Exército e governo federal não gostaram da postura, que, para governador baiano, enfraqueceu negociações

 

Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – O general Marco Edson Gonçalves Dias, da 6ª região militar, foi afastado das funções que exercia de comando das operações em Salvador, onde os policiais militares estão em greve desde a ultima terça-feira. Nesta quarta-feira mesmo, o comandante da Força, general Enzo Martins Peri, determinou ao comandante militar do Nordeste, general Odilson Sampaio Benzi, que seguisse para a capital baiana e assumisse o comando da tropa local.

A postura do general G. Dias, que foi chefe da segurança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desagradou não só o Exército, como o Palácio do Planalto. A presidente Dilma Rousseff durante o dia não escondeu a sua “indignação” com o episódio. Chegou a comentar que considerou “inaceitável” a postura do general G. Dias de “apagar velinhas”, mesmo sendo seu aniversário, passando a ideia de que estava confraternizando com os manifestantes.

“Isto é inadmissível”, desabafou, acrescentando que “não esperava isso dele. Dilma relatou ainda que o governador Jacques Wagner, telefonou para ela, na noite de terça-feira, se queixando do comportamento do general e ressaltando que este fato “atrapalhava as negociações” com os grevistas.

Em conversas com o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, o governador baiano, de quem G. Dias é amigo, reconheceu que o general “extrapolou” e enfraqueceu as negociações, que acabaram se arrastando por mais tempo, quando se esperava que elas fossem concluídas, no máximo até hoje.

No Exército, o gesto de G. Dias de dizer que ele estava na manifestação presente “sem colete a prova de balas”, na avaliação de militares, causou um tremendo mal estar porque ele parecia mais aliado dos grevistas, considerados fora da lei pelos oficiais das Forças Armadas, do que da população que precisa de proteção.

Militares comentaram ainda que o general enfraqueceu a capacidade de negociação do governo porque deixou claro para os líderes do movimento que não ia haver confronto com eles.

“A postura dele foi fora do contexto e sem consultar ninguém”, disse um dos oficiais consultados pelo Estado, “Ele apareceu defendendo o grupo que esta transgredindo a lei e sendo combatido. Com isso, passou uma mensagem negativa, equivocada e foi péssimo para a Força”, comentou outro militar.

Esta postura, na avaliação de militares, atrapalha até mesmo futuras operações de garantia da lei e da ordem, conhecida pela sigla GLO, dando demonstração de que o Exército não vai invadir uma assembleia tomada por PMs grevistas, enfraquecendo o poder de dissuasão da força.

Diante do ocorrido, o comandante do Exército, general Enzo, que está como ministro Interino da Defesa, telefonou para o general Benzi, superior hierárquico de G. Dias, e comandante do Nordeste, e determinou que seguisse para Salvador, para comandar a operação.

O general G. Dias, na mesma terça-feira, reconheceu que ultrapassara os limites e telefonou para o governador Jacques Wagner para se desculpar.

FONTE: Estadão

Roll Controlled Guided Mortar

A General Dynamics e a BAE Systems se uniram para desenvolver um projétil guiado de morteiro de 81 mm chamado Roll Controlled Guided Mortar (RCGM). Os testes devem iniciar ainda este ano. O projétil será baseado no projétil L41 britânico com a espoleta M734A1 americana, junto com um kit de guiamento por GPS e com a tecnologia Roll Controlled Fixed Canard (RCFC) da General Dynamics. As empresas estimam que a quantidade de munição necessária em uma missão típica pode diminuir em 30% e assim diminuir a demanda logística.

O US Army está interessado na versão de 120mm do programa Accelerated Precision Mortar Initiative (APMI) vendida por US$ 7 mil cada. A munição guiada M982 Excalibur de 155mm custa US$ 100 mil cada.

 

A MAG de 86 mil dólares

O US Army comprou 900 metralhadoras M240L por US$ 77,4 milhões. Cada uma saiu por 86 mil dólares. A única novidade na nova arma é o cano de titânio que diminuiu o peso de 10kg para 7,6kg. A compra foi baseada no preço máximo permitido no contrato e não no número de armas a serem compradas. O valor real gira em torno de 10% do contrato.

 

Projétil guiado da Sandia

A Sandia Labs está desenvolvendo uma projétil guiado a laser no calibre 12,7mm. O projétil é tem um sensor no nariz que detecta o laser emitido por um designador laser. Barbatanas laterais são usadas para corrigir o curso e para estabilização. O alcance é estimado em 2 km. O projétil deve ser disparado de uma metralhadora M2HB-QCB (Quick Change Barrel) com um cano sem raiamento.

Observação. Falta saber se o custo-benefício de um projétil bem mais caro que um projétil comum junto com uma mira sofisticada irá compensar os possíveis benefícios para conseguir um acerto com apenas um tiro. O mais provável é que só compense contra alvos a distâncias muito longas.

 

Prestes a se tornar potência global, Brasil não poderá mais ser amigo de todos, diz jornal

 

O jornal britânico Financial Times afirma em sua edição desta quarta-feira (8) que, prestes a se tornar potência global, o Brasil não poderá mais “ser amigo de todos”, especialmente como no período da Guerra Fria, no qual o país teria assumido uma postura neutra, segundo a publicação.

