Estados não foram consultados sobre piso salarial para policiais

 

Sob a ameaça de consecutivas greves de policiais militares, a Câmara dos Deputados sofre pressão para votar o piso nacional da categoria (PEC 300), sem sequer conhecer com rigor o limite de cada estado para reajustar o salário da tropa. A maioria dos governos estaduais ainda não foi consultada nem enviou ao Legislativo a contabilidade do impacto financeiro.

No fim de 2011, a União calculou um impacto de R$ 46 bilhões, dos quais R$ 12 bilhões seriam bancados por um fundo custeado pelo governo federal. O Palácio do Planalto ainda não propôs alternativa à guerra de números patrocinada por parlamentares, favoráveis à proposta, e governadores, que rejeitam com veemência a aprovação do piso.

A redação da lei complementar, que circula no Congresso e seria votada a reboque da Emenda Constitucional, propõe piso de R$ 3.500. Levantamento feito pelo GLOBO, no entanto, mostra que nenhum estado paga hoje esse valor, à exceção do Distrito Federal, que remunera a polícia com dinheiro da União.

A Comissão criada na Câmara para tratar da PEC 300 sustenta que já enviou três ofícios aos estados para que indiquem seu limite financeiro, porém apenas oito teriam apresentado seus os números. Já o Conselho Nacional de Secretários de Administração (Consad) acusa os deputados de terem votado a PEC 300, em primeiro turno, só com o objetivo de semear votos nas eleições de 2010.

Na semana passada, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), descartou a retomada da votação da emenda que estabelece o piso nacional de PMs e bombeiros. Segundo Maia, a Câmara não tem como regular salários pagos a servidores estaduais. Ele frisou que esse tema deve ser tratado pelos estados da Federação e não pelo Congresso.

- Ninguém discute que o policial é mal remunerado, porém essa situação radicalizou muito o debate. O risco (de insubordinação da tropa) se transformou em realidade. O caos já chegou. Mais do que fixar piso, chegamos ao limite para que o Congresso decida qual é o modelo de polícia que o país precisa, levando em conta a realidade de cada estado – afirma o secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima.
Autor da PEC 300, o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), presidente da comissão que discute a proposta, assegura que o impacto não chega à metade desse valor, e diz que só não pode apresentar um contraponto porque os estados fugiram ao debate.

- A alegação deles é mentirosa. Tanto é que apenas oito de 27 estados apresentaram o impacto financeiro. O piso acaba com o bico oficial e é isso que eles (secretários estaduais) não querem – diz o parlamentar.
Hoje, são contabilizadas distorções de até 200% entre o maior salário da PM, em Brasília (R$ 4,12 mil), e o pior, no Rio Grande do Sul (R$ 1,37 mil). O balanço, feito a partir das informações fornecidas pelos estados e pelo Consad, mostra ainda que apenas Sergipe – o menor estado brasileiro – se aproxima do piso em debate no Congresso, com um rendimento mensal mínimo de R$ 3,18 mil.

- Esse piso não expressa a realidade. Não observa a capacidade financeira dos estados. O Congresso não é o espaço para definir a remuneração de estados e municípios. O policial militar merece aumento, e eles estão recebendo gradativamente em todo o país. Lamento que os estados ainda não tenham encaminhado o impacto financeiro ao Congresso – diz o presidente do Consad e secretário de Administração do Rio, Sérgio Ruy Barbosa.

Na listagem dos salários iniciais da PM, o Rio de Janeiro aparece em 23º lugar. Barbosa sustenta, porém, que 28 mil policiais, entre 41 mil servidores, já recebem R$ 2,1 mil, como gratificação por bom comportamento, sem contar os reajustes progressivos previstos na carreira. Em todo o Brasil, os governadores se viram forçados a aprovar planos de reajustes escalonados até o final de 2014, diante da repetição de greves, mesmo sem respaldo constitucional para os movimentos.

