Presença militar dos EUA em Taiwan ganha caráter contínuo e amplia cooperação com forças especiais

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United States Army Green Berets

Militares norte-americanos teriam sido integrados ao centro de treinamento do Comando de Operações Especiais do Exército taiwanês, em Taoyuan. Embora Washington e Taipei descrevam as atividades como intercâmbios e missões rotativas, a sucessão de destacamentos mantém uma presença praticamente ininterrupta na ilha. O número exato de pessoal permanece desconhecido

TAIPÉ — A presença militar dos Estados Unidos em Taiwan está avançando para além da cooperação de inteligência e da assistência técnica tradicional, com militares norte-americanos participando de treinamento de forças especiais, acompanhamento do emprego de equipamentos fornecidos por Washington e coordenação de atividades realizadas por diferentes unidades dos EUA na ilha.

Uma investigação publicada em 6 de julho pelo jornal taiwanês United Daily News informou que equipes organizadas segundo o modelo dos Boinas Verdes do Exército dos Estados Unidos0 (Green Berets) passaram a operar regularmente em instalações subordinadas ao Comando de Operações Especiais de Taiwan.

Segundo o jornal, os militares norte-americanos participam de treinamentos realizados nas bases e de exercícios conjuntos de defesa, além de observar de perto o desempenho das unidades taiwanesas e a utilização de equipamentos fornecidos pelos Estados Unidos. O Comando do Exército de Taiwan respondeu que executa anualmente intercâmbios militares com os EUA, mas, seguindo sua política para assuntos sensíveis, não comentou os detalhes.

O principal centro dessa atividade seria o Campo de Wuhan, situado no distrito de Longtan, em Taoyuan, no norte da ilha. Apesar do nome, a instalação não possui relação com a cidade chinesa de Wuhan: trata-se do quartel-general do Comando de Aviação e Forças Especiais do Exército taiwanês.

Relatos recentes descrevem militares estrangeiros entrando e saindo frequentemente da base, alguns utilizando automóveis civis alugados ou deslocando-se a pé. Observadores locais também afirmaram ter visto pessoal com coletes táticos realizando marchas e corridas com carga nas proximidades do complexo. As imagens e testemunhos, entretanto, não permitem determinar com segurança as unidades envolvidas nem o tamanho do contingente.

Célula de coordenação desde 2023

Fontes especializadas afirmam que um Special Operations Forces Liaison Element — SOFLE, ou Elemento de Ligação das Forças de Operações Especiais, opera em Longtan desde aproximadamente 2023.

A célula teria como função coordenar as atividades das unidades especiais norte-americanas em Taiwan, organizar recursos de treinamento e acompanhar equipamentos sensíveis temporariamente mantidos na ilha. Também teria apoiado a instrução de militares taiwaneses no uso de sistemas como o pequeno drone de reconhecimento Black Hornet Nano.

O modelo representa uma mudança em relação às visitas esporádicas do passado. Em vez de enviar uma equipe apenas para ministrar determinado curso e depois retirá-la, os Estados Unidos estariam mantendo uma estrutura capaz de receber destacamentos sucessivos, preservar a continuidade dos programas e coordenar unidades que chegam em momentos diferentes.

Isso não equivale necessariamente à abertura formal de uma base norte-americana ou ao estacionamento permanente de uma unidade de combate. Na prática, porém, rotações contínuas podem manter militares dos EUA em Taiwan durante todo o ano, produzindo o que analistas descrevem como uma presença persistente, ainda que juridicamente classificada como temporária.

Treinamento em Kinmen e Penghu

A cooperação não estaria limitada à ilha principal. Em março de 2024, o então ministro da Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, reconheceu publicamente que assessores estrangeiros participavam de intercâmbios militares após ser questionado sobre equipes norte-americanas enviadas a Kinmen e Penghu.

