Rússia acelera aposta em IA e semicondutores, mas sanções e falta de chips ameaçam ambições de soberania tecnológica
A Rússia intensificou sua estratégia de longo prazo para desenvolver inteligência artificial, semicondutores, centros de dados e infraestrutura digital própria, em uma tentativa de reduzir a dependência de tecnologias ocidentais e manter competitividade em setores considerados críticos para a economia, a segurança nacional e a indústria de defesa.
O movimento ganhou nova urgência após as sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados desde a invasão da Ucrânia em 2022, que restringiram o acesso russo a semicondutores avançados, GPUs, equipamentos de fabricação de chips e componentes de alta tecnologia. A estratégia de Moscou combina investimento estatal, mobilização de grandes empresas nacionais, cooperação com a China e um discurso cada vez mais explícito de “soberania tecnológica”.
O eixo político foi reforçado por Vladimir Putin em novembro de 2025, durante a conferência AI Journey, em Moscou. O presidente russo pediu a criação de uma força-tarefa nacional para coordenar o desenvolvimento de modelos generativos domésticos de inteligência artificial, afirmando que a dependência de grandes modelos de linguagem estrangeiros é inaceitável para a Rússia. Segundo Putin, IA tornou-se uma questão de soberania nacional, tecnológica e até “de valores”.
Putin também estabeleceu uma meta econômica ambiciosa: a contribuição das tecnologias de IA para o PIB russo deverá superar 11 trilhões de rublos até 2030. A força-tarefa deverá focar no desenvolvimento de centros de dados pelo país e em fontes de energia dedicadas, incluindo pequenas usinas nucleares, para sustentar a expansão da capacidade computacional.
A aposta em energia nuclear para alimentar a infraestrutura de IA é vista por Moscou como uma vantagem estratégica. Segundo a World Nuclear News, Putin defendeu a transição para a produção em série de pequenas usinas nucleares flutuantes e terrestres, capazes de fornecer energia estável a centros de processamento de dados e garantir que informações sensíveis permaneçam dentro das fronteiras russas.
A política de IA está integrada ao projeto nacional “Data Economy and Digital Transformation of the State”, apresentado em 2025. O programa inclui infraestrutura de internet, plataformas digitais para setores sociais, inteligência artificial, governo digital, soluções domésticas, pesquisa aplicada, cibersegurança, formação de mão de obra e estatísticas governamentais. O objetivo declarado é integrar IA à economia e à esfera social até 2030.
Esse plano atualiza a estratégia nacional de IA aprovada por decreto presidencial em 2019, que já previa objetivos até 2030. O documento estabelecia como prioridades ampliar pesquisa científica, desenvolver software com IA, aumentar a disponibilidade de dados e recursos computacionais, formar profissionais qualificados e criar regulação flexível para estimular o setor.
Na prática, o esforço russo está concentrado em poucas empresas nacionais. A Sberbank, que deixou de ser apenas um banco para se tornar um conglomerado tecnológico, lidera o desenvolvimento do modelo GigaChat. A Yandex também atua com o Yandex GPT. A Reuters observa que esses são os dois principais modelos de linguagem desenvolvidos localmente, embora a Rússia ainda esteja atrás dos Estados Unidos e da China em IA.
A Sberbank também tenta avançar na base material da soberania tecnológica. Em janeiro de 2026, a empresa adquiriu 41,9% da fabricante de eletrônicos Element por 27 bilhões de rublos. A Element produz circuitos integrados, dispositivos semicondutores e microchips, respondendo por cerca de metade da produção microeletrônica russa. A operação, porém, cria potencial disputa com a estatal Rostec, que detém 41,6% da empresa.
A dependência externa, no entanto, continua sendo o maior gargalo. Em maio de 2026, o CEO da Sberbank, German Gref, afirmou que a Rússia espera usar chips chineses para alimentar o GigaChat. A Reuters informou que a busca por processadores chineses ocorre porque sanções ocidentais bloqueiam o acesso russo a hardware avançado. O problema é que a Sberbank concorre pelos mesmos chips Huawei Ascend 950 disputados por gigantes chinesas como ByteDance, Tencent e Alibaba.
Mesmo os chips chineses mais avançados ainda ficam atrás dos processadores de ponta da Nvidia, como o H200, segundo a Reuters. Isso coloca a Rússia em uma posição difícil: sem acesso livre aos chips ocidentais e sem prioridade clara no fornecimento chinês, Moscou precisa tentar desenvolver modelos competitivos com menos capacidade computacional e maior custo de aquisição.
