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Castle Bravo, o maior dispositivo termonuclear já detonado pelos Estados Unidos

Desde o momento em que os Estados Unidos lançaram as primeiras bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, a arma nuclear deixou de ser apenas um instrumento de guerra para se tornar um instrumento de política. Ameaçar usá-la — ou simplesmente deixar implícito que poderia ser usada — tornou-se uma ferramenta recorrente da diplomacia americana em momentos de crise. A história dessa prática é longa, pouco debatida publicamente e extraordinariamente reveladora sobre como Washington enxerga o poder.

Truman e a Coreia: a primeira vez

A primeira grande ameaça nuclear do pós-guerra ocorreu durante a Guerra da Coreia. Em novembro de 1950, após a entrada massiva das tropas chinesas no conflito e o colapso das linhas americanas no norte da Península Coreana, o presidente Harry Truman declarou em coletiva de imprensa que os EUA considerariam “todos os passos necessários” para conter o avanço inimigo, incluindo “todas as armas que temos”. Quando um repórter perguntou diretamente se isso incluía a bomba atômica, Truman respondeu: “Isso inclui todas as armas que temos.”

A declaração causou pânico internacional. O primeiro-ministro britânico, Clement Attlee, voou a Washington em caráter de emergência para obter garantias de que Londres seria consultada antes de qualquer uso de armas nucleares. Truman recuou parcialmente no discurso, mas o sinal já havia sido enviado. O general Douglas MacArthur, comandante das forças da ONU, foi ainda mais explícito: propôs publicamente o uso de entre 30 e 50 bombas atômicas na China continental e na Manchúria, o que levou Truman a demiti-lo em abril de 1951 — não pelo plano em si, mas pela indisciplina pública.

Eisenhower e o fim da Coreia: a ameaça que pode ter funcionado

O sucessor de Truman, Dwight Eisenhower, assumiu a presidência em janeiro de 1953, com a guerra ainda em andamento. Segundo suas próprias memórias e documentos desclassificados posteriores, Eisenhower transmitiu ao governo chinês, por canais indiretos via Índia, que os EUA estavam preparados para usar armas nucleares táticas se as negociações de armistício não avançassem. O armistício foi assinado em julho de 1953. Se a ameaça nuclear foi o fator decisivo ou se outros elementos geopolíticos pesaram mais, permanece debatido entre os historiadores — mas Eisenhower acreditava que havia sido determinante, e essa crença moldou sua doutrina estratégica subsequente.

A doutrina Eisenhower — conhecida como “New Look” — tornou a ameaça nuclear explícita como instrumento de dissuasão e coerção. A lógica era econômica e estratégica ao mesmo tempo: manter uma vasta superioridade nuclear era mais barato do que sustentar exércitos convencionais imensos. E a disposição para usar essas armas precisava ser plausível.

Kennedy e a Crise dos Mísseis: a beira do abismo

A crise mais aguda da Guerra Fria nuclear ocorreu em outubro de 1962, quando a União Soviética instalou mísseis balísticos em Cuba. O presidente John Kennedy impôs um bloqueio naval à ilha e deixou claro que qualquer lançamento de míssil a partir de Cuba seria tratado como um ataque soviético direto contra os EUA, a ser respondido com força nuclear total. Por treze dias, o mundo viveu sob a perspectiva real de uma guerra nuclear. A crise foi resolvida por uma combinação de diplomacia secreta, concessões mútuas e pela habilidade de Kennedy de deixar uma saída honrosa para Nikita Khrushchev. O episódio é frequentemente citado como o momento mais próximo em que a humanidade chegou a uma guerra nuclear generalizada.

Johnson e Nixon no Vietnã: a arma que não podia ser usada

O Vietnã trouxe uma nova variante do problema. Os EUA possuíam superioridade nuclear esmagadora, mas não tinham como traduzi-la em vantagem tática ou política em uma guerra de guerrilha contra um inimigo que não tinha cidades para serem destruídas nem uma infraestrutura industrial dependente de bombardeios estratégicos. O presidente Lyndon Johnson chegou a pedir que seus assessores militares avaliassem a viabilidade do uso de armas nucleares táticas no Vietnã. O general William Westmoreland afirmou, décadas depois, que havia solicitado que armas nucleares táticas permanecessem disponíveis como opção. Johnson nunca autorizou o estudo a avançar, em parte por temer a reação internacional, em parte por reconhecer que o uso de armas nucleares em um país pequeno e pobre revelaria apenas a brutalidade americana, sem produzir um resultado militar decisivo.

