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Emprego de aeronaves não tripuladas em Brigadas Mecanizadas e Blindadas

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RQ-11B Raven
RQ-11B Raven

Por Roberto Lopes
Especial para o Forças Terrestres

O blog Forças Terrestres traz para seus leitores um interessante artigo publicado pelo informativo “Escotilha do Comandante”, do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires (Santa Maria-RS), intitulado “O uso de SARP pelo Pelotão de Exploradores no reconhecimento de área”.

O texto, de autoria dos capitães de Cavalaria Clodomiro Rodrigues Matozo Junior e Igor Saucha, e do tenente coronel Carlos Alexandre Geovanini dos Santos, (instrutores e comandante do Centro) atualiza os conhecimentos dos interessados acerca das possibilidades de emprego de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas pelas grandes unidades que representam o Poder de Choque da Força Terrestre Brasileira.

Desde já, nos congratulamos com os autores desse importante trabalho intelectual.

O uso de SARP pelo Pelotão de Exploradores no reconhecimento de área

Os Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) são vetores aéreos não tripulados, empregados em situações nas quais os riscos da ação humana local são elevados ou inaceitáveis. Compostos de três elementos essenciais: o módulo de voo (ARP), o módulo de controle em solo e o módulo de comando e controle, essa ferramenta complementa e reforça as capacidades militares terrestres, principalmente dos elementos de reconhecimento (Rec) das unidades das armas base de Infantaria e Cavalaria.

A publicação do manual EB20-MC-10.214 – Vetores Aéreos da Força Terrestre supriu a demanda doutrinária de emprego desses meios no Exército Brasileiro (EB), especialmente sobre os SARP, anteriormente regulado na Força Terrestre pela Nota de Coordenação Doutrinária 003/2012.

De acordo com esse documento, as missões típicas dos SARP estão relacionadas à “obtenção de informações e aquisição de objetivos além da visada direta e em profundidade”, pela “capacidade desses meios de sobrevoar zonas hostis”.

Nas missões de reconhecimento, típicas dos pelotões de exploradores orgânicos dos Batalhões e Regimentos Blindados, os SARP são empregados para esclarecer a situação, coletando informações em todas as fases das operações. As aeronaves podem ser empregadas antecedendo as tropas que executam o Rec, entregando-lhes maiores informações sobre o oponente, podendo detectar, localizar e identificar alvos à considerada distância e de maneira segura.

Grande parte dos exércitos de países do considerado “Arco do Conhecimento” já utilizam os SARP em suas SU e Pel de Rec. No Exército Alemão, a arma de reconhecimento – die Heeresaufklärung – possui, para o nível do pelotão, o SARP Aladin, com alcance de 5km, autonomia de 60 minutos e velocidade de voo entre 40 e 70 km/h. Os Scout Platoons, do Exército Americano, contam com o apoio do SARP Raven das subunidades. O RQ-11B Raven tem uma autonomia de 60 a 90 minutos, alcance de 10 km, velocidade de voo entre 32 e 81 km/h e opera entre 30 e 152m.

O EB, através do Comando de Operações Terrestres, publicou a CONDOP 02-2014 – Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada, que elenca as condicionantes operacionais para o uso desse meio na Força Terrestre. O documento prevê a dotação de sistemas de categorias (Cat) 0 e 1 para as OM de Brigadas de Cavalaria Mecanizada (Bda C Mec) e OM de Brigadas Blindadas (Bda Bld).

Em uma situação ótima, os Batalhões de Infantaria Blindados e Regimentos de Carros de Combate de Bda Bld possuiriam até 04 SARP de Cat 0 (zero) e 04 SARP de Cat 1 (um). Na mesma situação ideal de distribuição, preveem-se até 03 SARP Cat 0 (zero) e 03 SARP Cat 1 (um) para os Regimentos de Cavalaria Mecanizados e Regimentos de Cavalaria Blindados das Bda C Mec.

Ainda conforme as CONDOP, as missões a serem desempenhadas pelos SARP de Cat 0 são, basicamente: inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos (IRVA), proteção de estruturas estratégicas e pontos sensíveis, observação aérea, detecção de artefatos explosivos improvisados, observação e condução de fogos, e monitoramento ambiental. Para os sistemas de Cat 1 somam-se, ainda, o emprego na segurança de comboios e na avaliação de danos (fruto de fogos de artilharia ou catástrofes).

Nesse contexto, o CI Bld experimentou, durante o Estágio Tático do Pelotão de Exploradores (Pel Exp) de 2018, o emprego de um SARP equivalente ao nível 0, dentro de uma missão de reconhecimento (Rec), factível dentro da distribuição prevista nas CONDOP 02-2014.

Para o cumprimento dessa missão, o comandante do Pel Exp recebeu em apoio direto uma Turma SARP Cat “0”. Essa turma, segundo o novo Quadro de Cargos do RC Mec, é composta por um 3º Sargento Operador de SARP e um Cabo Auxiliar de Operador.

O planejamento do Cmt Pel objetivou empregar o SARP em uma das fases do Rec de Zona de Reunião (Z Reu), mais especificamente na fase de Rec sumário da posição. Nessa missão de Rec, a Turma operou sob supervisão do Sargento Adjunto do Pel Exp.

