A guerra dos drones autônomos: a Ucrânia abre a porta para o futuro mais perigoso do combate moderno

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Ukraine drones - 2

Da linha de frente às refinarias russas, drones com inteligência artificial estão mudando a guerra, reduzindo o papel humano na decisão de ataque e criando um dilema estratégico para a Europa

A guerra na Ucrânia deixou de ser apenas uma disputa de artilharia, blindados, trincheiras e mísseis. Ela se transformou no maior campo de testes militares do século XXI. No centro dessa transformação estão os drones.

Pequenos, baratos, numerosos e cada vez mais autônomos, esses sistemas passaram de ferramentas auxiliares de observação para instrumentos centrais de destruição. Hoje, drones ucranianos atingem veículos blindados na linha de frente, refinarias no interior da Rússia, navios no Mar Negro e no Mar de Azov, depósitos de combustível, bases aéreas, radares, oleodutos e infraestrutura logística.

A novidade não é apenas o uso de drones. Isso já é realidade há anos. A mudança decisiva está na crescente autonomia desses sistemas. O drone deixou de depender integralmente de um operador humano até o último segundo. Em muitos casos, ele já consegue continuar a missão sozinho no trecho final, mesmo sob interferência eletrônica, perda de sinal ou bloqueio de comunicações.

É nesse ponto que a guerra começa a sair do controle remoto e entra numa zona muito mais perigosa.

O que a Ucrânia está usando

A Ucrânia emprega hoje várias categorias de drones.

Os mais conhecidos são os FPV de ataque, pequenos drones de visão em primeira pessoa, normalmente carregados com explosivos e lançados contra veículos, trincheiras, posições defensivas, sistemas de artilharia e soldados. São, na prática, munições suicidas improvisadas ou industrializadas em escala crescente.

Há também drones de reconhecimento, usados para localizar tropas, ajustar fogo de artilharia, vigiar estradas e acompanhar movimentos russos. Sem esses sistemas, a artilharia moderna perde grande parte de sua precisão.

Outra categoria é formada pelos drones de longo alcance, empregados contra alvos dentro do território russo. Esses sistemas têm atingido refinarias, depósitos de petróleo, fábricas, bases aéreas e instalações logísticas a centenas ou milhares de quilômetros da frente.

A Ucrânia também utiliza drones navais, embarcações não tripuladas carregadas com explosivos e empregadas contra navios, portos, pontes, instalações costeiras e rotas marítimas russas. No Mar Negro, esses sistemas ajudaram a reduzir a liberdade de ação da Frota russa e mudaram a dinâmica naval da guerra.

Nem todo drone é suicida. Muitos apenas observam, transportam, retransmitem sinais ou apoiam a artilharia. Mas os drones que mais alteraram o cálculo militar são os de ataque, especialmente os FPV e os de longo alcance, porque conseguem transformar componentes baratos em capacidade de destruição estratégica.

A autonomia que já existe

O ponto mais sensível é a autonomia.

Ainda não há prova pública robusta de que a Ucrânia esteja usando de forma sistemática drones que saem pelo campo de batalha escolhendo livremente alvos humanos sem qualquer autorização prévia. Essa imagem, embora possível no futuro, ainda precisa ser tratada com cautela.

O que já está bem documentado é outra coisa: autonomia terminal.

Funciona assim: o operador identifica ou enquadra o alvo. Depois, se o sinal for cortado por guerra eletrônica, o drone pode continuar sozinho até o impacto, usando câmera, reconhecimento visual e software embarcado. A máquina não precisa receber comando até o último segundo. Ela mantém a trajetória e conclui o ataque.

Isso muda tudo.

Durante boa parte da guerra, a Rússia investiu fortemente em guerra eletrônica para cortar sinais, bloquear GPS e interromper o controle dos drones ucranianos. A resposta natural foi tornar os drones menos dependentes do operador. Quanto mais interferência, mais autonomia. Quanto mais jamming, mais inteligência embarcada.

A guerra eletrônica, que deveria limitar os drones, acabou acelerando a evolução dos drones autônomos.

