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Secretário de Estado afirma que o Tribunal Penal Internacional se tornou uma ameaça à soberania norte-americana. Washington estuda novas sanções, restrições de viagem e pressão diplomática sobre países que reconhecem a jurisdição da instituição

WASHINGTON — O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, lançou uma nova ofensiva política e diplomática contra o Tribunal Penal Internacional, acusando a instituição sediada em Haia de tentar submeter cidadãos, militares e autoridades norte-americanas a uma jurisdição que Washington nunca reconheceu.

Em uma mensagem divulgada na segunda-feira, 13 de julho, Rubio afirmou que o TPI havia sido criado como um mecanismo limitado, destinado a processar os autores dos crimes internacionais mais graves quando os sistemas judiciais nacionais não pudessem ou não quisessem agir. Segundo ele, porém, a instituição teria se transformado em algo “muito mais radical e extremo”.

“O TPI e seus aliados estão travando uma guerra contra o nosso país, não com balas ou mísseis, mas com estatutos, tratados e a força do chamado direito internacional”, declarou Rubio.

O secretário também sustentou que a Corte representa atualmente uma ameaça a “todos os aspectos” dos sistemas político e jurídico dos Estados Unidos. Em uma advertência direta à instituição, afirmou que Washington demonstrará o significado da “determinação americana” caso o tribunal tente retirar dos Estados Unidos o controle sobre seus cidadãos e suas decisões de segurança nacional.

Campanha para “incapacitar” o Tribunal

O Departamento de Estado anunciou uma resposta coordenada de todo o governo norte-americano para, nas palavras da administração Trump, “incapacitar sistematicamente” a possibilidade de o TPI investigar ou processar militares e autoridades dos Estados Unidos.

A ofensiva poderá envolver:

  • novas sanções econômicas contra integrantes e organizações associadas à Corte;
  • cancelamento de vistos e proibições de entrada nos Estados Unidos;
  • pressão sobre governos aliados para que rejeitem a jurisdição do TPI sobre cidadãos norte-americanos;
  • incentivo para que países abandonem o Estatuto de Roma;
  • maior fiscalização política sobre governos que recebem assistência dos Estados Unidos, mas continuem colaborando com o tribunal.

Uma autoridade do Departamento de Estado disse à Reuters que nenhuma alternativa diplomática será excluída. Países que mantêm cooperação policial ou militar com Washington, hospedam forças norte-americanas ou dependem da proteção estratégica dos Estados Unidos serão instados a declarar que o TPI não possui autoridade sobre militares e funcionários americanos.

Rubio pretende envolver diretamente secretários, subsecretários, embaixadores e outras autoridades de alto escalão na campanha. O objetivo declarado é isolar diplomaticamente a Corte e limitar sua capacidade financeira e operacional.

A mensagem é especialmente dirigida aos aliados europeus e a outros Estados que integram o tribunal, mas também dependem de equipamentos, inteligência, presença militar ou garantias de segurança dos Estados Unidos.

Rubio fala em risco para militares e agentes de fronteira

No artigo e na mensagem em vídeo que acompanharam o anúncio, Rubio apresentou um cenário no qual militares, agentes da Patrulha de Fronteira, promotores e dirigentes políticos norte-americanos poderiam ser levados diante de juízes internacionais por ações realizadas em defesa dos interesses nacionais.

O secretário citou pedidos formulados por ativistas para que o TPI examine ações da administração Trump, incluindo deportações de migrantes e ataques contra embarcações que Washington acusa de transportar narcóticos. Até o momento, entretanto, a Corte não anunciou investigações formais relacionadas a essas operações.

Rubio argumentou que, sem uma reação, os norte-americanos ficariam expostos à possibilidade de serem julgados ou presos por magistrados estrangeiros situados a milhares de quilômetros dos Estados Unidos.

Para o governo Trump, aceitar essa possibilidade equivaleria a permitir que uma organização internacional assumisse autoridade superior à Constituição, aos tribunais e às instituições democráticas norte-americanas.

