Mambises: o batalhão desconhecido da maior batalha da Guerra de Independência de Cuba

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Mambises 2

Por Dinair Alves

Em março de 1874, no interior de Camagüey, Cuba, cerca de 500 soldados de origem chinesa integravam as forças do General Máximo Gómez na que seria a maior batalha da Guerra dos Dez Anos — Las Guásimas.

Eles não eram oficiais enviados por Pequim nem voluntários vindos da China para lutar por uma causa. Eram, na sua maioria, ex-trabalhadores forçados que haviam escapado das plantações de cana-de-açúcar e trocado o contrato de servidão por uma carabina e um facão.

Esse episódio permanece pouco conhecido fora dos círculos especializados em história militar latino-americana. Não porque seja irrelevante — mas porque a história militar raramente olha com atenção para combatentes que chegaram ao campo de batalha pela porta dos fundos.

A guerra e seu contexto

A Guerra dos Dez Anos (1868–1878) foi o primeiro grande conflito armado pela independência de Cuba. Desencadeada em 10 de outubro de 1868 com o Grito de Yara do fazendeiro e advogado Carlos Manuel de Céspedes, a guerra durou uma década e envolveu dezenas de milhares de combatentes de ambos os lados — Cuba, ainda colônia espanhola, contra um dos maiores impérios coloniais do século XIX.
O Exército Libertador cubano — os mambises, como eram chamados — não era um exército convencional. Era uma força de guerrilha heterogênea: brancos criollos, negros libertos, escravizados fugidos, voluntários estrangeiros de várias nacionalidades, e um contingente de trabalhadores de origem chinesa que com o tempo se tornaria numericamente expressivo.

Do lado espanhol, a vantagem era clara em material, logística e número de soldados regulares — que chegaram a ultrapassar 250.000 homens em determinados momentos da guerra. Do lado cubano, a vantagem estava no terreno, no conhecimento local, na motivação e, em certos momentos, numa tática militar de alta eficácia desenvolvida pelo general dominicano Máximo Gómez: a combinação de emboscada, fogo concentrado e carga de facão.

A guerra terminou sem vitória para nenhum dos lados, com o Pacto de Zanjón em fevereiro de 1878. Cuba não obteve independência — isso só viria em 1898, após uma terceira guerra. Mas o Pacto reconheceu explicitamente, em seu Artigo 3, a liberdade dos escravizados e dos “colonos asiáticos” que haviam lutado nas fileiras rebeldes. Era o reconhecimento formal, pela própria Espanha, de que trabalhadores chineses tinham sido combatentes, não figurantes, da guerra.

Quem eram esses combatentes?

Para entender como homens nascidos na China chegaram a um campo de batalha no interior de Cuba, é preciso recuar ao sistema de coolies — uma das formas mais brutais de exploração do trabalho do século XIX.

Entre 1847 e 1874, entre 125.000 e 141.000 trabalhadores chineses, quase todos de origem cantonesa, foram transportados para Cuba sob contratos de oito anos. O sistema era apresentado como um trabalho contratado. Na prática, era escravidão com outra denominação: os trabalhadores eram marcados com ferro quente, vendidos de proprietário a proprietário, impedidos de se comunicar livremente e submetidos a condições que ceifaram a vida de aproximadamente metade deles antes do término dos contratos.

A documentação mais reveladora sobre esse sistema não vem de fontes cubanas ou espanholas — vem do Relatório da Comissão de Cuba de 1874, elaborado por um comissário imperial chinês, Chen Lanbin, com base em mais de 1.200 depoimentos dos próprios trabalhadores. O documento é uma das fontes primárias mais valiosas sobre o período e, ao mesmo tempo, uma das mais subutilizadas pela historiografia ocidental.
Quando Céspedes proclamou, em outubro de 1868, a liberdade dos escravizados e dos trabalhadores asiáticos que aderissem à causa, criou uma abertura que muitos aproveitaram. Fugir para a manigua — o mato onde operavam os mambises — significava trocar um risco por outro. Mas para homens que já viviam sob condições degradantes, a guerra oferecia algo que o contrato de servidão não oferecia: a possibilidade de agir.

