Insurgência e contrainsurgência na Guerrilha do Araguaia

Insurgência e contrainsurgência na Guerrilha do Araguaia

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Militares no Araguaia fotografados junto a um helicóptero Bell UH-1 da FAB

Getúlio de Alvarenga Cidade

A Guerrilha do Araguaia ou FOGUERA (Força de Guerrilha do Araguaia do Partido Comunista do Brasil) foi o maior desafio das Forças Armadas brasileiras após a Segunda Guerra Mundial e, de longe, a maior ameça à segurança nacional.

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento rural ocorrido na região amazônica no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta, iniciado pela dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro (PCB), batizado como Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Adotava os princípios de Mao Tse Tung usados na Revolução Chinesa e por Fidel Castro em Cuba. Assim, seu objetivo era, na Fase I, obter o apoio da população rural. A Fase II requeria uma expansão para áreas urbanas a fim de minar o governo. E, por fim, a Fase III conduziria à revolução socialista pela região, com ataques diretos às Forças Armadas e ao governo.

O teatro das operações de combate entre a Guerrilha e as Forças Armadas ocorreu na fronteira dos Estados do Tocantins, Pará e Maranhão, em uma região conhecida como Bico do Papagaio. Mas o nome da insurgência derivou-se do Rio Araguaia, que corre por toda aquela região.

A INSURGÊNCIA – A ORGANIZAÇÃO DOS GUERRILHEIROS

A decisão do PCdoB de iniciar a luta na selva foi inspirada pelas guerrilhas no Vietnã, Malásia e Angola. Alguns dos guerrilheiros foram treinados em movimentos insurgentes na China, sendo 70% deles oriundos da classe média e menos de 20% camponeses. Entre 1967 e 1971, eles se tornaram habitantes locais da região, envolvendo-se na vida quotidiana da sociedade, trabalhando como fazendeiros, comerciantes, médicos, farmacêuticos e professores. Não tomavam parte em debates políticos para não levantar suspeita e também desenvolveram um programa psicológico chamado “o trabalho das massas”, cujo objetivo era ganhar apoio popular.

Pelo estudo de movimentos insurgentes anteriores, eles sabiam que precisariam ganhar os corações e mentes do povo de forma a atingir seus objetivos. Suas atividades eram baseadas em assistência comunitária e voluntariado. A assistência comunitária era sua grande estratégia para seduzir a população, seguindo os ensinamentos de Ernesto Guevara. Uma vez que já havia uma ausência do governo federal na região, isto se encaixava em seu plano e explicava o porquê da escolha do local.

A insurgência foi organizada em um comitê político, uma comissão militar e três pelotões de guerrilheiros. Estes eram compostos por vinte e um militares e divididos em três equipes de sete militares cada, totalizando sessenta e três guerrilheiros. O líder da equipe desconhecia as ordens do líder de pelotão que, por sua vez, desconhecia a formação e a identificação dos demais pelotões. Além disso, os indivíduos não carregavam identidades e apenas se identificavam por meio de pseudônimos.

Reprodução de cartaz do PC do B sobre os guerrilheiros desaparecidos no Araguaia

Esta pirâmide organizacional seguia a mesma estrutura de comando utilizada durante o conflito colonial da Argélia. A divisão em células, bem como o uso de pseudônimos, era uma estratégia para preservar o grupo. No caso de ser preso pelo Exército Brasileiro, um militante não poderia trair os demais, revelando seus verdadeiros nomes, o que certamente arruinaria toda a estrutura. Ainda que as outras células não pudessem identificar as demais dentro da organização, isto não afetava a coordenação. O comando e controle dos pelotões baseava-se em localizações de contato pré-determinado, datas e horários que dependiam de métodos compartimentalizados e senhas, dando aos guerrilheiros unidade de comando. Isto permitia ao comitê político do PCdoB, ainda que não presente na região, passar instruções a outros e ainda manter-se informado sobre as atividades na área. Nenhuma ação ou decisão era tomada sem sua aprovação. O treinamento que a FOGUERA recebera em curso de guerra de guerrilha no exterior, especialmente em Pequim e Havana, serviu-lhe muito bem.

Quando os ataques começaram abertamente, em maio de 1972, a força dos insurgentes era de aproximadamente oitenta, incluindo quinze mulheres. Os guerrilheiros pensaram estar prontos para passar da Fase I da insurgência, uma vez que estavam convencidos de que tinham obtido o apoio do povo e estavam preparados para defender sua região, assim como fizeram Ho Chi Min, no Vietnã, e Fidel Castro, em Cuba.