Estados Unidos nunca aderiram ao Estatuto de Roma

O Tribunal Penal Internacional começou a funcionar em 2002 e processa indivíduos acusados de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e, em determinadas condições, crime de agressão. Diferentemente da Corte Internacional de Justiça, que examina disputas entre Estados, o TPI responsabiliza pessoas individualmente.

Os Estados Unidos não são parte do Estatuto de Roma, tratado fundador da instituição. Washington sustenta, por isso, que a Corte não pode exercer jurisdição sobre cidadãos norte-americanos sem o consentimento do governo dos EUA.

O TPI adota uma interpretação diferente. Segundo o Estatuto de Roma, a Corte pode investigar crimes cometidos no território de um Estado-membro, mesmo quando o acusado é cidadão de um país que não reconhece o tribunal.

Isso significa, por exemplo, que um militar de um país não participante poderá, em teoria, ser investigado por atos cometidos no território de uma nação que reconhece a jurisdição da Corte.

A instituição também atua com base em encaminhamentos do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou quando um Estado que não é membro aceita voluntariamente sua jurisdição. O TPI deveria intervir apenas quando os tribunais nacionais não estejam dispostos ou não sejam capazes de realizar uma investigação genuína — princípio conhecido como complementaridade.

Investigação no Afeganistão

Um dos principais pontos de conflito entre Washington e a Corte foi a investigação aberta em 2020 sobre possíveis crimes cometidos durante a guerra no Afeganistão.

O inquérito abrangia acusações contra integrantes do Talibã, forças afegãs e militares ou agentes de inteligência dos Estados Unidos. A possibilidade de investigação de cidadãos norte-americanos levou a primeira administração Trump a impor sanções contra autoridades do TPI.

A partir de 2021, a Procuradoria da Corte reduziu a prioridade conferida às acusações envolvendo pessoal dos Estados Unidos e concentrou os recursos disponíveis em crimes atribuídos ao Talibã e ao Estado Islâmico-Khorasan. Nenhum cidadão norte-americano foi levado a julgamento pela instituição.

Apesar disso, Washington considera que a existência da base jurídica para uma eventual retomada das apurações representa uma ameaça permanente aos militares e funcionários enviados ao exterior.

Mandado contra Netanyahu ampliou a confrontação

A tensão aumentou depois que o TPI expediu, em novembro de 2024, mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu então ministro da Defesa, Yoav Gallant.

Israel, assim como os Estados Unidos, não integra o Estatuto de Roma. A Corte fundamentou sua jurisdição no fato de os supostos crimes terem ocorrido nos territórios palestinos, cuja representação aderiu ao tribunal.

Washington rejeitou os mandados, classificando-os como politicamente motivados e sem fundamento legítimo. A administração Trump passou então a aplicar sanções contra procuradores e juízes envolvidos em casos relacionados aos Estados Unidos e a Israel.

Rubio já havia anunciado sanções contra magistrados do TPI em 2025, acusando-os de participar de ações ilegítimas contra cidadãos norte-americanos e israelenses. As medidas podem bloquear ativos sujeitos à jurisdição dos Estados Unidos, impedir transações com pessoas e empresas norte-americanas e restringir viagens.

A campanha anunciada agora amplia essa política: em vez de atingir somente autoridades específicas, Washington pretende pressionar a própria rede internacional de apoio ao tribunal.

União Europeia rejeita acusação de Rubio

A União Europeia reagiu às declarações de Rubio e reafirmou apoio ao Tribunal Penal Internacional.

O porta-voz europeu Anouar El Anouni declarou que ameaças contra a Corte, seus funcionários ou pessoas que cooperem com suas investigações são “inaceitáveis”. Ele rejeitou a tese norte-americana de que o TPI represente ameaça à soberania dos Estados.

