Temer é opção para a Defesa

Após desgaste por ter declarado voto em Serra, ministro Nelson Jobim faz juras de amor ao Palácio do Planalto e à presidente, mas Dilma estuda indicar seu vice para assumir a pasta

Denise Rothenburg e Ullisses Campbell

Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff vem cogitando adotar no Ministério da Defesa a mesma saída à qual recorreu seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, quando perdeu seu ministro José Viegas, no fim de 2004: substituir o titular da pasta pelo vice-presidente da República. Na ocasião da demissão de Viegas, José Alencar assumiu o posto que Dilma agora pensa em dar a Michel Temer.

Ontem à noite, a presidente se reuniu com Temer por mais de uma hora. O peemedebista, entretanto, resiste à ideia. Seus fiéis colaboradores no partido têm dito a ele que, no papel de vice-presidente, está mais solto para cuidar da política. Como ministro, não teria tanto tempo assim. Além disso, Nelson Jobim não deseja deixar o cargo. Depois de ter irritado Dilma ao dizer que havia votado no adversário dela, José Serra, na eleição presidencial do ano passado, Jobim aproveitou uma entrevista dada ontem ao programa Roda viva, da TV Cultura, em São Paulo, para tentar reconstruir os laços com a presidente. Ele justificou a revelação de que votou no tucano alegando que “todo mundo sabia” das suas relações com o ex-governador paulista. “Não sou dissimulado. Sempre disse o que pensava e o que fazia”, destacou.

Jobim afirmou que gostaria de permanecer no governo e negou que a sua relação com a presidente tenha “azedado” depois de declarar abertamente que votou em Serra. O ministro também negou que exista pressão para que ele deixe o cargo. Em determinado momento da entrevista, fez algo raro: elogiou de forma exagerada a figura da chefe, até mesmo em momentos nos quais não havia contexto para tanto: “A presidente é extraordinária e minha relação com ela é ótima, não tem problemas”, disse, em tom enfático. O ministro afirmou ainda: “Estou no governo porque me dá prazer” e deixou claro que, se depender dele, não entrega o cargo. A entrevista foi veiculada na noite de ontem.

Jobim não trabalha com a hipótese de deixar o governo, tanto que falou de planos para a pasta, como a formulação de um texto legal que dê garantias para projetos de longo prazo do ministério que comanda. Segundo ele, são projetos considerados estratégicos por Dilma e que não devem ser interrompidos caso sejam alvo de contingenciamento orçamentário. O objetivo da medida, segundo o ministro, é assegurar o investimento do setor privado a projetos de longa maturação. “São projetos estratégicos que possam assegurar que o setor privado possa investir num prazo de 20 anos para o cumprimento de um determinado projeto que tenha maturação de 10 ou 20 anos”, explicou.

Sobre os escândalos no Ministério dos Transportes, Jobim disse que se trata de “ajustes” e que não enxerga uma crise. “Nós podemos pensar que o processo democrático é um processo tranquilo”, justificou. Segundo ele, não há problemas no fato de o governo examinar os contratos de obras em rodovias firmados por meio de convênio entre o exército Brasileiro e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). A Procuradoria-Geral da Justiça Militar investiga suspeitas de fraudes nos empreendimentos, que envolveriam oito oficiais, num desvio de recursos públicos que teria chegado a R$ 11 milhões.

IRRITAÇÃO - A irritação de Dilma com Jobim não vem de hoje. Na China, ela chegou a conversar sobre os caças russos com o primeiro-ministro Vladimir Putin, sem falar com seu ministro. Quanto à homenagem ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Brasília, há um mês, Jobim ressaltou no discurso que FHC “nunca levantou a voz para ninguém”. O comentário soou provocativo, porque Dilma tem fama de se alterar com os subordinados.

Ainda naquele pronunciamento, Jobim citou Nelson Rodrigues de uma maneira dúbia, que desagradou não só à presidente, como a todo o PT. “Ele (Nelson Rodrigues) dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento.” Na época, o ministro disse que havia se referido à imprensa.

FONTE: Estado de Minas

O vice-presidente Michel Temer defendeu nesta quinta-feira (16), em Recife (PE), a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais classificados como ultrassecretos e a liberação dos atos secretos, confidenciais e reservados após um prazo determinado.