Por volta de agosto de 1973, o PCdoB aumentava sua ofensiva contra o governo com a publicação da “proclamação” sobre a “liberdade e direitos do povo”. No entanto, ao contrário de sua expectativa, os guerrilheiros não tinham o apoio da população local e foram forçados a lutarem isolados na selva com poucos recursos.

A CONTRAINSURGÊNCIA: A RESPOSTA DO EXÉRCITO BRASILEIRO

Em 1970, o PCdoB sabia que tinha um longo caminho a percorrer para alcançar suas metas políticas. Faltavam-lhe armamento adequado e combatentes, e acreditava-se que precisariam cerca de dois anos de preparação para disparar a revolta contra o governo brasileiro. No entanto, quando um dos guerrilheiros que fugira da selva foi preso e interrogado pela Polícia, a inteligência do Exército tomou ciência do movimento insurgente na região do Araguaia antes que o comitê político acreditasse estar pronto para agir.

Nessa época, o Exército iniciou uma sigilosa operação anti-guerrilha com duração de dois anos. O plano resultante baseou-se na compreensão das reais intenções do PCdoB, do seu grau de prontidão e da capacidade de combate da guerrilha. Isto foi realizado pelo metódico e detalhado trabalho de inteligência que dependia das informações obtidas dos desertores da guerrilha. O governo militar foi capaz de se antecipar à propagação do movimento da guerrilha, evitando, desta forma, a difusão da violência nas áreas rurais e a desestabilização do governo.

Helicóptero UH-1 da FAB apoiando as operações no Araguaia

A fim de preparar a região para operações futuras, o General Olavo Viana Moog, comandante da contrainsurgência, mandou construir uma extensão de trinta quilômetros de uma estrada dentro da área de operações da guerrilha, permitindo o movimento rápido das tropas. Para se contrapor à campanha de corações e mentes do PCdoB, o Exército iniciou projetos civis que ganharam o apoio público necessário. Para se familiarizar com a geografia da região, os militares dependiam do apoio de “mateiros”, nativos que possuíam um conhecimento minucioso da selva.

Em adição aos aspectos físicos da campanha de contrainsurgência, o Exército conseguiu suprimir o sistema de propaganda da FOGUERA. Esta tinha se estabelecido com o financiamento do movimento comunista internacional, tendo estreitas ligações com o governo da Albânia. O relacionamento era tal que um programa de rádio em português que apoiava o movimento era transmitido diariamente por ondas curtas direto da Albânia. Em seus estágios iniciais da contrainsurgência, o Exército conseguiu desmantelar este enlace rádio, tendo sido esta a primeira ação eficiente e bem-sucedida contra a FOGUERA.

O movimento de contrainsurgência pode ser dividido em três fases, entre 1972 e 1975. A força inicial das tropas brasileiras era de 1.500 militares, baseados em Marabá, Xambioá e no interior da área de operações.

Foram identificadas várias questões que criavam grandes problemas para as operações militares a serem conduzidas. Primeiro, sob a perspectiva de comando e controle, a FOGUERA tinha escolhido muito bem a área de operações. A região se encontrava entre dois comandos de região militar do Exército, o Comando Militar da Amazônia (CMA) e o Comando Militar do Planalto (CMP). No início, isto causou problemas de coordenação e controle para ambos os comandos, resultando em sucesso para os guerrilheiros.

A falta de unidade tática impediu a otimização dos esforços devido à quantidade de tempo gasto com planejamento e coordenação, deixando os guerrilheiros determinarem o momento e o ritmo dos eventos. Esta foi uma lição observada, mas não aprendida, em movimentos de contrainsurgência anteriores, e reforçava a extrema importância de se unificar o comando e controle a fim de se obter unidade de comando.

Segundo, em seu estágio inicial, como em todos esses tipos de operações, a inteligência era incompleta. Não havia informações sobre o terreno, mapas nem fotografias aéreas; e o conhecimento relativo à organização dos guerrilheiros e suas atividades era insuficiente.

Terceiro, as tropas escolhidas para conduzir a operação eram de diferentes partes do país e não estavam preparadas para este tipo de guerra. Faltavam-lhes técnicas de contrainsurgência e conhecimento básico de guerrilha na selva. Além disso, o fato dessas unidades não terem operado juntas anteriormente nem possuírem os meios adequados para coordenação resultou em diversos incidentes de fogo amigo.