A fronteira entre comando humano e decisão da máquina

A questão central não é se o drone “pensa” como um ser humano. Ele não precisa pensar. Basta reconhecer uma forma, seguir uma imagem, manter um alvo no centro da câmera e completar a missão.

O problema é que a participação humana pode se deslocar para antes do ataque. O humano define a missão, escolhe uma área, autoriza uma categoria de alvo ou enquadra inicialmente o objetivo. A partir daí, o sistema pode agir sozinho no trecho decisivo.

Na teoria, ainda há controle humano. Na prática, a decisão final começa a ser compartilhada com o algoritmo.

Essa é a zona cinzenta que preocupa juristas, militares e organizações humanitárias. Um erro de reconhecimento pode transformar um veículo civil em alvo. Um padrão visual mal interpretado pode levar a um ataque indevido. Um comandante pode autorizar uma área ampla demais. Um operador pode perder contato e nunca mais saber se o drone atingiu exatamente o que deveria.

A guerra passa a depender de decisões tomadas em frações de segundo por sistemas baratos, produzidos em massa e lançados em grande quantidade.

O impacto sobre a Rússia

Os drones ucranianos já causam danos palpáveis dentro da Rússia.

Refinarias foram atingidas. Depósitos de combustível pegaram fogo. Bases aéreas foram atacadas. Navios sofreram danos. Oleodutos, terminais e instalações industriais passaram a ser alvos frequentes. O território russo deixou de ser um santuário.

O efeito militar é evidente: combustível, aviação, logística e infraestrutura energética são pontos vitais para qualquer esforço de guerra. Ao atacar refinarias, a Ucrânia atinge não apenas a economia russa, mas também a capacidade de abastecer caminhões, blindados, aeronaves e navios.

O efeito psicológico talvez seja ainda maior. Moscou sempre tentou vender à população a ideia de uma guerra distante, controlada e limitada ao território ucraniano. Os drones romperam essa narrativa. A guerra agora chega a centenas ou milhares de quilômetros da linha de frente.

Mesmo quando o dano material é limitado, o dano político é grande. Cada explosão em uma refinaria, cada incêndio em um depósito, cada ataque a uma base aérea mostra que a Rússia também é vulnerável.

O mar também virou campo de drones

No Mar Negro e no Mar de Azov, a guerra de drones tem impacto estratégico.

Drones navais ucranianos ajudaram a restringir a ação de navios russos, ameaçaram rotas, portos e embarcações, e transformaram o litoral em uma zona de risco permanente. Isso afeta diretamente exportações, seguros marítimos, movimentação de grãos, petróleo e logística militar.

O resultado é uma guerra naval assimétrica. A Ucrânia, sem uma grande frota convencional, conseguiu criar ameaça real contra uma potência naval regional usando sistemas não tripulados, sensores, inteligência e ataques coordenados.

É uma lição que outras marinhas já estão estudando. Navios caros podem ser ameaçados por embarcações explosivas relativamente baratas. Portos antes considerados seguros podem ser atacados. Rotas comerciais podem ser pressionadas por meios que não exigem uma esquadra tradicional.

Quem financia a revolução dos drones

A revolução dos drones ucranianos não nasceu apenas do improviso. Ela é sustentada por uma combinação de Estado, indústria, aliados externos, startups, doações e fundos de inovação.

O governo ucraniano financia compras em larga escala e estimula uma base nacional de produção. Programas como o Brave1 apoiam empresas de tecnologia militar e aceleram soluções criadas diretamente para o campo de batalha.

A Europa financia drones, sistemas antidrone, produção industrial, munições e integração tecnológica. Reino Unido, Alemanha, países nórdicos, Estados Unidos e outros parceiros aparecem como financiadores diretos ou indiretos de uma nova economia militar baseada em sistemas baratos, rápidos e atualizáveis.