Segundo El Anouni, a instituição não processa países, mas indivíduos acusados dos crimes mais graves reconhecidos pelo direito internacional. A União Europeia afirmou ainda que continuará analisando medidas diplomáticas, jurídicas e financeiras destinadas a garantir a continuidade das atividades do tribunal.

A resposta europeia indica que a campanha de Washington poderá abrir uma nova disputa com aliados da OTAN. Quase todos os integrantes da União Europeia reconhecem o TPI e consideram a Corte uma peça central do sistema internacional de responsabilização por genocídio e crimes de guerra.

Críticos acusam Washington de buscar imunidade

Especialistas em direito internacional contestaram a interpretação apresentada por Rubio.

Os críticos observam que o TPI não reivindica autoridade sobre atos praticados dentro dos Estados Unidos. Sua jurisdição sobre cidadãos norte-americanos surgiria principalmente quando supostos crimes fossem cometidos no território de países que aderiram ao Estatuto de Roma.

Kenneth Roth, ex-diretor da Human Rights Watch, afirmou que Rubio estaria utilizando o argumento da soberania para impedir a responsabilização de norte-americanos por atos praticados fora do país. Para Roth, Estados que reconhecem o tribunal também exercem sua soberania quando autorizam a investigação de crimes cometidos em seu território.

Outros analistas interpretam a campanha como uma iniciativa preventiva, destinada a impedir futuras investigações sobre operações militares, deportações, ataques extraterritoriais ou ações dos Estados Unidos e de seus aliados.

A Corte não havia anunciado, até a divulgação da ofensiva, qualquer novo processo contra autoridades norte-americanas. Um porta-voz do TPI disse à Reuters que a instituição não comentaria imediatamente as declarações de Rubio.

Pressão poderá alcançar países aliados

A dimensão mais relevante do anúncio talvez seja a possibilidade de Washington condicionar relações militares, policiais e financeiras à posição adotada pelos demais governos em relação ao TPI.

Entre os países potencialmente expostos está a Ucrânia, que reconhece a Corte e depende fortemente da assistência militar ocidental. O tribunal investiga crimes cometidos no território ucraniano desde a invasão russa e expediu mandados de prisão contra autoridades de Moscou, incluindo o presidente Vladimir Putin.

A campanha norte-americana cria, assim, uma contradição para aliados que apoiam o trabalho do TPI contra a Rússia, mas também dependem dos Estados Unidos e rejeitam a possibilidade de a instituição investigar militares norte-americanos ou israelenses.

Rubio deixou claro que Washington observará quais países se alinharão aos Estados Unidos. A advertência sugere que a posição sobre o tribunal poderá passar a influenciar acordos de segurança, assistência financeira, cooperação policial e relações diplomáticas.

A ofensiva marca uma escalada significativa na oposição histórica dos Estados Unidos ao Tribunal Penal Internacional. O governo Trump não pretende apenas rejeitar sua autoridade, mas reduzir sua capacidade de funcionar e convencer outros países a fazer o mesmo.

Ao transformar a disputa jurídica em uma questão de soberania e segurança nacional, Rubio colocou a Corte de Haia no centro de uma nova confrontação entre o poder dos Estados e o sistema internacional criado para responsabilizar indivíduos pelos crimes mais graves.■



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JuggerBR
JuggerBR
24 dias atrás

Se fosse um ditador de terceiro mundo fazendo estas ameaças, como o ‘mundo civilizado’ reagiria? Pois é…

PauloR
PauloR
24 dias atrás

Esses organismos internacionais só servem para controlar o terceiro mundo e garantir os interesses de europeus e americanos. O Brasil deveria romper acordos internacionais

Guacamole
Guacamole
Responder para  PauloR
24 dias atrás

Sim e não.
É uma maneira de controlar os mais fracos, claro, mas também um local onde os mais fracos podem se unir e em conjunto, influenciar os poderosos.
Se todos se unem para dizer não a uma proposta de um membro poderoso, isso já serve para o membro como uma espécie de “censo” para o poderoso medir os possíveis problemas que virão, caso faça algo.