Na ocasião, Chiu afirmou que a colaboração permitia às Forças Armadas identificar falhas em seus preparativos e aprender com a experiência de outros países. Reportagens indicavam que destacamentos de três integrantes do 1º Grupo de Forças Especiais dos EUA seriam incorporados como observadores de treinamento da Companhia de Serviços Especiais Aerotransportados e do 101º Batalhão de Reconhecimento Anfíbio, conhecido por suas operações de infiltração marítima.

Kinmen é particularmente sensível. O arquipélago controlado por Taiwan está situado a poucos quilômetros da cidade chinesa de Xiamen e seria uma das primeiras áreas envolvidas em qualquer crise militar no Estreito de Taiwan.

Penghu, localizado no estreito entre Taiwan e o continente, possui importância para a defesa marítima, o controle das linhas de aproximação e a proteção do flanco ocidental da ilha principal.

Relatos também mencionam atividades norte-americanas em Matsu, outro conjunto de ilhas taiwanesas próximo à costa chinesa. No entanto, as informações públicas mais consistentes e as declarações atribuídas às autoridades de Taipei referem-se principalmente a Kinmen e Penghu. A presença específica em Matsu não foi detalhada oficialmente.

Quantos militares norte-americanos estão em Taiwan?

As estimativas variam amplamente porque diferentes números aparentemente medem categorias distintas.

Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, baseado no Defense Manpower Data Center, registrava 41 militares norte-americanos formalmente designados para servir em Taiwan em dezembro de 2023. O documento observava que a existência de pequenos grupos de assessores era considerada um “segredo aberto”.

Esse total, contudo, provavelmente não incluía todos os militares enviados em missões temporárias, equipes rotativas, reservistas, contratados civis, técnicos de fabricantes de armamentos ou pessoal contabilizado administrativamente em outras localidades.

Em 2023, fontes norte-americanas disseram à Reuters que o Pentágono pretendia aumentar o número de militares responsáveis pelo treinamento das forças taiwanesas. Naquele momento, Washington não revelou o tamanho planejado do contingente, enquanto reportagens apontavam para o envio de aproximadamente 100 a 200 instrutores.

A estimativa mais elevada apareceu em maio de 2025, quando o contra-almirante reformado Mark Montgomery declarou durante uma audiência no Congresso que cerca de 500 instrutores de defesa norte-americanos estariam atuando em Taiwan.

Montgomery defendeu a expansão do contingente para aproximadamente 1.000 pessoas, argumentando que o volume de armamentos e assistência financeira fornecido a Taipei justificava uma estrutura de treinamento maior. Ele não esclareceu quantos seriam militares da ativa, reservistas, funcionários civis ou contratados.

Especialistas taiwaneses afirmaram posteriormente que os 500 provavelmente representavam a soma de pessoas envolvidas em diferentes projetos e rotações, não um contingente fixo reunido simultaneamente numa única base. As equipes seriam distribuídas entre forças especiais, fuzileiros navais, unidades de reserva, artilharia, mísseis e programas relacionados a novos equipamentos.

Portanto, os números não são necessariamente contraditórios:

  • os 41 representariam pessoal oficialmente designado e registrado como servindo em Taiwan;
  • os 100 a 200 corresponderiam a estimativas sobre a expansão inicial da missão de treinamento;
  • os cerca de 500 poderiam incluir todos os instrutores e especialistas que participam de missões rotativas;
  • os 1.000 constituem uma proposta de expansão, não um efetivo confirmado.

De missão temporária a presença permanente na prática

Taipei e Washington evitam utilizar a expressão “tropas estacionadas”. As autoridades preferem termos como intercâmbio, assessoria, treinamento ou rotação.

A distinção possui importância política. Os Estados Unidos mantiveram tropas e um comando militar em Taiwan até 1979, quando romperam relações diplomáticas formais com Taipei, reconheceram a República Popular da China e retiraram suas forças permanentemente baseadas na ilha.

Quando a então presidente Tsai Ing-wen confirmou, em 2021, que um pequeno número de militares norte-americanos treinava tropas taiwanesas, o ministro da Defesa ressaltou que intercâmbio de pessoal e estacionamento permanente eram situações diferentes.