“A discussão que está se pondo é a seguinte: nos casos dos atos ultrassecretos, dos pontos mais graves para o país apenas três hipóteses seriam passíveis de prorrogações em função do sigilo”, afirmou Temer, referindo-se aos assuntos de fronteira, de segurança nacional e relações internacionais.

“E não significa sigilo eterno, porque daqui a 25 anos pode-se entender que nem essas três hipóteses devam ser mantidas em sigilo. Então, é preciso colocar as discussões nos seus parâmetros corretos. Não é o sigilo de todo e qualquer documento, só dos atos ultrassecretos e, dentre eles, alguns pontos”, disse o vice-presidente.

“Em relação aos atos em geral, eu sou a favor do sigilo por um prazo determinado, e não mais do que isso.”

A posição do líder peemedebista é a mesma da presidente Dilma Rousseff e contrária à bancada do PT no Senado, que defende o fim do sigilo eterno dos documentos ultrassecretos.

Projeto enviado há dois anos pelo governo Lula ao Congresso reduz de 30 para 25 o prazo do sigilo dos papéis ultrassecretos, mas permite a renovação por igual período, indefinidamente.

Emenda aprovada em 2010 na Câmara estabelece, porém, que a renovação do sigilo só pode ocorrer uma vez, o que limita ao máximo de 50 anos o prazo para a liberação das informações.

O governo quer derrubar a emenda no Senado, mas o PT é contra. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, considera o sigilo eterno inconstitucional.

GASTOS COM A COPA

Em Recife, onde participou da abertura de um seminário sobre a reforma política, Temer negou que o sigilo imposto pelo governo às informações sobre os orçamentos para as obras da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil, noticiado hoje pela Folha, dificulte a fiscalização dos gastos.

“Na verdade, o que há é uma flexibilização do sistema de licitação, mas com ampla fiscalização”, afirmou ele. “Não significa que não vá haver fiscalização em função dessa flexibilização.”

A decisão de manter em segredo os orçamentos foi incluída na medida provisória 527. Com a mudança, o público não saberá se os valores contratados estão acima ou abaixo do previsto. Apenas órgãos de controle receberão os dados, e quando o governo quiser.

FONTE: Folha Online

Temer próximo Ministro da Defesa?

Por Rosângela Bittar

Especialista em negociar divisões de poder e nomeações, além de exímio na arte de ficar com a melhor parte, o deputado Michel Temer, vice-presidente eleito, presidente do PMDB e presidente da Câmara, dono da voz do partido como integrante da equipe de transição de governo, está em campanha para ficar também, de forma cumulativa, com o Ministério da Defesa.

Essa informação tem saído da cúpula do partido, desde o fim de semana passado, para a imprensa e interlocutores da presidente eleita, Dilma Rousseff. Temer não a desautorizou.

O PMDB não gosta muito da solução. Por sinal, o partido queria tirar o Ministério da Defesa de Nelson Jobim. Não para dar o posto a alguém, mas para retirá-lo da relação de seus representantes.

Segundo a argumentação dos amigos de Temer, ao revelar seus propósitos, a Vice-Presidência é tediosa e tem poucos instrumentos de ação política direta. Acham que ele desempenharia satisfeito o conjunto de atribuições de Ulysses Guimaraes e José Alencar somados.

Ulysses foi presidente do PMDB, da Câmara e da Constituinte ao mesmo tempo, e Alencar foi, num período do governo Lula, vice-presidente e ministro da Defesa.

Foi um desastre, o vice de Lula não foi bem na Defesa e não conseguiu construir um projeto de Vice-Presidência para si.

As forças militares não se adaptaram ao modelo de ter alguém indemissível a
chefiá-los.

O vice-presidente é politicamente muito demandado por deputados e senadores que não conseguem chegar ao presidente. Alencar passava rápido no Ministério da Defesa, assinava uns papéis e ia para a Vice-Presidência atender políticos.

Os militares reclamavam, os ministérios que têm interfaces, como Ciência e Tecnologia e Relações Exteriores, queixavam-se da ausência do ministro da
Defesa, e a insatisfação era generalizada.

Embora discordando porque teme ver o Ministério da Defesa incluído na sua cota, o partido vocaliza o desejo de Temer. Coincidem essas manifestações do PMDB com a divulgação insistente, no Congresso e nas proximidades da equipe de transição, da iminente mudança de posto de Nelson Jobim.