Há também financiamento privado, venture capital, doações públicas e mecanismos ligados a ativos russos congelados. O resultado é uma indústria de guerra descentralizada, muito diferente dos modelos tradicionais. Não se trata apenas de grandes fabricantes entregando sistemas prontos. Trata-se de um ecossistema que testa, corrige, produz e atualiza em ritmo de guerra.

A Ucrânia virou um laboratório. E a Europa, goste ou não, está financiando parte desse laboratório.

A contradição europeia

A Europa está presa em uma contradição difícil de resolver.

De um lado, defende limites éticos para armas autônomas. Documentos europeus, debates na ONU e posições de organizações humanitárias insistem na necessidade de controle humano significativo sobre sistemas letais. A ideia de máquinas escolhendo e atacando seres humanos sem supervisão real é vista como linha vermelha.

De outro lado, a mesma Europa financia drones, inteligência artificial militar, guerra eletrônica, sistemas antidrone e produção conjunta com a Ucrânia. Faz isso porque a ameaça russa é concreta e porque a guerra mostrou que drones e IA já são decisivos.

Essa contradição não é simples hipocrisia. É medo estratégico.

A Europa quer preservar o direito humanitário, mas não quer ficar militarmente atrasada. Quer impedir a proliferação de armas autônomas, mas precisa que a Ucrânia sobreviva. Quer limitar o uso da IA na guerra, mas sabe que Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e grupos não estatais não vão esperar por consensos morais em Bruxelas.

Na prática, os limites ainda são frágeis. Há princípios, mas não há um regime internacional eficaz. Há discussões, mas a guerra anda mais rápido que a diplomacia.

O perigo da disseminação

O maior risco talvez venha depois da guerra.

Tudo que está sendo aprendido na Ucrânia será copiado. Por Estados, por grupos armados, por milícias, por cartéis, por terroristas e por empresas privadas. A combinação de drone barato, software de navegação, reconhecimento de imagem, explosivo improvisado e autonomia parcial é muito difícil de controlar.

Tanques, submarinos, caças e mísseis balísticos exigem indústria pesada. Drones exigem muito menos. Componentes civis podem ser adaptados. Software pode ser replicado. Peças podem ser impressas. Sistemas podem ser montados em oficinas.

A guerra mostrou que um ator com poucos recursos pode atingir alvos de alto valor. Essa lição não ficará restrita à Ucrânia.

Para a Europa, o risco é evidente. Aeroportos, refinarias, portos, redes elétricas, depósitos de combustível, navios, bases militares, estações ferroviárias e eventos públicos podem se tornar alvos de sistemas baratos e difíceis de detectar. O continente que financia drones para conter a Rússia terá de se preparar para um mundo em que drones serão usados por muitos outros atores.

O futuro chegou pequeno, barato e explosivo

A guerra dos drones na Ucrânia mostra que o futuro do combate não será dominado apenas por caças de quinta geração, submarinos nucleares e mísseis hipersônicos. Será também decidido por sistemas pequenos, baratos, descartáveis, guiados por software e produzidos em massa.

Essa é a grande virada.

Um drone de baixo custo pode destruir um blindado caro. Um enxame pode saturar uma defesa sofisticada. Um sistema autônomo pode continuar atacando mesmo sem contato com o operador. Uma refinaria a milhares de quilômetros pode deixar de ser segura. Um navio pode ser ameaçado por uma embarcação não tripulada carregada de explosivos.

A Ucrânia usa essa tecnologia porque luta por sobrevivência. Isso precisa ser reconhecido. Mas o mundo também precisa entender que uma porta foi aberta. E talvez não seja possível fechá-la.

A Europa pode sair dessa guerra mais preparada, mais realista e mais forte. Mas também pode sair mais militarizada, mais dividida, mais cara e mais vulnerável às mesmas tecnologias que ajudou a impulsionar.

O campo de batalha do futuro já está aí. Ele sobrevoa trincheiras, refinarias, portos, navios e cidades. Não faz barulho de caça supersônico. Não tem a imponência de um míssil balístico. Muitas vezes cabe numa mala, numa caixa ou num pequeno veículo.

É barato. É preciso. É difícil de deter. E, cada vez mais, não espera pela mão humana no último segundo.

