Seminário do Clube Militar “Brasil, ameaças à sua soberania”
O Clube Militar não deixou por menos: jogou o peso das suas tradições como co-partícipe da História, em clima de Aproveitamento do Êxito, após a oportuna intervenção do Gen Ex Augusto Heleno Ribeiro, em um programa de televisão, quando foi entrevistado sobre o tema “Amazônia/reservas indígenas”. O General está à frente do Comando Militar de uma área do território nacional, rica por sua biodiversidade e muito ambicionada por esse motivo, pela sua localização geoestratégica e por inúmeras outras razões, como a riqueza mineral de seu subsolo e a existência, naquela região, de 1/5 da água doce do Planeta.
A crise gerada pela demarcação e pela homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, com a ameaça da retirada de outros tantos brasileiros não-índios, produtores rurais, lá enraizados – uns há mais de cem anos, outros, desde a criação do Projeto Rondon e da implementação do Campus Avançado do Projeto, em Boa Vista, no final da década de 60, miscigenados de vários matizes, inclusive com os próprios silvícolas – precipitou os acontecimentos. O Governo interveio “pesado” e sem avaliar as conseqüências da sua decisão, empregando a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança.
As repercussões da lúcida entrevista e da empolgante palestra do Gen Heleno, observada, inclusive, nas advertências públicas de elementos do Governo contrários às manifestações do ilustre e devotado Comandante Militar da Amazônia, aguçaram o sentimento de brasilidade que se encontrava adormecido no povo.
A iniciativa do Clube Militar, ao realizar o Seminário “Brasil, ameaças à sua soberania”, com assuntos de fundamental importância, aberto com o tema “Defesa da Amazônia”, no dia 16 de abril de 2008, manteve o ribombar da questão, quiçá tenha acrescentado argumentos a serem considerados pelo STF **, para sustar, definitivamente, como se espera, a retirada absurda dos não-índios da área, que se tornou conturbada pela violência do Decreto do Governo Federal. Nossas fronteiras pertencem a todos os nacionais – brancos, negros e índios – que são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (artigo 5º da Constituição de 1988). É, pois, erro palmar realizar a extrusão dos não-índios, num ato de verdadeiro segregacionismo de nossa gente, em vez de demarcar a imensa reserva em ilhas, o que permite a comunhão e a integração dos brasileiros.
A imprensa presente, compreendendo a relevância da problemática amazônica, contribuiu com a divulgação do evento de forma elogiável, reforçada pelas entrevistas pessoais e pelos desdobramentos em diversos programas de televisão, com a participação de outros especialistas do assunto, além de promover um amplo debate no meio político, particularmente na Câmara e no Senado. Tudo isso levou o Governo central, que defende a irracional manutenção da reserva em área contínua, a aguardar a decisão do STF.
Sabe-se que, em passado recente, o Exército brasileiro teve problemas para inaugurar o 6º Pelotão Especial de Fronteira, em Uiramutã, dentro da área Raposa Serra do Sol, enfrentando ação judicial interposta por algumas comunidades indígenas favoráveis à reserva em área contínua. Ousaram declarar: “Não há supremacia da soberania nacional sobre os direitos indígenas” (Conselho Indígena de Roraima – CIR – 02 de maio de 2002).
O entusiasmo dos presentes naquela tarde histórica no Clube Militar foi contagiante. Revivemos a chama que iluminou, em tantos momentos marcantes, os inolvidáveis acontecimentos vividos pelo Clube em defesa dos princípios democráticos e dos interesses nacionais. O vibrante canto do Hino Nacional fortaleceu os corações de civis e da gente fardada ali irmanados e bem marcou aquela lide relevante para a consecução dos nossos ONP, em particular, da soberania e da paz social.
O primeiro palestrante foi o Gen Heleno, que tratou do assunto do momento, as ameaças à soberania da Amazônia, em face da desastrada política indigenista que está engessando a administração, particularmente de Roraima, com quase 50% do seu território comprometidos com terras indígenas que, somadas às áreas de preservação ambiental e corredores ecológicos, reduzem drasticamente o espaço para as atividades governamentais daquele Estado – uma verdadeira mutilação, com a extinção de várias vilas centenárias ali existentes, como a de Surumu e tantas outras. O General foi enfático ao asseverar que “A política indigenista está dissociada da História brasileira e tem de ser revista urgentemente. Não sou contra os órgãos do setor, quero associar-me a eles para rever uma política que não deu certo; é só ir lá para ver que se trata de uma política lamentável, para não dizer caótica”.
O problema é extremamente sério, e todos sabem que chegamos ao excessivo patamar de 15% do território nacional comprometido com reservas indígenas, concentradas, principalmente, na fronteira amazônica, por orientação vinda do exterior e absorvida, com o máximo fervor, pelo abjeto Governo que aí está.
As reservas indígenas na Amazônia, sobretudo as do Estado de Roraima, foram demarcadas e homologadas por diplomas manifestamente inconstitucionais, pelo grave fato, dentre outros, de o Congresso Nacional não se ter pronunciado, nem as Assembléias Legislativas dos estados atingidos por desmembramentos terem sido ouvidas, com flagrante lesão às regras do Art. 48, incisos V e VI da nossa Carta Magna.
A seguir, falou o Gen Bda Mário de Paula Madureira, atual Chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Leste, que comandou a 1ª Brigada de Infantaria de Selva. Discorreu sobre a articulação daquele importante Comando na área considerada, alertando sobre a possibilidade de recrudescimento do conflito.