Do ponto de vista operacional, entretanto, uma série ininterrupta de missões temporárias pode desempenhar muitas das funções de uma presença duradoura.

Uma célula de ligação instalada há anos, equipes sucessivas utilizando as mesmas instalações, acompanhamento contínuo de unidades locais e guarda ou administração de equipamentos criam uma estrutura que permanece mesmo quando seus integrantes individuais são substituídos.

Assim, não há evidências públicas de que os Estados Unidos tenham restabelecido formalmente uma guarnição ou uma base em Taiwan. Há, porém, sinais crescentes de que a missão deixou de consistir apenas em visitas ocasionais e se tornou um programa institucionalizado.

Objetivo é preparar uma defesa descentralizada

A atuação das forças especiais norte-americanas está ligada ao esforço para tornar Taiwan capaz de resistir a uma operação chinesa mesmo que suas principais bases, centros de comando e redes de comunicação sejam atacados.

O treinamento pode incluir pequenas unidades, reconhecimento, infiltração, proteção de instalações, combate contra sabotagem, emprego de drones, comunicações descentralizadas e coordenação de ações após a ruptura da cadeia de comando.

As unidades taiwanesas treinadas pelos norte-americanos também poderiam desempenhar missões de vigilância das costas, defesa de ilhas periféricas, identificação de alvos e apoio a ataques contra forças anfíbias.

Washington procura ainda garantir que os sistemas vendidos a Taiwan sejam empregados de maneira integrada. A ilha vem recebendo ou encomendando armamentos como lançadores HIMARS, mísseis antinavio, carros de combate M1A2T Abrams, drones e sistemas de defesa aérea.

Instrutores e técnicos permitem acelerar a incorporação dos equipamentos, verificar procedimentos e aproximar os padrões taiwaneses dos utilizados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos.

Cooperação começou antes dos relatos recentes

A presença atual faz parte de um processo iniciado antes de 2023.

Em 2021, autoridades norte-americanas disseram que uma pequena unidade de operações especiais e um grupo de fuzileiros navais já treinavam forças taiwanesas havia pelo menos um ano. Tsai confirmou posteriormente que havia militares dos EUA na ilha, embora afirmasse que o número era reduzido.

Em fevereiro de 2023, fontes do governo norte-americano informaram que o número de instrutores seria ampliado. O Pentágono recusou-se a comentar operações específicas, mas afirmou que a cooperação de defesa permanecia ajustada à ameaça representada pela China.

No ano seguinte, o governo taiwanês reconheceu os intercâmbios envolvendo forças especiais nas ilhas periféricas. A partir de 2025, surgiram estimativas de que centenas de instrutores poderiam estar envolvidos no conjunto dos programas.

O relato de julho de 2026 acrescenta um novo elemento: a aparente integração de militares norte-americanos à rotina de uma das principais instalações de forças especiais de Taiwan.

Uma questão altamente sensível para Pequim

A China considera Taiwan parte de seu território e não descarta o uso da força para assumir o controle da ilha. Pequim também se opõe a qualquer relação militar oficial entre Washington e Taipei.

Para o governo chinês, a presença de militares norte-americanos ultrapassa a simples venda de armamentos e aproxima os Estados Unidos de uma participação direta na defesa taiwanesa. Em maio de 2026, Pequim reiterou que se opõe firmemente a todas as formas de cooperação militar entre os dois lados.

Washington, por sua vez, não mantém relações diplomáticas formais com Taiwan, mas é seu principal fornecedor de armas. O Taiwan Relations Act estabelece a política de fornecer à ilha meios de caráter defensivo e de manter capacidade para resistir a tentativas de coerção.

A presença dos instrutores não significa automaticamente que os Estados Unidos tenham decidido intervir militarmente numa invasão. A política norte-americana continua deixando algum grau de ambiguidade sobre a resposta a um ataque chinês.

O treinamento, porém, aumenta a capacidade de integração e cria relações diretas entre comandantes, instrutores e unidades que seriam relevantes numa crise.

