Empresas indianas recorrem à IA chinesa e ampliam debate sobre soberania tecnológica
Modelos como os da DeepSeek atraem startups pelo baixo custo, mas Nova Délhi teme que aplicações estratégicas passem a depender de tecnologias controladas pelos Estados Unidos ou pela China
Empresas indianas, especialmente startups pressionadas a reduzir os custos de seus projetos de inteligência artificial, estão aumentando o uso de grandes modelos de linguagem desenvolvidos na China. A tendência evidencia um paradoxo para Nova Délhi: enquanto o governo investe bilhões de rúpias na construção de uma indústria nacional de IA, parte crescente do setor privado continua dependente de tecnologias estrangeiras.
Modelos chineses como os desenvolvidos pela DeepSeek ganharam espaço por combinarem desempenho competitivo, custos reduzidos e parâmetros publicamente disponíveis. Diferentemente dos sistemas fechados, acessados exclusivamente pelos servidores de empresas como OpenAI e Anthropic, diversos modelos chineses podem ser baixados, adaptados e executados na infraestrutura do próprio usuário.
Uma reportagem publicada pelo Nikkei Asia em 13 de julho apontou que empresas indianas estão recorrendo aos modelos chineses diante do aumento dos gastos com IA. A vantagem de preço estaria prevalecendo sobre as preocupações relacionadas à dependência externa.
A escolha é principalmente econômica. Após um período em que empresas introduziram inteligência artificial em praticamente todos os tipos de processo, investidores e administradores passaram a exigir resultados mais concretos. Aplicações que consomem grandes volumes de tokens — como atendimento automatizado, análise de documentos, programação e geração de conteúdo — podem produzir contas elevadas quando dependem continuamente dos modelos norte-americanos mais avançados.
O mesmo fenômeno já começa a aparecer fora da Índia. Empresas nos Estados Unidos e na Europa estão adotando modelos chineses da DeepSeek, Z.ai e Moonshot AI, que em determinadas aplicações podem custar dezenas de vezes menos que os sistemas de ponta dos laboratórios norte-americanos.
Da eficiência empresarial ao risco estratégico
Para uma startup, a adoção de um modelo mais barato pode ser uma decisão empresarial racional. A questão estratégica surge quando a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta auxiliar e passa a comandar processos industriais, cadeias logísticas, sistemas financeiros, serviços governamentais e equipamentos de uso cotidiano.
Nesse cenário, a Índia poderia tornar-se dependente de tecnologias fundamentais desenvolvidas por seus dois principais competidores e parceiros externos: Estados Unidos e China.
A dependência não se limita ao acesso a um chatbot. Ela envolve os modelos fundacionais, os chips utilizados no treinamento e na inferência, os serviços de computação em nuvem, as ferramentas para desenvolvimento de aplicações, os bancos de dados e as atualizações que mantêm os sistemas competitivos.
Os modelos de parâmetros abertos reduzem parcialmente esse risco porque podem ser instalados localmente. Uma empresa que já tenha baixado um modelo não depende necessariamente de uma conexão permanente com servidores chineses. Entretanto, o acesso a futuras versões, melhorias, documentação e suporte ainda pode ser afetado por decisões comerciais ou governamentais.
Esse risco tornou-se mais concreto em julho, quando autoridades chinesas passaram a discutir a possibilidade de restringir o acesso estrangeiro aos modelos de inteligência artificial mais avançados do país. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Pequim considera a IA de ponta um ativo estratégico e avalia mecanismos semelhantes aos controles já utilizados em outras tecnologias críticas.
Qualquer limitação poderia elevar subitamente os custos das companhias indianas, interromper projetos em desenvolvimento ou obrigá-las a migrar aplicações inteiras para plataformas norte-americanas.
A alternativa dos Estados Unidos também não elimina a vulnerabilidade. Os principais modelos comerciais são controlados por um pequeno número de empresas norte-americanas, que podem alterar preços, condições de utilização, políticas de acesso ou disponibilidade regional.
Governo indiano aposta em modelos próprios
Nova Délhi procura responder ao problema por meio da IndiaAI Mission, aprovada em março de 2024 com orçamento de 10,37 trilhões de rúpias — cerca de 10.372 crores — para um período de cinco anos. O programa contempla infraestrutura computacional, financiamento de startups, bancos de dados, formação profissional, aplicações de interesse público e desenvolvimento de modelos fundacionais nacionais.
Um dos pilares do projeto é a criação de uma capacidade compartilhada de computação com mais de 18 mil unidades de processamento gráfico. A infraestrutura deve ser disponibilizada a preços subsidiados para universidades, pesquisadores, pequenas empresas e órgãos públicos, reduzindo uma das principais barreiras enfrentadas pelos desenvolvedores indianos.
