A desmoralização da política

Marco Antonio Villa

A luta pela democracia marcou o século XX brasileiro. Somente em oito dos cem anos é que não ocorreu nenhum tipo de eleição, de voto popular, para escolher seus representantes. Foi durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945). No regime militar as eleições tiveram relativa regularidade, mas sem a possibilidade de o eleitor escolher o presidente da República e, a partir de 1965, dos governadores e dos prefeitos das capitais e das cidades consideradas de segurança nacional. Nas duas décadas do regime militar (1964-1985), a luta em defesa da eleição direta para o Executivo e da liberdade partidária foram importantes instrumentos de mobilização popular.

Com o estabelecimento pleno das liberdades democráticas, após a promulgação da Constituição de 1988, as eleições passaram a ter uma regularidade de dois anos, entre as eleições municipais e as gerais. Deveria ser uma excelente possibilidade para aprofundar o interesse dos cidadãos pela política, melhorar a qualidade do debate e e abrir caminho para uma gestão mais eficaz nas três esferas do Executivo e, no caso do Legislativo, para uma contínua seleção dos representantes populares.

Para um país que sempre teve um Estado forte e uma sociedade civil muito frágil, a periodicidade das eleições poderia ter aberto o caminho para a formação de uma consciência cidadã, que romperia com este verdadeiro carma nacional marcado pelo autoritarismo, algumas vezes visto até como elemento renovador, reformista, frente à ausência de efetiva participação popular.

Desde 1988, está será a décima terceira eleição consecutiva. Portanto, a cada dois anos temos, entre a escolha dos candidatos e a eleição, cerca de seis meses de campanha. Neste período o noticiário é ocupado pelas articulações políticas, designações de candidatos, alianças partidárias, debates e o horário gratuito de propaganda política. Cartazes são espalhados pelas cidades, carros de som divulgam os candidatos (com os indefectíveis jingles) e é construída uma aparência de participação e interesse populares.

Porém, é inegável que a sucessão das eleições tem levado ao desinteresse e apatia dos cidadãos. A escolha bienal de representantes populares tem se transformado em uma obrigação pesada, desagradável e incômoda. Tudo porque o eleitor está com enfado de um processo postiço, de falsa participação. A legislação partidária permite a criação de dezenas de partidos sem que tenham um efetivo enraizamento na sociedade; são agrupamentos para ganhar dinheiro, vendendo apoio a cada eleição. A ausência de um debate ideológico transformou os partidos e os candidatos em uma coisa só. O excesso de postulantes aos cargos não permite uma efetiva comparação. Há uma banalização do discurso. E o sistema de voto proporcional acaba permitindo o aparecimento dos “candidatos cacarecos”, que empobrecem ainda mais as eleições.

A resposta do eleitor é a completa apatia, com certo grau de morbidez. Vota porque tem de votar. Escolhe o prefeito, como agora, pela simpatia pessoal ou por algo mais prosaico; para vereador, vota em qualquer um, afinal, pensa, todos são iguais e a Câmara Municipal não serve para nada. O mesmo raciocínio é extensivo à esfera estadual e nacional. No fundo, para boa parte dos eleitores, as eleições incomodam, mudam a rotina da televisão, poluem visualmente a cidade com os cartazes e ainda tem de ir votar em um domingo.

Para o político tradicional, este é o melhor dos mundos. Descobriu que a política pode ser uma profissão. E muito rendosa. Repete slogans mecanicamente, pouco sabe dos problemas da sua cidade, estado ou do Brasil, a não ser as frases feitas que são repetidas a cada dois anos. O marqueteiro posa de gênio, de especialista de como ganhar (e lucrar) sem fazer muita força. Hoje é o maior defensor das eleições bienais. Afinal, tem muitos funcionários, tem de pagar os fornecedores, etc, etc. Para ele, a democracia acabou virando um tremendo negócio. E é um devoto entusiástico dos gregos, pois se não fosse eles e sua invenção….

Não é acidental, com a desmoralização da política, que estejamos cercados por medíocres, corruptos e farsantes. O espaço da política virou território perigoso. Perigoso para aqueles que desejam utilizá-lo para discutir os problemas e soluções que infernizam a vida do cidadão.

O político de êxito virou um ator (meio canastrão, é verdade). Representa o papel orquestrado pelo marqueteiro (sempre pautado pelas pesquisas qualitativas). Não pensa, não reflete. Repete mecanicamente o que é ditado pelos seus assessores. Está preocupado com a aparência, com o corte de cabelo, com as roupas e o gestual. Nada nele é verdadeiro. Tudo é produto de uma construção. Ele não é mais ele. Ele é outro. É a persona construída para ganhar a eleição. No limite, nem ele sabe mais quem ele é. Passa a acreditar no que diz, mesmo sabendo que tudo aquilo não passa de um discurso vazio, falso. Fica tão encantado com o personagem que esquece quem ele é (ou era, melhor dizendo).

Difícil crer que toda a heroica luta pelo estabelecimento da democracia, do regime das plenas liberdades, fosse redundar neste beco sem saída. Um bom desafio para os pesquisadores seria o de buscar as explicações que levaram a este cenário desolador, em que os derrotados da velha ordem ditatorial se transformaram em vencedores na nova ordem democrática. Enfim, a política perdeu sentido. Virou até reduto de dançarinos.

Tem para todos os gostos, até para os que adornam a cabeça com guardanapo.

FONTE: O Globo

 

As armas americanas batem recordes em volume de exportações. Segundo os dados do Serviço de Investigação do Congresso dos EUA, os americanos venderam em armas no ano passado em mais de 66 bilhões de dólares, ocupando 75% do mercado mundial. Ao mesmo tempo, o volume de vendas de armas americanas triplicou num ano.

