US Iran attacks

Presidente norte-americano afirmou que a infraestrutura iraniana poderá ser atacada na próxima semana caso Teerã não retome as negociações. Especialistas alertam que uma campanha indiscriminada contra instalações civis poderia violar o Direito Internacional Humanitário e configurar crime de guerra

WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a ameaçar ataques contra usinas elétricas e pontes do Irã, retomando a retórica empregada durante os primeiros meses da guerra, enquanto as forças norte-americanas intensificam os bombardeios e restabelecem o bloqueio naval aos portos iranianos.

Em entrevista à Fox News na terça-feira, 14 de julho, Trump afirmou que os ataques se tornariam progressivamente mais severos caso o governo iraniano não aceitasse voltar à mesa de negociações.

“Na próxima semana vêm as usinas elétricas. Na próxima semana vêm as pontes”, declarou o presidente. Trump acrescentou que os Estados Unidos pretendem destruir essas estruturas se Teerã não negociar.

Em outra passagem, afirmou que deixaria os alvos energéticos “por último”, mas que acabaria atacando-os caso não fosse alcançado um acordo. Negociadores norte-americanos, segundo Trump, já teriam transmitido aos representantes iranianos a advertência de que deveriam aceitar uma solução diplomática antes que a campanha fosse ampliada.

Bombardeios entram no quarto dia consecutivo

As declarações foram feitas no momento em que o Comando Central dos Estados Unidos, o CENTCOM, conduzia uma nova onda de ataques contra posições iranianas próximas ao Estreito de Ormuz e em outras áreas costeiras.

Segundo o comando norte-americano, dezenas de alvos militares foram atingidos durante uma operação que durou cerca de sete horas. Washington afirma que os bombardeios procuram degradar as capacidades utilizadas pelo Irã para atacar navios comerciais no estreito, uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo e gás.

A Associated Press informou que um dos ataques atingiu instalações da 388ª Brigada de Infantaria Mecanizada do Exército iraniano em Bampur, na província de Sistão-Baluchistão. Autoridades iranianas disseram que pelo menos sete militares morreram e que mais de 260 pessoas ficaram feridas nos ataques realizados em diferentes pontos do país. Esses números não puderam ser verificados de forma independente.

O governo iraniano afirmou ainda que pelo menos 30 civis morreram nos bombardeios dos últimos dias. Os Estados Unidos, por sua vez, sustentam que os alvos selecionados estavam ligados às operações militares iranianas contra a navegação comercial.

Bloqueio naval aumenta a pressão

Paralelamente à campanha aérea, Washington restabeleceu o bloqueio naval aos portos iranianos. A medida havia sido suspensa em junho, após um entendimento provisório que previa 60 dias de negociações sobre o programa nuclear iraniano e sobre as regras de passagem pelo Estreito de Ormuz.

O acordo começou a se desfazer depois que os combates e os ataques contra embarcações foram retomados. Os Estados Unidos acusam o Irã de atacar sete navios comerciais em uma semana, deixando tripulantes mortos, feridos ou desaparecidos.

Teerã considera o bloqueio uma ação de guerra e afirma que os Estados Unidos procuram assumir o controle de uma passagem marítima sobre a qual o Irã também reivindica direitos de fiscalização.

Antes do atual conflito, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás comercializados mundialmente por via marítima atravessava o Estreito de Ormuz. A continuidade dos confrontos elevou novamente os preços internacionais do petróleo e aumentou os riscos para navios mercantes que operam no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.

Trump havia proposto inicialmente a cobrança de uma taxa de 20% sobre embarcações que utilizassem o estreito sob proteção norte-americana. A ideia foi abandonada após críticas internacionais e contatos com governos árabes do Golfo. O presidente afirmou que preferia receber novos investimentos desses países nos Estados Unidos.

Irã ataca bases norte-americanas na região

O Irã respondeu aos ataques norte-americanos lançando mísseis e drones contra instalações militares nos países que abrigam forças dos Estados Unidos.

A Guarda Revolucionária afirmou ter atacado estruturas de comando, logística, combustível e equipamentos vinculadas à Quinta Frota norte-americana no Bahrein. Também reivindicou ataques contra uma instalação logística no Kuwait e contra a Base Aérea de Azraq, na Jordânia.

As autoridades do Kuwait confirmaram que um incêndio foi controlado em uma instalação atingida, mas não esclareceram se o local correspondia ao alvo mencionado pelos iranianos. A Jordânia informou ter interceptado três mísseis balísticos que entraram em seu espaço aéreo.

O comandante do CENTCOM, almirante Brad Cooper, acusou o Irã de lançar dezenas de mísseis e drones contra países vizinhos e declarou que as forças norte-americanas estavam responsabilizando Teerã por ações que colocariam vidas civis em risco.