Moradores do Araguaia abordados durante operação do Exército no período da Guerrilha do Araguaia

Entretanto, mesmo com todas essas deficiências, a Fase I da contrainsurgência obteve algum sucesso. Os militares conseguiram infligir algumas baixas à FOGUERA. Porém, mais importante que isso foi o aprendizado de um dos maiores axiomas de Clausewitz: conhecer o tipo de guerra que se está travando. O Exército começou a se adaptar à situação, sendo capaz de iniciar novas operações com uma maior perspectiva.

Durante a Fase II, realizou-se uma grande operação de inteligência para se compreender a FOGUERA, o terreno e a população. Esta ação deixou claro para a liderança que aquele era um tipo de guerra que os militares não poderiam vencer sozinhos. Em decorrência disso, os planejadores começaram a integrar diversos órgãos dos governos federal e estaduais para sobrepujar a guerrilha através da coordenação de atividades que corrigiram o problema da unidade de esforço.

Durante esta fase, os problemas de comando e controle foram solucionados pela designação do Comando Militar da Amazônia (CMA) como o quartel-general para todas as unidades, incluindo os órgãos estaduais e federais.    Além disso, implementou-se um sistema de comunicações eficiente e seguro que conectava todos os integrantes da contrainsurgência. O problema de treinamento e prontidão foi corrigido com a seleção de tropas profissionais das melhores unidades de infantaria de selva e paraquedistas. Criou-se um sistema logístico especial e eficiente para a operação; e elementos de forças especiais foram empregados para treinar unidades, preparar as forças de autodefesa nas comunidades locais e conduzir operações psicológicas e de inteligência junto à população.

Em 1974, na fase final da operação, executando ataques conjuntos contra os guerrilheiros na Operação Marajoara, a Força Aérea, a infantaria de selva e os paraquedistas, conduzidos pelo General Hugo Abreu, conseguiram superar a FOGUERA. Esta ofensiva logrou êxito em fazer cessar as atividades guerrilheiras na região.

Militares guardam corpos de guerrilheiros mortos em combate no Araguaia

LIÇÕES APRENDIDAS    

Como muitos outros movimentos de insurgência e contrainsurgência, especialmente durante o levante de revoluções comunistas ao redor do mundo durante a Guerra Fria, a Guerrilha do Araguaia também deixou muitas lições a serem aprendidas.

A primeira é a confirmação da teoria da contrainsurgência, que afirma que ganhar corações e mentes é a chave para a vitória. Como afirmava Mao Tse-Tung, se a guerrilha for incapaz de manter ligações com a população, não poderá prosperar e estará fadada à derrota. O Exército Brasileiro apreendeu esta filosofia e foi bem-sucedido em suprimir rapidamente a insurgência ao aplicar um grande esforço para conquistar os corações e mentes do povo. Se a FOGUERA tivesse ganhado apoio popular no Bico do Papagaio, os esforços do governo brasileiro teriam sido seriamente minados, prolongando a guerra e criando maiores problemas na região.

A segunda lição está no comando e controle. Sem uma definição clara de autoridade e esforço unificado entre os participantes da contrainsurgência, a probabilidade de sucesso é limitada. A integração das atividades militares e civis exerceram claramente grande influência sobre a FOGUERA em todas as fases da campanha, resultando em sua derrota.

Em qualquer guerra, a inteligência é extremamente importante. Entretanto, na guerra de guerrilha, a inteligência é absolutamente crítica, e isto se torna o terceiro elemento das lições aprendidas. A falta de informação sobre o inimigo e sobre o terreno durante a Fase I foi substituída por uma inteligência eficiente na Fase II. O planejamento detalhado e a articulação dos requisitos de inteligência do Exército e da Polícia proveram informações vitais em todas as atividades, a despeito de sua relevância, permitindo que forças amigas ganhassem uma melhor compreensão da população e, portanto, sincronizassem suas ações e executassem seus planos no local certo e à hora certa.

O quarto grande fator para a vitória foi a logística. O sistema especial criado para satisfazer necessidades específicas devido ao ambiente operacional permitiu aos militares manterem-se ininterruptamente concentrados na missão. Neste caso, a Força Aérea Brasileira desempenhou um importante papel com seus esquadrões de helicópteros, provendo apoio aéreo. Devido à natureza do terreno, o emprego de helicópteros para infiltração e exfiltração de unidades táticas, o reabastecimento das mesmas e as missões de EVAM (evacuação aeromédica) foram primordiais para se alcançar completo êxito. Esta não foi a primeira vez em que os helicópteros foram reconhecidos por sua importância em contrainsurgências. O Ten. Cel. Mans, escrevendo a respeito das operações na Malásia, declarou: “Empregado adequadamente, o helicóptero é uma arma vitoriosa na guerra de guerrilha”.