O jornal dedica meia página a um texto sobre a blogueira cubana Yoani Sánchez, a quem chama de principal voz da oposição ao regime castrista, e comenta o papel do Brasil na recente tentativa da autora do blog Generation Y de deixar a ilha para uma visita ao Brasil.

Escrevendo de São Paulo, o colunista Joe Leahy usa o episódio para comparar a política externa do governo Dilma Rousseff em relação a seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Sob o título “Política externa do Brasil não pode ficar para sempre em cima do muro”, Leahy lembra que, ao ser cobrada por ativistas cubanos para que se manifestasse sobre Direitos Humanos em Cuba, em sua primeira visita como presidente ao país, Dilma Roussef preferiu “apontar o dedo para os Estados Unidos”. Na época, Dilma afirmou que todos os países têm telhado de vidro no tema direitos humanos e citou a Base de Guantánamo, que causa constrangimentos ao governo americano.

Postura ambivalente

O colunista também destaca que o governo brasileiro concedeu visto à blogueira, embora Cuba tenha vetado sua saída para o lançamento de um filme no Brasil. Dilma, diz Leahy, “fez o que podia”, considerados os laços históricos de seu partido, o PT, com o regime cubano.

O colunista do FT afirma, porém, que a recente “postura ambivalente” em relação a Cuba não significa continuidade do estilo de Lula, que, segundo ele, despertou a ira de Washington em casos como o da tentativa de Brasil e Turquia de convencerem o Irã a evitar retaliações das grandes potências e provar os fins pacíficos de sua política de enriquecimento de urânio. Leahy diz que Dilma pode surpreender quem a observar mais atentamente.

“Ao contrário (de Lula), Rousseff adotou uma postura mais pró-ativa”, afirma, antes de citar a condenação do governo brasileiro à sentença de morte por apedrejamento de uma mulher no Irã e ao voto do Brasil na ONU favorável à investigação do tema Direitos Humanos no país asiático. A mudança, diz o colunista, foi notada em Teerã, o que fez o presidente Mahmmoud Ahmadinejad evitar o Brasil em seu recente giro pela América do Sul.

O colunista do Financial Times afirma que, na medida em que o Brasil se posiciona como potência global, os diplomatas do país terão que ser “mais assertivos sobre o que apóiam”. E conclui: “Se o Brasil está prestes a se tornar potência global, não poderá mais ser amigo de todos”.

FONTE: BBC Brasil, via R7

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Apesar das promessas do presidente Bashar al Assad, o regime sírio não dá trégua em seus bombardeios sobre a cidade de Homs, bastião opositor onde nesta quarta-feira morreram 50 pessoas, entre elas 18 bebês em um hospital, segundo a oposição.

Esta cidade situada no centro da Síria é alvo de disparos de morteiro e obuses efetuados por veículos de combate do Exército desde sexta-feira passada, quando, segundo os opositores, sofreu o pior massacre desde o começo da revolta contra Assad.

Esta escalada da violência motivou hoje a reação da alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, que denunciou que a Síria vive uma onda de terror com o contínuo ataque a Homs e o uso de artilharia pesada contra a população civil.

Homs se transformou em um dos maiores focos de oposição ao regime e local de refúgio de um grande número de soldados desertores, o que se traduziu em uma sangrenta ofensiva militar contra a cidade que causou mais de duas mil mortes desde março do ano passado.

Neste novo dia de bombardeios, a Comissão Geral da Revolução Síria denunciou a morte nesta cidade de pelo menos 50 pessoas. Entre as vítimas, 18 recém-nascidos morreram em um hospital quando suas incubadoras pararam de funcionar devido ao corte da provisão elétrica, disse à Agência Efe uma opositora.

A ativista acrescentou que os “shabiha” (pistoleiros do regime) assassinaram a sangue frio três famílias de Homs que tentavam escapar dos bombardeios no bairro de Al Sabil.
A oposição denunciou o crítico estado dos hospitais e a escassez de remédios, o que, junto aos bombardeios, está minando as forças dos habitantes de alguns bairros da cidade.

O membro da Executiva do Conselho Nacional Sírio (CNS) Ahmed Ramadán afirmou à Efe que “o regime bombardeia centros médicos, hospitais de campanha e instalações elétricas, e corta a provisão dos hospitais”.
No entanto, o Ministério da Saúde sírio negou as informações sobre a morte dos bebês e assegurou que os hospitais de Homs funcionam normalmente e não há escassez de material sanitário, segundo informou a agência oficial de notícias “Sana”.

Em relação à situação no resto do país, Ramadán assinalou que as forças do regime bombardeiam, além da maioria dos bairros de Homs, a localidade de Zabadani, nos arredores de Damasco, Al Zawiyah, na província setentrional de Idleb, e os arredores da cidade meridional de Deraa.

“O Exército Livre está fazendo tudo possível para defender os civis, mas o regime não entra em combates terrestres, prefere bombardear de longe com metralhadoras e tanques”, acrescentou o membro da Executiva do CNS.
A persistência da violência acontece apesar de ontem o ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, que se reuniu em Damasco com Assad, ter garantido que “o presidente sírio está totalmente comprometido com o fim da violência, independentemente de onde venha”.

