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Política externa e fantasia

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Jackson Diehl* – O Estado de S.Paulo – The Washington Post

“Somos obrigados a nos perguntar se o controle de armas, dissociado de questões econômicas e políticas, poderia ser outro caso de estudo dos sintomas de um problema e não da doença em si”, escreveu Barack Obama, em 1983, quando estudava na Universidade Columbia. Ele falava do movimento em favor do congelamento de arsenais nucleares e indagava se a preocupação com o número de ogivas não estaria menosprezando questões mais fundamentais da justiça social da Guerra Fria. No entanto, ele também poderia se referir à política que ele próprio adotou no Oriente Médio, 30 anos depois, e às razões que criaram uma divisão entre os EUA e seus aliados próximos.

Em seu zelo para tirar o governo do atoleiro regional, Obama adotou um enfoque limitado a respeito dos conflitos complexos daquele lado do mundo. Colocando-se acima da carnificina da Síria, ele priorizou a destruição das armas químicas do país. Seu objetivo é estabelecer salvaguardas firmes para o programa nuclear do Irã, menosprezando seu esforço em usar o terrorismo e a guerra por procuração para exercer a hegemonia regional.

Do ponto de vista de Washington, os objetivos de Obama parecem viáveis, ao contrário da implantação da democracia no Iraque. O problema do enfoque é que pressupõe que a guerra síria e outros conflitos na região não representam uma ameaça séria aos interesses dos EUA.

Suponhamos que a nova base da Al-Qaeda na Síria, os mísseis do Hezbollah no Líbano e o desmoronamento do sistema político iraquiano não representem ameaça aos EUA. De todo modo, os aliados americanos – Israel, Arábia Saudita, Jordânia e Turquia – seriam abandonados em um novo mundo assustador onde seus interesses já não seriam protegidos pelos EUA.

Israel e Arábia Saudita temem que Obama faça um acordo com o Irã, livrando-o das sanções sem eliminar sua capacidade de enriquecer urânio. Mas o crucial é que os dois países estão consternados porque os EUA optaram por abandonar a luta pelo poder regional. A perspectiva de travar uma versão regional da Guerra Fria sem apoio americano levou os sauditas a insinuar uma ruptura com Washington e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, a falar abertamente da disposição de Israel de agir sozinho.

Os defensores de Obama dizem que não há razão para os EUA se envolverem em todo conflito no Oriente Médio. Nem sempre vale a pena encorajar os interesses de Arábia Saudita e Israel. A primeira é movida pela inimizade sectária entre sunitas e xiitas. O segundo não vê chance de coexistir com uma república islâmica. Em todo caso, o governo tenta tratar dos problemas maiores buscando uma solução na Síria e a paz entre israelenses e palestinos.

Aqui está outro problema. Ninguém de fora do Departamento de Estado leva a sério a possibilidade de o plano de John Kerry, para o fim da guerra síria, funcionar ou que israelenses e palestinos concordem com a solução de dois Estados. Eles continuam tentando agradar a Washington, mas, ao mesmo tempo, queixam-se que a diplomacia de Kerry tem base em fantasia. Alguém imagina Bashar Assad concordando em deixar o poder? Ou Netanyahu cedendo parte de Jerusalém aos palestinos? Os avanços diplomáticos ocorrem porque condições políticas, econômicas e de segurança os tornam possíveis.

O movimento em favor do congelamento das armas nucleares fracassou nos anos 80 porque a União Soviética ainda era uma ameaça para o Ocidente. A conferência de paz síria fracassaria porque Assad não está a ponto perder no campo de batalha. Para Obama, o sucesso exigiria a reformulação das condições no terreno: o enfraquecimento de Assad, a degradação da força iraniana e o fortalecimento da confiança israelense e saudita. Isso poderia ser feito sem o envio de tropas, mas seria difícil, dispendioso e exigiria muita atenção do presidente.

*Jackson Diehl é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FONTE: O Estado de S. Paulo

1 COMMENT

  1. “Os defensores de Obama dizem que não há razão para os EUA se envolverem em todo conflito no Oriente Médio. Nem sempre vale a pena encorajar os interesses de Arábia Saudita e Israel. ”

    Pela primeira vez eu tenho que concorda com os Âmis.

    Os Americanos já estão mais do que na hora de deixar de lado Arabia Saudita Turquia e Israel de lado; Eles que lutem suas próprias guerras não os filhos da America.

    Mas infelizmente o Lóbi Judeu e o dinheiro e o petróleo Saudita falam mais alto ai o futuro a deus pertencer?????

    Ps:

    O que a Turquia oferece aos Âmis no sentido geopolítico?

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