No campo dos semicondutores, a Rússia mantém planos ambiciosos para 2030. Desde 2022, o governo trabalha em uma estratégia de microeletrônica estimada em cerca de 3,19 trilhões de rublos, voltada a desenvolver produção local, design de chips, infraestrutura de centros de dados, formação de talentos e promoção de soluções domésticas. O objetivo anunciado inclui alcançar processos de fabricação mais avançados, com metas frequentemente associadas a nós de 28 nm até 2030.
Nos últimos meses, Moscou também ampliou iniciativas de substituição de importações em equipamentos de fabricação de chips. Segundo o TAdviser, o Ministério da Indústria e Comércio destinou 54,5 bilhões de rublos para centros de introdução de equipamentos e materiais de microeletrônica, previstos para Zelenograd e São Petersburgo. A mesma fonte registra contratos e projetos para equipamentos de produção, litografia, wafers de silício e processos associados à fabricação de chips.
Ainda assim, a distância tecnológica permanece grande. Em 2026, a Rússia apresentou sua primeira litografia doméstica de 350 nm, tecnologia considerada obsoleta há décadas para chips avançados. A Tom’s Hardware observou que, embora simbolicamente importante, o equipamento fica muito atrás dos padrões globais e até das necessidades de parte da própria indústria russa, que opera em processos mais avançados.
O mesmo relatório aponta que o objetivo russo de avançar para 130 nm, 90 nm, 28 nm e eventualmente 14 nm está atrasado em relação ao roteiro governamental. Isso significa que, mesmo que a Rússia consiga ampliar sua produção doméstica, ela continuará distante dos nós usados em aceleradores de IA de ponta, fabricados em processos de poucos nanômetros por empresas como TSMC, Samsung e Intel.
A infraestrutura de centros de dados, essencial para IA generativa, também enfrenta obstáculos. Em junho de 2026, o Moscow Times informou que a Rússia suspendeu a construção de 38 projetos de data centers, avaliados em 168,6 bilhões de rublos, nos últimos três anos. Os motivos incluem juros elevados e limitações da rede elétrica, justamente em um setor que o governo considera estratégico para IA doméstica.
Outro desafio é humano. A Time informou em junho de 2026 que autoridades e instituições russas vêm tentando reconstruir a base de talentos em IA, com novas estruturas acadêmicas e mudanças curriculares. A publicação ressalta, porém, que o país sofre com perda de especialistas desde a guerra na Ucrânia e que o esforço de formação pode não compensar as fragilidades estruturais em computação, dados e integração global.
No próprio setor russo há reconhecimento dos limites. Alexander Vedyakhin, primeiro vice-CEO da Sberbank, comparou a IA a uma nova forma de poder estratégico, semelhante ao nuclear, mas admitiu que a Rússia terá dificuldade para igualar os líderes em capacidade computacional, sobretudo por causa das sanções ocidentais. Para ele, Estados Unidos e China estão à frente e contam com mais dinheiro, mais especialistas e mais poder computacional.
A cooperação com a China é uma saída, mas também um risco. Em janeiro de 2025, Putin instruiu o governo russo e a Sberbank a ampliarem a cooperação com Pequim em inteligência artificial. A Reuters registrou que a parceria busca reduzir o domínio dos Estados Unidos no setor, mas também destacou que a Rússia estava apenas em 31º lugar entre 83 países no índice global de implementação, inovação e investimento em IA da Tortoise Media, atrás inclusive de outros membros dos BRICS, como Índia e Brasil.
Analistas apontam que essa dependência chinesa pode crescer. Um estudo de 2026 sobre a cooperação Rússia-China afirma que a dependência russa de tecnologia e semicondutores chineses se aprofundou desde a guerra na Ucrânia e tende a aumentar, especialmente à medida que Moscou tenta compensar o bloqueio de fornecedores ocidentais.
Para a defesa russa, a aposta em IA, chips e software nacional tem implicações diretas. Moscou quer modelos próprios em áreas sensíveis como segurança, inteligência, serviços públicos, saúde e educação, evitando que dados estratégicos sejam processados por sistemas estrangeiros. A lógica também se aplica ao campo militar, onde IA pode apoiar drones, reconhecimento, guerra eletrônica, planejamento e automação de processos.
