BRICs encontro 2013 - foto R Stuckert - Palácio do Planalto

http://www.forte.jor.br/wp-content/uploads/2011/05/vinheta-clipping-forte12.jpg“Brics, não dividam a África” diz um cartaz no salão de uma igreja no centro de Durban, onde ativistas da sociedade civil se juntaram para lançar um olhar crítico sobre a cúpula dos cinco poderes globais emergentes. O slogan invoca a conferência do século 19 em Berlim, onde os países coloniais europeus predominantes repartiram o continente africano em uma corrida que o historiadores vêem como a personificação do capitalismo explorador da época.

Décadas depois que os africanos se livraram do jugo colonial, é a vez do grupo dos países emergentes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) verem seus motivos sendo analisados, à medida que eles proclamam em tom altruísta uma “parceria para o desenvolvimento, integração e industrialização” com a África.

Liderados pelo gigante emergente, a China, os Brics são agora os maiores parceiros comerciais da África e formam o maior novo grupo de investidores. O comércio entre os Brics e a África deve superar 500 bilhões de dólares até 2015, com a China abocanhando consideráveis 60 por cento do total, de acordo com o Standard Bank. Os líderes dos Brics insistem em apresentar o grupo –que representa mais do que 40 por cento da população mundial e um quinto do Produto Interno Bruto (PIB)– em uma moldura calorosa de cooperação benevolente entre Sul-Sul, um contrapeso essencial ao “velho” Ocidente e um melhor parceiro para as massas pobres do mundo em desenvolvimento.

“Nós achamos que há muito tapinha nas costas”, afirmou Patrick Bond do centro de Sociedade Civil da Universidade de KwaZulu-Natal, que ajudou a organizar uma reunião alternativa “Brics-de-baixo” em Durban para obscurecer a reunião de cúpula dos Brics na terça e na quarta-feira. Bond e outros críticos do lema Sul-Sul dos Brics dizem que os países em desenvolvimento que recebem investimento e assistência dos novos poderes emergentes precisam olhar de perto, e com firmeza, os acordos que estão sendo firmados.

Debaixo da aparência fraternal, Bond vê uma “competição imperial incoerente” sem diferenças com a corrida do século 19. Segundo ele, os membros dos Brics estão explorando e cobiçando de maneira similar os recursos africanos, sem impulsionar suficientemente a industrialização e a criação de empregos, muito necessários no continente. Esta visão ganhou alguma força na África com cidadãos desde Guiné e Nigéria a Zâmbia e Moçambique vendo cada vez mais as companhias brasileiras, russas, indianas, chinesas e sul-africanas arrematando acordos multibilionários de petróleo e mineração e grandes projetos de infraestrutura.

 

BRICs encontro 2013 - foto 3 R Stuckert - Palácio do Planalto

Muitos destes negócios estão sob escrutínio de grupos locais e internacionais de direto. Muitos desses acordos tem enfrentado críticas de que concentram-se fortemente na extração de matéria-prima, que não são transparentes e que não geram emprego e benefícios ao desenvolvimento suficientes para os países que os recebem –mesmas críticas feitas muitas vezes a empresas do mundo desenvolvido do Ocidente.

Nova forma de imperialismo 

Ativistas anti-pobreza afirmam que as grandes empresas dos Brics que atuam na África buscam o lucro, assim como as empresas do mundo rico. “Questões de ganância são universais e seus atores vêm tanto do Norte e como do Sul”, disse Wahu Kaara, ativista pela justiça social do Quênia e coordenador da Rede de Alívio da Dívida do Quênia que participa da reunião “Brics-de-abaixo”.

Essa desconfiança em relação aos novos investidores na África tem também permeado alguns círculos governamentais no continente. Alertando que a África está se abrindo a “uma nova forma de imperialismo”, o presidente do Banco Central da Nigéria, Lamido Sanusi, acusou a China, agora a segunda maior economia do mundo, de agravar a desindustrialização e o subdesenvolvimento da África.

“A China leva nossos bens primários e nos vende manufaturados. Esta foi também a essência do colonialismo”, escreveu Sanusi em uma coluna de opinião no dia 11 de março, no jornal Financial Times.

“África deve reconhecer que a China – como os EUA, a Rússia, a Grã-Bretanha, o Brasil e o resto – está na África não no interesse africano, mas no seu próprio interesse”, acrescentou Sanusi. Os chineses e outros líderes dos Brics rejeitam indignados as críticas de que o grupo representa um tipo de “sub-imperialismo” no engajamento político e econômico crescente com a África.