Estaria de saída da Defesa para o Itamaraty não apenas pelo lobby contra ele das empresas que se engalfinham pela licitação dos caças, um longevo litígio.

Jobim seria cota do presidente Lula e não do partido, Jobim seria ligado aos adversários de Dilma e ficaria no posto mesmo se o PT perdesse a eleição, o governo não precisa mais dele como equilíbrio dos votos no Supremo Tribunal Federal porque já tem a maioria dos ministros que alí atuam, enfim, uma infinidade de razões para defenestrar o ministro e abrir a vaga para Temer.

É um serviço que os líderes prestam ao seu presidente, mas o que o PMDB gostaria mesmo é trocar a Defesa por um ministério de maior densidade política para dar a um deputado ou senador com mandato.

Jobim está na mesma situação de Henrique Meirelles, com quem o PMDB fez um acordo para ele desistir de brigar pela Vice-Presidência na chapa de Dilma. Prometeram incluí-lo em primeiro lugar na indicação para um ministério de grande visibilidade política para ser candidato a presidente, como gostaria.

Agora, o partido o renega e sugere que não é seu representante, que o governo deve deportá-lo para ser embaixador do Brasil em Washington.

O partido quer os seus ministérios e os cargos em estatais para deputados e senadores.

É a ditadura das bancadas. Nem bem refeita do aprendizado intensivo da campanha eleitoral, a presidente eleita, Dilma Rousseff, terá, neste mês e meio que a separa da posse, a dificuldade extrema da montagem do seu esquema tático de governo com esta aliança de tantos partidos na qual se destacam, em matéria de criar problemas, dois deles.

Além do PMDB, as demandas do PSB, que cresceu muito nas eleições e quer
correspondente consideração da chefe do governo.

O partido presidido e liderado por Eduardo Campos, governador de Pernambuco, que elegeu cinco governadores e uma grande bancada, quer ampliar sua força no Executivo, hoje restrita ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

O ministro Sergio Rezende não quer ficar mais, é um cientista que
deseja voltar às suas tarefas acadêmicas, e o partido pretende trocar esta área por outras de maior significado político.

Tanto para o PMDB como para o PSB, os ministérios dos Transportes, com seus milhões do Dnit para tapar buracos, e das Cidades, com suas incríveis emendas para saneamento e habitação, seriam adequados aos novos projetos. Mas a coordenação política do governo não vê como tirar esses paraísos das mãos do PR e do PP, respectivamente.

Gabriel Chalita, eleito deputado, ensaia ser um problema para o PSB, já reivindica o Ministério da Educação, mas, a rigor, isto ainda não se constituiu em problema real tal o absurdo do pleito para quem acabou de ingressar na legenda.

Ciro Gomes, porém, é outra história. Acusa Lula de ter prejudicado sua
carreira com a transferência de domicílio eleitoral para São Paulo.

Não é liderado de Eduardo Campos nem seu líder, tem força suficiente para ser ou não ser ministro, se quiser.

Inclusive para Dilma evitar que fique solto e descompromissado com o governo, que faça alianças e acordos com Aécio Neves, promova projetos independentes com os governadores Cid Gomes (CE) e Renato Casagrande (ES), enfim, use e abuse de seu poder de fogo verbal. Deve receber um apelo irrecusável.

Se for convidado, como parece que será não dá para não imputar a escolha a uma das vagas do PSB, embora o comandante do partido, Eduardo Campos, assim não considere.

Então teria que haver outra vaga para o presidente do partido realmente indicar alguém que o representante.

Nesses dois partidos que adquiriram força com a eleição de 2010 estão as maiores dificuldades da presidente eleita.

O agravante é que estão divididos internamente.

Com o PT, até o momento, não surgiu dificuldade maior, fora a campanha do ex-deputado José Dirceu contra a nomeação de Antonio Palocci para um cargo na Presidência da República, mas o partido não está livre disso, há tempo.

Por enquanto contenta-se em ser o partido da presidente, ter a imensa
maioria dos melhores cargos e a certeza de que todas as correntes serão contempladas. Como ocorreu no governo Lula.

FONTE: Valor Econômico