O novo tabuleiro geopolítico: quem controla a narrativa, controla o poder

30
Geopolítica e Narrativa

Por Francisco Fernandes Ladeira*

As relações internacionais não são mais um jogo disputado apenas por Estados com seus exércitos e mapas. A antiga geopolítica, centrada no poder militar e numa visão determinista do território, tornou-se anacrônica. O poder hoje é disputado em múltiplas arenas: econômicas, culturais e, sobretudo, na esfera da informação.

Neste novo cenário, atores como corporações transnacionais, ONGs, blocos regionais e os conglomerados midiáticos dividem a cena com os tradicionais Estados-Nacionais. O poderio militar, embora crucial, já não é o único instrumento de análise para entender a busca por hegemonia. O conceito de soft power – a capacidade de influenciar através da cultura e das ideias – ganha força.

Nesse contexto, a mídia deixou de simplesmente noticiar os diferentes acontecimentos para se tornar um ator central. Como apontam estudiosos, a geopolítica é uma “construção discursiva”, e a mídia é uma das suas principais arquitetas. Ela define o que é importante, enquadra os acontecimentos e, portanto, em determinadas ocasiões, contribui significativamente para configurar mentalidades. Um evento que não é noticiado praticamente não existe no imaginário global.

Essa dinâmica cria uma relação complexa. Por um lado, a mídia pode ser um instrumento de poder. Governos e elites a usam para fabricar consenso em torno de suas agendas, como uma “guerra ao terror”. A diplomacia, outrora feita em salas fechadas, agora é performada para as câmeras, na chamada “diplomacia midiática”.

Por outro lado, a mídia também se tornou um campo de batalha. É uma “esfera pública internacional” onde diferentes atores, hegemônicos e contra-hegemônicos, disputam narrativas. Organizações consideradas “terroristas” pelo Ocidente aprenderam essa lição. Atentados como o 11 de Setembro foram meticulosamente planejados não apenas para causar destruição, mas para gerar imagens poderosas que corressem o mundo, incutindo medo e angariando atenção.

Dessa forma, ocorre uma simbiose inusitada: o “terrorismo” precisa da mídia para amplificar seu impacto, e a mídia, por vezes, se beneficia da audiência que esses eventos trágicos geram.

No entanto, é um equívoco reduzir fenômenos complexos como o “terrorismo” a uma mera estratégia de comunicação. Suas causas profundas são políticas, sociais e históricas. A mídia é um amplificador, não a origem.

Portanto, podemos concluir que uma análise geopolítica hoje é incompleta sem uma análise do discurso. A hegemonia no século XXI depende tanto de um exército forte quanto de um aparato midiático eficiente, capaz de difundir uma visão de mundo e legitimá-la perante a opinião pública global. No fim, quem controla a narrativa, controla uma peça fundamental do poder.


*Francisco Fernandes Ladeira é professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)


NOTA DA REDAÇÃO: Para adquirir o livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2”, entre em contato com o autor ou clique na capa para acessar o site da editora:


VEJA TAMBÉM:


Inscrever-se
Notificar de
guest

30 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Sequim
Sequim
7 meses atrás

O que de novo existe nisso? Hitler, cem anos atrás, já sabia disso. Goebells usou com maestria os novos meios de comunicação (rádio e tv) para canalizar todo o ressentimento alemão para os objetivos do regime nazi. Hoje em dia, a novidade são as redes sociais e o imenso poder das big techs, a ponto delas afrontarem a soberania dos Estados nacionais.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Responder para  Sequim
7 meses atrás

O algoritmo das bigh-techs deixa no chinelo o aparato de vigilância de praticamente todas as agências de inteligência mundial.
O algoritmo delas é algo que nenhuma Stasi, KGB ou CIA conseguiu chegar perto.

gordo
gordo
Responder para  Willber Rodrigues
7 meses atrás

Não é atoa que Trump quer salvo conduto para essa galera aí das redes, quer regulação zero sob a falsa premissa da liberdade de expressão. O pessoal que pergunte para o Julian Assange o que Ele acha da liberdade de expressão nos EUA.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Responder para  gordo
7 meses atrás

Trump sempre coloca essa questão de “liberdade pras bigh-techs americanas” entre as principais queatões quando ele ameaça…ops, faz diplomacia com a UE;

Trump quer banir o Tik-Tok e Hauweii dos EUA, ou obrigá-las a ter seus data-center’s em solo dos EUA;

As bigh-techs foram as principais financiadoras da campanha do Trump, e seu principal aliado.