Zhong Jianhua, o enviado especial da China para a África, disse à Reuters que a história comum da China e da África de resistência ao colonialismo coloca seu relacionamento em um nível diferente. “A China foi intimidada por outros no passado, e assim foi a África. Esta experiência compartilhada significa que eles têm muito em comum. Esta é a vantagem da China e a razão pela qual muitos países ocidentais estão em desvantagem”, disse ele em entrevista à Reuters.

Zhong acrescentou que a China deve incentivar suas empresas a formar e contratar mais trabalhadores africanos, respondendo a queixas de que investidores chineses muitas vezes usam suas próprias forças de trabalho. Catherine Grant-Makokera, do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA), disse que os governos dos Brics operam visivelmente de modo diferente do Ocidente na forma como oferecem financiamento e auxílio para as nações da África.

“Você tem visto uma maior disposição dos agentes mais novos para investir em coisas como infraestrutura pesada, seja por meio do financiamento ou simplesmente subvenções ou doações”, disse Grant-Makokera, chefe do programa para a diplomacia econômica do SAIIA. Ela reconheceu, contudo, que a abordagem dos Brics no auxílio ao desenvolvimento, ao mesmo tempo que oferece respostas mais rápidas dos projetos, muitas vezes é menos contida por questões ambientais e trabalhistas. Isso levou a acusação de que empresas dos Brics, em sua pressa para desenvolver projetos de recursos naturais, desrespeitam os direitos das comunidades locais e o meio ambiente.

BRICs encontro 2013 - foto 2 R Stuckert - Palácio do Planalto

A gigante brasileira da mineração Vale, nomeada em 2012 pelo grupo suíço sem fins lucrativos Public Eye como a empresa com o maior “desprezo para o meio ambiente e os direitos humanos” no mundo, defende sua ação em Moçambique, onde está investindo bilhões de dólares na exploração de carvão e infraestrutura.

A Vale tem enfrentado manifestações violentas de moçambicanos que exigem maiores benefícios e são contra os deslocamentos forçados das populações locais. O chefe das operações da Vale na África, Ricardo Saad, disse que o fato de a empresa ter experimentado “problemas” não significa que poderia ser acusada de comportamento “neocolonialista” na África. Ele disse que as potências coloniais só vieram e tomaram os recursos do continente, sem consultar o povo, e que os contratos atuais são negociados com governos e comunidades. “A partir do momento que eu procuro uma licença para operar, onde você fala com a comunidade, onde tudo que você faz tem autorização e planejamento prévio do governo, eu não posso dizer que é neocolonialismo”, disse Saad à Reuters.

Analistas de desenvolvimento dizem que os Brics, com suas economias, governos e prioridades competitivas radicalmente diferentes, ainda precisam demonstrar que podem mudar as estruturas de poder global para o benefício dos pobres e desprivilegiados do mundo. “O fato de que eles estão pressionando por um novo equilíbrio de poder no mundo tem de ser salientado como uma coisa positiva … eles têm novas vozes”, disse Nathalie Beghin da organização brasileira pró-democracia INESC.

Catherine Grant-Makokera, do SAIIA, diz que os Brics oferecem aos países em desenvolvimento outras opções de ajuda e investimento como alternativa aos velhos parceiros ocidentais. “Pelo menos você tem uma diversidade agora, eu não acho que isso pode ser subestimado”, disse ela.

FONTE: Reuters (reportagem de Pascal Fletcher)

FOTOS (presidente Dilma Rousseff na V Cúpula dos Brics, em 26-3-2013 – fotos R. Stuckert): blog do Planalto

Tagged with:
 

c10_17886943

vinheta-clipping-forte1O Secretário-Geral da ONU pediu ao Conselho de Segurança que autorize o envio de uma Brigada de Intervenção para fazer frente às ameaças à paz e segurança na República Democrática do Congo, RD Congo.

Num informe ao órgão, apresentado terça-feira, Ban Ki-moon disse que a força deve integrar a Missão da ONU no país, Monusco.

A proposta prevê que a brigada tenha a capacidade de realizar “com ou sem o exército congolês”, operações ofensivas contra grupos armados que ameaçam a paz no leste  do país.