Três caminhos levaram esses homens ao exército rebelde: a fuga voluntária das plantações, o recrutamento ativo por comandantes cubanos, e a deserção das próprias fileiras espanholas — onde a administração colonial havia cometido o equívoco de alistar trabalhadores chineses como auxiliares militares a partir de 1871.

Um ponto que a narrativa heroica tende a suavizar: o Relatório de 1874 contém depoimentos de trabalhadores que descrevem recrutamento forçado pelos próprios rebeldes — homens que disseram ter tido pouca ou nenhuma escolha. A historiadora norte-americana Kathleen López, em Chinese Cubans: A Transnational History (UNC Press, 2013), analisa esses testemunhos com seriedade. A verdade, como frequentemente acontece na guerra, provavelmente é mais complexa do que qualquer uma das versões extremas: havia voluntários convictos e havia homens recrutados sob pressão.

Las Guásimas, março de 1874

A batalha de Las Guásimas foi o maior confronto armado da Guerra dos Dez Anos e um dos mais expressivos exemplos de vitória assimétrica na história militar do continente americano.

O contexto estratégico: em 1874, Máximo Gómez planejava o que considerava a manobra decisiva da guerra — a invasão das províncias ocidentais, onde estavam os grandes canaviais espanhóis. Para que Cuba se tornasse ingovernável para a Espanha, era preciso levar a guerra ao coração econômico da ilha. O Brigadeiro Manuel Armiñán, avisado do movimento, interceptou a coluna cubana com uma força expressivamente superior.

As forças em campo: as estimativas variam conforme a fonte — um dado já revelador por si só. Os cubanos teriam entre 1.300 e 2.050 combatentes; os espanhóis, entre 3.000 e 5.000, com artilharia. Essa disparidade nas estimativas é característica das guerras do século XIX: os relatos cubanos tendiam a exagerar a força inimiga e minimizar a própria; os relatos espanhóis faziam o movimento inverso. O pesquisador Robert L. Scheina, em Latin America’s Wars (2003), apoia-se principalmente em fontes cubanas ao apresentar os números mais citados: 1.037 baixas espanholas contra 174 cubanas — uma proporção de 6:1 que, embora plausível em guerrilha com vantagem de terreno, não foi verificada por fontes independentes.

A tática

Gómez empregou um grupo de provocação para atrair a coluna espanhola para terreno favorável, enquanto as forças principais fechavam o cerco. Durante cinco dias, os mambises combinaram fogo de fuzilaria de posições protegidas, cargas de facão — a arma que Gómez havia transformado em instrumento de terror psicológico desde o início da guerra — e ataques simultâneos de flanco. Antonio Maceo, ferido no combate, manteve o comando.

Esgotada a munição e com pesadas baixas, a coluna de Armiñán recuou.

O papel do contingente chinês: segundo Jiménez Pastrana, o historiador cubano que produziu o levantamento mais sistemático sobre o tema, cerca de 500 dos combatentes cubanos em Las Guásimas eram de origem chinesa — representando entre 25% e 38% das forças presentes, a depender do total adotado. Atuavam principalmente como infantaria de linha, nas posições que exigiam sustentação de fogo sob pressão direta.

Entre os nomes documentados estão o Capitão Juan Sánchez (Lam Fu Kin) — veterano de conflitos camponeses na China antes de ser embarcado para Cuba —, o Tenente José Pedroso, os Sargentos Andrés (Kao-Lion) e José Fog, e Bartolo Fernández, cujo nome de guerra cubano era José Bu Tack.

Não existe, até onde a pesquisa atual alcança, um relato de combate detalhado que desagregue as ações por unidade étnica. As fontes espanholas falam genericamente de “forças rebeldes”. A narrativa de que os combatentes chineses foram determinantes para o resultado é plausível dado o tamanho do contingente — mas não está documentada de forma independente das fontes cubanas.