Ao responder uma pergunta do segundo autor deste artigo, nos debates, sobre a ameaça que poderia representar a criação de um Território Federal Indígena, como previsto no Estatuto do Índio, o Gen Madureira lembrou do que hoje ocorre com o Kosovo, considerado um território independente, uma outra nação. Completou com a assertiva: “Um grupo de indígenas pode solicitar a separação política do Estado”.
No Art. 30 do Estatuto do Índio, o referido Território é definido como “a unidade administrativa subordinada à União, instituída em região na qual pelo menos um terço da população seja formado por índios”. Saliente-se, por oportuno, o enorme perigo que tal tipo de organização representa para o País.
Durante o Seminário, fez uso da palavra o índio Dr. Jonas Marcolino, que preside a Sociedade de Defesa dos Índios do Norte de Roraima (SODIUR). Asseverou ele que a maioria dos indígenas da localidade não quer a homologação contínua, porque a demarcação nuclearizada contribui para que todos os brasileiros que lá estão tenham seus direitos respeitados e, mais, o índio, em sua quase totalidade, não quer o isolamento, não deseja viver primitivamente, e, sim, ter acesso ao estudo, ao trabalho, com qualidade de vida comparável à dos demais cidadãos do mundo civilizado.
Em 17 de abril, segundo dia do Seminário, a programação incluía: “Entraves ao Desenvolvimento” com as ilustres participações do Embaixador José Botafogo Gonçalves e dos professores Ives Gandra Martins e José Walter Bautista Vidal.
O preclaro Jurista Ives Gandra Martins fez uma análise da Constituição com o profundo conhecimento e a autoridade que possui, afiançando que o texto que trata dos direitos indígenas não foi lido com correção no caso da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol. Lá, está escrito (Art. 231, caput) “terras que tradicionalmente ocupam” no momento em que a Constituição foi promulgada, ou seja, no ano de 1988, e não a que os índios ocuparam em outros tempos. Assim, o índio foi transformado num cidadão extremamente privilegiado, chamando a atenção para a influência de organizações não-governamentais, integradas a movimentos externos, interessados na criação de grandes enclaves nas nossas faixas de fronteira para escasso número de indígenas.
Releva citar que a Polícia Federal, deslocada para Roraima pela radical posição do Governo federal, obedece, cegamente, ao Ministério da Justiça e aos desmandos de seu atual e histriônico Ministro, o que é extremamente danoso ao clima de paz a que almejamos.
Dentre os principais arquitetos dessa equivocada e perniciosa política indigenista estão a FUNAI, o CIR e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), que sempre atuam na contramão dos verdadeiros interesses nacionais.
No último dia, assistiu-se ao desenrolar do tema “Poder Dissuasório das Forças Armadas”, com as importantes participações do Almirante-de-Esquadra Marcos Martins Torres e dos Professores Expedito Carlos Stephani Bastos e Jairo Cândido. Os dois eméritos mestres apresentaram, com extrema propriedade, a extraordinária fase vivida pela indústria de material de interesse militar, que atraiu a Universidade e a FIESP a participarem intensamente do processo que chegou a impressionar outros países pela sua efetiva evolução, com integral apoio do meio militar, na década de 70 e no limiar da de 80.
Hoje, lamentavelmente, estamos aquém do que seria admissível como poder dissuasório, considerando a grandiosidade do Estado brasileiro, a extensão continental do seu território, as dimensões das fronteiras terrestres e marítimas, a plataforma continental, os vazios demográficos, as vias fluviais de penetração na área amazônica e, principalmente, a corrida armamentista que põe em risco a segurança do País, sobretudo na fronteira norte.
Nesta abordagem, pretendemos, fundamentalmente, destacar a oportunidade, a importância e a imensa repercussão do Seminário na sociedade brasileira, contribuindo decisivamente, para o engajamento e o interesse de parcela ponderável de nosso povo nos temas amazônicos.
O vitorioso Seminário enfocou, perfeitamente, as ameaças que envolvem a Amazônia, bem como a nociva política indigenista, mormente a do atual e insensível Governo, calcada no racismo, gerando conflitos permanentes entre os brasileiros. Analisou a soberania, o crescimento socioeconômico e a crítica situação das Forças Armadas para cumprir a sua missão constitucional, covalidando a dualidade do lema “segurança e desenvolvimento”, que, em síntese, se encontra expresso na Bandeira Nacional: “Ordem e Progresso”.
General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva – Coordenador de Projetos de História Oral do Exército, membro do CEBRES e da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.
Coronel Ernesto Caruso – Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil.
FONTE: Revista do Clube Militar, Julho de 2008
Agradecimento: Agradecemos a colaboração de nosso usuário Mario.
** O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou e decidiu em 19 de Março de 2009 a questão sobre a terra indígena Raposa Serra do Sol.
Nota do ForTe: Este artigo, apesar de ter sido publicado há pouco mais de dois anos, seu conteúdo continua sendo relevante e pertence aos diversos assuntos que envolvem as discussões sobre a Amazônia, cujo tema, de constante interesse do ForTe, bem como de toda a sociedade brasileira, foi posto, novamente, em evidência, ao publicarmos a entrevista do General-de-Exército Heleno, concedida ao Clube Militar e faz parte de uma série de matérias a serem divulgadas em momento oportuno.














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