disso, as verdadeiras montanhas de lixo e as carcaças de veículos carbonizados, também ofereciam sérias restrições ao movimento, além de provocar constantes avarias nos pneus, tornando-se sério problema logístico para nossa tropa.

4.4 EXECUÇÃO – PATRULHAMENTO A PÉ
Quando desembarcados, os fuzileiros realizavam o patrulhamento a pé, sempre apoiados pela sua respectiva VBTP dotada de metralhadora 7,62mm MAG. O itinerário destas patrulhas era curto e englobava, prioritariamente, os becos e vielas inacessíveis aos blindados. Ainda com o intuito de apoiar as frações que se deslocavam no interior da zona de ação, ocupávamos postos de observação ao longo de tais itinerários. Dessa forma, conseguíamos ampliar nosso campo de visão, bem como obter comandamento, evitando disparos vindos do alto das lajes adjacentes.
No interior da favela, a maior dificuldade era manter a comunicação visual entre as frações. Tal situação era agravada pelo fato da descentralização chegar, algumas vezes, ao escalão esquadra.

Isto se devia à escassez de espaço dentro da zona de ação, tornando ineficiente, e até perigoso, o emprego de efetivos maiores que o GC em uma mesma via de acesso.
O armamento também não se mostrava muito funcional, uma vez que apesar de estarmos armados de PÁRA-FAL, este, ainda assim, era longo demais, enroscando nas paredes e muros e exigindo o emprego de ambas as mãos para a execução do tiro. Ressalte-se que as distâncias de engajamento neste ambiente operacional variavam de 6 a 15 metros.
Embora houvesse dificuldades e riscos, o patrulhamento a pé se constituía em excelente
complemento ao patrulhamento mecanizado, pois projetava a tropa no interior da zona de ação, dificultando o homizio de forças adversas e restringindo-lhes o movimento.

Em suma, pode-se afirmar que os blindados transportavam a tropa com segurança e ampliava-lhe a capacidade de concentração e dispersão em curto espaço de tempo. Favoreciam o seu emprego no local e na hora em que fosse mais adequado ao cumprimento da missão; enquanto o deslocamento a pé aumentava a visibilidade de nossos soldados, contribuindo para o aumento da sensação de segurança na população haitiana.
5. ENGAJAMENTO COM FORÇAS ADVERSAS
Na esmagadora maioria das vezes, o engajamento com as forças adversas ocorria em situações inopinadas. Nestas ocasiões, era muito difícil precisar de onde os disparos partiam e levava-se algum tempo até conseguir definir esta suposta direção. Uma vez localizada a ameaça, adotávamos Técnicas de Ação Imediata (TAI) ofensivas. Definíamos uma área de vasculhamento e enquanto uma fração cercava os acessos a esta área, outra realizava o investimento. Os efetivos empregados variavam de acordo com a disponibilidade de tropa no local (tais situações passavam-se de forma muito rápida), com o tamanho da área e o efetivo aproximado das forças adversas. Como referência, geralmente, utilizávamos um ou dois pelotões no cerco, um pelotão no investimento e outro como reserva móvel, prosseguindo no patrulhamento e vigilância de outras áreas que poderiam ser utilizadas como azimute de fuga pelos meliantes.
A maior dificuldade do comandante de subunidade era a de filtrar as diversas informações enviadas pelos pelotões, entender a situação, montar um quadro mental do que estava o correndo, definir sua intenção e traduzí-la em um comando simples, objetivo e exeqüível. As ordens eram transmitidas pelo rádio, através de ordens fragmentárias, pelo modelo preconizado pelo Centro de Instrução de Blindados. A correta emissão destes comandos era de vital importância para o êxito da operação.
Outra séria dificuldade, era a de controlar o regime de fogos das frações. A tendência do soldado é a de atirar para se proteger, mesmo não tendo identificado alvos compensadores. Na tentativa de resolver este problema, os comandantes de pelotão e GC trabalhavam o psicológico de seus homens, tentando incutir-lhes confiança e a preocupação com a economia de munição, bem como a importância de se evitar efeitos colaterais indesejáveis para o êxito da missão de paz. Além disso, os Cmt GC designavam, através de comandos verbais, os elementos que deveriam engajar os alvos, utilizando- se da técnica prevista no manual de instrução individual básica: “observe meu tiro !”.
A instrução individual básica tem apresentado oportunidades de melhoria, principalmente no tocante à designação de alvos e objetivos, bem como no excesso de exposição de oficiais e sargentos durante os engajamentos.
Um aspecto de suma importância era a evacuação de feridos. A maior parte de nossos ferimentos foi oriunda de estilhaços de projetis dirigidos contra a torre dos Urutus, vindo a atingir nossos militares nos braços e região da face próxima dos olhos. Nestas oportunidades, os primeiros socorros eram prestados pelos companheiros ou atendentes dos pelotões. Em seguida, os feridos eram evacuados pelo médico, ou nas próprias VBTP, para o hospital de campanha da ONU (Argentino). Esta instalação de saúde possuía capacidade para operar apenas um militar por vez.
O ideal seria que os atendentes de pelotão tivessem conhecimentos de pára-médicos.
6. CONCLUSÃO
A missão de estabilização das Nações Unidas para o Haiti tem sido uma excelente oportunidade de ades tramento para nossas frações blindadas. Verdadeira escola de comando das pequenas frações, onde os tenentes e sargentos estão podendo exercitar sua liderança e conhecimento tático.
No Haiti, a tropa blindada vem mostrando seu valor e demonstrando a importância do judicioso emprego de blindados, mesmo em ambiente operacional urbano ou em missão de paz. Seria extremamente desejável que as preciosas lições colhidas em solo haitiano não se apaguem e possam servir para melhorar os padrões operacionais das pequenas frações blindadas e mecanizadas do Exército Brasileiro.
NOTA DO BLOG: Artigo publicado na Revista Ação de Choque do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires, com o título original de “O EMPREGO DO ESQUADRÃO DE FUZILEIROS MECANIZADO EM OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ NO HAITI”.
Comentários recentes