O regime sírio, por sua parte, voltou hoje a acusar “grupos terroristas” de desestabilizar o país e perpetrar atentados que registraram um número indeterminado de mortos e feridos, tanto de civis como de soldados.
Entre estes atos, a televisão estatal síria mencionou a explosão de um carro-bomba no bairro de Al Bayada de Homs e o lançamento de foguetes contra a refinaria de Masfa, o que provocou o incêndio dos armazéns.
Estes mesmos “grupos terroristas” detonaram artefatos explosivos em Baba Amro e atacaram um acampamento militar em Idleb.

As posições do regime e dos opositores parecem irreconciliáveis, após meses de violência que empurram o país em direção a uma guerra civil perante o bloqueio nas decisões da comunidade internacional.

FONTE: Terra/Efe

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Brasília – A base para uma sociedade pautada em valores essenciais para o desenvolvimento humano e social está em uma educação de qualidade. E as Forças Armadas têm assumido um papel fundamental nessa jornada.

A partir do século XIX, após a chegada de D. João VI, com toda a sua Corte, ao Brasil, o Sistema de Ensino brasileiro avançou sobremaneira, principalmente na área militar, que tem sido sinônimo de excelência desde a Academia Real Militar, fundada em 1810. O ensino militar, mais que instrução de caráter puramente militar, preocupa-se com todos os campos do conhecimento, buscando dar ao futuro oficial ou praça e alunos de colégio militar uma bagagem cognitiva.

E esse é o contexto que marca o Magistério do Exército, cujo dia é um tributo ao nascimento do ilustríssimo Marechal Trompowski, ocorrido em 8 de fevereiro de 1853. Esse histórico personagem, o mais digno representante dessa lide profissional, é um exemplo de educador e de cidadão, desde a mais tenra idade, quando já se destacava nos estudos, demonstrando sólido preparo intelectual e cultural, além de uma ávida vocação para o Magistério.

Roberto Trompowsky Leitão de Almeida nasceu na cidade de Desterro, Santa Catarina (atual cidade de Florianópolis), e ingressou no Exército em 29 de dezembro de 1869, aos 16 anos de idade, como praça do 1º Batalhão de Artilharia a Pé no Rio de Janeiro, de onde saiu para cursar a Escola Militar também no Rio de Janeiro. Sua aptidão para o Magistério começou a despontar logo após a conclusão de sua formação como oficial.

Sua carreira sempre esteve voltada para a atividade de ensino-aprendizagem. Depois de ser promovido a Primeiro Tenente, em 1876, habilitou-se em Ciências Físicas e Matemáticas, passando a dominar também essa área de conhecimento. Permaneceu na Escola Militar da Praia Vermelha para exercer a cátedra de Geometria e Cálculo. No posto de Capitão, foi professor-assistente de Geometria Analítica e Cálculo do então aluno Benjamin Constant. Nomeado professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, tornou-se um dos mais brilhantes docentes desse Estabelecimento de Ensino. No posto de Tenente-Coronel, comandou o Colégio Militar do Rio de Janeiro, demonstrando pendor, também, para a administração escolar.

Sábio professor, reconhecido internacionalmente por seus talentos, ocuparia, já no posto de Coronel, o alto cargo de comandante da Escola Militar da Praia Vermelha, função que desempenhou com elevada destreza. Após o que, afastou-se temporariamente das lides educacionais, recebendo, como incumbência, a Aditância Militar junto à Grã-Bretanha, Suíça e Itália. Pouco depois, ainda no exterior, recebeu a missão de delegado técnico, assessorando o insigne Rui Barbosa, em Haia, na Conferência Internacional da Paz.

Trompowski ascendeu ao generalato e desempenhou a função de Comandante da 3ª Brigada de Artilharia (Cruz Alta/RS) e da 2ª Brigada de Cavalaria (Alegrete/RS).

Em 8 de fevereiro de 1919, aos 66 anos, foi reformado compulsoriamente no posto máximo da hierarquia militar – Marechal – após 50 anos de destacados serviços prestados à Nação e com a certeza do dever cumprido.

O Marechal Trompowski foi reconhecido como um dos maiores matemáticos de sua época. Exímio exemplo de dedicação e empenho, principalmente no que concerne à docência, à pesquisa e à modernização dos estabelecimentos de ensino militares. Veio a falecer em 2 de agosto de 1926, aos 73 anos de idade, deixando suas obras dispersas em diversos países, tanto aqui na América, quanto na Europa.

Além de Patrono do Magistério do Exército, título atribuído pelo Decreto nº 51.249, de 13 de março de 1962, Trompowski foi, ainda, Patrono da Associação de Professores Militares do País. Em reconhecimento por seu destaque na vida profissional e pessoal, dentro e fora do País, seu nome designa diversas ruas e estabelecimentos de ensino pelo Brasil. Em sua homenagem, o Exército Brasileiro criou a medalha Marechal Trompowski, destinada a cidadãos ou instituições que mereçam destaque por relevantes contribuições ao ensino militar.

Aos integrantes do Magistério do Exército, nossos cumprimentos pela passagem de seu dia. Que o exemplo de seu patrono sirva de inspiração para o exercício de tão devotada e importante missão!

FONTE: EB

CITEx recebe Comandante do Exército

Brasília – No dia 6 de fevereiro, o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx) recebeu a visita do Comandante do Exército, General de Exército Enzo Martins Peri, acompanhado do Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia, General de Exército Sinclair James Mayer.

Na ocasião, o Comandante da Força teve a oportunidade de visitar as instalações e conhecer as atividades do CITEx, bem como os serviços de tecnologia da informação prestados pelo Sistema de Telemática do Exército às Organizações Militares da Força Terrestre.

