Tatsukuma Ushijima: o ‘Demônio do Judô’ que tentou mudar o destino do Japão na Segunda Guerra

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Tatsukuma Ushijima: o ‘Demônio do Judô’ que tentou mudar o destino do Japão na Segunda Guerra

Tatsukuma Ushijima e Kimura

Na história das artes marciais japonesas, poucos nomes carregam uma aura tão dura, paradoxal e quase cinematográfica quanto Tatsukuma Ushijima. Conhecido como “Oni no Ushijima”  o “Demônio Ushijima”, ele foi um dos grandes judocas do Japão pré-guerra, mestre de Masahiko Kimura e personagem de uma das tramas políticas mais dramáticas do Japão imperial: a tentativa de eliminar Hideki Tojo, o primeiro-ministro que simbolizou a condução japonesa na Segunda Guerra Mundial.

Tatsukuma Ushijima

Ushijima nasceu em 10 de março de 1904, em Kumamoto, no sul do Japão, numa região onde antigas escolas de jujutsu ainda tinham forte presença. Antes de se tornar judoca, foi formado num ambiente em que a luta não era tratada apenas como esporte, mas como extensão de uma ética guerreira. Ainda jovem, entrou em contato com o Kyushin-ryu jujutsu e, aos 15 anos, começou a trilhar o caminho que o levaria ao topo do judô japonês.

O estilo que moldou Ushijima era bruto, direto e pouco sentimental. Naquele universo, vencer significava dominar completamente o adversário. Suas primeiras experiências de combate vinham de uma tradição em que não havia vitória por decisão: a luta terminava com a rendição. Essa mentalidade o acompanharia por toda a vida.

Para Ushijima, a derrota não era apenas um resultado esportivo; era uma espécie de morte simbólica.

Nos anos 1920, ele se impôs como um dos nomes mais fortes do judô japonês. Entre 1925 e 1927, venceu três vezes consecutivas o torneio do Santuário Meiji, competição que, antes da consolidação do Campeonato Japonês de Judô, funcionava como uma espécie de prova máxima da modalidade no país. Depois, já na década de 1930, venceu também as edições de 1931 e 1932 do All-Japan Judo Championships, reforçando a reputação de homem quase imbatível. Seu apelido não nasceu por acaso.

“Demônio” era uma forma de traduzir não apenas sua força física, mas a intensidade com que atacava. Ushijima era famoso por avançar sem hesitação, buscando quebrar a resistência do oponente desde o primeiro contato. Seu judô era agressivo, marcado por projeções duras, domínio no solo e uma concepção quase militar do combate. A técnica existia, mas submetida a uma ideia central: pressionar até que o outro cedesse.

 

Em 1929, no primeiro torneio Tenran Shiai, disputado diante do imperador, Ushijima esteve perto de consagrar-se definitivamente. Chegou à final depois de vencer seus combates por ippon, sobretudo com seu forte trabalho de ne-waza, mas acabou derrotado após uma longa luta contra Tamio Kurihara. A derrota o marcou profundamente. Como o Tenran Shiai não era uma competição anual, mas um torneio especial ligado a ocasiões imperiais, a chance perdida não poderia ser simplesmente recuperada no ano seguinte.

A partir daí, Ushijima mudou seu centro de vida para Tóquio. Passou a ensinar em instituições como a Polícia Imperial, a Polícia Metropolitana, universidades e escolas de elite. Treinava de forma feroz, longas sessões de randori, exercícios físicos extremos e uma rotina que beirava a autodestruição.

O objetivo era voltar mais forte, corrigir a derrota e formar uma nova geração de lutadores capazes de realizar aquilo que ele não conseguira completar. Foi nesse contexto que apareceu Masahiko Kimura, o discípulo que se tornaria uma lenda mundial. Ushijima encontrou em Kimura a matéria-prima ideal: força, ambição e capacidade de suportar treinos desumanos.

Levou-o para sua órbita, hospedou-o, orientou-o e o submeteu a uma preparação duríssima. A relação entre mestre e aluno foi uma das mais famosas do judô japonês. Kimura herdou de Ushijima não apenas técnicas, mas uma visão implacável da luta.

Esse legado cruzaria o oceano anos depois. Em 1951, Kimura enfrentou o brasileiro Hélio Gracie no Maracanã, no Rio de Janeiro, numa luta que se tornaria fundadora para a memória do jiu-jítsu brasileiro e das artes marciais modernas. Hélio, um dos nomes centrais da família Gracie, resistiu bravamente, mas acabou derrotado por uma chave de braço, o gyaku-ude-garami. A técnica passaria a ser conhecida mundialmente como “Kimura”.

Embora não tenha sido Ushijima quem derrotou o brasileiro no tatame, foi a escola brutal e disciplinada de Ushijima que ajudou a formar o homem que venceu Hélio Gracie naquele combate histórico.