A ONU refere que a região está propensa a ciclos de violência e ao sofrimento humanitário. A força deve atuar por um período inicial de um ano.

O Secretário-Geral disse que a proposta foi submetida ao Conselho após uma solicitação feita inicialmente pelos atores regionais. O objetivo é abordar as ameaças iminentes à estabilidade, “com uma resposta mais adequada para o ambiente de conflito” ativo há vários anos.

Ban disse que a tarefa da Brigada de Intervenção será a de conter o aumento de grupos armados congoleses e estrangeiros, através da sua neutralização e desarmamento.

O secretário-geral da ONU disse que a criação da força visa apoiar os objetivos políticos do Quadro de Paz, Segurança e Cooperação para a RD Congo e para a região dos Grandes Lagos. Em Fevereiro, um acordo para o efeito foi assinado na capital etíope, Addis Abeba.

O Secretário-Geral destacou que organização será uma espécie de avalista do pacto, juntamente com a União Africana, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, Sadc, e a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos.

Ban Ki-Moon disse ainda que as partes entendem  que a “assinatura do quadro é um princípio e não um fim”,  e anunciou para breve a nomeação de um enviado especial para apoiar a sua implementação com os envolvidos.

Estima-se que um milhão de pessoas foram deslocadas da província de Kivu Norte, na sequência de confrontos entre rebeldes do grupo M23 e o exército congolês ocorridos no ano passado.

O número elevou o total de deslocados internos no leste da RD Congo para 2,6 milhões, defendem as Nações Unidas.

FONTE: Resenha do Exército

logovinheta-clipping-forte1A criação de um fundo para financiar projetos na América do Sul e na África divide governos das duas regiões.

Enquanto africanos pressionam para tirar do papel a proposta pensada ainda 2009, países como o Brasil, Venezuela e Colômbia resistem à ideia de montar um fundo de contribuições voluntárias para bancar projetos de infraestrutura e energia.

A possibilidade de o Brasil ser um dos principais doadores de um fundo formado por países ainda em desenvolvimento assusta o governo da presidente Dilma Rousseff e é vista, ao mesmo tempo, como uma atraente oportunidade pela maioria dos africanos.

Essas diferenças ficaram explícitas ontem, no primeiro dia da 3ª Cúpula ASA (América do Sul-África), que reúne em Malabo, capital da Guiné Equatorial, representantes de 66 países até sexta.

A discussão sobre a criação do fundo esquentou os debates de altos funcionários. O assunto será debatido por chanceleres e chefes de Estado, entre eles Dilma, que chega a Malabo na noite de hoje.

A solução tem tudo para ser, literalmente, diplomática. O Brasil sugeriu que um grupo de trabalho seja criado para debater a proposta e, em setembro, apresentar o formato do fundo. Mas, se não houver consenso, poderá ficar nas mãos dos chefes de Estado a decisão final.

“Podemos fazer muito sem um fundo”, disse aos colegas diplomatas a embaixadora Maria Edileuza Fontenete Reis. Foi ela quem conduziu as reuniões de ontem e tentou, de todas as formas, frear a ansiedade de representantes de países africanos.

FONTE: Folha de S. Paulo  via Resenha do Exército

Tagged with:
 

2012.03.30.china-africa

Fernando Exman

vinheta-clipping-forte1O governo federal quer aproveitar a viagem que a presidente Dilma Rousseff fará nesta semana à África para tentar reforçar ainda mais a presença das empresas brasileiras na região. O desafio, entretanto, é grande: além do desconhecimento de parte considerável do empresariado sobre as potencialidades do mercado africano, as empresas brasileiras precisam enfrentar a concorrência de outras companhias estrangeiras, principalmente da China. Está em jogo um mercado de aproximadamente 1 bilhão de consumidores, com demanda em alta pelos mais vários tipos de bens e serviços e um crescimento econômico superior à média mundial.

Dilma participará na sexta-feira da cúpula América do Sul – África (ASA), em Malabo, Guiné Equatorial. O tema do encontro é justamente o fortalecimento da cooperação entre países em desenvolvimento. Em seguida, ela desembarcará na Nigéria, parceiro considerado estratégico no continente.

 

“A China tem ganhado participação na África. Mas, em termos de comércio, o crescimento da participação da China na África não é em detrimento da participação brasileira. O Brasil também cresceu seu “market share” em detrimento de outros”, disse a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Tatiana Prazeres, destacando que a participação do continente africano nas exportações brasileiras passou de 3,9% para 5% entre 2003 e 2012 e as importações permaneceram em 6% do total no mesmo período.

