Estudo publicado no ‘The Lancet’ associa sanções econômicas a 38 milhões de mortes desde 1970
Pesquisa em 152 países conclui que sanções unilaterais estão ligadas a aumento da mortalidade, com impacto especialmente grave sobre crianças menores de cinco anos
Um estudo publicado na revista científica The Lancet Global Health reacendeu o debate internacional sobre o custo humano das sanções econômicas ao estimar que medidas unilaterais, impostas principalmente pelos Estados Unidos e pela União Europeia, estão associadas a dezenas de milhões de mortes desde a década de 1970.
A pesquisa, intitulada “Effects of international sanctions on age-specific mortality”, foi conduzida por Francisco Rodríguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot e analisou dados de 152 países entre 1971 e 2021. Segundo os autores, há uma “associação causal significativa” entre sanções internacionais e aumento da mortalidade, com efeitos mais fortes nas sanções unilaterais, econômicas e impostas pelos Estados Unidos.
O estudo estima que sanções unilaterais estejam associadas a cerca de 564 mil mortes excedentes por ano no mundo, um impacto comparável, segundo os autores, ao peso global da mortalidade relacionada a conflitos armados. Em comunicado sobre a pesquisa, o Center for Economic and Policy Research (CEPR), ao qual os autores são ligados, destacou que o número médio anual é de aproximadamente 564.258 mortes.
Com base nos dados do estudo, análises posteriores dos próprios autores e de pesquisadores que comentaram o trabalho estimam que sanções unilaterais dos EUA e da União Europeia estejam associadas a aproximadamente 38 milhões de mortes no período desde 1970. O número ganhou repercussão internacional após artigo assinado por Jason Hickel, Dylan Sullivan e Omer Tayyab, que apresentou essa estimativa central e afirmou que, em alguns anos da década de 1990, o impacto anual teria ultrapassado um milhão de mortes.
O dado mais sensível diz respeito às crianças. Segundo os resultados divulgados, crianças menores de cinco anos representaram 51% do total de mortes associadas às sanções no período analisado. Para os autores, isso indica que os efeitos das restrições econômicas atingem de forma desproporcional os grupos mais vulneráveis, especialmente em países dependentes de importações de alimentos, medicamentos, equipamentos médicos, combustíveis e peças de reposição.
As sanções econômicas são tradicionalmente apresentadas por governos ocidentais como instrumentos de pressão menos destrutivos do que a guerra. Elas podem incluir restrições financeiras, bloqueio de exportações, congelamento de ativos, proibição de transações bancárias, limitações ao comércio de tecnologia, combustíveis, insumos industriais e, em alguns casos, medidas secundárias contra empresas e países que negociem com os governos sancionados.
A pesquisa publicada no The Lancet Global Health, porém, contesta a ideia de que sanções sejam uma alternativa “limpa” ou humanitária ao uso da força militar. Em editorial relacionado ao tema, a própria revista destacou que sanções econômicas têm baixa eficácia política e impacto significativo e desigual sobre a saúde das populações afetadas.
O mecanismo descrito pelos pesquisadores é indireto, mas devastador. Sanções podem reduzir a renda nacional, desorganizar os sistemas de saúde, dificultar a importação de medicamentos e equipamentos, cortar o acesso ao crédito internacional, elevar os preços de alimentos e combustíveis e provocar a deterioração da infraestrutura essencial. Mesmo quando há isenções humanitárias formais, bancos, seguradoras e empresas podem evitar transações com países sancionados por medo de punições, fenômeno conhecido como “overcompliance”.
O estudo não afirma que cada morte possa ser atribuída individualmente a uma decisão específica de Washington ou Bruxelas. A metodologia trabalha com a mortalidade excedente estatisticamente associada à presença de sanções, controlando por variáveis econômicas, políticas e demográficas. Ainda assim, os autores sustentam que os resultados são robustos e indicam uma relação causal relevante entre sanções e o aumento das mortes.
A conclusão tem forte impacto político. Se confirmada e aceita pela comunidade internacional, a estimativa coloca as sanções econômicas entre os instrumentos mais letais da política externa contemporânea. O número de 38 milhões de mortes associadas a sanções dos EUA e da UE desde 1970 supera amplamente as baixas diretas de muitos conflitos modernos e desafia a narrativa de que bloqueios financeiros e comerciais seriam medidas essencialmente não militares.
O debate, no entanto, deve continuar. Críticos desse tipo de estimativa costumam argumentar que é difícil separar os efeitos das sanções de fatores como má gestão interna, corrupção, guerras civis, autoritarismo, colapso econômico prévio e decisões dos próprios governos sancionados. Casos como os de Iraque, Cuba, Irã, Venezuela, Síria e Coreia do Norte permanecem altamente controversos justamente porque envolvem múltiplas causas de deterioração social e sanitária.