A Guarda Revolucionária, por sua vez, ameaçou interromper outros corredores de exportação de energia utilizados pelos Estados Unidos e seus aliados. Em comunicado divulgado pela imprensa estatal, o grupo afirmou que as exportações regionais de petróleo e gás ocorreriam “para todos ou para ninguém”.

A advertência levantou preocupações sobre uma possível expansão do conflito para o Estreito de Bab el-Mandeb, ligação entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. O fechamento simultâneo de Ormuz e Bab el-Mandeb teria consequências profundas para o transporte marítimo, o comércio internacional e os mercados energéticos.

Pontes e usinas podem ser alvos militares?

As ameaças de Trump provocaram novo debate sobre os limites legais das operações norte-americanas.

Pelo Direito Internacional Humanitário, as partes em um conflito devem distinguir permanentemente entre objetivos militares e bens civis. Ataques somente podem ser dirigidos contra estruturas que contribuam efetivamente para a ação militar e cuja destruição ofereça uma vantagem militar concreta nas circunstâncias existentes.

Uma ponte utilizada para transportar unidades militares, armas ou suprimentos pode, em determinadas circunstâncias, tornar-se um objetivo militar. O mesmo pode ocorrer com uma usina que forneça eletricidade diretamente a bases, radares, centros de comando ou instalações de produção de armamentos.

Isso, entretanto, não significa que todas as pontes e instalações elétricas de um país possam ser tratadas coletivamente como alvos legítimos.

As forças atacantes continuam obrigadas a avaliar cada estrutura individualmente, escolher meios destinados a reduzir os danos aos civis e cancelar ataques cujos efeitos previsíveis sejam excessivos em relação à vantagem militar esperada.

O professor Michael Schmitt, especialista em conflitos armados e professor emérito do US Naval War College, afirmou anteriormente que uma usina de uso misto poderia ser atacada caso alimentasse instalações militares. A operação, porém, teria de minimizar os danos e não poderia impor consequências desproporcionais à população civil.

Destruição generalizada poderia configurar crime de guerra

A formulação utilizada por Trump — prometendo atingir “todas” as pontes e usinas — é particularmente controversa porque sugere uma campanha ampla contra categorias inteiras de infraestrutura, e não a seleção de objetivos militares específicos.

Instalações elétricas abastecem hospitais, sistemas de água e esgoto, telecomunicações, refrigeração de alimentos e medicamentos, transportes e serviços de emergência. Sua destruição pode produzir efeitos humanitários muito além do ponto diretamente atingido.

Pontes também podem ser indispensáveis para evacuações, transporte de ambulâncias, abastecimento de cidades e movimentação da população. Dependendo da localização e do emprego, algumas poderão ter função exclusivamente civil.

Um ataque deliberadamente dirigido contra bens civis pode constituir crime de guerra. Mesmo quando o alvo apresenta função militar, a operação poderá ser ilegal se os danos civis esperados forem excessivos em comparação com a vantagem militar concreta e direta prevista.

A classificação jurídica, portanto, dependeria dos alvos efetivamente escolhidos, das informações disponíveis aos comandantes, da finalidade militar da operação e das precauções adotadas. A ameaça política, isoladamente, não comprova que um crime de guerra será cometido, mas levanta dúvidas sobre os critérios que Washington pretende empregar.

Retorno à retórica do início da guerra

Trump já havia ameaçado destruir pontes, usinas elétricas e instalações de abastecimento de água durante a fase inicial do conflito, em abril.

Na ocasião, declarou que não estava preocupado com acusações de possíveis crimes de guerra e afirmou que os Estados Unidos poderiam destruir rapidamente a infraestrutura iraniana caso Teerã não aceitasse reabrir o Estreito de Ormuz. Especialistas consultados pela Associated Press classificaram aquela formulação como uma ameaça de ação potencialmente ilegal.

Até agora, a campanha retomada em julho foi oficialmente apresentada pelo Pentágono como direcionada contra alvos militares ligados aos ataques contra a navegação. Pelo menos uma ponte iraniana, entretanto, já teria sido atingida em fases anteriores das operações.

A nova advertência indica que a Casa Branca poderá ampliar significativamente a lista de alvos caso não haja avanço diplomático.

Negociações cada vez mais distantes

O governo Trump procura utilizar os ataques e o bloqueio naval como instrumentos de pressão para obrigar o Irã a aceitar novas negociações. Teerã, porém, afirma que não negociará enquanto estiver sob bombardeio e acusa Washington de ter desmontado o entendimento provisório alcançado em junho.

Perguntado por quanto tempo os ataques continuariam, Trump afirmou que as operações prosseguiriam até que ele próprio considerasse suficiente. Também advertiu o governo iraniano de que poderia não restar “nada” caso um acordo não fosse fechado.

A combinação de bombardeios intensificados, bloqueio naval, ataques iranianos contra países vizinhos e ameaças à infraestrutura civil reduz o espaço para a diplomacia e aumenta o risco de uma escalada fora de controle.

