França, Alemanha e Dinamarca aceleram redução da dependência de tecnologias americanas
Governos europeus ampliam o uso de Linux, LibreOffice e plataformas locais diante de preocupações com soberania digital, custos, dependência de fornecedores e alcance extraterritorial da legislação dos Estados Unidos
Governos e administrações públicas europeias estão acelerando a substituição de softwares e serviços fornecidos por empresas norte-americanas por soluções de código aberto ou desenvolvidas na própria Europa. França, Alemanha e Dinamarca aparecem entre os casos mais citados desse movimento, que transformou a chamada soberania digital em uma questão de segurança, continuidade administrativa e autonomia estratégica.
As iniciativas são reais, mas algumas versões que circulam nas redes sociais exageram seu alcance. A França não retirou toda a tecnologia americana de 2,5 milhões de computadores públicos; o número refere-se principalmente ao universo de funcionários que deverá abandonar plataformas estrangeiras de videoconferência. Na Alemanha, a migração de aproximadamente 25 mil postos de trabalho ocorre em um dos 16 estados federados, e não em todo o país. Na Dinamarca, a substituição do Microsoft Office começou no Ministério da Digitalização e em administrações municipais, não em todo o governo nacional.
Apesar dessas ressalvas, os três casos mostram uma mudança política importante: softwares de escritório, sistemas operacionais, serviços de nuvem, correio eletrônico e plataformas de comunicação passaram a ser tratados como componentes de infraestrutura crítica.
França substituirá plataformas de videoconferência para 2,5 milhões de servidores
O governo francês pretende abandonar, até 2027, plataformas de videoconferência não europeias, como Microsoft Teams, Zoom, Webex e GoTo Meeting, adotando em seu lugar o sistema francês Visio.
A medida poderá abranger cerca de 2,5 milhões de funcionários públicos, mas isso não significa que o mesmo número de computadores será imediatamente convertido do Windows para o Linux. O número foi associado de forma incorreta à migração do sistema operacional em diversas publicações.
O Visio integra a plataforma governamental La Suite numérique, que reúne ferramentas desenvolvidas ou controladas pelo Estado francês, como o mensageiro Tchap e o serviço de transferência de arquivos FranceTransfert.
Segundo o governo, o objetivo é garantir que comunicações públicas, informações científicas e dados administrativos sensíveis não fiquem submetidos exclusivamente a empresas e jurisdições externas. O sistema de videoconferência francês já havia alcançado cerca de 40 mil usuários antes da expansão nacional.
Em abril de 2026, a Direção Interministerial do Digital da França, conhecida pela sigla DINUM, anunciou também que deixará de utilizar o Windows em seus próprios computadores e adotará estações de trabalho com Linux. A decisão possui forte valor simbólico, mas inicialmente envolve algumas centenas de postos dentro da própria agência, e não os 2,5 milhões de computadores atribuídos à iniciativa em publicações virais.
Cada ministério francês deverá elaborar um plano para reduzir dependências tecnológicas externas. A avaliação deverá abranger sistemas operacionais, ferramentas colaborativas, antivírus, bancos de dados, inteligência artificial, virtualização, redes e serviços de nuvem.
A França também anunciou a migração de aproximadamente 80 mil funcionários da Caisse Nationale de l’Assurance Maladie para ferramentas públicas como Tchap, Visio e FranceTransfert.
Estado alemão troca Microsoft Office e Outlook por código aberto
Na Alemanha, a iniciativa mais avançada ocorre em Schleswig-Holstein, estado situado entre os mares do Norte e Báltico.
Em 2024, o governo estadual decidiu transformar o LibreOffice na ferramenta de escritório padrão de sua administração. A estratégia abrange aproximadamente 25 mil postos de trabalho, embora notícias iniciais tenham arredondado o total para 30 mil computadores.
A substituição não se limita ao Word, Excel e PowerPoint. Schleswig-Holstein também adotou o Open-Xchange para correio eletrônico e calendário, Nextcloud para colaboração e armazenamento e Thunderbird em parte da infraestrutura.