A dimensão estratégica – vitória tática, impasse estratégico

Las Guásimas é frequentemente apresentada como uma das grandes vitórias mambises. E foi — taticamente. Mas o historiador cubano Francisco Pérez Guzmán oferece uma leitura mais sóbria: a batalha consumiu munição escassa, desviou Gómez de sua manobra principal, e a invasão ao Ocidente que deveria se seguir nunca se concretizou.

Nos anos seguintes, o fim da Guerra Carlista na Espanha liberou um volume considerável de tropas regulares para Cuba. O desgaste acumulado, as divisões internas entre os líderes cubanos, e a crescente disparidade de recursos levaram ao Pacto de Zanjón em 1878 — um acordo que não deu a Cuba a independência, mas que, significativamente, libertou formalmente os combatentes de origem asiática que estavam nas fileiras rebeldes.

Essa clausula é, por si só, um documento histórico: ela confirma que a participação dos chineses era conhecida, reconhecida e suficientemente relevante para merecer tratamento específico num acordo de paz.

Reconhecimento e memória

A figura que melhor sintetiza o reconhecimento político da participação chinesa é Gonzalo de Quesada y Aróstegui, discípulo de José Martí. Em 1892, Quesada escreveu o ensaio “Los chinos y la independencia de Cuba”, com a frase que se tornou o emblema desse capítulo: “¡No hubo un chino cubano desertor; no hubo un chino cubano traido!”.

É uma frase de grande força retórica. Mas deve ser lida pelo que é, um ato político e literário, produzido por um intelectual construindo uma narrativa de nação — não um balanço militar frio. O próprio Relatório de 1874 sugere que a realidade era mais complexa do que essa afirmação permite.

A Constituição cubana de 1901 deu a veteranos estrangeiros que houvessem lutado por dez ou mais anos o direito de concorrer à presidência. Apenas quatro homens se qualificavam: Máximo Gómez (dominicano), Carlos Roloff (polonês), e dois chineses — José Bu Tack e José Tolón. Esses dois nomes, hoje pouco conhecidos fora da historiografia especializada, estão entre os mais singulares da história militar das Américas.

Em Havana, na esquina das ruas Línea e L, no Vedado, está o único monumento no mundo erguido para homenagear soldados chineses numa guerra de independência nacional. Projetado em estilo Art Déco pelo escultor Fritz Weigel, inaugurado em 1931 e com cerimônia nacional em 1946, o monumento carrega uma placa com a frase de Quesada em espanhol e chinês. Foi restaurado em 2019, no contexto das comemorações dos 60 anos da Revolução Cubana — um gesto com significado diplomático claro, dado o peso das relações Havana-Pequim.

Monumento ao Soldado Chinês, em Havana, no bairro do Vedado

Por que isso interessa à história militar?

Há pelo menos três razões pelas quais esse episódio merece atenção de quem estuda história e doutrina militar.

A primeira é a composição dos exércitos assimétricos. O Exército Libertador cubano era radicalmente heterogêneo — em origem étnica, em condição social, em motivação. Essa heterogeneidade não foi um acidente: foi uma condição estrutural de qualquer força insurgente que enfrente um exército colonial convencional com recursos limitados. Compreender como se constrói coesão e eficiência de combate em forças dessa natureza é uma questão doutrinária que permanece atual.

A segunda é a relação entre trabalho forçado e recrutamento militar. Os mambises chineses chegaram ao campo de batalha a partir de uma condição de exploração extrema. Isso levanta questões sobre motivação, fidelidade e agência — questões que o historiador militar não pode ignorar sem empobrecer a análise.

A terceira é a política da memória histórica. O caso dos mambises chineses é um exemplo claro de como uma narrativa histórica é construída, amplificada e instrumentalizada. A participação foi real. O reconhecimento foi real. Mas a versão heroica e sem sombras — que apaga o recrutamento forçado, exagera os números, e serve a propósitos diplomáticos do presente — é uma distorção. Separar o fato da narrativa é uma competência que o estudo de história militar deve cultivar.