Um lobista da PM no Congresso admitiu ao GLOBO, na última semana, que as denúncias de incitação à violência na Bahia, sustentadas por gravações que revelam a orquestração de ações ilegais, feriram o respaldo da população às polícias. Explicou que o “ato criminoso fragiliza o movimento reivindicatório”. E observou que muitos parlamentares se aproveitaram da PEC 300 para colher frutos eleitorais, sem analisar como o aumento poderia ser efetivado, criando falsa expectativa na corporação.

Até os deputados que lideram o lobby pela aprovação da proposta afirmam que as expectativas criadas pelo Congresso, misturadas à omissão do Planalto, frustraram e geraram revolta em quem acreditava na célere aprovação do piso nacional.

- Governo e o Congresso têm sua parcela de culpa (nessa situação). Não poderíamos criar a expectativa de aprovação, e agora não votar nem o segundo turno da proposta na Câmara. O governo precisa se posicionar com clareza e dizer, então, que não quer a aprovação da PEC 300 – afirma o presidente da Comissão de Segurança da Câmara, Mendonça Prado (DEM).

À margem da disputa, fica o Distrito Federal, com piso de R$ 4,1 mil. O salário da PM na capital do país não depende de arrecadação estadual, tampouco é ameaçado pelos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Em Brasília, um fundo de R$ 9 bilhões, reajustado junto com a Receita Corrente Líquida da União e abastecido com recursos de contribuintes de todo o Brasil, paga os salários dos servidores da segurança, saúde e educação.

Potencial beneficiário do piso nacional, pelo efeito que terá sobre a carreira da PM, o presidente da Federação Nacional dos Oficiais da Polícia Militar, coronel Marlon Jorge Teza, afirma que os salários baixos atingiram o limite do insuportável. E diz que será cada vez mais difícil segurar os movimentos grevistas.

FONTE: O Globo

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A Rússia estuda a proposta da Liga Árabe de mobilizar uma força conjunta da ONU e dos países árabes na Síria, mas considera que antes é necessário um cessar-fogo, disse nesta segunda-feira em Moscou o ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov.

“Estudamos esta iniciativa e esperamos que nossos amigos nos países árabes esclareçam alguns pontos. Para mobilizar uma força de paz, é necessária a autorização da parte que a recebe. Precisa-se de algo que se pareça com um cessar-fogo”, disse Lavrov.

No entanto, considerou que será um objetivo difícil de ser cumprido porque “os grupos armados que combatem o regime sírio não obedecem a ninguém e não são controlados por ninguém”.

A oposição síria, por sua vez, considera impossível iniciar negociações até que o presidente Bashar Assad abandone o poder.

Lavrov, que na semana passada viajou à Síria, convocou nesta segunda-feira novamente os opositores a iniciarem negociações e lembrou que o regime havia proposto realizar negociações com o vice-presidente, Faruk Chareh.

“Deveriam utilizar esta oportunidade e lançar um diálogo com o vice-presidente. Agora é a oposição quem tem a palavra”, considerou o ministro russo.

UNIÃO EUROPEIA

A União Europeia disse nesta segunda-feira que apoia a iniciativa da Liga Árabe na Síria, incluindo o pedido ao Conselho de Segurança para formar uma força conjunta dos países da ONU e da Liga para acabar com a violência no país.

“Nós apoiamos fortemente qualquer iniciativa destinada que ponha fim imediato à repressão sangrenta “, disse Michael Mann, porta-voz da chefe da diplomacia europeia declarou Michael Mann, porta-voz da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton.

“Estamos em contato constante com o secretário-geral da Liga Árabe e a ONU para examinar a forma de colocar isto em prática o mais rápido possível”, completou.

Segundo o porta-voz, as decisões tomadas no domingo pelos ministérios das Relações Exteriores da Liga Árabe são “corajosas” e firmam “o claro compromisso e a liderança que a Liga Árabe assume para resolver a crise na Síria”.

CHINA

Também nesta segunda-feira, a China indicou que apoia uma solução que passe pelo “diálogo”, mas não se pronunciou sobre a proposta da Liga Árabe.