Mesmo com essas ressalvas, o estudo amplia a pressão por uma revisão do uso de sanções amplas. Especialistas em saúde pública defendem que medidas econômicas punitivas sejam avaliadas não apenas pelos seus objetivos diplomáticos, mas também pelos seus efeitos mensuráveis sobre a mortalidade infantil, o acesso a medicamentos, a nutrição, a vacinação, o abastecimento de água e o funcionamento dos hospitais.
A publicação no The Lancet Global Health transforma uma discussão muitas vezes tratada como geopolítica em um problema de saúde pública global. Ao quantificar o impacto humano das sanções, o estudo sugere que decisões tomadas em centros de poder financeiro podem produzir efeitos tão ou mais letais quanto campanhas militares — só que de forma mais lenta, difusa e menos visível.■

38 milhões de mortes.
No Holodomor de 1932-1933 (uma fome em massa na Ucrânia causada pelas políticas da liderança soviética). A maioria dos historiadores concorda que o número de mortos ficou entre 3,9 e 4,5-5 milhões.
Em matéria de mortes causadas por diretrizes políticas, o stalinismo soviético perde de goleada pro imperialismo americano…
Perde o stalinismo Soviético mas ganha quase ao grande salto em frente da China Comunista, foram entre 15 milhões até 45 milhões de 1958 até 1960
Os pesquisadores estão de parabéns pela criatividade, concluir de sanções causaram 38 milhões de morte requer uma matemágica única. Culpar as sanções por mortes em países como Iraque, Cuba, Irã, Venezuela, Síria e Coreia do Norte, é como colocar a culpa da derrota do seu time naquele seu amigo “pé frio”. Iraque e Síria bombardearam o próprio povo com armas químicas.
Creio ser preciso conhecer a estrutura metodológica da pesquisa para construir um ponto de vista sobre a validade da sistematização científica.
Não sou da área médica, mas sei que a Lancet está entre as mais respeitadas publicações científicas desse campo do conhecimento. Não apenas pelos exigentes critérios de seleção dos artigos, mas também pela rigorosa revisão dos pares, que fazem com que seus 200 anos de existência enquanto publicação científica de referência sejam mais um aspecto de sua legitimidade. Mesmo quando as conclusões não se encaixam nas nossas percepções baseadas em… senso comum.
É claro que o conhecimento científico deve estar sob permanente escrutínio, mas para contestá-lo, é preciso fundamentar.
Não precisa nem entrar muito na questão da credibilidade do estudo pra perceber que ele tem fundamento. Na prática, concordando ou não com os sistemas políticos e econômicos dos países que sofrem sanções, é bem óbvio que esse tipo de medida tem um efeito extremamente destrutivo sobre a população. Isso, por sua vez, acaba gerando escassez de tudo, desde itens básicos até produtos mais complexos (como medicamentos, equipamentos, etc).
Por mais incômodo que isso seja para algumas pessoas admitirem, quem mais sofre com essas sanções normalmente é a população comum, não a elite desses países. E já é algo bem consolidado na economia que a falta de itens básicos está diretamente ligada ao aumento da mortalidade e à queda na expectativa de vida, principalmente a mortalidade infantil.
No caso de Cuba, que hoje vive sob bloqueio comercial, nem dá mais para justificar isso como “estratégia”. Na prática, é muito mais demagogia eleitoreira feita às custas do sofrimento de milhões de pessoas.
Ninguém nos EUA sabe mais porque eles sancionam Cuba. Acho que nem os políticos lembram.
Pois é, as sanções são aplicadas para ajudar os países sancionados. Jamais provocariam mortes!
Só agora vieram observar isso !?
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Essa arma do sistema capitalista que procura danificar a econômico de países que não são simpáticos aos dogmas de Washington, D.C…..sempre aconteceu ….Cuba,Venezuela,Irã,Russia,China …etc
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Basta verificar o quê o povo Cubano vive passando pela maldade do império da sacanagem …. e culpar o comunismo pelo desastre na economia cubana e não aos anos de embargos contra a economia do povo cubano.
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O comunistas chineses colocaram essa farsa expostas para o público verem.
O que mais mata é a CORRUPÇÃO ENDEMICA!!
mais 72h e a corrupção acaba.
É só legalizar. Chama de lobby e pronto.
INSS e Master, coisas assim
Até parece que as sanções atingem países democráticos. As sanções atingem países com regimes ditatoriais e belicistas, que já oprimem suas populações.
Não é bem assim … Arábia Saudita,Barem,EAU ,…são exemplos que foge totalmente às “regras” de quem usa as sanções em nome da “democracia” e dos “direitos Humanos”….como geralmente usam essas bandeiras para impor na verdade … os seus caprichos imperialistas ocidental.