O paradoxo é que a guerra, ao mesmo tempo que aumenta a urgência tecnológica, também consome recursos, aprofunda sanções e reduz o acesso a talentos e equipamentos. A Rússia tenta compensar com centralização estatal, compras via países parceiros, substituição de importações e mobilização de empresas como Sberbank, Yandex, Element e Rostec. Mas a lacuna em semicondutores avançados continua sendo o principal obstáculo.
A estratégia russa, portanto, parece menos voltada a alcançar a liderança global absoluta em IA e mais a garantir uma base mínima de soberania tecnológica. O objetivo é ter modelos próprios, chips suficientes para aplicações críticas, centros de dados nacionais e cadeias de suprimento menos vulneráveis a sanções.
O desafio é que IA de fronteira depende exatamente dos elementos nos quais a Rússia é mais vulnerável: aceleradores gráficos avançados, fabricação de chips de ponta, acesso a equipamentos de litografia, escala de capital privado, integração internacional de pesquisa e capacidade energética estável para grandes data centers.
Até 2030, Moscou buscará provar que consegue transformar recursos estatais, matemática, energia nuclear e cooperação com a China em uma plataforma tecnológica própria. Mas, diante da velocidade dos Estados Unidos e da China, a Rússia corre o risco de consolidar uma soberania tecnológica defensiva — suficiente para uso interno e militar sensível, mas distante da liderança global em IA e semicondutores.■

Independentemente do que se ache da Rússia e da guerra da Ucrânia, esta notícia mostra a diferença entre países que têm projeto nacional e os que não têm. A única iniciativa do Brasil neste sentido foi a criação da CEITEC que chegou a ser extinta no governo Bolsonaro.
O que pouco vejo comentado nos artigos é a próxima fronteira nos chips, o uso de silício está atingindo seus limites físicos, o 1.6 nm é a barreira final, depois disso só mudando de material, como o grafeno, que permite chips com o tamanho de poucos átomos, além do uso de luz ao invés de energia elétrica.
Rússia, China e demais países que estão atrasados nos chips de silício precisam investir maciçamente nestes materiais, pois as vantagens deles sobre os chips atuais é extrema, trabalham até 100 vezes mais rápidos, em temperatura ambiente e com chips sobrepostos, ao invés de pastilhas, em torres, tornado o processamento exponencialmente maior.
Esse é o caminho, é onde existem atalhos para tirar o atraso e buscar a vanguarda desta tecnologia no futuro muito próximo, próxima década já teremos isso sendo utilizado em larga escala.
Chips de silício estarão obsoletos em menos de uma década.
Parece lógico e fácil pegar este atalho, mas não é. Como um país que não domina nem a tecnologia mais básica vai conseguir desenvolver uma ainda mais complexa? De qualquer forma, é uma discussão interessante.
Vídeo no Yotube sobre esse assunto:
A Rússia lançou um de seus projetos tecnológicos mais ambiciosos em décadas com o anúncio da fábrica de semicondutores Volga, perto de Kazan. Projetado para fabricar chips usando tecnologia de processo de 55 a 40 nanômetros antes de avançar para a produção de 28 nm, o projeto representa a iniciativa de fabricação de semicondutores mais avançada do país desde a era soviética.
https://www.youtube.com/watch?v=GsHEgemYJVA
A invasão da Ucrânia foi a maior burrice já cometida pela Rússia. Não ganharam nem estão ganhando absolutamente nada! Além disso, estão perdendo homens numa população já envelhecida e que está diminuindo a cada dia. Quem não lembra de tantos homens que estavam fugindo pelas fronteiras no começo da guerra? Eram centenas de milhares. Quem vai querer ficar num país onde podem, independente do seu talento ou vontade, te convocar para lutar e morrer numa guerra absolutamente inútil? E ainda há pessoas que acham que Putin joga o tal “Xadrez 4D”…
Agora imaginem se, ao invés de gastar tantos recursos com esta guerra, tivessem investido em outros setores que realmente fariam com que o país crescesse, como infraestrutura, aviação, trens e engenharia de microeletrônica?
Foi justamente a guerra na Ucrânia que suscitou a urgência de se atingir independência e soberania tecnológica em algum nível.
E não somente em semicondutores e IA: as sanções e os embargos econômicos forçaram a revitalização de setores tecnológicas que, no passado, eram de domínio dos russos, tais como aviação civil, ferroviário, maquinaria, etc.