Operation Eagle Claw - 2

Por Sérgio Santana*

Ainda que, muito justificadamente, as Forças Especiais norte-americanas tenham se constituído como um padrão de medida de Operações Especiais, também registram fracassos ao longo da sua história, com a Operação “Eagle Claw” (Garra de Águia) sendo um dos mais retumbantes.

Antecedentes

Em 4 de novembro de 1979, quase 3.000 estudantes iranianos fundamentalistas invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e fizeram 63 funcionários norte-americanos reféns. A invasão da embaixada ocorreu após a queda do governo iraniano liderado pelo Xá Mohammed Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, e a ascensão de uma república islâmica, então chefiada pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini. Os Estados Unidos temiam pela segurança de todos os reféns e, como resultado, em 16 de abril de 1980, após meses de detenção, o presidente Jimmy Carter aprovou uma operação de resgate militar para libertar os reféns e acabar com a crise, de codinome “Eagle Claw” (em referência à ave de rapina símbolo dos Estados Unidos).

Detalhes da missão

RH-53Ds repintados em camuflagem de areia e sem marcações a bordo do porta-aviões USS Nimitz

A operação envolveria forças do Exército, da Marinha, do Corpo de Fuzileiros Navais e da Força Aérea dos Estados Unidos em uma missão complexa e multiestágio.

O primeiro desses estágios envolvia aeronaves rumo à zona de pouso “Desert One”, a 320 quilômetros a sudeste de Teerã. Este local de preparação permitiria que as aeronaves reabastecessem e que os helicópteros da missão completassem com sucesso um voo de ida e volta com as forças de assalto.

Dentre as aeronaves preparadas para a operação, constavam três Lockheed MC-130 “Combat Talon” e o mesmo número de EC-130 “Compass Call”, alguns AC-130 Gunship, todos da USAF; alguns Lockheed C-141 Starlifter, também da USAF; e 8 helicópteros Sikorsky RH-53D Sea Stallion do Corpo de Fuzileiros Navais.

As aeronaves de carga conduziriam elementos do recém-formado 1º Destacamento Operacional das Forças Especiais – Delta, no que seria seu primeiro emprego operacional, comandada pelo seu fundador, o Coronel Charles “Chargin” Alvin Beckwith (1929-1994), que também serviu como comandante da Força Terrestre da operação; do 75º Regimento Ranger, também do Exército norte-americano; e da Divisão de Atividades Especiais da CIA.

As aeronaves seriam protegidas por aeronaves embarcadas nos porta-aviões USS Nimitz e USS Coral Sea, a exemplo dos interceptadores Grumman F-14A Tomcat e dos caça-bombardeiros McDonnell Douglas F-4N Phantom.

Seis helicópteros RH-53D Sea Stallion em voo, logo após decolarem do convés de voo do porta-aviões nuclear USS Nimitz (CVN-68)

Depois de tempo gasto treinando e se preparando, a Administração Carter começou a executar a operação de resgate planejada para ocorrer em dois dias, que começaria com os MC-130 transportando a força de assalto de 118 homens. Além disso, os EC-130 transportavam combustível para reabastecer durante a operação, decolando da Ilha Masirah, em Omã, rumo à Desert One.

Ao mesmo tempo, os oito helicópteros RH-53D partiriam do USS Nimitz rumo à mesma posição. Depois de uma sessão de reabastecimento, a força de assalto voaria rumo a um destino a pouco mais de 100 quilômetros de Teerã. Neste posto de controle, a equipe de assalto se escondeu com o pessoal da Divisão de Atividades Especiais da CIA e com contatos locais.

No dia seguinte, este pessoal e os membros da CIA levariam a força de assalto à Embaixada. Nesse ponto, os reféns seriam protegidos e um helicóptero os recolheria na Embaixada e os transportaria por 55 quilômetros ao sul até uma área protegida pelos membros do 75º Regimento de Rangers em Manzariyeh. Neste ponto, os transportes C-141 levariam os reféns para fora do país.

Primeiros sinais de problemas

Em 24 de abril, a Operação Eagle Claw foi colocada em ação após semanas de treinamento. Os MC-130s e EC-130s decolaram da Ilha Masirah e voaram para a Desert One. Depois de entrar no espaço aéreo iraniano, a aeronave encontrou o que os iranianos chamam de “Haboob”: uma tempestade de poeira intensa que varre a região sul do país. A aeronave não foi afetada pela tempestade de poeira, mas a tripulação enviou uma mensagem por rádio avisando os helicópteros que viriam logo atrás; porém, ela não foi recebida pelas tripulações dos Sea Stallion.