Nota sobre as fontes

A maior parte do que se sabe sobre os mambises chineses vem de fontes cubanas pró-independência, especialmente de Juan Jiménez Pastrana (Los chinos en la historia de Cuba, 1847–1930, 1983), da EcuRed — enciclopédia nacional cubana —, e do relato de época de Antonio Chuffat Latour (Apunte histórico de los chinos en Cuba, 1927). São fontes valiosas, mas não neutras.

O contrapeso mais sólido é o Relatório da Comissão de Cuba de 1874 — fonte primária independente, elaborada por representantes do governo imperial chinês — e o trabalho de Kathleen López (Chinese Cubans: A Transnational History, UNC Press, 2013), que oferece a análise mais equilibrada disponível em inglês, confirmando a substância da participação chinesa mas examinando também suas ambiguidades.

Os números da batalha de Las Guásimas — forças envolvidas, baixas, proporção de combatentes chineses, devem ser lidos como estimativas baseadas principalmente em relatos cubanos, não como dados verificados por fontes cruzadas independentes.

Bairro Chinês, Havana, Cuba

Leituras recomendadas:

  • JIMÉNEZ PASTRANA, Juan. Los chinos en la historia de Cuba, 1847–1930. Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1983.
  • LÓPEZ, Kathleen. Chinese Cubans: A Transnational History. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2013.
  • SCHEINA, Robert L. Latin America’s Wars, vol. 1: The Age of the Caudillo, 1791–1899. Washington: Brassey’s, 2003.
  • YUN, Lisa. The Coolie Speaks: Chinese Indentured Laborers and African Slaves in Cuba. Philadelphia: Temple University Press, 2008.
    Relatório da Comissão de Cuba de 1874 (Chen Lanbin). Disponível em arquivos históricos do período.

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Abymael
Abymael
17 dias atrás

Que grande matéria!
Cuba resiste…ainda hoje lutando por sua independência.

sub urbano
sub urbano
16 dias atrás

Interessante as “cargas de facão”. O facão foi uma arma utilizada na guerra luso neerlandesa (no episodio da insurreição pernambucana para ser mais específico). As milicias brasileiras emboscavam os holandeses com todo tipo de arma, inclusive facões. Usavam também lanças, arcos e tacapes indígenas além de armas modernas como mosquetes e arcabuzes com percussão de “mecha”. Os brasileiros não tinham nenhuma chance em campo aberto contra as rigidas formações holandesas, ao estilo “pique e tiro”, o padrão europeu na época, com quadrados de piqueteiros intercalados com arcabuzeiros e mosqueteiros. Mas no meio do mato o papo era diferente. No ambiente selvático as pesadas lanças e arcabuzes dos holandeses perdiam para as flechas e facões dos nativos.

Ficando mais off topic ainda, detalhe histórico interessante é notar as gravuras de embates entre portugueses, espanhois e indigenas no inicio do século XVI descrevendo formações de “pique e tiro” contra hordas de indigenas. Veja só, esse tipo de formação foi inventada depois da primeira fase da colonização. essas gravuras são posteriores a conquista dos astecas, por exemplo. São desenhistas do século XVII tentando descrever combates do século XVI, diferença de tempo similar ao de um soldado americano da guerra do iraque e um soldado frances da primeira guerra mundial. É como descrever um soldado da primeira guerra fazendo taticas de CQB utilizando rifle ferrolhado. Oq eu quero dizer é q um confronto entre espanhois e astecas, em relação aos europeus, eram táticas mais medievais do que renascentistas. Espadas curtas, escudos redondos, lanças com pontas de ferro, balestras, arcabuzes pesados de mecha, cavalaria nas alas. Hernan Cortez msm montava com uma armadura do Rei Arthur kkk. Voltando ao facão, ele nem havia sido inventado ainda.