A guerra real avança mais rápido que a ética, e os drones autônomos estão empurrando o combate moderno para uma zona cada vez mais cinzenta.■



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NBS
NBS
21 dias atrás

As novas tecnologias ampliam a produtividade, reduzem custos e permitem realizar atividades antes consideradas impossíveis.
Na saúde, na educação, na indústria e na segurança, podem melhorar serviços e beneficiar milhões de pessoas.
Entretanto, toda tecnologia poderosa também pode ser empregada para controlar, vigiar, discriminar ou destruir.
Os drones autônomos mostram como sistemas baratos e eficientes podem reduzir progressivamente a participação humana em decisões letais.
Por isso, o desenvolvimento tecnológico não pode ficar subordinado apenas aos interesses militares, empresariais ou governamentais.
A sociedade precisa participar da definição dos limites, das responsabilidades e das condições aceitáveis de uso.
É necessário garantir transparência, proteção dos dados, supervisão humana e responsabilização por eventuais danos.
A regulamentação não deve impedir a inovação, mas orientar seu uso para finalidades legítimas e socialmente benéficas.
Sem controle democrático, ferramentas criadas para facilitar a vida podem se transformar em instrumentos de opressão e violência.
O verdadeiro progresso tecnológico é aquele que permanece a serviço das pessoas, da dignidade humana e do interesse coletivo.

MD 11
MD 11
Responder para  NBS
20 dias atrás

Será muito interessante quando este futuro chegar para os porta-aviões.

André Bueno
André Bueno
Responder para  NBS
19 dias atrás

Exato!

gordo
gordo
21 dias atrás

A guerra civil espanhola foi laboratório para teste de armas e novas doutrinas, e a Ucrânia hoje não é diferente. Europeus adoram brincar com fogo.

comenteiro
comenteiro
Responder para  gordo
21 dias atrás

Sociedade tribal…

Dr. Mundico
Dr. Mundico
21 dias atrás

Uma guerra nunca termina com as mesmas armas usadas no seu início.

Cristiano ciclope
Cristiano ciclope
21 dias atrás

Muito disso foi desenvolvido no Irã na verdade que criou o primeiro drone suicida de longo alcance o shared -136, a Rússia copiou, os EUA também e a China, e tudo que e criado na Ucrânia a Rússia pode fazer, a China pode fazer e o Irã e a Coreia do Norte com. Apoio técnico russo e chinês também podem fazer!

Bardini
Bardini
Responder para  Cristiano ciclope
20 dias atrás

Os iranianos não inventaram nada…
.
O Sahed nada mais é que uma cópia de um sistema israelense (Harpy), que por consequência, é uma cópia direta de um sistema desenvolvido pelos alemães (DAR), nos longinquos anos 80, quando ainda existia uma tal de guerra fria e a China tinha um PIB inferior ao do Brasil.
.
comment image?resize=490%2C389&ssl=1
.
O próprio motor que estão empregando nos Sahed da vida, é uma cópia chinesa de um motor alemão.

Lucas
Lucas
21 dias atrás

Os russos levaram a utilização de drones a um estado de arte pura.
Tantos os FPV onde eles conseguem passar um drone por uma fresta de janela, como os de maior porte, como os Gerans, que já são totalmente autônomos com IA e a jato.

Leo neves
Leo neves
21 dias atrás

O Lancet russo tá fazendo isso a muito tempo já. Hoje também o shahed -4 faz o mesmo.
O Lancet se tornou o principal vetor de destruição de lanchas ucranianas pois consegue atingir alvos em alta velocidade.

737-800RJ
737-800RJ
21 dias atrás

Hoje um ataque ucraniano com centenas de drones explodiu diversos depósitos e centros de distribuição de componentes eletrônicos da Wildberries em diferentes localidades, alguns a poucos quilômetros do centro Moscou. Essas infraestruturas eram utilizadas pra fornecer peças para produção de drones russos.

