Clausewitz e a Guerra
Por Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)
Esse artigo trata, de forma resumida, dos seguintes conceitos do filósofo da guerra, Carl von Clausewitz (1780-1831): propósito político, centro de gravidade, fatores morais e surpreendente trindade. Um dos mais importantes pensadores da História Militar, influenciado pelas reflexões de Emmanuel Kant[1], produziu,em seus manuscritos[2], conceitos de sólida construção filosófica para a compreensão da guerra. Ele fomentou o pensamento crítico sobre esse complexo fenômeno social.
Ingressou prematuramente no exército prussiano, aos doze anos, participando ao longo de sua carreira de diversas campanhas militares. A partir de suas experiências obtidas nos campos de batalha, associadas à sua irrefutável formação intelectual, analisou as guerras num contexto histórico em que eram travadas entre Estados soberanos, com o emprego de tropas convencionais.
À despeito do hiato temporal existente entre a Europa do século XIX e os dias de hoje, a essência de sua obra, pela profundidade e abrangência, permanece atualizada para o entendimento da guerra clássica entre Estados com o emprego de suas Forças Armadas.
Entretanto, para se fazer uma leitura contemporânea de Clausewitz, é necessário considerar as transformações políticas, sociais e, principalmente, tecnológicas ocorridas ao longo dos séculos XX e XXI.
Os Estados nacionais não são mais os detentores do monopólio da violência organizada, e a metamorfose da guerra é uma realidade. Grupos radicais com acesso as armas de destruição também têm a capacidade de participar das guerras.
A Guerra como continuação da Política
Ninguém dá início a uma guerra — ou melhor, ninguém em sã consciência deveria fazê-lo — sem ter primeiro, claro em sua mente, o que pretende obter por meio dela e como pretende conduzi-la. O primeiro é o seu propósito político. O último, o seu propósito operativo. Este é o princípio orientador que estabelecerá a sua linha de ação, determinará o vulto dos meios e dos esforços necessários e fará com que a sua influência seja plenamente sentida até o menor detalhe operativo.
Para Clausewitz, “A guerra é um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade” e “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Assim, o propósito político é a meta a ser alcançada, à vontade, e a guerra, o instrumento para atingi-lo.
Centro de Gravidade
Segundo Clausewitz, “Centro de Gravidade” (CG) é “um centro de poder e de movimento de que tudo depende, formar-se-á por si próprio, e é contra esse centro de gravidade do inimigo que se deve desferir o golpe concentrado de todas as forças”.
Estudiosos de sua obra, após anos de análise de seus pensamentos chegaram a uma moderna definição de CG: “Um centro do poder onde a aplicação da força produzirá os melhores resultados, e, no limite, produzirá o êxito na guerra”. Esse conceito revestiu-se de especial importância no seu legado, tendo em vista que a identificação correta do CG é crucial para a atingimento do propósito político.
Assim, o conceito de CG tem sido utilizado pelos planejadores para alcançar os objetivos políticos nos conflitos armados, objetivando, desta forma, obter a vitória e o sucesso operacional diante dos adversários, onde a concentração de forças contra pontos vitais evita o desperdício de recursos materiais e humanos.
Fatores Morais
A coragem pessoal é de duas espécies. Em primeiro lugar, pode derivar da indiferença, quer esta tenha origem na constituição individual, no desprezo pela morte; em todo caso, trata-se de um estado permanente. Em segundo lugar, a coragem pode decorrer de motivos positivos, tais como a ambição, o patriotismo e todas as espécies de entusiasmo.
Para Clausewitz, a guerra é dominada por fatores morais (coragem, medo, confiança e audácia) que podem produzir um resultado desproporcional na aplicação da força, quando comparados aos elementos materiais.
Surpreendente Trindade
A guerra é uma surpreendente trindade em que se encontram a violência original, o ódio e a animosidade, que é preciso considerar como um cego impulso natural; depois, o jogo das probabilidades e do acaso; e, finalmente, a sua natureza subordinada, instrumento da política por via da qual ela pertence à razão pura.
Clausewitz estabeleceu que o ambiente da guerra é composto por três elementos que representam segmentos da sociedade e interagem constantemente numa alternância de predomínios: as forças da emoção, violência, ódio e animosidade são aquelas representadas pelo povo; acaso, incerteza e as probabilidades de vitória se referem ao comandante e suas Forças Armadas; e, finalmente, as forças da razão, ou seja, os propósitos políticos, que são relativos ao governo. Enfim, a guerra é constituída por uma trindade: ódio, sorte e razão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 930 p.
- PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora. 2001. Tomo 1. 680p.
[1] Filósofo prussiano (1724-1804).
[2] A partir de 1816 começou a escrever sua obra, Da Guerra, mas só foi publicada em 1832, um ano após sua morte.


A guerra é o último recurso, quando tudo falha.
Infelizmente pra alguns países, ou melhor, para alguns governos, a guerra vem antes de qualquer tipo de negociação, vide Alemanha nazista, por exemplo.
Longe de mim querer defender a Alemanha nazista, mas a segunda guerra mundial iria acontecer de uma forma ou de outra. O tratado de Versalhes foi uma humilhação total para a Alemanha e não foi de forma alguma um tratado de paz.
Na verdade, o mundo que vivemos hoje é um reflexo desse primeiro grande conflito, e a formas que os eventos (guerras) vem acontecendo nos últimos cinco anos é muito similar ao que aconteceu no prelúdio da primeira grande guerra.
Alguém já falou que guerras geralmente terminam por motivos diferentes dos que foram usados no seu início.
Hoje seria o caso de acrescentar: motivos e armas.
O capitão estava com pressa…
Vinte de dias guerra no OM depois, como esse artigo pode ajudar a fazer um apanhado pelo menos bem geral da situação?