A Teoria Madman de Nixon: o delírio como estratégia

Richard Nixon e seu conselheiro de segurança nacional, Henry Kissinger, desenvolveram a mais elaborada doutrina americana sobre o uso da ameaça nuclear como instrumento de coerção. Chamada internamente de “Madman Theory” — a Teoria do Louco —, ela partia de um princípio simples: se o adversário acredita que você é irracional o suficiente para usar armas nucleares mesmo quando isso seria suicida, sua capacidade de coerção aumenta exponencialmente. Nixon descreveu a teoria ao seu chefe de gabinete, H.R. Haldeman, em 1968, ainda durante a campanha presidencial: “Quero que os norte-vietnamitas acreditem que cheguei ao ponto em que poderia fazer qualquer coisa para parar a guerra. Vamos apenas deixar vazar que ‘Nixon está obcecado com o comunismo; não podemos detê-lo quando está com raiva — ele tem o dedo no botão nuclear’, e que Ho Chi Minh estará em Paris em dois dias pedindo paz.”

A teoria foi posta em prática em outubro de 1969. Nixon ordenou o que ficou conhecido como o Alerta Nuclear Global — um exercício de 18 dias em que bombardeiros B-52 com armas nucleares voaram em missões simuladas de ataque à URSS e submarinos nucleares foram movimentados de forma ostensiva, e a retórica foi deliberadamente escalada. A intenção era transmitir ao Kremlin a mensagem de que Nixon poderia estar prestes a usar armas nucleares no Vietnã, forçando Moscou a pressionar Hanói a negociar. A operação foi mantida em sigilo máximo e só se tornaria plenamente conhecida décadas depois. Os documentos desclassificados revelaram que os soviéticos detectaram a movimentação — mas as negociações não aceleraram como esperado. A Teoria do Louco, na prática, produziu resultados ambíguos.

Nixon voltaria a recorrer à ameaça implícita de escalada nuclear na Guerra do Yom Kippur, em 1973, quando a URSS ameaçou intervir militarmente em apoio ao Egito. Kissinger levou os EUA ao DEFCON 3 — o terceiro nível de prontidão nuclear, raramente acionado fora de crises diretas — sem consultar Nixon, que estava politicamente enfraquecido pelo escândalo de Watergate. A movimentação funcionou: os soviéticos recuaram.

Reagan e o fim da Guerra Fria: a ameaça como rotina

Ronald Reagan retomou a retórica nuclear com entusiasmo, promovendo um rearmamento massivo e adotando uma postura declaratória agressiva que chegou a alarmar os aliados europeus. Em 1983, durante exercícios militares da OTAN chamados Able Archer, os soviéticos interpretaram a combinação de retórica e movimentação militar americana como uma possível preparação para um ataque nuclear preventivo, levando a URSS a colocar suas forças nucleares em prontidão elevada. O episódio, revelado anos depois por documentos do KGB desclassificados pela Rússia pós-soviética, mostrou quão perigosa pode ser a ambiguidade deliberada.

Trump e a nova Teoria do Louco: improvisação ou estratégia?

Donald Trump não é o primeiro presidente americano a usar a imprevisibilidade como instrumento de política externa — mas é o primeiro para quem essa imprevisibilidade parece tanto constitutiva de sua personalidade quanto deliberadamente cultivada como método. A semelhança com a Teoria do Louco de Nixon é evidente, mas com uma diferença fundamental: Nixon e Kissinger conceberam a teoria fria e calculadamente, a aplicaram de forma coordenada e secreta, e fizeram questão de que ela permanecesse implícita. Trump a pratica de forma pública, explícita e — segundo seus críticos — sem a estrutura de controle que Nixon mantinha por baixo da imprevisibilidade performática.

As ameaças de Trump à Coreia do Norte em 2017 — quando prometeu responder a qualquer ameaça norte-coreana com “fogo e fúria como o mundo nunca viu” — foram amplamente interpretadas como uma versão atualizada da Madman Theory. Da mesma forma, sua abordagem ao conflito com o Irã em 2026, na qual alternava entre ameaças de destruição total e propostas de acordo, e na qual chegou a escrever que “uma civilização inteira morrerá esta noite” horas antes de aceitar um cessar-fogo, seguia o mesmo padrão: escalar além do ponto em que qualquer líder racional escalaria, para em seguida recuar em condições que pudessem ser vendidas como vitória.

A diferença entre Nixon e Trump, no entanto, vai além do estilo. Nixon operava dentro de uma estrutura de Guerra Fria bipolar relativamente estável, com canais de comunicação estabelecidos com Moscou, aliados dispostos a coordenar e uma burocracia de segurança nacional que atuava como amortecedor entre a retórica presidencial e a realidade operacional. Trump opera em um ambiente multipolar mais imprevisível, com um aparato de segurança nacional que ele próprio enfraqueceu sistematicamente por meio de demissões e nomeações políticas, e com aliados de quem desconfia estruturalmente.

A questão que os historiadores do futuro provavelmente se farão é a mesma que os analistas fazem hoje: até que ponto a imprevisibilidade de Trump é uma estratégia consciente — a Teoria do Louco como método — e até que ponto ela é simplesmente imprevisibilidade. Nixon sabia que estava fingindo ser irracional. A dúvida com Trump é que ninguém — incluindo, possivelmente, ele próprio — parece ter certeza da resposta.

