Iran

Por Andrew Korybko*

Azerbaijão, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão — todos considerados “inimigos-amigos” do Irã desde 1979 e cujos interesses estratégico-militares vêm convergindo cada vez mais — tendem a explorar qualquer instabilidade em larga escala que possa surgir após uma nova rodada de ataques dos EUA, caso Trump mude de ideia.

O Wall Street Journal publicou recentemente um artigo provocativo de Melik Kaylan intitulado “Um Irã fragmentado talvez não seja algo tão ruim”, cujo subtítulo afirma que “suas fronteiras são artificiais, e uma fragmentação frustraria os interesses da Rússia, da China e de outros”. Ele argumenta que “há uma possibilidade concreta de guerra civil após uma mudança de regime, bem como de interferência de interesses externos”, o que poderia, presumivelmente, ser provocado por uma Revolução Colorida e/ou por ataques dos EUA, embora ele não o escreva explicitamente.

O objetivo aparente do texto é informar um público presumivelmente pouco consciente de que uma grande parcela dos iranianos é composta por azeris e curdos, que ele afirma terem se tornado parte do Irã por suas fronteiras terem sido supostamente traçadas de forma arbitrária — o que não é factualmente verdadeiro, já que esses grupos fazem parte da civilização persa há milênios. As fronteiras atuais do Irã resultam das guerras que o país perdeu para vizinhos mais poderosos nos séculos recentes, e não de delimitações arbitrárias como as impostas à África durante a era colonial, como alguns poderiam imaginar a partir do que Kaylan escreveu.

Feito esse esclarecimento, o restante do artigo prevê que a “fragmentação” do Irã reduziria a influência russa na Ásia Central e levaria à perda de investimentos chineses, culminando, previsivelmente, em um apelo a armar movimentos separatistas a fim de viabilizar esse cenário. Embora isso seja improvável, ainda não pode ser totalmente descartado, já que Trump poderia levar adiante um bombardeio contra o Irã assim que as forças navais regionais dos EUA estiverem plenamente posicionadas e mais mísseis interceptadores forem enviados a Israel, o que poderia resultar em uma mudança de regime e, posteriormente, em uma “balcanização”.

Isso não significa afirmar que isso irá ocorrer, apenas que é possível, e que o contexto regional joga contra os interesses de unidade nacional do Irã. Paquistão e Arábia Saudita, considerados “inimigos-amigos” do Irã desde 1979, firmaram, em setembro passado, um pacto de defesa mútua, ao qual o outro “inimigo-amigo”, a Turquia, supostamente deseja aderir. O Irã ficaria então cercado, já que a Turquia possui obrigações de defesa mútua com o Azerbaijão, o que poderia levar a um conflito entre o Azerbaijão e o Irã, arrastando a Turquia e, em seguida, os demais.

Se ataques dos EUA desestabilizarem fortemente o Irã, o Azerbaijão poderia oferecer apoio militar a seus coétnicos, o que poderia levar a uma intervenção turca, possivelmente sob o pretexto de neutralizar novas ameaças separatistas curdas. A Arábia Saudita apoiou, nos anos 1980, a tentativa do Iraque de anexar a província iraniana de Khuzistão, de maioria árabe, durante a guerra entre os dois países, o que estabelece um precedente para a retomada desse tipo de interferência. O Paquistão, por sua vez, poderia se envolver no Baluchistão iraniano sob pretextos antiterroristas semelhantes aos que utilizou para bombardear o Irã em janeiro de 2024.

A derrota arguível do Irã na Guerra dos 12 Dias contra Israel — clímax da Guerra da Ásia Ocidental que se seguiu aos eventos de 7 de outubro — pode ter levado esses quatro países a enxergarem o Irã como o “doente” da região, à semelhança da forma como o Império Otomano foi percebido do século XIX até seu colapso. Ao mesmo tempo, pode haver preocupações entre alguns deles quanto às consequências de um colapso iraniano, o que ajuda a contextualizar por que Turquia e Arábia Saudita teriam advertido Trump contra desferir o golpe final planejado contra o país.