Mas é tudo coincidência, é claro…

Hamom
Hamom
Responder para  gordo
7 meses atrás

“…quer regulação zero sob a falsa premissa da liberdade de expressão. ”

Regulação zero só pros EUA atuarem como quiserem em outros países, já lá dentro da américa tá tudo controlado, em nome da segurança nacional.

Última edição 7 meses atrás por Hamom
Juca
Juca
Responder para  Hamom
7 meses atrás

”Regulação zero só pros EUA atuarem como quiserem em outros países, já lá dentro da américa tá tudo controlado, em nome da segurança nacional.”

Mas aí aparece os abobalhados replicando a seguinte narrativa ”Pelo menos estamos sendo espionados por uma democracia.”

A subserviência é tão grande que você na verdade pode trocar a palavra ”espionados” por qualquer coisa que no final eles falarão a mesma coisa ”Pelo menos estamos sendo _____ por uma democracia”.

rs

Cassini
Cassini
Responder para  Juca
7 meses atrás

Numa guerra contra os EUA, eles dirão “pelo menos seremos invadidos por uma democracia, pelo melhor país do universo”.

Pedro
Pedro
Responder para  gordo
7 meses atrás

Regulação ja exite. Marco civil da internet. Se não gostou processa por difamação. Se não gosta, não ve. O resto é narrativa pra implantar monitoramente, controle e censura.

wilhelm
wilhelm
Responder para  Willber Rodrigues
7 meses atrás

Não existe uma fronteira clara entre o as agências de inteligência e as big-techs hoje em dia. Todas as grandes empresas de tecnologia possuem, em maior ou menor grau, alguma relação de mutualidade ou subordinação em relação as agências de inteligência das grandes potências. O interesse quase desesperado dos americanos em tirar a contraparte chinesa do controle do TikTok nos EUA não teve outra causa senão isso.

Hcosta
Hcosta
Responder para  wilhelm
7 meses atrás

Estamos a falar da administração Trump.
Duvido que esteja muito preocupado com a segurança nacional.

Quando percebeu a importância do Tik Tok nas eleições mudou logo o discurso…

Pedro
Pedro
Responder para  Willber Rodrigues
7 meses atrás

Algoritimo das big techs mostra contúdo de acordo com suas preferências. Esse algoritmo virou algo místico do mal.

wilhelm
wilhelm
Responder para  Pedro
7 meses atrás

Não é bem assim. Existem evidências sólidas, inclusive a nível acadêmico, mostrando que as plataformas digitais manipulam os algoritmos para direcionar o interesse dos usuários. Isso se reflete não só em formação de bolhas, mas também em discursos cada vez mais radicais. E nada disso é meramente fortuito: as redes sociais fazem isso não apenas para fazer o usuário ficar mais tempo na tela consumindo conteúdo, mas muitas vezes por pressão de governos para vender alguma narrativa sobre algo.

Se tem algo que não existe nas big techs, é neutralidade.

Lucio Sátiro Maia
Lucio Sátiro Maia
Responder para  Sequim
7 meses atrás

O que há de novo nisso? Um detalhe que faz TODA a diferença. Na época de Hitler, de Goebbels e até antes, quando o Iperador Trajano mandou esculpir uma imensa coluna com 30 metros de altura para difundir suas conquistas militares, a comunicação era VERTICALIZADA ou seja, passada do centro do poder para a população. Isso durou até pouco tempo, nós tivemos o privilégio de testemunhar uma revolução histórica: as redes sociais que deram voz ao povo, o novo ator dessa intrincada relação de poder.
Vivo no Nordeste desde que nasci. Nos anos 80 e 90, o que fosse dito em um jornal era tido como verdade absoluta pelo povão simples.Se alguém ousasse questionar o que um jornalista dissesse, era ridicularizado até pela própria família, sem falar nos amigos.
Nessa época não existia a figura do “influencer”, as “opiniões políticas” geralmente eram dadas por atores, cantores bobalhões que passavam ar de conhecimento em algum programa de TV ( Faustão, Serginho Groisman, revistas de fococa etc) para impressionar os mais jovens, além dos tradicionais centros de doutrinação politica e lavagem cerebral das universidades. Lula deu entrevista até na Playboy, em 1979, onde falou de sua admiração por Hitler e pelo Aiatolá Khomeini.Até uma revista de putaria tinha essas coisas.
Hoje o povo participa ativamente desse jogo imenso de poder, seja sendo manipulado por notícias enviesadas ou seja ele próprio filmando acontecimentos, questionando políticos no meio da rua e nos restaurantes, nos vôos comerciais, etc.
É um jogo realmente muito dinâmico e existe um poder que não foi mencionado na matéria: o da TECNOLOGIA, quero dizer, o das Big tech. Porque, para a mídia existir e poder ser um utro poder, ela depende do desenvolviento tecnológico. Quem sabe o que acontecerá com o jogo de poder daqui a 100 anos? Como a Inteligência Artificial, que hoje é um bebê, entrará nesse jogo quando ela estiver realmente desenvolvida?