Riscos e benefícios estratégicos

Para Taiwan, a cooperação oferece acesso a experiência operacional, métodos de planejamento, doutrina de pequenas unidades e conhecimento sobre equipamentos norte-americanos.

Para os Estados Unidos, a missão permite avaliar diretamente as capacidades e deficiências taiwanesas, em vez de depender apenas de relatórios ou exercícios previamente preparados. Os instrutores também podem verificar se os armamentos entregues estão sendo distribuídos, mantidos e empregados de acordo com os objetivos estratégicos.

Há, entretanto, riscos.

Um contingente norte-americano instalado em Taiwan poderia tornar-se alvo numa fase inicial de conflito. Sua presença também poderia criar pressão política imediata sobre Washington caso militares dos EUA fossem mortos ou capturados durante uma operação chinesa.

Pequim poderá ainda utilizar os relatos como justificativa para intensificar exercícios, operações de vigilância e pressão militar sobre a ilha.

O maior risco é que cada lado interprete as ações do outro de maneira diferente: Washington e Taipei apresentam o treinamento como defensivo, enquanto a China pode considerá-lo parte de uma tentativa de impedir permanentemente a reunificação.

Uma presença ainda envolta em sigilo

As evidências disponíveis sustentam que militares norte-americanos treinam forças taiwanesas, que essa atividade foi ampliada desde 2023 e que equipes de operações especiais mantêm relações contínuas com unidades locais.

Também existem indicações consistentes de uma estrutura de coordenação em Taoyuan e de atividades em Kinmen e Penghu.

O que permanece incerto é o tamanho do contingente, a distribuição das equipes, a duração de cada missão e quantas pessoas estão simultaneamente na ilha.

A descrição mais precisa, diante das informações públicas, não é a de uma grande base convencional nem a de simples visitas ocasionais. Trata-se de uma presença militar pequena, dispersa, rotativa e cada vez mais institucionalizada.

A continuidade das rotações permite que os Estados Unidos mantenham atividades durante longos períodos sem anunciar formalmente o retorno de tropas permanentemente estacionadas em Taiwan. Essa ambiguidade atende às necessidades políticas de Washington e Taipei, mas torna a expansão da missão ainda mais sensível para a estabilidade do Estreito de Taiwan.■



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Hamom
Hamom
24 dias atrás

A presença de tropas americanas em Taiwan não é novidade. Elas existiram na década de 1950, depois foram retiradas. Até 1972 ainda havia intercâmbios militares oficiais entre os EUA e Taiwan.
O que foi interrompido depois da visita de Nixon a Pequim em 1972.
Agora estão de volta, indicando uma mudança na estratégia dos EUA — de apoio secreto para apoio semiaberto (ou aberto…)

“O contra-almirante aposentado da Marinha dos EUA, Mark Montgomery, testemunhou perante o Congresso que o número de militares americanos em treinamento em Taiwan cresceu para aproximadamente 500. Há apenas quatro anos, esse número era de cerca de 20.”

E a sugestão de Montgomery, foi de aumentar o número de tropas americanas estacionadas em Taiwan para 1.000.

Última edição 24 dias atrás por Hamom
João
João
Responder para  Hamom
24 dias atrás

O mais importante a destacar nesse caso é que a principal tarefa dos Boinas Verdes é o preparo de uma força de guerrilha.
Ou seja, é provável que os SOF americanos, neste caso, não estejam treinando somente TTP de combate urbano, Leve etc
É provável que estejam apoiando na estruturação de uma resistência em caso de invasão.

Antunes 1980
Antunes 1980
24 dias atrás

A capacitação militar de Taiwan visa apenas elevar o custo operacional e os danos a uma eventual invasão chinesa, embora, estrategicamente, a ilha dificilmente sustente uma resistência prolongada contra Pequim. Por outro lado, a China não possui interesse em um conflito de curto prazo: o país avança gradualmente na autossuficiência tecnológica, reduzindo sua distância em relação à ilha, e evita o colapso econômico que sanções internacionais e a ruptura do comércio global.