O CITEx é uma Organização Militar diretamente subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, com a missão de proporcionar a base física e lógica para a operação dos sistemas de Informática e Comunicações de interesse do Sistema de Comando e Controle do Exército.

FONTE: EB

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Por Daniel Santini

A venda de armas leves no Brasil cresceu significativamente no final da última década. O número de unidades vendidas passou de 469.097 em 2005, para 831.616 em 2010, incluindo um pico de 1.001.549 em 2009. Isso só no mercado interno, onde, em todo o período, foram comercializadas 4.339.846 unidades. Se consideradas as 4.482.874 peças exportadas, a quantidade total de armas leves vendidas pela indústria nacional nesses cinco anos chega a 8.822.720. Armas leves são aquelas que podem ser carregadas por uma pessoa, como revólveres, pistolas, rifles e fuzis.

Até serem divulgados na série de reportagens que produzi recentemente para a Agência Pública, da qual participaram também as repórteres Natalia Viana e Jessica Mota, os números sobre a produção nacional eram inéditos. Os dados sobre a produção e demais informações apresentadas no material foram obtidos por meio de entrevistas, leituras e contatos feitos como parte de uma pesquisa de dois anos no curso de pós-graduação com especialização em jornalismo internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tentar entender e acompanhar o setor é um desafio. Na busca por informações que deveriam ser públicas, sobram negativas, desinformação e falta de transparência.

É do governo federal a responsabilidade de fiscalizar, controlar e divulgar dados sobre a fabricação de armas, feita no Brasil por indústrias estatais e, principalmente, privadas. Questionados sobre a dimensão da produção das indústrias nacionais e sobre incentivos governamentais que têm sido decisivos para a expansão das linhas de montagem, os representantes do Ministério da Defesa responderam em nota que a pasta “não dispõe de elementos para responder a todas as questões” e sugeriram que a reportagem encaminhasse “as perguntas referentes à movimentação, produção, volume de vendas e receita da indústria de defesa às empresas do setor”, sugerindo que para “dados sistematizados sobre a indústria de defesa”, o melhor caminho seria procurar “a Fiesp [Federação das Indústrias de São Paulo], no Comdefesa [Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria de Defesa], que costuma consolidar dados desse mercado”.

As empresas

Entrevistado por mais de uma hora, Jairo Cândido, o presidente do Comdefesa, não deu pista alguma sobre o tamanho da produção – apesar de insistir na necessidade urgente de ampliação do financiamento público para as empresas, de isenções fiscais e de investimentos na compra da produção, tudo para garantir a “segurança nacional”. Frente à insistência em relação a dados mais sólidos para o embasamento da pesquisa acadêmica sobre o assunto, Cândido indicou o diretor-técnico da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde), Armando Lemos. Este, por sua vez, afirmou não existir um levantamento sobre a quantidade de armas fabricadas no país: “Ninguém sabe qual a dimensão da produção nacional. Buscamos incentivos fiscais para beneficiar os fabricantes, mas, sem números precisos, não dá nem para conversar com o Ministério da Fazenda. Não sabemos quanto é produzido, quantas pessoas trabalham no setor, quanto dinheiro é movimentado. Eu não sei, o [então] ministro [da Defesa Nelson] Jobim não sabe, ninguém sabe. As empresas relutam em repassar estes dados”

Os representantes das empresas também não se entusiasmaram em falar sobre a produção. A assessoria de imprensa da Taurus, maior fabricante e exportadora do país, informou, também por nota, que “nenhuma fabricante de armas divulga o seu volume de produção por questões de segurança. Por mais que essas companhias invistam em segurança, é difícil prever como uma informação dessas pode ser usada por pessoas com más intenções (tentativa de invasão às suas sedes, por exemplo)”. A empresa também não quis comentar as consequências da exportação de armas que as indústrias brasileiras fazem para alguns dos países mais pobres e instáveis do planeta. “Quanto às outras questões levantadas, por terem implicações políticas que não dizem respeito à Taurus, a Companhia não se pronuncia sob hipótese alguma [sic]”.

Nenhum dos empresários que controlam o setor quis dar entrevistas.

Desinformação

Não que seja fácil determinar quem manda na produção nacional de armas. Nem os principais estudiosos do assunto no Brasil sabem, por exemplo, quem são os donos da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), empresa que detém o monopólio da venda de munição no Brasil. No estudo “Armas Leves no Brasil: produção, comércio e proprietários”, os pesquisadores Pablo Dreyfuss, Benjamin Lessig e Julio Cesar Purcena conseguiram mapear que 70% das ações da CBC pertencem à DFV Participações, uma unidade da Cemisa, empresa controlada pela Charles Ltd., sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Outros 28% são da PCDI Participações, ligada à Brookmon Trading Corp., também com sede nas Ilhas Virgens. Não se sabe quem controla as duas empresas sediadas naquele paraíso fiscal.

De maneira nem sempre clara e direta, as indústrias mantêm uma rede bem articulada de representantes em diversas esferas legislativas, bem como na sociedade civil. O Movimento Viva Brasil (MVB), por exemplo, associação que costuma estar à frente de campanhas contra o desarmamento e pelo fim das restrições ao comércio de armas, tem ligações diretas com a CBC. Desde sua fundação, o MVB funcionou dentro do escritório de Marco Antonio Moura de Castro, um dos integrantes mais antigos do conselho de administração da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), líder nacional em venda de munição. Apesar do vínculo, o MVB é regularmente considerado pela imprensa como uma associação independente que representa proprietários e simpatizantes de armas, e não uma associação que defende interesses das indústrias.