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
7 meses atrás

“O poder hoje é disputado em múltiplas arenas: econômicas, culturais e, sobretudo, na esfera da informação”

Embora o próprio autor reconheça isso mais a frente no texto, não tem nada de novo aí.
Acham que Hollywood e seus filmes eram o que? Apenas entretenimento inocente?
Era, e é, “soft-power” puro.
“Soft-power” que China e Coréia do Sul vem aplicando recentemente, enquanto Hollywood vive em crise.

“Ela define o que é importante, enquadra os acontecimentos e, portanto, em determinadas ocasiões, contribui significativamente para configurar mentalidades. Um evento que não é noticiado praticamente não existe no imaginário global”

Repararam que, de um ano pra cá, a guerra da Ucrânia praticamente sumiu dos principais noticiários ( lembram como era no 1° ano? ), e ficou quase restrito a sites especializados?

“A hegemonia no século XXI depende tanto de um exército forte quanto de um aparato midiático eficiente, capaz de difundir uma visão de mundo e legitimá-la perante a opinião pública global.”

Então estamos ferrados: não temos FA’s fortes, e nossa mídia é um puxadinho da CNN e Fox-News, dizeneo “amém” pra qualquer coisa vinda dos EUA.

João Carlos
João Carlos
7 meses atrás

O que mudou foram as tecnicas que agora tem maior alcance e serem empresas privadas que tem os seus proprios interesses. De resto já o Gengis Khan quando arrasava uma cidade que não se rendia deixava sempre uns poucos sobreviventes para irem contar o que tinha acontecido ás cidades vizinhas. Era chamada a propaganda do terror. Agora os grupos terroristas chamam a comunicação social para se mostrarem, se não aparece na televisão não existe.

Gabriel BR
Gabriel BR
7 meses atrás

Os militares brasileiros têm amplo conhecimento disso, tanto que a Globo foi criada no regime militar.

Afonso Bebiano
Afonso Bebiano
Responder para  Gabriel BR
7 meses atrás

Vargas ensinou como fazer, ao criar o DIP e a Rádio Nacional.

Sergio
Sergio
7 meses atrás

E os comentários culpando o trump pela morte do Cristo , Paulo e Estevão, os mortos nas arenas romanas, a facada no bolsonaro e o atentado contra ele próprio…

” esquecendo-se” que ele é hostilizado justamente pelos ” atuais” detentores do poder “lavacional cerebral”.

E que sem a ” mídia independente”, nos legada quase que por acaso pelas redes sociais, ele ainda estaria confortavelmente instalado em seus luxuosos escritórios na trump tower. E bolsonaro ainda seria o velho deputado lá no congresso , com a vantagem de contar com sua saúde intacta.

Mas esse sistema diabólico percebeu o erro de dar voz aos que estavam quietos e amansados e correu para destruir os incômodos.

Tony Robinson e mais um monte de gente na velha Inglaterra e o ” mito”, aqui no Brasil, na cadeia. E o laranjinha que, por enquanto, vai resistindo…

Na minha modesta opinião disso resultará em guerra civil Bárbara, de padrao Ruanda, nos países chaves como Brasil e Estados Unidos ou a terceira e definitiva, mundial…

Ps: Quem lembra do saudoso Enéias Carneiro e pinta um pouquinho de vergonha na cara há de recordar-lo denunciando O inimigo da humanidade, George soros no Programa do Ratinho quase trinta anos atrás!!
Foi o primeiro a romper a bolha mas deu pra conter…

Última edição 7 meses atrás por Sergio
Sequim
Sequim
Responder para  Sergio
7 meses atrás

Soros é dono de big tech? Não que eu o esteja defendendo, mas ele está perto de tentar o que o dono da Oracle está querendo nos EUA, tentando comprar várias cadeias de TV , CNN inclusa, sendo que ele já possui pés bem fincados em redes sociais? As big techs , atualmente, são o grande perigo para a democracia.

José Joaquim da Silva Santos
José Joaquim da Silva Santos
Responder para  Sequim
7 meses atrás

O único lugar onde Soros tem os “pés bem fincados” é na cova…

Última edição 7 meses atrás por José Joaquim da Silva Santos
Sergio
Sergio
Responder para  José Joaquim da Silva Santos
7 meses atrás

Será?

Sergio
Sergio
Responder para  Sequim
7 meses atrás

Boa questão.

Neste mundo obscuro precisamos suspeitar de tudo.