O governo também selecionou equipes para desenvolver modelos treinados com dados indianos e adaptados à diversidade linguística, cultural e socioeconômica do país. Até março de 2026, 12 grupos haviam sido escolhidos na primeira fase do programa. Projetos da Sarvam AI, BharatGen, Gnani e Socket foram apresentados durante o India AI Impact Summit de 2026.
A Sarvam AI, uma das empresas mais destacadas desse esforço, foi selecionada para construir um modelo soberano capaz de raciocinar, operar por voz e compreender idiomas indianos. A companhia também desenvolveu modelos fundacionais e sistemas de reconhecimento e síntese de voz voltados para dezenas de línguas faladas no país.
A Gnani, por sua vez, concentra-se principalmente em inteligência artificial por voz, reconhecimento de fala e atendimento automatizado adaptado a sotaques, mistura de idiomas e condições de áudio comuns em centrais telefônicas indianas.
O desafio será transformar esses projetos em plataformas competitivas, economicamente sustentáveis e capazes de conquistar empresas que já utilizam sistemas estrangeiros maduros.
Relações difíceis com Washington e Pequim
A dependência tecnológica também está inserida em uma relação diplomática complexa. Estados Unidos e Índia continuam negociando um acordo comercial, mas até meados de julho de 2026 ainda não haviam concluído o entendimento definitivo. Autoridades indianas afirmaram que um acordo-quadro estava preparado, embora divergências sobre tarifas e acesso a mercados permanecessem.
As relações com a China, abaladas pelo confronto fronteiriço de 2020, começaram a melhorar a partir de 2024. Em junho de 2026, autoridades indianas afirmaram que os vínculos estavam em processo de normalização, com discussões sobre comércio, finanças e retomada de mecanismos bilaterais.
A aproximação, entretanto, não elimina a histórica rivalidade territorial e estratégica entre os dois países.
Para a Índia, o objetivo não será necessariamente eliminar toda tecnologia estrangeira — algo improvável em uma indústria baseada em cadeias globais —, mas impedir que setores essenciais dependam exclusivamente de um único fornecedor ou país.
A expansão dos modelos chineses oferece às empresas indianas uma alternativa mais barata aos sistemas norte-americanos. Ao mesmo tempo, mostra que a batalha pela soberania em inteligência artificial não será vencida apenas com orçamento público ou anúncios de novos modelos.
O verdadeiro teste será determinar se a Índia conseguirá transformar sua ampla base de engenheiros, seus dados, sua diversidade linguística e sua infraestrutura digital em um ecossistema próprio antes que modelos estrangeiros se tornem profundamente incorporados à economia do país.■

Enquanto for apenas para uso genérico e recreativo, ok. Mas se envolver uso por órgãos governamentais e empresas estratégicas, além de uso militar, é um risco bem mais sério. E não apenas IA chinesa, mas de qualquer outro país que possa ter interesses na Índia, hoje ou no futuro.
Por aqui essa discussão nem existe, é a indigência intelectual completa.
Como o próprio texto diz o uso de código aberto diz respeito a evolução, o que significativamente menor. Qual seria sua sugestão por aqui? Parar de usar windows, Android, SAP, sistemas industriais Siemens, AB….. Todos esses sistemas foram desenvolvidos por empresas privadas. Que sistemas você usa?
Não sistemas, mas IA. Se existe IA brasileira, é uma desconhecida. Governo e empresas usam tudo de fora, pois por aqui ou não existe ou é muito ruim para se utilizar e existe zero estímulos para a criação deste ecosistema.
Existe a estratégia e o plano nacional de IA
Sim, concordo. O risco não está apenas no conteúdo produzido pela inteligência artificial, mas também nas informações que os usuários fornecem ao sistema durante o uso.
Um servidor público, pesquisador ou funcionário de uma empresa estratégica pode, por exemplo, pedir ajuda para revisar um relatório, elaborar uma análise, corrigir um código, interpretar dados ou solucionar uma dificuldade técnica. Sem perceber, pode revelar fragmentos de informações que, quando reunidos, permitem identificar projetos, vulnerabilidades, cronogramas, estruturas administrativas, capacidades operacionais e conhecimentos ainda não divulgados.
Não é necessário que alguém entregue deliberadamente um documento secreto: o cruzamento de pequenos dados pode produzir uma imagem bastante precisa das atividades de uma organização.
I think the author don’t know how ai supply chain works . Both us china depend upon taiwan and South Korea for gpu manufacturing . Both taiwan and South Korea depend upon qatar for helium gas for manufacturing of chips. Thus even us and china ai industries are dependent on other countries
” Índia investe bilhões de Rúpias”.
Isso e troco de pinga perto da China e EUA onde os estados nacionais botam trilhões para seus blocos de capitais concorrer.
A China a abrir seus códigos de IA deu um passo a frente.
Índia está longe mas muito longe de desenvolver um sistema de ia próprio.
At least india trying to invest new technologies unlike many latin american countries
Já existem sistemas indianos e também possuem um ecossistema para isso. Da uma informada.