Caso as ameaças contra pontes e usinas sejam executadas de maneira generalizada, a guerra poderá deixar de se concentrar nas capacidades militares iranianas e passar a atingir diretamente o funcionamento cotidiano do país — com consequências potencialmente graves para milhões de civis.■



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JuggerBR
JuggerBR
28 dias atrás

Como negociar com alguém tão instável? Que a cada dia fala coisas completamente diferentes, ofende os negociadores e seu povo?
Irã que seja muito resiliente, porque essa estória vai seguir se arrastando, e a manipulação dos mercados, que é cada vez mais claro que é o real objetivo, também…

Victor
Victor
Responder para  JuggerBR
28 dias atrás

acredito que a intenção dele é forçar eles a mesa de negociação com os EUA na vantagem, mas os lideres do irã são “um pouco” lelés da cuca, acho que eles estão apostando na derrota dos republicanos nas midterms e o trump tomar um impeachment, algo que talvez aconteça se a guerra se manter até as eleições.

Comenteiro
Comenteiro
Responder para  Victor
27 dias atrás

O líder do regime dos Estados Unidos também dá a mesma impressão. Seria bom fazer uma reunião no CAPS.

Adriano Madureira
Adriano Madureira
Responder para  Victor
27 dias atrás

mas os lideres do irã são “um pouco” lelés da cuca, acho que eles estão apostando na derrota dos republicanos nas midterms e o trump tomar um impeachment, algo que talvez aconteça se a guerra se manter até as eleições”.

Ao contrário de Donald Dumb amigo, esse povo sempre soube aproveitar o tempo.

A paciência e o pragmatismo da cultura islâmica são frutos de uma combinação de tradições históricas, do ambiente geográfico onde vivem a gerações (a vida dura no deserto) e dos preceitos religiosos.

No Islã, a paciência é uma das maiores virtudes, vista como fundamental para a fé.
O termo sabr na cultura deles, significa perseverança, resiliência e autocontrole diante das adversidades.
Esperar pelo tempo certo (Inshallah — “se Deus quiser”) ajuda a evitar reações impulsivas.

Sem esquecer que os povos árabes e os Persas, são conhecidos por serem bons negociadores, e paciência na negociação é fundamental.

Na cultura árabe, a negociação é uma arte baseada no respeito, na paciência e na estratégia.
Um ditado muito associado ao comércio de rua (souk) e à diplomacia ensina:

“O maior erro é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade”.

Não podendo esquecer uma frase atribuída ao Profeta Maomé:

“Confie em Deus, mas amarre seu camelo primeiro”.
que em uma negociação significa buscar os melhores termos e ser cauteloso, mesmo nutrindo uma relação de confiança com a outra parte.

Apesar que o “mestre da negociação” que representa a outra parte tem a credibilidade de um Bernie Madoff…

MMerlin
MMerlin
Responder para  JuggerBR
27 dias atrás

A instabilidade está dos dois lados.
Os EUA tem maior poder militar.
Ao Irã, resta investir na opinião pública.
Vale até pagar propaganda para influenciador digital.
Nada muito diferente do que os EUA fazem.
Mas é muito melhor (e mais seguro) ser pago para visitar o país americano.

comenteiro
comenteiro
Responder para  MMerlin
27 dias atrás

Ao visitar melhor evitar escolas e estacionamento do Wal Mart.

Hamom
Hamom
28 dias atrás

Segundo uma reportagem da NBC News de 15 de julho,
uma avaliação interna do Departamento de Defesa (Guerra) dos EUA diz que o custo financeiro da ação militar dos EUA contra o Irã está se aproximando rapidamente de US$ 100 bilhões.

Ultrapassando em muito os US$ 30 bilhões reconhecidos publicamente pelo Pentágono…

Comenteiro
Comenteiro
Responder para  Hamom
27 dias atrás

Dizem que eles tem uma impressora de dinheiro, então isso não deve ser problema.

Palpiteiro
Palpiteiro
Responder para  Comenteiro
27 dias atrás

Mas quem abastece o carro não tem a impressora

Sulamericano
Sulamericano
Responder para  Comenteiro
27 dias atrás
Palpiteiro
Palpiteiro
Responder para  Hamom
27 dias atrás

E qual o impacto na economia americana, mundial e nos lucros das petroleiras. O presidente para usar suas declarações para operar no day trade

Sergio Machado
Sergio Machado
27 dias atrás

O comandante do CENTCOM, almirante Brad Cooper, acusou o Irã de lançar dezenas de mísseis e drones contra países vizinhos e declarou que as forças norte-americanas estavam responsabilizando Teerã por ações que colocariam vidas civis em risco.
Estranho. Geralmente comandantes militares sabem que é sempre é melhor deixar o cinismo para políticos.
Cada um, cada um.

Palpiteiro
Palpiteiro
27 dias atrás

Quando começou todos sabem, como termina ninguém sabe. É como na Ucrânia.