Japão cria estrutura centralizada de inteligência pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial

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Sanae Takaichi

Reforma patrocinada pela primeira-ministra Sanae Takaichi pretende reunir informações hoje dispersas entre polícia, diplomacia, defesa e órgãos de segurança. O novo sistema deverá operar plenamente até dezembro, em resposta ao avanço da espionagem russa, das operações de influência chinesas e das ameaças militares da Coreia do Norte

TÓQUIO — O Japão iniciou a maior reorganização de seu sistema de inteligência desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a criação de uma estrutura centralizada diretamente vinculada ao gabinete da primeira-ministra Sanae Takaichi. A reforma pretende superar décadas de fragmentação institucional e reduzir a dependência de informações fornecidas pelos Estados Unidos.

A legislação aprovada pelo Parlamento em 27 de maio estabelece dois novos organismos: o Conselho Nacional de Inteligência, presidido pela primeira-ministra e encarregado de definir prioridades, e o Departamento Nacional de Inteligência, que atuará como centro permanente de coordenação, análise e distribuição das informações produzidas pelos diferentes órgãos governamentais.

A estrutura deverá estar plenamente operacional até dezembro de 2026. Segundo números divulgados pela imprensa internacional, o sistema terá orçamento inicial equivalente a aproximadamente US$ 407 milhões e coordenará atividades realizadas por cerca de 33 mil funcionários públicos distribuídos entre as forças policiais, o Ministério da Defesa, o Ministério das Relações Exteriores e outras instituições. Isso não significa que todos serão transferidos para a nova agência: a maior parte permanecerá em seus órgãos de origem, mas ficará submetida a uma cadeia mais clara de prioridades e compartilhamento de informações.

Não será exatamente uma “CIA japonesa”

Embora a reforma venha sendo descrita como a criação de uma espécie de CIA japonesa, o modelo é diferente. O novo departamento será inicialmente um órgão de direção, integração e análise, não uma organização única com poderes próprios para conduzir operações clandestinas no exterior ou prender suspeitos dentro do país.

O governo transformará e ampliará o atual Cabinet Intelligence and Research Office — CIRO, criado em 1952, mas historicamente dotado de pouca autoridade sobre ministérios mais poderosos. Até agora, cada instituição recolhia e protegia suas próprias informações, sem que o gabinete do primeiro-ministro pudesse obrigar todos os órgãos a cooperar de maneira sistemática.

A nova legislação cria uma hierarquia para a coleta, avaliação e circulação de inteligência. O Departamento Nacional de Inteligência será colocado num nível burocrático comparável ao do Secretariado de Segurança Nacional e poderá solicitar informações aos ministérios, consolidar avaliações e apresentar produtos diretamente ao chefe do governo.

Tóquio também estuda criar, numa etapa posterior, um serviço especializado em inteligência externa e aprovar uma legislação mais abrangente contra espionagem e interferência estrangeira. Esse segundo passo deverá ser mais controverso porque envolverá investigações clandestinas, identidades de cobertura e atividades realizadas dentro da sociedade japonesa.

A herança do pós-guerra

O Japão Imperial possuía antes de 1945 uma extensa estrutura de inteligência militar, polícia política e vigilância interna. A mais temida dessas instituições era a Tokkō, a Polícia Superior Especial, que perseguia comunistas, opositores, sindicalistas e pessoas consideradas contrárias ao sistema imperial.

Após a rendição japonesa, as autoridades de ocupação lideradas pelos Estados Unidos desmantelaram os serviços associados ao militarismo e à repressão política. A Constituição de 1947 renunciou à guerra como direito soberano, e o país não voltou a constituir um serviço estrangeiro comparável à CIA norte-americana ou ao MI6 britânico.

Durante a Guerra Fria, essa lacuna foi parcialmente compensada pela aliança com Washington. O Japão tornou-se uma plataforma estratégica para as forças norte-americanas na Ásia e recebeu grande quantidade de informações dos Estados Unidos, enquanto seus próprios órgãos se concentravam em missões específicas de polícia, segurança pública, diplomacia e defesa.