Mas a vida de Tatsukuma Ushijima não se limitou ao tatame. Com o avanço da guerra e o endurecimento do regime japonês, ele se aproximou de círculos nacionalistas e de figuras críticas à condução política e militar do país.

O Japão, depois de Pearl Harbor, avançara rapidamente pelo Pacífico, mas a partir de 1942 começou a enfrentar derrotas crescentes. Em 1944, a situação estratégica era grave. A queda de Saipan, nas Marianas, abalou a defesa japonesa e abriu caminho para bombardeios diretos contra o arquipélago.

Hideki Tojo, general do Exército Imperial, ministro da Guerra e primeiro-ministro desde outubro de 1941, tornara-se o rosto político e militar do Japão em sua fase mais agressiva. Sua ascensão ao poder ocorreu no momento em que o país estava estrangulado por sanções econômicas, especialmente pela pressão norte-americana sobre o petróleo, e ainda atolado na guerra contra a China.

Para a ala militarista japonesa, a saída não era recuar, mas ampliar o conflito e avançar para o Sudeste Asiático, garantir recursos estratégicos e neutralizar a ameaça da Frota do Pacífico dos Estados Unidos. Foi sob o gabinete de Tojo que o Japão caminhou para a ruptura final com Washington.

Em dezembro de 1941, após o fracasso das negociações diplomáticas e a rejeição japonesa às exigências norte-americanas de retirada da China e da Indochina, o governo japonês autorizou a guerra contra os Estados Unidos, o Reino Unido e os Países Baixos.

O ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, transformou Tojo no símbolo máximo da entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial contra as potências ocidentais.

A partir dali, seu nome ficaria associado à ofensiva japonesa que, em poucos meses, atingiu Hong Kong, Malásia, Singapura, Filipinas, Índias Orientais Holandesas, Birmânia e vastas áreas do Pacífico.

Tojo representava a obstinação de uma guerra que já parecia perdida. Foi nesse ambiente de colapso estratégico e conspiração política que Ushijima se envolveu num plano para derrubá-lo, e, se necessário, matá-lo.

O plano esteve ligado ao major Choshige Tsunoda, oficial do Exército que articulava a remoção de Tojo e a queda de seu gabinete. Também orbitavam esse ambiente nomes como Kanji Ishiwara, estrategista militar e crítico da linha de Tojo. A ideia mais extrema previa atacar o primeiro-ministro quando ele passasse de carro aberto diante do Palácio Imperial, lançando contra o veículo uma bomba de gás cianídrico a partir de uma árvore próxima à ponte Nijubashi.

O envolvimento de Ushijima mostra como sua noção de dever extrapolava o mundo esportivo. Ele não era um liberal pacifista no sentido moderno do termo. Era um nacionalista de temperamento rígido, formado numa cultura de disciplina e sacrifício. Mas, justamente por isso, via Tojo como alguém que conduzia o Japão ao desastre.

Para ele e para outros conspiradores, eliminar o primeiro-ministro poderia abrir caminho para uma mudança política que evitasse a destruição total do país.

A conspiração, porém, não chegou à fase de execução. Quando detalhes do plano foram comunicados ao príncipe Takahito Mikasa, irmão mais novo do imperador Hirohito, este não aceitou a ideia de assassinato e a informação acabou chegando à Kempeitai, a polícia militar japonesa.

Tsunoda e Ushijima foram presos. O caso foi levado à Justiça Militar, mas o contexto já mudava rapidamente. Tojo cairia do poder em julho de 1944, depois do desastre de Saipan, e o Japão entraria no ano seguinte em sua fase final de ruína.

O desfecho para Ushijima foi menos severo do que poderia ter sido. Tsunoda foi condenado, mas recebeu pena com suspensão. Ushijima acabou não sendo formalmente acusado. Em termos práticos, sobreviveu ao episódio, à guerra e ao colapso do Japão imperial.

Tojo, por sua vez, seria preso pelos Aliados após a rendição japonesa, julgado pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, condenado por crimes de guerra e executado em 1948.

Depois da guerra, Ushijima tentou reconstruir um espaço para os lutadores japoneses num país ocupado e profundamente transformado. Em 1950, ajudou a fundar a International Judo Association, uma experiência de judô profissional. A iniciativa, entretanto, teve vida curta. O Japão do pós-guerra já era outro, e o judô, pressionado pelas autoridades de ocupação e por disputas internas, precisava redefinir seu lugar entre arte marcial, esporte e espetáculo.

Ushijima morreu em 26 de maio de 1985, aos 81 anos. Deixou um legado variado. Foi campeão, mestre, nacionalista, conspirador, formador de lendas e personagem de uma história que atravessa esporte, militarismo, derrota nacional e reconstrução.

Seu nome permanece ligado a Masahiko Kimura e, por extensão, ao combate contra Hélio Gracie no Brasil. Mas sua própria trajetória é maior do que a de um simples treinador de campeão.