Os Estados Unidos dispõem das mais sofisticadas tecnologias, investindo meios colossais na produção de armamentos e, graças a isso, as suas armas ultrapassam em muitos aspetos a produção análoga de outros países. Mas a venda de armas diz respeito em primeiro lugar à política que condiciona uma grande popularidade da indústria militar americana, diz o politólogo Vladimir Evseev:

“Há inúmeros países que produzem armas de qualidade. Israel, por exemplo, fabrica armamentos muito qualitativos. Mas é evidente que as potencialidades de Israel e dos Estados Unidos são incomparáveis. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos recorrem frequentemente aos elementos de pressão política, como, por exemplo, no caso da licitação da venda de helicópteros à Turquia. A decisão de comprar umas ou outras armas é uma grande decisão política”.

Aproveitando habilmente a situação no mundo, os americanos resolvem problemas da sua própria economia e alteram o equilíbrio das forças militares em diferentes pontos do mundo, continua Vladimir Evseev:

“Atualmente, os Estados Unidos alargam suas exportações, aproveitando a situação em que vários Estados se sentem fortemente preocupados com a segurança, ligada ao programa nuclear do Irã. Assim, monarcas da Arábia decidiram aumentar consideravelmente as compras de armamentos americanos, em primeiro lugar de meios de defesa antimíssil”.

Só a Arábia Saudita comprou armas no ano passado num montante de 33 bilhões de dólares. São também grandes importadores de armamentos americano os Emiratos Árabes, o Omã e o Qatar.

Quanto às vendas de armas russas, um relatório ao Congresso dos EUA diz que o seu volume em 2011 constituiu cerca de cinco bilhões de dólares. Este montante é subestidado consideravelmente, comunicou em entrevista à Voz da Rússia o perito militar Igor Korotchenko:

“Os dados referidos pelo Serviço de Investigação do Congresso não refletem a situação real. A Rússia ocupa a segunda posição, vendendo anualmente armas no volume de cerca de 14 bilhões de dólares”.

Como destacam os peritos, as armas russas têm os seus consumidores que apreciam em primeiro lugar a correlação entre a eficiência, a qualidade e o preço.

FONTE: Voz da Rússia

 

Na semana passada, o jornal norte-americano Los Angeles Times informou que o Pentágono pretende destruir as armas químicas da Síria. O plano, que espera somente o aval da Casa Branca, prevê uma série de pequenas operações terrestres realizadas secretamente por pequenos grupos de soldados treinados. Ainda segundo o veículo, “ataques aéreos pontuais” poderão também ser usados para destruir os arsenais sírios por completo.

Uma fonte dos serviços secretos norte-americanos, também citada pelo jornal, declarou que a Síria possui gases neuro-paralisantes, bem como depósitos de gás VX, perto das cidades de Aleppo, Hama, Homs e Latakia.

A pedido do jornal russo Vzgliad, o cientista político e especialista em assuntos árabes do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia, Boris Dolgov, comentou sobre os planos do Pentágono e a probabilidade de o governo sírio usar armas químicas.

Vzgliad: De acordo com o Pentágono, os americanos planejam efetuar ataques aéreos contra os arsenais sírios. Quais seriam as consequências desse ato?

Boris Dolgov: Um ataque aéreo contra um país soberano como a Síria pode ter consequências muito graves. Mesmo assim, neste caso, um golpe aéreo deve envolver não só um ataque contra os arsenais de armas químicas, mas também a destruição do sistema de defesa antiaérea, pois tais instalações são normalmente bem protegidas. Em outras palavras, isso significaria uma intervenção militar.

Falando especificamente sobre as consequências, os primeiros a morrer seriam os soldados encarregados de guardar os arsenais de armas químicas. As consequências seriam imprevisíveis. As armas químicas iriam se espalhar e representar perigo para o meio ambiente, para a população e para a região em geral. De qualquer modo, não acho que a Casa Branca se atreva a tomar tal iniciativa durante a campanha eleitoral para a presidência do país.

Vzgliad: Os EUA estão preocupados em evitar que as armas químicas caiam nas mãos dos terroristas da rede Al-Qaeda, por exemplo. Os grupos de terroristas seriam capazes de tomar as munições químicas e transportá-las a grandes distâncias ou isso só pode ser feito por um exército regular?

B.D.: Os Estados Unidos têm assumido uma política curiosa em relação ao islamismo radical. Por um lado, lutam contra essa corrente no Afeganistão e no Iêmen, mas, por outro, apoiam um movimento semelhante na Líbia e na Síria. Portanto, a tese de que os EUA estão preocupados em evitar que as armas químicas sírias caiam nas mãos da Al-Qaeda é ambígua.

Mas, voltando à sua pergunta, isso é possível. Alguns componentes de armas químicas podem ser transportados não só pelas unidades de um exército regular, mas também por grupos terroristas.

Vzgliad: Qual o sentido de a Síria usar armas químicas em caso de intervenção da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)?

B.D.: Os líderes sírios ameaçam usar armas químicas como uma pressão psicológica sobre aqueles que desejam lançar uma operação militar contra o país. Ainda assim, não acho a Síria ousaria a usar tais armas, mesmo no caso de invasão militar.

Vzgliad: Os militares dos países da Otan, em particular da Turquia, estão prontos para repelir ataques químicos?

B.D.: Todos os países da Otan possuem tropas de proteção química bastante desenvolvidas. A Rússia não é exceção, embora as armas químicas não tenham sido usadas desde a Primeira Guerra Mundial, exceto no Iraque.

FONTE: Gazeta Russa