A guerra que dizíamos ser do futuro já é feita no presente. Espero que nossas Forças Armadas estejam muito atentas a tudo isso, porque a IA e os drones aéreos, aquáticos e terrestres são realidade sem volta no campo de batalha.

1000172520
Esteves
Esteves
20 dias atrás

Pronto.

Chegou a solução para a Defesa do Brasil. Não temos grana para avião, navios e blindados. Vamos de drones.

Se não juntarem dinheiro para drones…aí é melhor pular no poço.

Esteves
Esteves
20 dias atrás

Mobilidade e mobilização exigem investimentos em inteligência.

Um dos problemas é essa gente tosca separatista. Como evitar? Quando havia nacionalismo e nacionalidades foi possível controlar.

Última edição 19 dias atrás por Dinair Alves
Esteves
Esteves
20 dias atrás

Antes que venham com choroso chororo chiando que nem todo sulista é arrepiado e que entre os do Sul existe certa inteligência humana, já aviso que não estou com paciência.

Países continentais como o Brasil (e outros nem tanto) passaram por momentos e aflitos separatistas like discursam atualmente no Sul, especialmente SC.

Fica a sugestão ao Forte. Separatismos no Brasil. Cangaços e guerrilhas urbanas (vide Rio de Janeiro) fortalecidos por ondas separatistas. O perigo da assimetria e da guerra barata nos estados. A falta de coordenação das polícias e das forças de segurança X armas como drones nas mãos de caipiras.

Última edição 19 dias atrás por Dinair Alves
Francisco
Francisco
Responder para  Esteves
19 dias atrás

Se acontecesse essa tal Separação entre Sul e Norte ??? adivinha para onde as pessoas tentariam ir?

comenteiro
comenteiro
Responder para  Francisco
19 dias atrás

MIAMI! Tanto as pessoas do Sul, quanto as do Norte!

Mauricio R.
20 dias atrás
Alex Barreto Cypriano
Alex Barreto Cypriano
19 dias atrás

A Ucrânia, toda uma nação, foi reduzida, num longo processo de instrumentalização de ódios e infiltração de instituições, a bucha de canhão na guerra da OTAN contra a Rússia. O que será da Ucrânia, ninguém na ética Europa/America liga, o importante é prejudicar ao máximo a Rússia: reter bens e recursos monetários, expulsar do sistema de pagamentos mundial, destruir infraestruturas logísticas (gasodutos, por exemplo), impor sanções a indivíduos e empresas, expandir ao máximo zona de guerra. Mas a guerra é só uma parte da coisa, e talvez a parte menos lógica no seu ímpeto romântico: os compromissos e dividas assumidos deverão ser pagos aos credores e financistas. Ao redor dos belicosos embriagados de ilusões, dançam cínicos potentados da economia e da política umbilicalmente geminados no capitalismo neoliberal e financeirizado: ao fim, a guerra não tem solução militar porque ela tem objetivos econômicos, primariamente, e não tem um fim que não seja o desmonte econômico de um dos contrincantes. Daí o desrecalque do modo de produção descentralizado, aparentemente feito por empreendedorismo (não é, o empreendedorismo de startups e fintechs é uma fachada pros modelos de negócio inconfessáveis como lavagem de dinheiro do crime transnacional, como não poderia ser diferente num mundo mesmerizado pela ideologia rentista, abertamente antiprodutivista). Mas chama a atenção justamente a idéia de que a guerra deva ser financiada, ora por autofinanciamento (coletar recursos com bônus de guerra ou doações entre seus próprios cidadãos ou usar taxação suplementar e corte de impostos) ora tomar empréstimos aos financistas nacionais ou estrangeiros (aliados, evidentemente). Ao que tudo indica, apenas os bônus de guerra/doações não agudizam a desigualdade socioeconômica, que somará fatalmente seus efeitos aos da guerra em si, próxima ou distante. Hoje, entre militares ianques, a idéia de criar taxas pra financiar a aquisição de meios ao CIM já foi ventilada. Nada ata mais aa submissão que uma dívida de guerra volumosa, como vimos acontecer no fim da 1a e 2a GM, que simplesmente criaram o império mundial econômico americano, primeiro lastreado em reservas em ouro, rapidamente consumidas com guerras e infraestruturas militares mundo agora nos 1950-1970, e depois de 1971, em dólar sem lastro e controle do petróleo. Fortunas são erguidas e derrubadas no negócio de elite da guerra, um negócio sazonal, mas o sacrifício em sangue fica relativamente restrito ao sal da terra que não salga mais – daí o desinteresse em paz. Deve existir, em algum quadrante desse mundo, um estudo sociológico sobre a transformação de nações em campos de guerra pra lucro da hierarquia infernal dos empreendedores da morte e destruição. O importante, sempre, é dar nomes e esclarecer relações – mesmo que ninguém mais ligue pra verdade.