Presidente do MVB, Benedito Barbosa, o “professor Benê”, nega que seja esse o caso e insiste na legitimidade e na independência do trabalho realizado pela entidade. Sobre a coincidência no endereço, ele afirmou, por e-mail, que desconhecia o fato de que Moura de Castro faz parte do conselho da CBC. “Conheci o Mike na época que ele era presidente do Safari Club do Brasil, nem sei se ele já era ou se ainda é conselheiro da CBC. Ele sempre foi atirador e colecionador de armas e esse mundo é bastante pequeno. Dificilmente alguém não conhece alguém. Quando decidi fundar o MVB ele me ofereceu um sala em seu escritório. Sai de lá devendo mais de 10 mil reais em alugueis, que ele, por amizade, jamais cobrou”.

Ouvido regularmente como fonte isenta, Benedito Barbosa tem se destacado por posições extremas na defesa do direito à posse de armas. Em 2008, em um fórum sobre o assunto na internet, ele deu a seguinte resposta a atiradores que ridicularizavam a cor rosa de uma pistola da CBC: “Tudo é uma questão de nicho de mercado. A pistola com certeza se destina ao público infanto-juvenil, aliás são estes que serão os atiradores de amanhã. Então, é realmente necessário que esse tipo de arma esteja disponível no mercado ou você daria uma x-ultra-multi-veloz e cara arma para o seu filho de oito anos atirar livremente? Aliás, até que enfim, a indústria nacional lembrou que existe mercado para novos atiradores”.

(Des)Controle

Na resposta ao questionamento inicial, o Ministério da Defesa garantiu monitorar a produção nacional, apesar de não informar a quantidade de armas produzida. “O Ministério da Defesa tem controle da produção, mas não sabe, a priori, o tamanho das encomendas feitas. O Ministério acompanha as produções entregues por meio do Comando do Exército (Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados – DFPC)”, afirmaram os assessores em nota, com o cuidado de ressaltar que “a título de esclarecimento, o Ministério da Defesa incentiva fortalecer a Indústria Nacional de Defesa, e não ‘ampliar a produção nacional de armas’”.

A Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército é um setor em que público e privado costumam se confundir e também não é famosa por ser transparente. O caso mais emblemático é o do general Antônio Roberto Nogueira Terra, que durante seis anos foi o responsável por fiscalizar as empresas e, após esse período, trocou o uniforme por um cargo de consultor especial da Sulbras Consultoria e Assessoria Ltda, escritório de representação da Taurus em Brasília que pertence a Renato Conill, vice-presidente da empresa – mudança de emprego destacada em reportagem na revista IstoÉ, em 2004.

Mesmo com a negativa do Ministério da Defesa, a reportagem entrou em contato com o Exército para tentar ouvir os responsáveis por monitorar o setor. Nenhuma entrevista foi concedida. Após insistência, os representantes do órgão enviaram um levantamento parcial sobre a produção. Nem todas as informações solicitadas foram disponibilizadas. Não foi informado, por exemplo, a quantidade de armas exportadas ano a ano e nem os países aos quais foram enviadas as remessas. A reportagem indicou o departamento que detém tais informações, mas, mesmo assim, nenhum dado foi enviado. Desde outubro de 2010, o Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados de Exportação de Produtos de Defesa (Sgeprode), organizado pela Divisão de Tecnologia da Informação (Divti) da Secretaria de Organização Institucional (Seori) do Ministério da Defesa, monitora as transferências. Após o anúncio oficial da criação do órgão, nenhuma outra informação sobre o sistema foi disponibilizada ao público.

Os dados apresentados ainda são poucos, mas ajudam a ter uma ideia sobre a dimensão e força política e estratégica da indústria de armas nacional. Não se trata de ser contra ou a favor de armas, de restrições ao comércio, da posse, uso ou desarmamento, mas de poder fazer um debate qualificado, com dados objetivos, que indiquem a posição e o papel que o Brasil tem exercido na produção e no comércio de armas – dentro das fronteiras e fora delas.

Os tempos mudaram no país e democracia implica a difusão de informações, debates e participação da sociedade até mesmo nas políticas que envolvem a segurança e a defesa do país.

***

[Daniel Santini é jornalista e editor da Agência de Notícias da ONG Repórter Brasil; mantém o Outras Vias, um blog sobre mobilidade urbana e bicicletas no portal de jornalismo ambiental ((o)) eco]

FONTE: www.observatoriodaimprensa.com.br

A Propósito de Liberdade

*José Celso de Macedo Soares
artigo de novembro 2003

Desde os primórdios da civilização, o ser humano sempre, lutou em favor de sua liberdade. O conceito de liberdade, na antigüidade, era muito restrito, pois todos os estados mantinham escravos: os derrotados, aprisionados, nas constantes pelejas que haviam entre os povos.

Mesmo os gregos, que foram o berço da civilização ocidental e os originários da democracia, mantinham escravos.Não eram, pois, uma democracia perfeita, pois a escravatura anulava todo conceito de liberdade. Muito menos os romanos pois os patrícios mantinham em suas casas e propriedades rurais, centenas de escravos,
Mas, o que é liberdade?