Esse modelo permitia a Tóquio evitar o peso político de criar uma grande agência de espionagem, mas também produziu dependência externa e rivalidades burocráticas. Informações relevantes podiam permanecer isoladas num ministério ou chegar ao gabinete do primeiro-ministro sem análise integrada.

A expressão “paraíso dos espiões” passou a ser usada por antigos agentes soviéticos para descrever o país. O Japão possui leis sobre segredos de Estado, vazamento de informações e exportação ilegal de tecnologia, mas não mantinha uma legislação geral que criminalizasse de forma clara o trabalho clandestino em benefício de uma potência estrangeira.

Espiões russos encontram espaço no Japão

A preocupação ganhou urgência depois que centenas de diplomatas e agentes russos foram expulsos de países ocidentais após a invasão da Ucrânia em 2022. Investigações recentes indicam que dezenas desses operadores transferiram parte de suas atividades para o Japão, atuando sob cobertura diplomática ou comercial.

Segundo autoridades atuais e antigas de cinco serviços de inteligência ocidentais ouvidas pelo New York Times, uma das redes seria coordenada em Tóquio pela chamada 20ª Diretoria, unidade pouco conhecida da inteligência militar russa. Seus integrantes procurariam adquirir ou desviar semicondutores, componentes eletrônicos, máquinas e outras tecnologias de uso dual para a indústria militar da Rússia.

As restrições impostas às exportações diretas para Moscou levaram essas redes a empregar empresas intermediárias e rotas comerciais através de terceiros países. Autoridades japonesas reconheceram a necessidade de reforçar a contrainteligência, embora detalhes específicos das alegações ainda não tenham sido confirmados publicamente pelo governo.

O problema não é novo. Durante a Guerra Fria, os serviços soviéticos buscaram informações sobre as bases militares norte-americanas, a política japonesa e as tecnologias industriais produzidas por empresas do país. A diferença atual está na relação direta entre a aquisição clandestina de componentes e a sustentação da máquina militar russa.

China e a guerra da informação

A China representa um desafio ainda mais amplo, combinando espionagem tradicional, ataques cibernéticos, pressão econômica e operações destinadas a influenciar o debate público japonês.

Pesquisadores identificaram uma rede de sites que imitavam veículos jornalísticos locais, com nomes como Fukuoka Express, Fujiyama Times, Ginza Daily e Nihon Daily. Pelo menos 15 páginas direcionadas ao público japonês faziam parte de uma infraestrutura maior de sites associados à China e apresentavam conteúdos copiados ou manipulados para parecerem notícias produzidas no próprio Japão.

Uma análise de quase 170 mil títulos mostrou que essas páginas também difundiam conteúdos politicamente sensíveis, incluindo narrativas destinadas a aprofundar divisões sobre as águas tratadas da usina nuclear de Fukushima. Os sites reproduziam de forma desproporcional artigos que utilizavam a expressão “água contaminada”, em vez do termo “água tratada” usado pelo governo japonês.

Durante as eleições de fevereiro de 2026, pesquisadores também identificaram dezenas de contas ligadas a uma campanha de influência chinesa que atacava Takaichi, retratando-a como ilegítima, militarista e associada a grupos extremistas. O gabinete da primeira-ministra classificou esse tipo de interferência como ameaça à segurança nacional e à integridade das eleições. A Embaixada da China negou as acusações e afirmou que Pequim combate o uso de contas falsas e a desinformação.

Coreia do Norte e ameaças militares

O novo sistema também será orientado para a Coreia do Norte, que mantém um programa nuclear, desenvolve mísseis balísticos capazes de alcançar o território japonês e realiza atividades cibernéticas e clandestinas na região.