Operando dentro de um espaço aéreo segregado e respeitando as normas reguladoras da aviação civil, o ARP decolou da contra encosta de uma das elevações que dominava o bosque, a partir de uma viatura do Pel Exp em posição coberta e abrigada. O sobrevoo propiciou o Rec aéreo de todo o perímetro da Z Reu, das áreas de clareiras internas do bosque e, principalmente, das elevações que a circundavam e tinham comandamento sobre o objetivo de Rec.

Com o emprego desse meio aéreo, as missões de ocupação de posto de observação (PO), estabelecimento de segurança e reconhecimento sumário da Z Reu, que levariam de trinta minutos a uma hora para serem executadas de modo tradicional (utilizando as viaturas e militares a pé, sem o uso de vetores aéreos), pôde ser realizada em cerca de 10 minutos.

O emprego da ARP permitiu, além do incremento da velocidade do reconhecimento, um ganho considerável no nível de segurança da operação, uma vez que não expôs os militares do pelotão no mesmo compartimento do objetivo. Possibilitou, ainda, a visão aérea das elevações que dominavam a Z Reu, possível localização de PO inimigos, posições de armas automáticas, caçadores ou armas anticarro.

Da mesma forma, reduziu-se consideravelmente o problema da assincronia, comum no emprego de imagens de satélites e fotografias aéreas, possibilitando a atualização do terreno e do inimigo em tempo real.

A restrição de autonomia de voo do modelo de SARP empregado não permitiu que fosse mantida a vigilância da área até a chegada do Pel Exp para o Rec pormenorizado (fase posterior ao Rec sumário).

Ainda, por limitação técnica do material, optou-se por empregar o SARP a partir de uma situação estática, com a viatura do adjunto de pelotão em posição coberta. Caso fosse possível realizar a operação do SARP com o Pel Exp na aproximação do objetivo, o ganho em tempo teria sido ainda maior.

Como principais lições aprendidas, verificou-se a necessidade de um planejamento específico para o emprego do SARP durante o reconhecimento, principalmente pela sua baixa autonomia (considerando o ARP Cat 0), o que não lhe permite o voo indiscriminado. Por isso, o meio deve ser empregado em missões específicas em que haja, no mínimo, indícios de presença/atividade inimiga, ou em área/atividade em que o ganho de tempo/segurança justifique sua utilização. Na experimentação durante o estágio, o enorme ganho em tempo e segurança da tropa foi o fator preponderante para a decisão de emprego do SARP no reconhecimento sumário da Z Reu e seu entorno.

Por fim, observou-se que o emprego do SARP no estágio tático de pelotão de exploradores propiciou considerável ganho em tempo e segurança no cumprimento das missões dessa importante fração das OM Bld, consolidando-se como ferramenta multiplicadora dos esforços de reconhecimento.

AÇO, BOINA PRETA, BRASIL!

Clodomiro Rodrigues Matozo Junior – Cap Cav
Igor Saucha – Cap Cav
Instrutores do CI Bld
Carlos Alexandre Geovanini dos Santos – Ten Cel
Comandante do CI Bld

 

9 COMMENTS

  1. Interessante leitura! O tema me despertou para algo que li recentemente e me chamou a atenção, os inúmeros problemas que os grandes exércitos tiveram ao efetuarem gigantescas manobras com blindados e caminhões vários na 2ª Guerra.

    Tudo que podia dar errado, dava nesta operações: congestionamentos de quilômetros; veículos que se desgarravam; acidentes; caos em entroncamentos; dificuldades em organizar reabastecimentos; a própria defesa da operação, durante escaramuças esporádicas, etc.

    Acredito que a utilização de VANTs permita uma gestão mais direta, próxima e até pessoal dos tráfegos, aprimorando velocidade e segurança nas ofensivas. Mas isso é problema de exército grande em operações ofensivas, outra realidade…

  2. Três oficiais do Exercito para escrever um texto simples sobre o seu oficio ? Roberto Lopes, obrigado por sua colaboração. Olhar os assuntos escritos na Revista Military Review da gosto de ver.

    • Roberto Santos, o seu comentário demonstra um total desconhecimento sobre as publicações do Centro de Instrução de Blindados. Para aprimorar o seu conhecimento você pode encontrá-las no site http://www.cibld.eb.mil.br, na aba “Periódicos”. Em linhas gerais o CI Bld possui 3 publicações: uma semanal chamada “Escotilha do Comandante”, da qual foi retirada a matéria acima; outra mensal, com o título “A Forja” e a última, uma revista anual, com o nome “Ação de Choque”. Nas duas primeiras publicações, o foco é produzir artigos simples, de fácil leitura, que auxiliem na atualização da nossa tropa blindada e mecanizada. Na revista “Ação de Choque” você pode encontrar artigos tão interessantes como os da Military Review, abordados com mais profundidade, com uma formatação muito similar a publicações acadêmicas. Eu o convido a navegar na página do CI Bld e conhecer um pouco mais sobre as publicações desse Estabelecimento de Ensino do Exército Brasileiro. Com certeza encontrará matérias muito interessantes, algumas das quais são constantemente replicadas nesse e em outros sites que tratam do importante assunto da Defesa Nacional.

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