Ele poderia, como bom soldado do abismo, ou anti Cristo, como preferem outros, estar financiando aqueles que aparentemente o atacam.

Mas a principio as big techs são nossa única arma contra o capiroto…

wilhelm
wilhelm
Responder para  Sergio
7 meses atrás

Você esqueceu de citar um problema das big-techs: elas acabaram dando voz para um monte de vovôs que, em outras épocas, aproveitariam melhor a aposentadoria jogando dominó na praça em vez de ficarem pagando de revoltados na internet.

Esse papinho de político anti-sistema já saturou. Muda o disco.

Sulamericano
Sulamericano
Responder para  wilhelm
7 meses atrás

Se o Lula não tivesse acabado com os Bingos, talves muito desses problemas não teriam acontecido.

Sulamericano
Sulamericano
Responder para  Sergio
7 meses atrás

Pensei que a saúde do Bolsonaro fosse inabalável pelo seu histórico de atleta.

Fernando XO
Fernando XO
7 meses atrás

Nada mais nada menos do que a realidade da guerra híbrida que corre solta pelo mundo…

Nilo
Nilo
Responder para  Fernando XO
7 meses atrás

Em 2022 o então chefe da CIA indicado por Joe Biden viajou ao Brasil para dar um recado aos militares brasileiros, uma aventura contra a democracia do país não teria o respaldo americano.
Hoje, o governo Trump tem um posicionamento diferente usa o clã Bolsonaro, a desinformação, como forma de desestabilizar, desacreditando as instituições, criando divisões na sociedade e a incerteza em larga escala, vesse claramente as operações psicologicas em ação, mais uma vez a ameaça de Rúbio, ao buscar atingir a esposa de um juiz diz, ” desta vez espero que fique claro ” ou irá castigar mais ainda o país.
A narrativa aceitável agora é negociar em torno da dosimetria geral, para pacificar, com aval do Senado e do STF, ou seja, uma condenação do próprio STF por atenta ao estado democrático de direto, o bem mais relevante a se protejer, está sendo relativizado, isso não é gestar para pari no futuro outra convulsão? EUA sabe como manter o pais em constante vunerabilidade criando pontes que levem a defesa de interesses a ser explorados.
De um lado um presidente que nunca desceu da Kombi do outro um exercito que adora um pijama.

Alex Barreto Cypriano
Alex Barreto Cypriano
7 meses atrás

Narrativas existem desde sempre, escritas ou faladas, e nada nelas garante que coincidam com a verdade ou com os fatos. O trabalho mais importante do intelecto humano foi, desde então, a crítica das narrativas, separando o que era verdade do que era embuste ou erro. O poder sempre usou a comunicação como arma, e o ‘progresso técnico’ (da imprensa de tipos móveis até algoritmos de inteligência artificial) acrescentou alcance instantâneo e permanência repetitiva aa sua narrativa (outrora chamada… ideologia). Mas o intelecto humano ainda está lá, fazendo seu trabalho silenciosamente. Esse é o fundamento da esperança de que o poder e a força não tenham a última palavra nessa época virtualmente terminal.
Um dos aspectos mais sinistros da atualidade é justamente a primazia da artificialidade sofisticada da narrativa sobre a naturalidade prosaica do real – um sintoma daquilo que Guy Debord descobriu no A Sociedade do Espetáculo., a saber, que as ‘imagens’ se tornaram não apenas ilustrações das relações sociais mas o próprio núcleo das relações sociais. Não aa toa, isso bem ali na virada dos 1960 pros 1970, quando o capitalismo trocava de pele e inaugurava um novo ciclo de acumulação, hoje arrematado numa crise sem precedentes.
Enfim…

Última edição 7 meses atrás por Alex Barreto Cypriano
Nilo
Nilo
Responder para  Alex Barreto Cypriano
7 meses atrás

Antes da internet se popularizar a informação era trabalhosa e tinha custo para ser obtida, houve períodos que a informação científica foi escondida, hoje a informação é instantânea, chega a vc sem mesmo solicitar, mas vivemos como o habitante da caverna olhando o mundo pela sombra.

Última edição 7 meses atrás por Nilo
Antunes 1980
Antunes 1980
7 meses atrás

China, Rússia e Estados Unidos disputam o controle dos meios de comunicação digital, tanto em escala regional quanto global. A nova Guerra Fria é travada no campo digital — e não há mocinhos nesse confronto.

Resta ao Brasil decidir qual caminho seguir. Diante de nossas limitações estruturais, inevitavelmente seremos pressionados a nos alinhar a um dos lados.

Espero que o Brasil busque priorizar a tecnologia destes meios, pois no âmbito de equipamentos militares convencionais, estamos atrás até da Venezuela.