Em outubro de 2025, o governo estadual informou que a migração de seu sistema de correio eletrônico para uma solução de código aberto estava concluída. Dois meses depois, cerca de 80% dos postos de trabalho já utilizavam o LibreOffice como padrão, enquanto aproximadamente 20% ainda dependiam do Microsoft Office para funções específicas, aplicações antigas ou processos que não haviam sido adaptados.
A migração completa do Windows para Linux é uma etapa posterior. O sistema de código aberto está sendo preparado e testado como futuro sistema operacional da administração, mas a mudança não ocorreu simultaneamente em todos os computadores.
Schleswig-Holstein também iniciou a substituição do Microsoft Access, utilizado em numerosas aplicações administrativas desenvolvidas localmente. Em julho de 2026, o governo anunciou uma plataforma alemã de desenvolvimento de aplicações como parte desse processo.
A administração estadual argumenta que o código aberto permite auditar o funcionamento dos programas, alterar componentes sem autorização de um único fabricante e evitar que documentos públicos fiquem presos a formatos proprietários.
Dinamarca iniciou experiência no Ministério da Digitalização
Na Dinamarca, o Ministério da Digitalização anunciou em 2025 a substituição do Microsoft Office 365 pelo LibreOffice.
O plano previa migrar inicialmente cerca de metade dos funcionários e, caso os testes fossem bem-sucedidos, estender a mudança a todo o ministério durante o segundo semestre daquele ano. A ministra Caroline Stage Olsen afirmou que a administração não deveria tornar-se tão dependente de poucos fornecedores estrangeiros a ponto de perder a capacidade de agir autonomamente.
A Dinamarca, contudo, não abandonou integralmente o Microsoft Office em todo o setor público. A decisão envolveu inicialmente o Ministério da Digitalização, enquanto Copenhague, Aarhus e outras administrações municipais passaram a estudar ou implementar projetos semelhantes.
Também foram corrigidas notícias de que o ministério substituiria imediatamente todos os computadores Windows por Linux. O Windows continuou sendo usado em parte das máquinas, enquanto a primeira etapa concentrou-se no pacote de produtividade.
A estratégia dinamarquesa prevê a possibilidade de retorno temporário às ferramentas da Microsoft caso problemas de compatibilidade, macros, documentos complexos ou sistemas administrativos impeçam a continuidade dos trabalhos.
CLOUD Act ampliou preocupação com dados armazenados na Europa
Um dos argumentos utilizados no debate europeu é o Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act, ou CLOUD Act, aprovado pelos Estados Unidos em março de 2018.
A lei esclareceu que empresas submetidas à jurisdição norte-americana podem ser obrigadas a fornecer dados sob sua posse, custódia ou controle, mesmo quando as informações estão armazenadas em servidores localizados fora dos Estados Unidos.
Isso significa que manter dados fisicamente em um centro de processamento na França, Alemanha ou Dinamarca não elimina automaticamente a possibilidade de uma ordem norte-americana dirigida à empresa controladora do serviço.
A lei, entretanto, não autoriza autoridades dos Estados Unidos a consultar livremente qualquer informação armazenada por empresas americanas. O acesso depende de um procedimento legal válido, como mandado, intimação ou ordem judicial, conforme o tipo de dado e a investigação. As empresas também podem, em determinadas circunstâncias, contestar uma ordem quando ela entrar em conflito com a legislação de outro país.
O Comitê Europeu para a Proteção de Dados e a Autoridade Europeia para a Proteção de Dados alertaram que uma ordem estrangeira, isoladamente, não constitui necessariamente base jurídica suficiente para transferir dados pessoais protegidos pelo Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados. A situação pode criar conflito entre as obrigações impostas pela legislação norte-americana e as regras europeias.
Movimento vai além da proteção de dados
O CLOUD Act é apenas uma das razões para as migrações. Governos europeus também citam aumento dos custos de licenciamento, dependência de formatos proprietários, dificuldade de trocar fornecedores e risco de interrupção dos serviços em uma crise política.