Na avaliação de autoridades brasileiras, a oferta de linhas de crédito vem tendo um papel estratégico na disputa pelo mercado africano e os ambiciosos programas de financiamento da China têm feito a diferença. Como consequência, um grupo de trabalho coordenado pela Presidência da República discute novas formas de impulsionar o comércio com o continente africano. Um dos aspectos discutidos é o lançamento de mecanismos de financiamento.

Em 2010, registra um estudo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a China substituiu o Banco Mundial (Bird) como principal fonte de financiamento dos países africanos. Entre 2001 e 2010, os empréstimos concedidos à África pelo Exim Bank chinês, instituição voltada ao fomento às exportações e importações do país asiático, foram estimados em US$ 67,2 bilhões. Já os financiamentos do Banco Mundial nesse mesmo período totalizaram US$ 54,7 bilhões.

O próprio Banco Mundial já analisou a questão. No relatório “Construindo pontes: O papel crescente da China como financiadora da infraestrutura da África Subsaariana”, de 2009, o Bird mostrou que o crescimento do comércio entre a China e a África foi acompanhado por uma maior ajuda econômica oferecida pelo país asiático a partir de 2001. Em contrapartida, diversas obras de infraestrutura executadas pelos chineses na África têm como garantia ou são pagas com petróleo, minério de ferro, cromo ou cacau, diz o Bird. Hoje, a China é o principal fornecedor do continente, e encontra na África um destino para os seus produtos de alto valor agregado. O país asiático também se consolida como o maior comprador de produtos africanos, ultrapassando os Estados Unidos.

A China demonstra que pretende manter tal papel. Em agosto de 2012, anota o estudo do Ministério do Desenvolvimento, o país anunciou a concessão de crédito de US$ 20 bilhões em três anos para projetos de infraestrutura, agricultura e desenvolvimento na África.

Num ritmo mais tímido, o Brasil também tem disponibilizado apoio às exportações à região. Entre 2008 e 2012, por exemplo, o valor desembolsado por programas oficiais alcançou US$ 4,8 bilhões.

O Brasil ainda mantém uma série de programas de cooperação técnica com o continente. Cerca de 150 iniciativas em aproximadamente 40 países são mantidas pelo Brasil, segundo o Itamaraty.

Outro sinal da maior aproximação entre o Brasil e a África é o crescimento do total de empresas brasileiras que atuam no comércio bilateral. Enquanto o total de empresas brasileiras exportadoras caiu nos últimos anos, o número de empresas que vendem para a África subiu 39% entre 2003 e 2012, para 3.810. Já as empresas que importam produtos africanos totalizaram 1.739 em 2012, alta de 84%.

O Ministério do Desenvolvimento também prevê uma alta nas exportações de serviços por parte de empresas brasileiras e, consequentemente, uma elevação dos embarques de bens relacionados a esses projetos. Nas contas do ministério, cada US$ 100 milhões em exportações de serviços geram US$ 30 milhões em exportações de equipamentos e outros produtos.

“Esses investimentos brasileiros na África puxam consigo exportações de bens que de outra maneira dificilmente ocorreriam”, afirmou Tatiana Prazeres, destacando ser uma característica da balança comercial Brasil-África a atuação de “trading companies” de propriedade das construtoras brasileiras. “As exportações são feitas por uma empresa, a comercial exportadora, que traz produtos de empresas de menor porte.”

FONTE: Valor Econômico, via resenha do EB

Tagged with:
 

130451074

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

vinheta-clipping-forte1A intervenção francesa no Mali tem origem na disputa por riquezas minerais–urânio para as usinas nucleares francesas, por exemplo– e na herança colonial da região. Fronteiras artificiais impostas pelas potências no século 19 fraturaram povos, gerando insatisfações.

A análise é do historiador Elikia M’Bokolo, 68, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais em Paris, e professor da Universidade de Kinshasa (Congo). Para ele, há “um novo imperialismo”, no qual as velhas potências europeias precisam lidar com o apetite de emergentes como a China.

Bokolo, congolês especializado em temas do pan-africanismo, diz que a crise no Mali pode se reproduzir com a mesma violência nos países vizinhos, como Niger, Mauritânia e Chade. Isso porque, a guerra atual também é consequência “da estupidez do Ocidente” ao derrubar Muammar Gaddafi.