Dos oito helicópteros, pelo menos seis precisariam chegar a Desert One para que a missão continuasse. Ao longo da viagem, um dos helicópteros detectou um problema no rotor principal. A sua tripulação foi forçada a abandonar a aeronave e a ser apanhada por um dos outros sete helicópteros, que começavam a enfrentar seu primeiro “Haboob”.

Neste momento, os MC-130s e EC-130s estavam a pousar no Desert One quando avistaram um ônibus de passageiros perto da zona de pouso. Devido ao risco de um dos passageiros do ônibus comprometer o sigilo da operação, as forças norte-americanas detiveram 45 passageiros.

Logo depois, um caminhão de combustível passou pela rodovia adjacente à faixa de pouso da Desert One. Depois de dar ordens aos motoristas de caminhão para parar o veículo, as quais eles não cumpriram, as forças americanas dispararam uma arma antitanque M72 contra o caminhão de combustível que explodiu. Uma caminhonete que seguia o caminhão de combustível pegou o único ocupante do veículo e fugiu rapidamente na direção oposta às forças americanas. Apesar desses incidentes, o coronel Beckwith decidiu prosseguir com a operação.

À medida que os helicópteros continuavam sua jornada, as enormes quantidades de poeira causavam problemas críticos. Um dos helicópteros apresentou vazamento hidráulico, embora a sua tripulação continuasse a viagem. Outro helicóptero enfrentou problemas elétricos e perda de instrumentos de voo, o que o forçou a retornar ao USS Nimitz, deixando apenas seis em operação.

As forças terrestres aguardavam ansiosamente na Desert One, já que a luz do Sol, necessária à operação, diminuía. Eventualmente, uma hora e meia depois, os helicópteros chegaram à Desert One. O coronel Beckwith optou por continuar a operação e começou a carregar a força de assalto nos helicópteros e os passageiros iranianos do ônibus a bordo de um MC-130 para transporte ao aeroporto de Manzariyeh. Depois de conversar com a tripulação, os pilotos determinaram que o helicóptero com a questão hidráulica não seria capaz de chegar a Teerã. Isso significava que a missão precisava ser abortada.

Desastre de exfiltração

Enquanto os homens no solo começaram a abrir caminho para que a aeronave se alinhasse para uma partida com as forças americanas, a poeira e a confusão levaram à catástrofe. À medida que um dos Sea Stallion pairava e acreditava que o espaço estava limpo, ele perdeu sustentação e bateu contra uma aeronave EC-130. O resultado foi uma explosão que destruiu um helicóptero e um avião, matando oito americanos.

O coronel Beckwith determinou que eles deveriam carregar os americanos restantes a bordo do MC-130 e sair o mais rápido possível para Masirah, abandonando quatro helicópteros operacionais e os americanos mortos.

As consequências da “Operação Garra de Águia”

A Operação Eagle Claw é amplamente considerada um desastre total. Além da perda de oito militares americanos, os reféns americanos permaneceram na Embaixada e os helicópteros deixados para trás foram incorporados por militares iranianos.

Após a operação fracassada, houve uma série de passos significativos no planejamento e nas operações militares dos Estados Unidos, com a formação do Comando de Operações Especiais (United States Special Operations Command, USSOCOM), que estabeleceu níveis de sinergia e planejamento sem precedentes entre a Força Aérea, a Marinha, o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais. Outro resultado direto do fracasso da “Eagle Claw” foi a criação, já em 1981, do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais, os “Night Stalkers”, no mesmo ano da libertação dos reféns pelas autoridades iranianas. Logo após a “Eagle Claw”, seu comandante pediu baixa do serviço militar ativo.■


*Bacharel em Ciências Aeronáuticas (Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL), pós-graduado em Engenharia de Manutenção Aeronáutica (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG). Colaborador de conteúdo da Shephard Media. Colaborador das publicações Air Forces Monthly, Combat Aircraft e Aviation News. Autor e coautor de livros sobre aeronaves de Vigilância/Reconhecimento/Inteligência, navios militares, helicópteros de combate e operações aéreas.