Infelizmente é uma faca de dois gumes, como quase tudo na vida.

Deadeye
Deadeye
Responder para  PauloR
24 dias atrás

Fala isso para o Bibi com Mandado de Prisão e o Putin também. E garantir interesse dos EUA como se os EUA nem sequer aderiu ao Tribunal? Ocorre que o TPI não deixa impune, a justica militar dos EUA deixa. Eu não preciso citar os diversos massacres dos EUA no Vietnam no qual a justiça militar dos EUA nâo puniu NINGUÉM.

Lucena
24 dias atrás

Essa turma do Trump …. se acham que pode fazer o que quiser…matar,roubar,danificar o patrimônio público.
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Eles sempre estão criando desordem e morte por onde vão….a faixa de gaza é um exemplo bem claro disso.
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Quando essa turma é enquadrada conforme a lei …eles se acham perseguidos políticos e os coitados incompreendidos …. vítimas do sistema opressor…vejam só …vítimas da opressão…rsrs..logo quem ?…eles que pespegue…..imigrantes,homossexuais,mulheres,negros …etc
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Eles deturpam tudo !….os bons costumes da boa convivência social…o conceito do que é ser cristão…do conceito do que é liberdade de expressão…pasmem ..até os significados de símbolos como camisas e suas cores.
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Se apossam como ladrões dos símbolos sagrados e populares para deturpar os valores e seus significados …só levam tudo para o mau e a destruição .

Adriano Madureira
Adriano Madureira
Responder para  Lucena
23 dias atrás

Pena o Irã não ter armas nucleares, não precisaria atacar o território americano, bastaria ter um ICBM que pudesse ser capaz de chegar e pulverizar Guam ou Diego Garcia.

E um instante Washington iria querer fazer uma rodada de negociações justa, com bastante calma, certamente não seria ser o Irã que iria estar desesperado por um acordo, como o falastrão do salão oval sempre fala.

Eu era contra ter armas nucleares para qualquer um, mas hoje em dia acho que qualquer um deveria ter.

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rui mendes
rui mendes
24 dias atrás

Ó Marco Rubio, vai levar na peida.

NBS
NBS
24 dias atrás

Existe uma lista imensa de tratados dos quais os Estados Unidos não fazem parte. O Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), é um deles.
Para ficar apenas nos temas militares, podem ser citados: a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar — UNCLOS; o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares — CTBT; o Tratado sobre o Comércio de Armas; a Convenção de Ottawa sobre a Proibição de Minas Antipessoal; a Convenção sobre Munições Cluster; e o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares.
Os Estados Unidos também apresentam uma adesão excepcionalmente baixa às normas da Organização Internacional do Trabalho: ratificaram apenas 14 convenções da OIT. Entendo que essa baixa adesão se relaciona, ainda que indiretamente, com muitas tensões e desigualdades sociais que, em determinadas circunstâncias, podem contribuir para conflitos e guerras.
Esse comportamento é o retrato da arrogância de um império que se acostumou a agir à margem dos tratados, utilizando-os apenas quando lhe convém, sobretudo para punir países ou governos mais fracos. Os Estados Unidos tiveram papel central na construção da ordem institucional do Ocidente, mas muitas vezes parecem tratar as regras que ajudaram a criar como obrigações destinadas apenas aos outros.
O mais surpreendente é observar os aliados tentando relativizar ou justificar essa incoerência. O mundo espera que as regras sejam aplicadas a todos. Se alguém cometeu um crime grave previsto em tratado e se encontra no território de um Estado que reconhece essa jurisdição, deve ser levado à Justiça. Simples assim.

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Adriano Madureira
Adriano Madureira
24 dias atrás

A tensão aumentou depois que o TPI expediu, em novembro de 2024, mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu então ministro da Defesa, Yoav Gallant.”

Normal, criminosos sempre se ajudam…