Nesta entrevista, concedida por telefone de Paris, o historiador fala da oposição à guerra na França, onde ainda paira a síndrome do Vietnã. E alerta para assassinatos de tuaregues em vilas: “Não se pode transformar essa guerra numa guerra cultural e religiosa”, afirma.

Folha – Como o sr. analisa a situação no Mali?

Elikia M’Bokolo – É fluida e incerta. A ação francesa é uma intervenção de uma antiga potência colonial. Tem uma imagem negativa para os africanos e malianos.

Quais são as causas do conflito?

Há várias razões. A primeira é que essa grande região –que vai da Mauritânia ao Chade até a Etiópia– é muito instável, com uma população nômade. Esta teve um papel histórico muito importante no passado, fazendo as trocas entre a África negra e a África árabe, mediterrânea.
Com as fronteiras coloniais, a população se fracionou em muitos Estados. É um primeiro ponto de descontentamento. Essa população sonha em refazer uma junção territorial. Assim, haveria liberdade de movimento, sem as limitações de fronteiras impostas pela colonização.

Quais são as outras razões?

Depois da colonização e, sobretudo, depois dos anos 1960, o novo poder africano reteve a lógica territorial colonial. Toda essa população, considerada periférica e marginal pelas potências colonizadoras, hoje em dia reivindica uma situação melhor do ponto de vista político e social.
A terceira razão é o apetite das potências capitalistas desenvolvidas por essa região desértica. É sabido já há algum tempo que ela tem petróleo, gás natural, urânio. E também o sol. Antes da intervenção francesa, a Alemanha tinha começado a desenvolver uma ideia de gerar eletricidade a partir da energia solar e transportá-la para a Europa.

Qual a razão mais importante?

Os países ocidentais têm interesse em colocar ênfase sobre o lado étnico, religioso, de instabilidade. Nada falam sobre a economia, os recursos naturais.
Esse é o lado importante. As grandes empresas francesas estão no Mali, no Niger. A maior parte da eletricidade produzida pelas centrais nucleares francesas é feita com o urânio que vem da África. Todo mundo sabe que a região é um reservatório importante de minerais.

A França fala da ação de radicais, da Al Qaeda. É ficção?

Não é tudo ficção. É verdade que o Mali é um país muçulmano há dezenas de séculos. Mas lá o islã  sempre foi moderado. Há uma grande tolerância em relação àqueles que não praticam a religião. O consumo de álcool, por exemplo, é permitido. O islã não é uma razão importante [para o conflito], mesmo que exista um certo número de muçulmanos que têm um ponto de vista extremista, da Al Qaeda ou de outros grupos islâmicos. Não se pode transformar essa guerra numa guerra cultural e religiosa.

A França advoga que há uma ameaça.

A França tem uma posição ambígua em relação à África. Mesmo um presidente socialista como François Hollande adota esse discurso civilizatório, de que há risco, ameaça, violação de direitos humanos, despeito à constituição democrática. Tudo é discurso para a opinião pública. Na verdade as questões são mais complexas. O governo francês joga em duas linhas: a ideológica, quase moral, e a linha econômica e financeira em defesa de seus interesses.

A França tem o direito de intervir no Mali?

Não. Os países africanos começam agora a se apressar para organizar tropas.

Opération Serval Mali Janvier 2013

É certo considerar que existe uma guerra imperialista em curso?

Sim. A África hoje é o continente que tem mais recursos naturais, alguns extremamente raros e os países europeus desenvolvidos querem essas riquezas.

E os chineses?

São recém-chegados. O grande medo do Ocidente é que coloquem as mãos sobre esses recursos. Para que a China não esteja lá, se multiplicam uma série de práticas. Uma delas são as intervenções chamadas de humanitárias. Também há o estímulo a guerras civis e a guerras separatistas, para que ocorram situações em que as empresas ocidentais possam utilizar esses recursos. A guerra econômica avança mascarada. Falamos todo o dia de guerras étnicas, humanitárias. Mas as questões são econômicas. É um novo imperialismo, no qual o velho imperialismo do mundo ocidental tem que lidar com o apetite dos países emergentes, sendo a China o principal exemplo.

Como é esse novo imperialismo em comparação com o do século 19?