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Dr. Mundico
Dr. Mundico
8 dias atrás

Água é problema no mar e areia é problema no deserto.

Anos70
Anos70
8 dias atrás

Como diz a música:

“Eu vejo o futuro repetir o passado…”

Nilo
Nilo
8 dias atrás

Sem colaboração não há sucesso, bendita dispensa de final de ano rsrsr

Antunes 1980
Antunes 1980
8 dias atrás

Lembro que, quando as forças especiais soviéticas invadiram o palácio governamental afegão em 1979, as baixas soviéticas foram de cerca de 20 a 30 soldados.
E mais de 150 guardas presidenciais mortos.

Toda operação desse tipo envolve um risco altíssimo de fracasso e de perdas humanas.

A única exceção histórica foi a Venezuela recentemente. 0 (zero) baixas do lado americano.

João
João
Responder para  Antunes 1980
8 dias atrás

Não houve baixas na captura de Bin Laden.
Não houve baixas na entrada do SAS na embaixada em Londres.
GSG 9 e SAS em Mogadíscio não houve baixa.

Uma Operação Especial está no limite do insucesso.
Se baseiam no triângulo da Superioridade Relativa (que “joga pro pandu deles….”):
Na execução: Surpresa – Velocidade – Propósito (influi a Moral)
Na Preparação: segurança e repetição
No Planejamento: simplicidade.

A operação Eagle Claw:
– perdeu na repetição, pouco treinada e repetida nas condições iguais. Dificultando o levantamento de problemas
– não era simples. Muita coordenação e controle, ainda mais com membros de diversas forças e muitos não afetos às operações especiais.

JuggerBR
JuggerBR
Responder para  João
8 dias atrás

Faltou controlar o fator clima.

Joao
Joao
Responder para  JuggerBR
8 dias atrás

Clima faz parte um dos fatores de decisão, que leva a como executar e quando.

Dentro do planejamento, a leva ao gerenciamento de risco, se faz a previsão de baixas, tanto de gente quanto de meios. De ações inesperadas.

A ação de resgate da embaixada do Japão no Peru foi ensaiada, em sua totalidade, fora cada parte, 86 vezes.

Joao
Joao
Responder para  João
8 dias atrás

Kkkkk
Só passei dados reais e doutrinários, aí os mi mi mi negativam kkkkkkkkkkk os robozocas do Madurex kkkkkkk

Alecs
Alecs
Responder para  Joao
8 dias atrás

São os canhotinhos revoltados kkkkkkk

João
João
Responder para  Alecs
7 dias atrás

Estão se comichando ao extremo kkkkkkkk

Leandro Costa
Leandro Costa
Responder para  Joao
7 dias atrás

Verdade. Tudo que você falou eu li extensivamente como conclusões desta mesma operação.

Só acrescento que muito desses elementos que participariam da missão, devido à compartimentalização excessiva por parte de planejadores, sequer sabia que haviam outras unidades envolvidas, etc.

Essa missão foi um aprendizado incrível para os EUA, e o resultado vimos nesse último final de semana.

Marcelo Soares
Marcelo Soares
Responder para  João
5 dias atrás

Só para completar seu comentário, na captura do Bin Laden teve a baixa de um dos helicópteros, mas que não comprometeu a missão em si e não teve baixas dos americanos, como você informou.

JuggerBR
JuggerBR
8 dias atrás

Oito mortos e os iranianos nem ao menos souberam da operação antes do fracasso.

cipinha
cipinha
8 dias atrás

tem um documentário interessante sobre essa operação no NatGeo

Macgarem
Macgarem
8 dias atrás

Não contavam om a natureza

Renato
7 dias atrás

Não teve operação, teve grana… muita inocência acreditar na lorota de Trump.

Última edição 7 dias atrás por Renato
Maurício Veiga
Maurício Veiga
7 dias atrás

Eu lembro da revista Manchete com fotos coloridas desse fiasco, parecia filme de terror!!!

João Bosco
João Bosco
7 dias atrás

Essa operação foi uma bagunça literalmente: mal preparada ao extremo. Mas a pergunta que gostaria de fazer: alguém naquela operação não entendia nada de clima e de geografia iraniana ?

Marcelo Soares
Marcelo Soares
5 dias atrás

Como sempre, uma excelente matéria, muito bem escrita e cheia de detalhes. Parabéns mais uma vez.