A questão da liberdade foi posta com clareza por Aristóteles, que depois de ter estabelecido, no seu Organon, a contingência de certos futuros , mostrou, na sua Ética a Nicômaco, que o mérito ou demérito podem ser atribuídos só a certos atos, que se é livre de executar ou não.
Mais tarde, Voltaire definia: A liberdade consiste em não se depender senão das leis.

Aqui entre nós, Rui Barbosa, em seu magnífico discurso sobre a liberdade, nos traz este belo e eloqüente trecho que tão bem se aplica aos dias de hoje: “Mas tu (liberdade) não és escada para o Poder: és, nas sociedades adiantadas, o elemento sagrado que o limita. Não te chamas dominação: chamas-te igualdade, tolerância, justiça. Não te entregas em monopólio a um predestinado, a uma religião, a uma parcialidade, a um sistema: existes uniformemente para todos, eliminadora do mal, fonte igual de luz, calor e prosperidade para o bem”.

Para nós, não existe melhor definição do que aquela contida na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789); “É o poder de fazer tudo o que não for nocivo a outrem; assim, o exercício dos direitos naturais de cada um não tem outros limites além de aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites só podem ser determinados pela lei”. E acrescenta: “A lei só tem direito de proibir as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é proibido por lei não pode ser impedido, e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordena”.

Com base nestes conceitos, seria interessante fazer um cotejo entre as liberdades existentes em diversos países e as vigentes no Brasil. Comecemos pela Inglaterra. É a pátria dos grandes documentos constitucionais. Já em 1215 (mais de sete séculos atrás), o Rei João Sem Terra era obrigado a outorgar aos barões e à burguesia a Magna Charta, base das liberdades inglesas. É interessante mostrar aos nossos leitores algumas de suas provisões: nenhuma contribuição podia ser lançada sem o consentimento do Conselho do Reino; a liberdade do comércio era garantida e foram tomadas medidas para assentar a justiça em bases mais perfeitas, para proteger a vida, a liberdade e a propriedade de cada um contra espoliações arbitrárias. Foi a Magna Charta, praticamente, a criadora do Parlamento moderno, quando investiu 25 barões de grande autoridade para fazerem respeitar a Carta, que era lida, solenemente, duas vezes por ano, em cada catedral do Reino.

Nela se estabelecia, definitivamente, a idéia de relações determinadas e escritas entre senhores e vassalos, entre os reis e os súditos. Outro documento importante é a Petição de Direitos, de 1628, imposta pelas Comunas a Carlos I, obrigando-o a reconhecer as liberdades nacionais. Tão arraigado o sentimento de liberdade entre ingleses que este Rei foi decapitado por desrespeitá-la. Vem em seguida um dos mais importantes instrumentos das liberdades individuais: o habeas-corpus, pelo qual ninguém pode ser preso sem culpa formada, instrumento este regulado pelos Habeas Corpus Act, imposto a Carlos II, em 1679. Segue-se a Declaração de Direitos, que Guilherme III, de Orange, teve que assinar em 1689, e que estipulava, entre outras coisas ,a reunião periódica do Parlamento, a votação do imposto e das leis, o direito de petição e a instituição do júri. Finalmente, o Act of Settlement, de 1701, que exigia o consentimento prévio do Parlamento para declarar guerra e, mais importante, impedia a destituição dos magistrados pelo rei.

Atentem os leitores para as datas de emissão destes documentos. O mais moderno tem mais de três séculos de existência. Estaria nesta época, a Inglaterra, livre de injustiças sociais? Teria sido eliminada a pobreza? Ao contrário, foi justamente o fortalecimento dos direitos dos cidadãos perante o arbítrio dos governantes que permitiu criar na Inglaterra uma sociedade próspera, democrática e, indubitavelmente, uma sociedade em que florescem, sem restrições, as liberdades essenciais ao ser humano.

Como conseqüência, os americanos, ao se tornarem independentes, em 1776, exigiram também, para si, os direitos tradicionais do povo inglês. São documentos mais que eloqüentes a Declaração de Direitos de Virgínia, de junho de 1776, a Declaração de Independência, de julho de 1776, e a Lei Federal de Direitos, de setembro 1789. Todos eles expressam de maneira clara e positiva as noções de liberdade legadas aos americanos pela gloriosa Albion. Cumpre notar também que, nesta época, os Estados Unidos eram, ainda, uma pequena e pobre nação.

Passemos agora à França. Apesar de latinos, não ficam os franceses atrás dos ingleses no seu amor tradicional à liberdade. Liberté, Egalité, Fraternité, foi o brado dos revolucionários de 1789. Aos constituintes franceses de 1789, devemos um dos mais belos documentos da humanidade, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, direitos estão qualificados “naturais, inalienáveis e sagrados”. Esta Declaração, que serviu de preâmbulo à Constituição de 1791, proclamava ao mundo o princípio de que os homens nascem e vivem iguais em direitos, não podendo as distinções sociais serem fundadas, senão sobre a utilidade comum e baseando os direitos do homem na liberdade, prosperidade, segurança e resistência à opressão. Todos os documentos e declarações franceses posteriores (1793 e 1843) sempre primaram pelo respeito às liberdades individuais, opondo-se aos Poderes absolutos.