No século 19 as potências coloniais não conheciam os recursos que estavam no subsolo. Hoje, conhecem. Sua estratégia é dizer que a África em geral pertence ao Ocidente. E que a China –e, depois de amanhã, a Índia, o Paquistão, Turquia, talvez o Brasil– e esses outros países emergentes não têm nada a ver com a África. Isso, eventualmente, pode até desandar num conflito de caráter mundial entre a China e as velhas potências.

Isso seria possível?

Não creio que seja imediatamente possível, mas não estou convencido de que isso seja impossível. Todas essas potências que atuam no continente africano são superarmadas, têm arsenais importantes, bombas atômicas. Nós, africanos, não temos nada.

O que vai acontecer? A guerra será longa? Os EUA vão intervir?

É difícil a situação. A França conseguiu assegurar um número de pontos com cerca de 2.000 soldados. É preciso lembrar que a região é quase desértica. Apesar da experiência colonial da França nesse ambiente, os rebeldes conhecem melhor o lugar do que as tropas francesas.
A opinião pública e parte da classe política francesa –à direita e a esquerda– começaram a dizer que a guerra dura muito. Há o temor de um novo Vietnã. A síndrome do Vietnã está nas mentes. Há também os problemas propriamente franceses: a crise econômica, o desemprego, a inseguridade. Alguns dizem que o governo deveria cuidar desses problemas antes de qualquer coisa.
Não estou certo de que os Estados Unidos irão intervir. A França é o único país que tem na região um número considerável de cidadãos. Não creio que os EUA e a União Europeia se envolvam numa guerra tão incerta. Não é normal que, depois de 50 anos depois da independência, as antigas potências coloniais façam ações pela ordem e pela lei na África Ocidental.

A pressão interna na França contra a guerra vai aumentar?

Sim. Porque o presidente socialista teve posições contra a Françafrique [ação neocolonial da França na África]. Se a guerra durar muito tempo, as pessoas vão começar a se interrogar sobre as suas razões. A esquerda radical, com Jean-Luc Mélenchon [candidato da Frente de Esquerda nas últimas eleições, ele obteve 11% dos votos], disse que essa intervenção se parece muito com a Françafrique.
Não sei se pode dizer isso já. A ação no Mali pode isolar o governo atual em relação à esquerda. E também em relação aos ecologistas. Ao mesmo tempo, a direita e a extrema direita vão jogar para defender os interesses de certas empresas de urânio, de minerais etc. É uma situação muito difícil, e o governo francês vai querer fazer a operação militar o mais rapidamente possível.

O conflito está relacionado com a derrubada de Gaddafi?

A questão não é étnica, dos tuaregues. É verdade que, quando a França e os outros países decidiram eliminar Gaddafi e o assassinaram, não puderam conter todas as consequências dessa intervenção. O regime de Gaddafi representava um ponto de estabilidade na África do Norte, mas também era a passagem entre a África subsaariana e a mediterrânea. Derrubando Gaddafi e improvisando essa situação supostamente democrática –mas que não representa ninguém–, eles destruíram o Estado da Líbia. Destruíram o controle sobre as armas, a circulação de pessoas, os serviços de segurança etc. As armas reativamente sofisticadas, os veículos militares estão nas mãos de grupos armados, que sabem que ninguém controla essa região há muito tempo.
A guerra do Mali é uma consequência do afundamento do regime de Gaddafi. É uma consequência da estupidez do Ocidente. Estão perto de tombar sobre os próprios pés. O que se passa no Mali hoje pode se reproduzir amanhã com a mesma violência no Niger, na Mauritânia, no Chade, e ninguém tem o poder de controlar isso.

Como reage a população do Mali?

A população é muçulmana e pratica um islamismo muito moderado há muito tempo. A presença importante dos tuaregues nesse conflito –e eles não estão sozinhos– representa um risco extremamente grave. Há tuaregues que não tem nada a ver com isso, são livres, independentes. Isso pode levar até a um tipo de racismo. É particularmente sério o que já começou a ser visto em um certo número de vilas. Há mortes, assassinatos de tuaregues. Isso pode se enraizar na região e durar dez, 20, 30 anos, pois é uma região muito difícil de controlar.
E a solução das armas não é a verdadeira solução. A solução é política, democrática, com uma nova forma de Estado, descentralizado, dando possibilidade para a população dividida pelas fronteiras coloniais se organizar e tornar possível uma integração.
A crise atual no Mali mostra que os africanos precisam superar as divisões. São mais de 50 Estados. Não é possível. No Mali é necessário ouvir o que sindicatos, ONGs, intelectuais têm a dizer. Uma parte desses líderes se opõe à intervenção francesa e prefere uma solução africana. Não é normal que um estrangeiro entre na nossa casa, que ataque o nosso próprio irmão.