Para Tóquio, o desafio norte-coreano inclui ainda o histórico sequestro de cidadãos japoneses por agentes de Pyongyang durante as décadas de 1970 e 1980. O fracasso em detectar ou esclarecer rapidamente esses casos continua sendo lembrado como uma das deficiências mais graves dos antigos mecanismos de segurança.

Em fevereiro, Takaichi afirmou que o Japão enfrenta o ambiente de segurança mais severo e complexo desde a Segunda Guerra Mundial, citando a expansão militar chinesa, a aproximação entre Pequim e Moscou e o crescimento da capacidade nuclear e de mísseis norte-coreana.

Apoio dos aliados ocidentais

Estados Unidos, Alemanha e Austrália vêm compartilhando experiências sobre recrutamento, tecnologia, proteção de fontes, análise de dados e organização institucional. O objetivo japonês não é romper com a aliança norte-americana, mas tornar-se um parceiro capaz de produzir mais informações próprias e de contribuir de maneira mais equilibrada para as redes de inteligência dos aliados.

O Japão já amplia a troca de informações com países que enfrentam desafios semelhantes no Indo-Pacífico e na Europa. Para receber material altamente classificado, porém, Tóquio precisa convencer seus parceiros de que consegue impedir vazamentos, detectar agentes estrangeiros e proteger adequadamente documentos e sistemas.

Essa confiança é especialmente importante para programas conjuntos de defesa, como o caça de próxima geração desenvolvido com Reino Unido e Itália, a cooperação naval com a Austrália e as relações militares cada vez mais estreitas com Estados Unidos, Filipinas e outras democracias asiáticas.

Parte de uma transformação militar maior

A reforma da inteligência integra uma mudança mais ampla da política de defesa japonesa. O orçamento militar do ano fiscal de 2026 superou 9 trilhões de ienes, aproximadamente US$ 58 bilhões, e faz parte de um plano destinado a elevar os gastos de defesa a cerca de 2% do Produto Interno Bruto.

O país está adquirindo mísseis de maior alcance, caças furtivos, sistemas não tripulados e novos meios de vigilância. A estratégia japonesa passou a incluir a chamada capacidade de contra-ataque, que permitiria atingir posições inimigas de lançamento caso um ataque contra o Japão fosse considerado iminente ou já estivesse em andamento.

Em abril, o governo de Takaichi também realizou a maior flexibilização das regras de exportação militar em décadas. As antigas limitações, que restringiam grande parte das vendas a equipamentos de resgate, transporte, alerta, vigilância e remoção de minas, foram eliminadas, abrindo caminho para exportações de navios de guerra, mísseis, drones e outros sistemas. As vendas continuarão sujeitas à aprovação governamental, e permanece a proibição geral de transferências para países envolvidos diretamente em guerras.

A primeira-ministra argumenta que nenhum país consegue preservar sozinho sua segurança e que o fortalecimento da indústria de defesa e das alianças internacionais é indispensável diante das mudanças no equilíbrio regional.

Receios sobre vigilância e direitos civis

A criação de uma estrutura centralizada também despertou oposição. Críticos temem que a concentração de informações no gabinete da primeira-ministra possa facilitar abusos, vigilância política ou coleta indiscriminada de dados pessoais.

O debate é particularmente sensível devido à memória da Tokkō e da repressão exercida pelo Estado antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Para parte da sociedade japonesa, conceder novos poderes secretos ao governo exige mecanismos de fiscalização parlamentar e judicial igualmente robustos.

Como resposta, comissões das duas casas do Parlamento aprovaram resoluções suplementares determinando que a coleta de informações não viole desnecessariamente a privacidade, nem comprometa a neutralidade política das instituições. Especialistas observam, contudo, que o texto aprovado reorganiza principalmente a coordenação e ainda não concede amplos poderes operacionais de espionagem.

O fim da inteligência fragmentada

O sucesso da reforma dependerá menos da criação de novos nomes e edifícios do que da capacidade de alterar uma cultura burocrática construída durante mais de sete décadas.