O domínio de empresas como Microsoft, Amazon e Google na computação em nuvem também tornou a dependência tecnológica uma questão de política industrial. A União Europeia apresentou em junho de 2026 novas iniciativas destinadas a fortalecer provedores europeus de nuvem, inteligência artificial e semicondutores.
O objetivo declarado não é excluir todas as empresas norte-americanas, mas preservar alternativas e impedir que funções essenciais do Estado dependam de um único fornecedor ou de decisões tomadas fora da Europa.
Migração enfrenta custos e dificuldades
A substituição de sistemas consolidados não ocorre sem riscos. Documentos elaborados durante décadas em formatos da Microsoft podem apresentar problemas de formatação no LibreOffice. Macros, planilhas complexas, complementos e aplicações integradas ao Outlook ou ao Access precisam ser modificados ou reconstruídos.
A mudança também exige treinamento, suporte técnico, adaptação dos fluxos de trabalho e manutenção de equipes capazes de desenvolver e sustentar as soluções abertas. Em muitos casos, o custo das licenças é substituído parcialmente por despesas com migração, integração e assistência técnica.
O avanço de França, Schleswig-Holstein e Dinamarca mostra, contudo, que parte da Europa já não considera o software apenas uma aquisição administrativa. A capacidade de controlar os dados, modificar os sistemas e continuar operando durante uma disputa política ou comercial passou a ser tratada como elemento da soberania nacional.■

Ao menos o ERP não precisam migrar.
Vão de SAP até morrer!
Existem diversas alternativas open-source aos produtos das big techs americanas. Eu mesmo só uso o windows, porque o meu certificado digital não funciona no linux, mesmo com wines.
Já uso o Libre Office há uns 5 anos. Sempre atualiza, leve, simples e totalmente compatível com Office nos textos e planilhas.
Parece que os pontapés do Trump deram resultado, é bom ver a UE abandonando o papel de primo pobre dos EUA, afinal a novela da Globalização chegou ao fim e cada qual que cuide de si.
Calc é superior ao Excel 🤫
Eu utilizo já a algum tempo o Onlyoffice que também é gratuito e me atende muito bem
Eu tenho o desprazer de ter essa trolha na minha maquina, já que é o unico free.
Eu, que sou nada perto desses países, uso o Mint, Windows nem pirata eu quero mais, olha que usuário comum pode piratear Windows que a Microsoft nem liga para isso,até porque que forma mão de obra para trabalhar com Excel é a pirataria.
Uso o Mint porque tem um visual muito bonito, tem pessoas que gosta de desafios, Fedora, Debian, entre outros.
Para desenvolver APK Linux é melhor devido o KVM nativo, os emuladores ficam fluídos sem travar,. Não precisa de um super Pc para trabalhar.
Já imaginou o tamanho do desafio que é ensinar/adaptar sistemas fora da plataforma office ao funcionarismo publico? vou contar para voces como foi nossa experiencia em tentar quebrar algo enraizado que se consagrou e evoluiu junto com a história da computação.
Confesso que já tentamos isso no Brasil e o politico mente fechada entendeu que quando a tia do adm que tinha décadas de cargo publico cruzou os braços e não quis trabalhar, pois não viu a janelinha que era acostumada a trabalhar (mesmo com treinamento, aperfeiçoamento, etc….) e que tinham “madrinhas e padrinhos” com poder de veto fez uma briga politica interna….enfim, virou um auê e o programa não andou.
Aqui a proposta era economia de licenças, lá estão amparados pelo congresso e pelo interesse de Estado, muito acima desses mente fechada, interesse politico, etc….vim aqui trazer esse assunto para verem o quanto um interesse de Estado faz falta para nós e ter pessoas honestas para fazer as coisas acontecerem e que assuma essas brigas pelo bem da nação nos faz falta.
Eu acho que essas decisões deveriam ser tomadas ao nível da UE, mas em matéria de defesa os europeus não se integram, cada país busca sua própria alternativa aos softwares americanos.
Eu uso o Librefoffice e não tenho nenhum problema.