A quinta lição e de extrema importância é o emprego de tropas profissionais e forças treinadas e preparadas para operar nesse ambiente. Isto ficou evidente na Fase III da operação, quando o Exército enfrentou os guerrilheiros bem treinados em suas fortalezas da selva. Forças que podem operar da mesma maneira que os insurgentes confirmam a teoria que guerrilheiros são os que melhor podem lutar contra guerrilheiros. A compreensão de que a guerrilha não é uma guerra convencional foi provavelmente a melhor percepção que o Exército teve, quando combatendo a insurgência, e a maior das lições aprendidas pelos militares brasileiros durante o confronto.

Finalmente, a experiência de derrotar os guerrilheiros trouxe às Forças Armadas brasileiras uma doutrina sólida e eficaz para operações em ambientes árduos como selvas e montanhas.

CONCLUSÃO         

A laboriosa campanha no Bico do Papagaio amadureceu as Forças Armadas brasileiras ao ponto de formar sua doutrina conjunta e interoperabilidade. Além disso, validou o profissionalismo dos militares brasileiros na América Latina, uma vez que seu país foi o único a vencer um movimento de guerrilha comunista por si só, sem ajuda externa de forças militares ou consultores estrangeiros.

A Guerrilha do Araguaia foi uma prova de fogo para as Forças Armadas brasileiras. Os militares não somente eliminaram a insurgência com profissionalismo, mas também se mostraram capazes de sobrepujar uma ameaça muito maior, a saber, o fantasma comunista que tentava espalhar suas sombras sobre o Brasil e sobre o continente sul-americano.


*Este artigo é oriundo e adaptado de um trabalho acadêmico escrito em 2010 (original em inglês) como requisito da disciplina “Insurgencies and Counterinsurgencies” na Joint and Combined Warfighting School (JCWS), quando o autor cursou no Joint Forces Staff College (JFSC), pertencente à National Defense University dos EUA. O autor agradece as observações e a revisão do Professor Lawrence Brady, Coronel da reserva do United States Marine Corps (USMC) e integrante do corpo docente do JFSC.

REFERÊNCIAS

  • Angelo, V. A. (2009). Luta Armada no Campo. Acessado em 13 de fevereiro de 2010 de UOL- História do Brasil: http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/guerrilha-araguaia.jhtm
  • Galula, D. (2005). Counterinsurgency Warfare – Theory and Practice. St. Petersburg, Florida, USA: Hailer Publishing.
  • Mans, R. S. (1990). The Guerrilla and How to Fight Him. Victory in Malaya. Quantico: U.S. Marine Corps.
  • Mendel, W. W. (1996, Mar/Apr). Significance of Brazilian Strategic Thinking. Military Review , Vol. 76 Issue 2.
  • Pinheiro, A. S. (1996, Mar/Apr). Guerrillas in the Brazilian Amazon. Military Review , Vol. 76 Issue 2.
  • Portela, F. (2002). Guerra de Guerrilha no Brasil: A Saga do Araguaia, Nova entrevista de José Genoíno. São Paulo: Editora Terceiro Nome.
  • Rohter, L. (2004, March 28). Long After Guerrilla War, Survivors Demand Justice From Brazil’s Government. The New York Times .
  • Silva, T. d. (2005). Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha. São Paulo: Geração Editorial.
  • Studart, H. (2006). A Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares na Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Geração.
  • Welch, C. (2006, May). Keeping Communism down on the Farm: The Brazilian Rural Labor Movement during the Cold War. Latin American Perspectives , 33 (3), pp. 28-50.

2 COMMENTS

  1. Pois é!

    “A Guerrilha do Araguaia foi um movimento rural ocorrido na região amazônica no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta, iniciado pela dissidência armada do Partido Comunista Brasileiro (PCB), batizado como Partido Comunista do Brasil (PCdoB).”

    Como assim, “movimento rural”?

    “…A decisão do PCdoB de iniciar a luta na selva foi inspirada pelas guerrilhas no Vietnã, Malásia e Angola. Alguns dos guerrilheiros foram treinados em movimentos insurgentes na China, sendo 70% deles oriundos da classe média e menos de 20% camponeses. …”

    “No entanto, ao contrário de sua expectativa, os guerrilheiros não tinham o apoio da população local e foram forçados a lutarem isolados na selva com poucos recursos.”

  2. Uma das minha maiores frustrações e ter estado no EB mais de 20 anos depois dos fatos. Teria sido voluntário imediatamente. Esta ai o EB so ganhou quando começou a agir também como raposa.

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