“A China apoia e convoca a Liga Árabe a seguir com seus esforços de mediação política”, declarou o porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Liu Weimin.

“A ação da ONU deve permitir reduzir as tensões na Síria e favorecer o diálogo político para solucionar o conflito”, acrescentou. “A China apoiará as ações da comunidade internacional que são compatíveis com as propostas da China”, disse ainda Weimin.

A Rússia e a China são os princiapais apoiadores do regime de Assad. Ambos bloquearam em duas ocasiões resoluções do Conselho de Segurança da ONU de condenação da repressão na Síria, que ocorre há quase um ano. Eles consideram que os textos devem reconhecer a parte de responsabilidade da oposição na violência.

FONTE: Estadão/AFP

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O Exército sírio retomou nesta segunda-feira o bombardeio da cidade rebelde de Homs, um dia depois da Liga Árabe ter anunciado apoio à oposição a Bashar al-Assad, anunciaram militantes contrários ao regime.

As tropas oficiais dispararam obuses durante a madrugada contra o bairro de Baba Amr, reduto rebelde da cidade atacada desde 4 de fevereiro para tentar conter os protestos, afirmou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

“O bairro de Baba Amr é alvo dos bombardeios esporádicos do Exército desde as 5h (1h de Brasília)”, destaca um comunicado do OSDH. Na cidade de Rastan, na província de Homs (centro), três soldados morreram e um veículo blindado foi destruído após a tentativa fracassada de ofensiva pelo sul da localidade.

No restante do país, “violentos combates eram protagonizados por grupos de desertores e pelo Exército do regime, que avançou na região de Lajat”, na província de Deraa (sul), e “prendeu as mães de quatro desertores”, segundo a ONG. Em Hama (centro), um civil foi morto a tiros durante a noite.

No domingo, a violência matou mais de 30 pessoas, em sua maioria civis residentes em Homs, informaram ativistas da oposição. A Liga Árabe decidiu no domingo dar apoio político e material à oposição, além de pedir ao Conselho de Segurança a formação de uma força de manutenção da paz conjunta com a ONU para supervisionar um eventual cessar-fogo.
Damasco de Assad desafia oposição, Primavera e Ocidente

Após derrubar os governos de Tunísia e Egito e de sobreviver a uma guerra na Líbia, a Primavera Árabe vive na Síria um de seus episódios mais complexos. Foi em meados do primeiro semestre de 2011 que sírios começaram a sair às ruas para pedir reformas políticas e mesmo a renúncia do presidente Bashar al-Assad, mas, aos poucos, os protestos começaram a ser desafiados por uma repressão crescente que coloca em xeque tanto o governo de Damasco como a própria situação da oposição da Síria.

A partir junho de 2011, a situação síria, mais sinuosa e fechada que as de Tunísia e Egito, começou a ficar exposta. Crise de refugiados na Turquia e ataques às embaixadas dos EUA e França em Damasco expandiram a repercussão e o tom das críticas do Ocidente. Em agosto a situação mudou de perspectiva e, após a Turquia tomar posição, os vizinhos romperam o silêncio. A Liga Árabe, principal representação das nações árabes, manifestou-se sobre a crise e posteriormente decidiu pela suspensão da Síria do grupo, aumentando ainda mais a pressão ocidental, ancorada pela ONU.

Mas Damasco resiste. Observadores árabes foram enviados ao país para investigar o massacre de opositores – já organizados e dispondo de um exército composto por desertores das forças de Assad -, sem surtir efeito. No início de fevereiro de 2012, quando completavam-se 30 anos do massacre de Hama, o as forças de Assad investiram contra Homs, reduto da oposição. Pouco depois, a ONU preparou um plano que negociava a saída pacífica de Assad, mas Rússia e China vetaram a resolução, frustrando qualquer chance de intervenção, que já era complicada. A ONU estima que pelo menos 5 mil pessoas já tenham morrido na Síria.

FONTE: Terra/AFP