Bigliazzi
Bigliazzi
Responder para  Alex Barreto Cypriano
17 dias atrás

Apenas para esclarecer: você apoia a invasão russa da Ucrânia?
A invasão deixou cidades inteiras devastadas, com níveis de destruição comparados por muitos observadores aos vistos em alguns dos conflitos urbanos mais intensos das últimas décadas. Milhares de civis morreram e dezenas de milhares ficaram feridos desde o início da guerra.

Você considera justificável essa guerra, apresentada pelo Kremlin como uma operação de “desnazificação”? Na minha visão, essa narrativa jamais legitimou a invasão de um país soberano.

Se há um responsável por essa tragédia, certamente não é a Ucrânia. E quanto ao argumento de que a Rússia precisava agir por medo da OTAN, continuo sem enxergar fundamento para isso. A OTAN é uma aliança defensiva (que encolheu ano após ano, nesses últimos 40 anos), e os países europeus, em sua maioria, buscavam preservar estabilidade, prosperidade e segurança, não iniciar uma guerra contra a Rússia.

Discordar da política da OTAN ou do Ocidente é legítimo. Mas nada disso justifica a invasão de um Estado soberano, a destruição de cidades e o enorme custo humano (dezenas de milhares de civis entre mortos e feridos, chegando a casa de 50.000) que essa guerra impôs aos ucranianos.

Bigliazzi
Bigliazzi
17 dias atrás

“Em três dias, Kiev. Em três semanas, Paris.”

Essa era a retórica. Hoje, após centenas de milhares de mortos em suas fileiras e anos de uma guerra marcada por ataques devastadores contra cidades e infraestrutura civil contra a pobre Ucrânia, a Rússia vê parte de seu próprio território e de sua infraestrutura estratégica sob ataque da nação que decidiu invadir e castigar, numa guerra genocida… com a alegação infame de uma “desnazificação da Ucrânia”.

Vivemos novos tempos. Se diversas nações conseguiram desenvolver programas nucleares próprios, era previsível que também dominassem drones, sistemas autônomos e outras tecnologias militares avançadas. Os programas de defesa de Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Alemanha, Japão, Suécia, Polônia, Paquistão, Índia, Rússia, China, Israel, Turquia, Coreia do Sul, Coreia do Norte e Irã demonstram que a inovação militar não se limita às armas nucleares. Os drones e outras tecnologias emergentes são uma evolução natural de suas capacidades industriais e científicas.

A guerra na Ucrânia também evidencia como inteligência, inovação, adaptação e
emprego criativo de tecnologia podem compensar parte da assimetria entre os lados. Os ataques ucranianos contra alvos militares e logísticos em território russo ilustram essa transformação no campo de batalha.

Ao mesmo tempo, o conflito tem mostrado que armas anunciadas como revolucionárias (que sempre designei como “Hiper Armas Putinianas”) nem sempre entregam, na prática, a superioridade estratégica prometida. Em guerras de alta intensidade, propaganda e capacidade real de combate nem sempre caminham juntas, nisso o Despota do Putin é bom… faz propaganda e vende traquitanas que não funcionam para o Mundo inteiro.

Mais do que uma disputa entre exércitos, este conflito está redefinindo a forma como as guerras do século XXI serão travadas.