Polícia, Forças de Autodefesa, diplomatas e órgãos de segurança terão de compartilhar informações, aceitar prioridades definidas centralmente e produzir análises destinadas às necessidades do governo como um todo. Também será necessário recrutar especialistas em cibersegurança, inteligência artificial, idiomas, finanças internacionais e cadeias tecnológicas.

Takaichi descreveu a criação do novo sistema como um primeiro passo. A ambição é permitir que o Japão antecipe crises, proteja seus interesses estratégicos e dependa menos de avaliações produzidas no exterior.

A reforma não transforma imediatamente o Japão numa potência de espionagem comparável aos Estados Unidos, à Rússia ou à China. Mas encerra uma característica central de sua ordem de segurança no pós-guerra: a ausência de um comando nacional capaz de reunir informações dispersas e apresentá-las diretamente ao centro do poder político.■



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JuggerBR
JuggerBR
25 dias atrás

Se passaram 90 anos desde a raiz da WWII, o mundo parece repetir certos movimentos que no fim terminaram muito mal. E a cada conflito em grande escala as tecnologias da guerra evoluem e o morticínio só aumenta. Estaremos fadados a um novo grande conflito em breve?

Rafael Aires
Rafael Aires
Responder para  JuggerBR
25 dias atrás

A história não se repete, mas rima!

Andromeda1016
Andromeda1016
Responder para  JuggerBR
24 dias atrás

A terceira guerra do ópio parece cada dia mais plausível. Os EUA estão se preparando para isso e com isso muitos países vão acabar se envolvendo neste “projeto”

Undergound
Undergound
25 dias atrás

Enquanto isso, na Poderosa República Socialista de Banânia do Sul, nada!
Não há investimentos em coisas básicas, desde estradas, pontes, portos… quanto mais pensar na área da defesa, tecnologia, reestruturação da educação, IA, Usinas de fusão nuclear. O importante aqui é rô-bá.

Alex Barreto Cypriano
Alex Barreto Cypriano
Responder para  Undergound
24 dias atrás

Sim. Rouba militar e rouba civil: em 2002 o PT acordou empréstimo a partido de direita (o PL do Valdemar) em troca de vice-presidente (Alencar), negociata que mais tarde veio a tona como Mensalão. Em 2019, um general da ativa no governo Bolsonaro (Luis Eduardo Ramos) ‘criou’ as Emendas Secretas Parlamentares sem transparência ou controle, o que agudizou o longo processo de usurpação parlamentar da execução de orçamento público, e que hoje vem a tona como desvios de centenas de milhões de Reais associada ao líder Valdemar (sequer eleito congressista) do PL. Veja:
https://youtu.be/OQT9J9VY84A?is=DS6YhvAZsTRkagf8
É, a coisa tá feia. E vai piorar porque onde tem dinheiro tem engodo, roubo, traição e violência, em conformidade com o espírito apocalíptico e delinquencial que reina em variadas encarnações, dos anarcocapitalistas aos evangélicos, dos neoliberais aos progressistas. Segurem-se.

Última edição 24 dias atrás por Alex Barreto Cypriano
Heinz
Heinz
25 dias atrás

Acordaram o monstro

Juca
Juca
24 dias atrás

Depois de ler tudo isso até cheguei a pensar que o Japão era soberano e estava livre da chibata americana, ledo engano…

Andromeda1016
Andromeda1016
Responder para  Juca
24 dias atrás

Faz mal para o ego, mas parece que isso tem sido benéfico para eles não?

Rubens
Rubens
24 dias atrás

Enquanto lá fora acontece , aqui prefere fim do 6×1 , misogenia , fumar maconha nas universidades públicas, introduzir lei Sharia no Brasil, falar mal do governo americano e Israel, abraçar a China e a Rússia , Irã , fala- se em defender soberania nacional porém a polícia está proibida de subir o morro, sem contar que tem brasileiros condenados porque estava visitando Brasília !!!!