FONTE: Folha de S. Paulo

VEJA TAMBÉM:

Tagged with:
 

Um novo estado islâmico na África

(El País, 28) 1. Nasceu o Estado islâmico de Azawad, onde vigerá a sharia (lei islâmica). Não goza de reconhecimento internacional ainda. Sua fundação foi celebrada, dia 26 de maio, com disparos para o ar e gritos de “Alá Venceu”, nas cidades de Tombuctú e Gao, no norte de Mali que os tuaregs chamam de Azawad.

2. O acordo supõe uma vitória relativa da corrente islamista radical, não terrorista, de Ansar Dine (Defensores da Fe), sobre os laicos separatistas do Movimento Nacional de Libertação de Azawad – MNLA. As duas guerrilhas tuaregs firmaram o acordo no sábado em Gao, após vários dias de negociação. Um acordo para proclamar a independência do território situado a 1.200 quilômetros de Canárias – abarca 830.000 quilômetros quadrados, 1,3 milhões de habitantes e três cidades com seus aeroportos.

3. Vão formar um Governo paritário e criar uma chura (assembleia consultiva) na que a tendência islamista ocupará dois terços das cadeiras. O Alcorão e a Suna serão a fonte do direito.

Tagged with:
 

Ditador acusa ‘juventude drogada’ de desestabilização e promete retomar controle de cidades rebeladas

TRÍPOLI – O ditador Muamar Kadafi voltou à televisão na Líbia para confirmar que não vai deixar o poder e alertar que lutará contra os manifestantes que pedem sua renúncia. “Não deixarei a Líbia. Morrerei aqui como mártir. Sou um lutador”, disse o coronel em novo discurso nesta terça-feira, 22, quando seu país entrou no sétimo dia de protestos contra o governo.

Hoje, Kadafi falou em tom ameaçador. Disse que ainda não usou força para coibir os protestos, mas que a usará “se for necessário”. Ontem, Kadafi mandou jatos da Força Aérea bombardear manifestantes. Ele prometeu também tirar Benghazi, a segunda maior cidade do país, do controle dos manifestantes.

Kadafi culpou a juventude líbia, a imprensa internacional, o terrorismo islâmico e os EUA pelo caos no país e afirmou que a imagem da Líbia está sendo “distorcida” perante o mundo.

“Vocês conhecem alguém decente que participa disso? São todos bêbados e drogados”, disse, sobre os jovens que participam dos protestos. O ditador pediu ainda às mães dos manifestantes que os entreguem ao governo para uma “desintoxicação”.

O líder líbio vinculou também os protestos a radicais islâmicos que atuam no Afeganistão e na Somália e dizem que a mídia internacional está, ao mesmo tempo, a serviço da Al-Qaeda e dos EUA. “Os jornalistas seguem as ordem de Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri e converterão a Líbia em algo pior que o Afeganistão”.

Kadafi ainda usou uma argumentação peculiar para descartar a renúncia. “Não sou presidente, não posso renunciar. Mas se tivesse um cargo renunciaria e esfregaria isto na cara de vocês”, disse. Após o golpe de 1969, Kadafi criou uma ‘república das massas’ na Líbia, onde, em teoria, quem governa é o povo. Na prática, o país é uma ditadura.

A Líbia tem vivido dias de tensão por conta das manifestações contra o coronel. Nos últimos dias, houve escalada da violência e quase 300 pessoas morreram devido à repressão das forças armadas e do choque entre manifestantes e simpatizantes do governo. Testemunhas disseram que aviões e helicópteros militares bombardearam marchas na segunda-feira e que havia mercenários pagos pelo governo para disparar contra a população na capital, Trípoli.

As marchas em Trípoli, Benghazi e outras cidades líbias seguem-se às revoltas populares que derrubaram ditaduras que duravam décadas no Egito e na Tunísia. Kadafi está no poder na Líbia há 41 anos e mantém os militares e a mídia do país sob forte controle. O país tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África, mas a riqueza obtida com o abundante petróleo não é bem distribuída entre a população. O índice de desemprego é de cerca de 30%.

FONTE: Estadão / Agências