Tatsukuma Ushijima foi um produto extremo de seu tempo, um homem que via o judô como combate real, a política como dever e a derrota como algo moralmente intolerável. No tatame, foi chamado de demônio pela ferocidade. Na guerra, tentou agir contra o homem que considerava responsável por levar o Japão à catástrofe.

Entre a glória esportiva e a conspiração política, sua vida revela um lado pouco conhecido do Japão imperial, o de homens que, mesmo dentro do nacionalismo e da cultura marcial, chegaram à conclusão de que Hideki Tojo precisava cair.■

Bombardeio americano de Naha Okinawa


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sub urbano
sub urbano
29 dias atrás

O Kimura dobrava pés de banana treinando osotogaris. Até hj é engraçado imaginar como q o Helio Gracie enfrentou esse cara.

De qlqr forma o embate só provou uma coisa; judo é superior ao bjj.

Okan
Okan
Responder para  sub urbano
28 dias atrás

Quanta bobagem. Isso não provou nada sobre o judô. Judô e Jiu-Jitsu se complementam, são artes muito parecidas. Hélio estava em desvantagem a partir do momento em que aceitou enfrentar um cara mais forte, 20kgs mais pesado, mais experiente e com um nível de habilidade superior, tendo enfrentado os melhores judocas do Japão e vencido todos.

Resumindo, isso tem a ver com a técnica/habilidade de ambos NA ÉPOCA (e o fato de Hélio estar em desvantagem física), não com a arte marcial escolhida por ambos.

Rafael Oliveira
Rafael Oliveira
Responder para  Okan
27 dias atrás

Os Gracies sempre pregaram que a técnica supera a força e que jiu-jitsu tinha melhor técnica.
Essa derrota para um judoca (na época, judô e jiu-jitsu eram muito semelhantes) foi um tapa na cara dos Gracies.
Força importa. O mais fraco só vence se a diferença técnica for muito grande em seu favor.

Rafael Aires
Rafael Aires
Responder para  sub urbano
28 dias atrás

Eu sou praticante de judô e de jiu-jitsu e afirmo, categoricamente, que sua última frase tem nada a ver. Qualquer arte marcial tem pontos forte e pontos fracos. Jiu e judô são complementares.

sub urbano
sub urbano
Responder para  Rafael Aires
28 dias atrás

Fiz a comparação pra aloprar a galera. Ja fiz judo, hj faço jiujitsu. O jiu jitsu tem uma grande vantagem em relação ao judo: vc consegue fazer depois de velho.

Macgarem
Macgarem
Responder para  sub urbano
28 dias atrás

Nao hoje, faixa preta de Jiu jitsu acaba com qualquer faixa preta de judo o UFC mostrou isso ai

MMerlin
MMerlin
28 dias atrás

Importante reforçar, como apontado no texto, que o Judô da época de lendas como Tatsukuma Ushijima e Masahiko Kimura era muito diferente do praticado atualmente.
Importante que o Judô surgiu de uma evolução organizacional do Jiu-Jitsu clássico.
Inclusive, Mitsuyo Maeda (mestre do Carlos Gracie), que já era praticante de JJ, entrou na Kodokan (fundada por Jigoro Kano – outra lenda) e se diferenciava pelo ne-waza (combate de solo) bastante apurado.

Da pra citar muitos livros sobre o assunto.
Mas um que recomendaria a todo professor e aluno, tanto de JJ quanto Judô, e se estendendo inclusive a outras artes marcias é “Dojo e seus Significados”.
Vejo como hoje alguns se comportam nos tatames e locais de treinamento e vejo a falta que o tradicionalismo está fazendo.
Mais aí talvez seja o saudosismo falando. O importante é treinar.

Filipe
Filipe
28 dias atrás

Tem um personagem inspirado no Ushijima em Golden Kamuy

Hamom
Hamom
27 dias atrás

Nos tempos antigos não havia policia e nem garantia da lei e da ordem nas aldeias e tribos isoladas. Os próprios aldeões tinham que se proteger e para isto desenvolveram habilidades corporais e com armas para enfrentar invasores, bandidos saqueadores e feras selvagens.

Desde caçadores e guerreiro tribais africanos, nórdicos vikings, gregos, romanos… e por toda Ásia até o extremo oriente, as artes de combate (artes marciais) acompanharam a humanidade por milênios.

Praticantes de artes marciais entre o final século 19 e começo do século 20, como Tatsukuma Ushijima, com poderosas armas de fogo se disseminando, viveram o período final de transição e transformação no significado das antigas artes de combate, do foco na sobrevivência, ataque e defesa militar, para competições e torneios regulamentados…

O que não mudou foi o auto aperfeiçoamento proporcionado pelas artes marciais bem estruturadas.

Última edição 27 dias atrás por Hamom
JuggerBR
JuggerBR
26 dias atrás

Fui pesquisar sobre Kimura, e é impressionante o que ele fez, não fazia ideia desta história.