Ainda assim, Turquia, Arábia Saudita, Azerbaijão e Paquistão tendem a explorar oportunisticamente qualquer instabilidade em grande escala no Irã que possa ser causada por uma Revolução Colorida e/ou por ataques dos EUA. Se qualquer um deles realizar uma ação militar em território iraniano sob qualquer pretexto, isso poderia encorajar os demais a fazerem o mesmo, especialmente se as capacidades de mísseis do Irã forem severamente degradadas por ataques norte-americanos (e/ou israelenses) e surgirem sérios problemas de comando e controle. Para deixar claro: isso não é provável, apenas possível — mas não pode ser descartado.■


*Andrew Korybko é analista político, jornalista e colaborador regular de diversos periódicos online, além de membro do conselho de especialistas do Instituto de Estudos e Previsões Estratégicas da Universidade da Amizade dos Povos da Rússia. Publicou diversos trabalhos na área de Guerras Híbridas, incluindo “Guerras Híbridas: A Abordagem Adaptativa Indireta à Mudança de Regime” e “A Lei da Guerra Híbrida: Hemisfério Oriental”.


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JuggerBR
JuggerBR
19 dias atrás

O ‘Discombobulator’ será novamente utilizado?

Esteves
Esteves
Responder para  JuggerBR
19 dias atrás

Com apoio de Israel. Será a espada flamejante de Davi.

Esteves
Esteves
19 dias atrás

Olhando para a AS.

O Sul próximo da Antártica seria mais convergente que o Norte e o Nordeste “influenciados” por movimentos liberais próximos dos povos amigos chineses e russos.

Uma “balcanizacao” da AS contaria com o apoio da Argentina, Paraguai (que não presta pra nada salvo trair) e do Uruguai e seus velhos uruguaios.

Mais os estados do Sul do Brasil. É claro.

Camargoer.
Camargoer.
Responder para  Esteves
19 dias atrás

Caro, nesse caso, o mais provável é ocorrer uma balconizaçao de Balneáreo Camburiu, com as pessoas colocando vasinhos de violetas no parapeito das varandas dos prédios, que sob a ação do vento, balançam mas não caem.

Tecnologia desenvolvida pelos moradores do S.Vito em S.Paulo bem na frene do Mercado Municipal, isso antes de inventarem os entregadores de pizza.

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Esteves
Esteves
Responder para  Camargoer.
19 dias atrás

BC é forte candidato.

Leandro Costa
Leandro Costa
Responder para  Esteves
18 dias atrás

A AS já sofreu essa ‘Balcanização’ no início do século XIX. A América Espanhola se fragmentou e alguns desses se antagonizam.

Lucena
19 dias atrás

No andar da carruagem lá no USA…é mais fácil haver balcanização na Magolândia do imperador Trump.

Patriota de Chernobil
Patriota de Chernobil
19 dias atrás

Logo mais esses canalhas vão cogitar e tentar implantar a “balcanização” do Brasil, que será presa extremamente frágil.

ln(0)
ln(0)
Responder para  Patriota de Chernobil
18 dias atrás

Acredito que “balcanização” funciona em países com vários grupos étinicos diferentes. O Brasil é bem homogêneo e tem um identidade nacional bem estabelecida. Na minha opinião, seria o mesmo que falar em balcanização da Argentina ou do Chile.
No Brasil, seria mais viável criar zonas em que a soberania fosse relativizada. No papel pertence ao Brasil, mas na prática, exploração e gerenciamento seriam realizados sem o Brasil ter a palavra final.

Camargoer.
Camargoer.
Responder para  ln(0)
18 dias atrás

Ola meu caro Indefinido,

Vocẽ tem razão. O momento mais crítico do Brasil foi antes da vinda da famíla real fugindo de Napoleão, Entre o fim do século XVIII e início do XIX, a América espanhola se dividiu em republiquetas caudilhas. O unidade territorial foi garantida primeiro na conversa, mas degolando quem insistiu na fragmentaçao do território, seja durante o periodo no qual a famílai real esteve no Rio durante o período do Império. A República recebeu um país unificado. A maior crise foi Canudos que nunca foi uma revolta de independência.

Os quatro grandes momentos da história republicada (república velha, estado novo, peróido democrático e regime militar) consolidaram a identidade brasileira.

Bem, se Balneáreo Cambuiu tentar a independência, dá para bombardear alguns prédios mais altos, provocando um efeito dominó e encerrando de vez a revolta camburiense… talvez alguns moradores fujam para Miami e montem um grupo de resistẽncia lá.

Skyhawk
Skyhawk
18 dias atrás

Espero que as forças YPG dos curdos não embarquem nisso após os americanos usarem elas e descartarem como lixo e abandonarem a Deus dará, como aconteceu na Síria.