Não se pode, pois, fazer uma análise das liberdades hoje vigentes nestes países, e mesmo em outras nações civilizadas do mundo ocidental, sem citar a origem e épocas em que elas foram adotadas. E, principalmente, para mostrar aos leitores que, ao contrário do que se diz, não é preciso primeiro erradicar a pobreza e as diferenças sociais para depois se chegar a um regime de liberdade, em outras palavras, à democracia. Ao contrário, repetimos, foi a adoção destes princípios que proporcionou e criou a base para que a justiça social se implantasse naqueles países e, mais do que isto, que o trabalho de todos fosse igualmente respeitado, para chegarem mais rapidamente ao progresso que hoje desfrutam.

É certo que não estamos mais na época de Montesquieu, mas seu O Espírito das Leis é tão atual hoje, quanto o foi na época de sua publicação, em 1748, se respeitarmos o sentido filosófico do seu pensamento.

Em resumo, encontramos na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos e na maioria das nações ocidentais, em pleno funcionamento, aquilo que Roosevelt chamou de as quatro liberdades: “A liberdade da palavra e da expressão, a liberdade do credo, a liberdade de estar ao abrigo das necessidades e a liberdade de viver ao abrigo do medo”. E é preciso não esquecer que foi para apoiar estes princípios que combatemos na Segunda Guerra Mundial contra a tirania do nazismo. Em suma, não há nestes países:

  • quaisquer restrições ao funcionamento do Parlamento;
  • censura ao meios de comunicação, aos livros e periódicos;
  • impedimento ao funcionamento da Justiça e à atuação dos magistrados.

Está, também neles, em pleno funcionamento, o instituto do habeas-corpus, e as pretensas ofensas aos funcionários do Governo não são rotulados como ofensas à segurança do Estado, porque, lá, governantes não são o Governo. Na França de hoje, L’État c’est moi é coisa do passado.

E no Brasil? Como anda o conceito de liberdade? Com a redemocratização do pais podemos dizer que, teoricamente, estão em funcionamento, todos os documentos por nos citados, e que foram conquistas das nações civilizadas. Dizemos “teoricamente” porque em pais com tamanha desigualdade de rendas , as leis não se aplicam igualmente a todos os cidadãos. E, principalmente quando se trata do tratamento do Estado em relação ao homem comum. Já dizia Hélio Beltrão : “Não basta assegurar a liberdade no plano puramente político, protegendo-se o cidadão contra a opressão do Estado. É preciso estende-la ao dia-a-dia do homem comum, onde a abertura significa protege-lo dos abusos da burocracia”. Começamos a discussão deste pensamento com as palavras do mestre Tristão de Athayde : “Somos um pais formado às avessas, que teve Coroa antes de ter povo; parlamentarismo antes de eleições; escolas superiores antes de alfabetização; bancos antes de ter economia”. Assim, “não é de estranhar-se que no Brasil a burocracia se tenha superposto à sociedade. Foi uma decorrência da própria.

No caso brasileiro, a colonização constituiu um empreendimento do Estado, atribuído pelo governo português a pessoa de sua confiança, com o objetivo declarado de consolidar a conquista do território e propiciar benefícios econômicos à Coroa. Nenhuma semelhança, portanto com o que ocorreu em outras plagas, onde foi uma parcela do próprio povo que emigrou espontaneamente, com intenção de se fixar em outro lugar, onde criou suas próprias instituições. Nesse caso, foi a própria Sociedade que instituiu a Autoridade. Aqui, foi a Autoridade que fundou e moldou a Sociedade.”(Beltrão-1984:34)

No Brasil até hoje nada mudou, muito ao contrário, complicou-se. O tratamento dispensado ao contribuinte, diariamente, chega a ser ofensivo. Não adianta apenas fazer a reforma tributária – absolutamente necessária – mas temos que abolir a interferência do Estado no dia-a-dia dos negócios. O poder público não tendo capacidade para exercer a fiscalização normal, exige certidões e mais certidões para realização de simples negócios. Fazemos nosso o pensamento de Hélio Beltrão que, “a mórbida presunção da desconfiança, constitui a marca registrada das leis, regulamentos e normas que regem a Administração Pública.

A desconfiança no usuário, no contribuinte, no empresário é responsável pela alta tonelada de certificados, atestados certidões e outros tipos de comprovação sistemática e formal. Tudo isto é exigido porque na Administração Pública, ao contrário do que ocorre na nossa vida particular, é proibido acreditar nas declarações das pessoas, embora se saiba que tais declarações são, em sua maioria verdadeiras, e não obstante a declaração falsa constitua crime expressamente previsto no Código Penal.