O que a história das ameaças nucleares americanas mostra com clareza é que a linha entre blefe e realidade, entre coerção calculada e escalonamento real, é mais tênue do que qualquer doutrina estratégica admite. Truman recuou. Eisenhower pode ter funcionado. Kennedy chegou à beira do abismo e voltou. Nixon assustou os soviéticos, mas não conseguiu o que queria no Vietnã. E Trump, em abril de 2026, conseguiu um cessar-fogo de duas semanas — por quanto tempo e a que custo, só o tempo dirá.■


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amarante
amarante
9 dias atrás

Como disse o camarada Mao: “A bomba atômica é um tigre de papel que os reacionários americanos usam para assustar as pessoas”

Hamom
Hamom
9 dias atrás

No Vietnã só faltou mesmo o uso de armas nucleares, porque até guerra química foi largamente empregada:

Especificamente herbicidas como o Agente Laranja, para desfolhar florestas e destruir plantações, eliminando o esconderijo dos guerrilheiros vietcongues. 

 “Entre 1962 e 1971, foram despejados cerca de 80 milhões a 88 milhões de litros de compostos químicos no país, contendo dioxina, uma substância associada a câncer e defeitos congênitos graves”

Crimes de guerra em larga escala…

“As consequências humanitárias e ambientais foram devastadoras, com estimativas de mais de 400 mil mortes diretas e o nascimento de 500 mil crianças com deficiências físicas, além de mais de um milhão de pessoas afetadas a longo prazo por problemas de saúde.

Além do Agente Laranja, os EUA também empregaram em grande quantidade Napalm e, posteriormente, durante a fase de expansão da guerra para Laos e Camboja (a partir de 1972), Fósforo Branco.

 Esses ataques resultaram em um custo humano imenso, com o Vietnã do Norte calculando cerca de 3 milhões de mortos e o Vietnã do Sul 250 mil.”

Em termos de mortes e contaminação, até certo ponto não muito diferente do emprego de armas nucleares,

Última edição 9 dias atrás por Hamom
JuggerBR
JuggerBR
9 dias atrás

Alemanha e Japão devem ser os primeiros a terem nukes, se é que já não tem e nunca anunciaram. A lista em seguida será longa, a agência internacional de energia atômica nunca terá menos importância do que agora…

Vitor
Vitor
Responder para  JuggerBR
9 dias atrás

Essa agência foi planejado e arquitetada para atender os americanos, uma parcela da classe politicas nacional desavisada de fato são entreguistas assinou o tal tratado sem avaliar as consequências futuras …fdps.

Sequim
Sequim
Responder para  JuggerBR
8 dias atrás

Coréia do Sul, Egito, Arábia Saudita, Irã, e talvez, Brasil.

Alexandre Costa
Alexandre Costa
Responder para  Sequim
8 dias atrás

O Brasil precisa de um projeto de longo prazo, para se tornar auto suficiente em alguns setores chave, para daí sim pensar em bomba atômica. Porque as sanções virão, sem dúvida. Isso sem falar em meios de entregar a bomba, o Irã está mostrando que mísseis balísticos são muito eficientes, embora nós precisaríamos de mísseis com maior alcance, já que o país que possivelmente nos seria hostil, fica bem distante, na direção norte.

André Macedo
André Macedo
9 dias atrás

Não há como esperar um “louco racional” de alguém que coloca, entre outras coisas, um antivacina no “Ministério da Saúde” deles kkkkkkkkkk ele é capaz de ações pontuais calculadas, mas de racional é só uma ínfima parte.

Vinicius Momesso
Vinicius Momesso
9 dias atrás

Depois o louco que ameaça usar armas nucleares é o Putin.

Phacsantos
Phacsantos
9 dias atrás

E os países que não tem poder nuclear só podem olhar e soltar nota dizendo que “repudia severamente”…

O Brasil deveria era fabricar as suas..sem nota à imprensa, sem inauguração…vai lá quieto e faz. Depois que fizer também não precisa contar pra ninguém não…fica quieto igual Israel!

JuggerBR
JuggerBR
Responder para  Phacsantos
9 dias atrás

Mas no minuto que o BR começar o projeto, terá uma fila de ‘espiões’ entregando tudo, aqui isso não dá certo não…

Phacsantos
Phacsantos
Responder para  JuggerBR
8 dias atrás

Infelizmente!

Antes seria preciso mudar a ideologia de um povo…sermos um povo…não um aglomerado de pessoas que usam a mesma língua escrita, muitas nem isso!

Macgarem
Macgarem
9 dias atrás

Usar no vietnan ia dar em nada, alias depois que jogaram napalm e ferraram boa parte das terras do país contaminar com radiação seria só um tempero.

Essa crise do Ira mostrou que justamente o Laranjo não queria nem usar todo arsenal tradicional, imagina disparar armamento nuclear em uma região com esse movimento.

Bigliazzi
Bigliazzi
9 dias atrás

Resumo dessa lenga lenga… quem tem dezenas de milhares de armas nucleares pode qualquer coisa, principalmente quando todos sabem que ele sabem como atirar esses cocos nucleares, se os tivéssemos faríamos o mesmo

Última edição 9 dias atrás por Bigliazzi