No Brasil em vez de se colocar o falsário na cadeia, obriga-se todas as pessoas a provar com documentos, que não são desonestas. Com isto, pune-se o honesto sem inibir o desonesto, que é especialista em falsificar documentos. Os atestados falsos são, em geral, os mais perfeitos. As prestações de contas fraudulentas também são, na aparência, as mais perfeitas. Não basta praticar a democracia e assegurar a liberdade política. A grande liberdade se constrói a partir de uma série de pequenas liberdades e da garantia de uma soma de pequenas coisas: O direito à credibilidade e à dignidade; o direito de não se ver empurrado de uma fila para outra, apenas para provar que não se está mentindo ou para receber um serviço ou um benefício legalmente devido; o direito de não ser oprimido pela burocracia.”( Beltrão -!980-1)

E vamos além. Sem uma justiça acessível ao homem comum, aplicada com razoável rapidez, não se pode falar em liberdade ou democracia. O pior julgamento é aquele que não acontece. Executivo, Legislativo, Judiciário. Esta divisão de poderes é a base de uma democracia moderna. Mas, o pilar fundamental, o ponto de equilíbrio para o bom funcionamento de todo sistema é, sem dúvida, o Judiciário. A quem deve o cidadão recorrer contra os abusos e violências do poder? A quem cabe interpretar as leis, dando-lhes direção correta, retirando-lhes as inconstitucionalidades? Esta enorme soma de responsabilidades cabe ao Poder Judiciário. O que é o Judiciário de uma nação democrata? Respondemos sem medo de errar: O Judiciário são os juizes. Talvez não exista ofício mais importante, com maiores responsabilidades, do que aquele de julgar. E quando o julgamento é sobre seres humanos, então a responsabilidade não tem limites. Assim, ousamos dizer que a qualidade, a independência, o respeito ao Judiciário pelos cidadãos de um país, mede-se pelas qualidades, pela independência e pelo acerto de seus juizes. Esta a pedra angular do bom funcionamento do Judiciário.

No momento em que os holofotes apontam para o Judiciário, nas discussões sobre sua reforma, é preciso que algumas considerações sejam feitas. É preciso notar que o juiz só pode e deve julgar de acordo com as leis, os códigos de processo, enfim, de acordo com o ordenamento que o legislador lhe ofereceu. Não cabe ao juiz elaborar leis. Cabe cumpri-las e interpretá-las. Os brasileiros, com razão, exasperam-se pela delonga dos processos, com o formalismo de nossa justiça. A respeito dessas formalidades, o ilustre Ministro Moreira Alves, do Supremo Tribunal Federal, comenta que “a forma de nossa escrituras públicas é, até hoje regida pelas Ordenações Filipinas. Inúmeros termos, compromissos e formalidades forenses constituem sobrevivência das Ordenações do Reino de Portugal. E a forma dos editais, precatórios e rogatórios, reflete a linguagem de D. João VI”.

O congestionamento do sistema judiciário é evidente. O Supremo Tribunal Federal – cúpula do sistema – recebe por ano cerca de 20 mil processos para exame e discussão. O advogado perde seu tempo com o cumprimento de meras exigências formais.

Além disto é difícil, afastar de certos juizes a empáfia e a arrogância, sua posição olímpica em relação à sociedade, cheios de si pelos “excelência”, “meritíssimo” e “máxima data vênia” que exigem no tratamento a eles dispensado. Também não conseguimos anular os laivos ideológicos que alguns trazem de sua formação, como vimos, recentemente, na pletora de liminares concernentes ao processo de privatização da economia. Causa, também, apreensão o jacobinismo de certos membros do Ministério Público. Estes jovens procuradores, em muitos casos lançam-se a um denuncismo vago, seguidos de sequiosa vontade de aparecer na mídia. Periga acabarem como Robespierre…
Grande exemplo nos vem do Estado do Pará, com a criação dos Juizados Especiais Itinerantes, em que o Juíz e sua equipe se deslocam até as longínquas localidades, para colocar a Justiça ao alcance dos cidadãos. É isto que o cidadão quer.

Que o Juíz não fique só discutindo com o processo. Que solucione os casos. O cidadão comum quer entrar na sala do Juíz, reclamar contra a injustiça sofrida e ver seu caso resolvido. Quer, como a lei manda, que o Juiz resida na comarca, e não que apareça lá de vez em quando… O que estamos vendo, e as recentes comissões de inquérito do Congresso mostram, é a necessidade de a sociedade ter algum controle sobre o Judiciário, mas que este controle jamais afete a independência dos juizes julgarem. Na Suécia, por exemplo, isto é facilmente resolvido, pois lá há o “Ombudsman”, ou Corregedor Geral, que embora não lhe caiba reformar sentenças judiciais, pode considerar faltoso um juíz e acioná-lo. Isto já aconteceu várias vezes.

Mas, acima de tudo, os juízes precisam também compreender que eles devem à sociedade prestação de contas de seus atos, de seu comportamento. Isto é o que se espera em uma nação em que o contribuinte é o poder mais alto.
Infelizmente, nas discussões que se estão travando, no Congresso, a respeito de mudanças no Judiciário, periga nada reformemos, tal o choque de interesses e corporativismo que estamos, tristemente, presenciando. Parece até que estamos ouvindo Lampedusa em seu O Leopardo: “Modificai, modificai, para que tudo fique como está”.

E, para terminar esta dissertação, a respeito das liberdades, da posição do indivíduo perante o Estado, gostaríamos de deixar à meditação de nossos leitores e dos que nos governam esta passagem magistral do grande Papa João XXIII em sua encíclica Pacem in Terris: “A pessoa humana como tal não só não pode ser considerada como mero objeto ou elemento passivo da vida social mas, muito pelo contrário, deve ser tida como sujeito, fundamento e fim da mesma”.

Bibliografia

BELTRÃO, Hélio, Burocracia e Desenvolvimento, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 jan. 1980. Caderno Especial
_______________, Descentralização e Liberdade. Ed. Record, 1984

José Celso Macedo de Soares foi almirante, empresário, escritor, faleceu no dia 29.1.2012.