Da escola rural à fábrica inteligente: como a China formou a mão de obra que sustentou sua ascensão industrial

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China vocational education

Universalização do ensino básico, expansão das escolas profissionais, treinamento dentro das empresas e rápida adaptação dos currículos às necessidades regionais criaram um contingente de trabalhadores capaz de produzir desde brinquedos e televisores até navios, baterias e carros elétricos

Quando as reformas econômicas chinesas começaram, no fim da década de 1970, a China ainda era um país predominantemente rural, com baixa produtividade, renda limitada e profundas diferenças educacionais entre cidades e zonas agrícolas. Quatro décadas depois, tornou-se o maior centro industrial do planeta e passou a disputar a liderança em setores que exigem níveis crescentes de precisão, conhecimento técnico e capacidade de organização.

Essa transformação costuma ser explicada pela combinação de salários baixos, investimentos estrangeiros, infraestrutura, política industrial, acesso a mercados externos e enormes economias de escala. Todos esses fatores foram decisivos. Mas a chamada “fábrica do mundo” não poderia funcionar apenas com terrenos baratos, portos modernos e incentivos fiscais: era necessário dispor de milhões de pessoas capazes de ler instruções, realizar cálculos, seguir especificações, operar equipamentos, identificar defeitos e aprender rapidamente novos processos.

A construção desse contingente começou no ensino básico e continuou em uma vasta rede de escolas profissionais, institutos técnicos, universidades, centros de treinamento empresarial e programas públicos de requalificação. Não foi um sistema perfeitamente planejado desde o início, nem livre de desigualdades e desperdícios. Formou-se por sucessivas reformas nas quais a educação passou a responder cada vez mais diretamente às necessidades da industrialização.

O resultado foi uma pirâmide de competências: uma base numerosa de trabalhadores com escolaridade fundamental; uma camada intermediária de operadores, mecânicos, eletricistas, soldadores e técnicos; e um grupo crescente de engenheiros, projetistas, pesquisadores e gestores de produção.

A primeira matéria-prima foi a alfabetização

No início dos anos 1980, a China ainda estava longe de possuir uma força de trabalho universalmente escolarizada. A taxa de alfabetização dos adultos era estimada em aproximadamente 66% em 1982. Em 2015, já havia alcançado cerca de 96%, segundo dados reunidos pelo Banco Mundial.

A mudança fundamental ocorreu em meados daquela década. Em 1985, a liderança chinesa aprovou uma ampla reforma do sistema educacional que estabelecia a implantação gradual de nove anos de escolaridade obrigatória. No ano seguinte, a Lei da Educação Obrigatória formalizou o direito e a obrigação de cursar seis anos de ensino primário e três anos de ensino secundário básico.

A implementação foi descentralizada e adaptada às condições econômicas de cada região. Províncias e municípios mais ricos avançaram primeiro, enquanto áreas rurais e pobres receberam metas e programas específicos. A estratégia associou a expansão das escolas à redução do analfabetismo, ao combate à pobreza e à formação de professores.

Por volta de 2000, o governo declarou basicamente alcançados os chamados “dois fundamentos”: a universalização dos nove anos de ensino obrigatório e a eliminação do analfabetismo entre jovens e adultos. A qualidade permanecia desigual, mas a indústria já podia recrutar trabalhadores de uma população incomparavelmente mais escolarizada do que aquela disponível no começo das reformas.

Em termos industriais, o efeito da educação básica não estava em formar engenheiros dentro das escolas primárias. Estava em reduzir o custo e o tempo necessários para transformar trabalhadores rurais em operadores industriais. Quem dominava leitura, escrita e aritmética podia compreender manuais, preencher registros de produção, interpretar medidas, seguir procedimentos de segurança e ser treinado para executar tarefas mais complexas.

Uma análise do Banco Mundial concluiu que o capital humano teve participação relevante no crescimento chinês e, especialmente, na transferência de trabalhadores da agricultura para atividades de maior produtividade. Estimativas citadas pelo estudo atribuem ao capital humano 38% do crescimento entre 1978 e 2008, embora o valor varie de acordo com a metodologia utilizada.

A grande migração levou a escola para dentro das fábricas

A industrialização chinesa coincidiu com uma das maiores migrações internas da história. Centenas de milhões de pessoas deixaram aldeias e pequenas cidades para trabalhar nos centros industriais do litoral, sobretudo nos deltas dos rios das Pérolas e Yangtzé e na região de Bohai.

Essa população não era composta, em sua maioria, por especialistas de alto nível. Mas tampouco era uma massa completamente sem escolaridade. Um estudo do Banco Mundial constatou que aproximadamente 82% dos trabalhadores migrantes já haviam concluído pelo menos o ensino secundário básico, equivalente ao estágio final da educação obrigatória chinesa.

Esse nível de formação era suficiente para muitas das tarefas que caracterizaram a primeira fase da industrialização exportadora: montagem de produtos eletrônicos, produção de roupas, fabricação de brinquedos, processamento de alimentos, operação de máquinas simples e controle visual de qualidade.

A qualificação efetiva ocorria frequentemente depois da contratação. As empresas ensinavam procedimentos específicos, enquanto trabalhadores mais experientes transmitiam conhecimentos práticos aos recém-chegados. Cada nova fábrica tornava-se, assim, também um centro de treinamento.

O sistema produziu um ciclo cumulativo. Uma pessoa que começava em uma linha de montagem podia tornar-se inspetor, ajustador de máquinas, chefe de equipe ou técnico de manutenção. Trabalhadores mudavam de empresa e levavam consigo conhecimentos sobre processos, fornecedores, controle de qualidade e organização produtiva.

Nas regiões industriais densamente povoadas, essa circulação ajudou a difundir competências entre milhares de companhias. O conhecimento deixou de estar concentrado em uma única multinacional e passou a integrar o mercado regional de trabalho.

O ensino profissional criou a camada intermediária

O ensino básico forneceu a base. A tarefa de formar trabalhadores especializados coube a uma estrutura muito mais ampla de educação profissional e técnica.

O sistema chinês passou a oferecer formação profissional em quatro grandes ambientes: escolas secundárias profissionais, instituições técnicas de nível superior, programas para adultos e treinamentos mantidos pelas próprias empresas. Em 2010, a OCDE estimava que aproximadamente metade dos estudantes chineses que chegavam ao ensino secundário avançado ingressava na vertente profissional, que reunia mais de 20 milhões de alunos.

Essas instituições ensinavam atividades diretamente relacionadas ao mundo produtivo: mecânica, eletricidade, eletrônica, soldagem, usinagem, manutenção de máquinas, química industrial, construção, logística, informática e controle de qualidade.

A Lei da Educação Profissional de 1996 criou uma base jurídica nacional para escolas profissionais de diferentes níveis e para diversas formas de treinamento. A legislação também incentivou a participação das empresas, o uso de instalações industriais no ensino e a combinação entre formação escolar e experiência prática.

Na China, a aproximação entre escola e empresa assumiu formatos variados. Alguns estabelecimentos instalaram oficinas e pequenas linhas de produção dentro dos próprios campi. Em outros casos, empresas abriram centros de treinamento nas fábricas ou financiaram equipamentos para as escolas.

A OCDE descreveu essas modalidades como “fábrica na escola” e “escola na fábrica”. Também surgiram cursos desenhados sob encomenda para empresas específicas, nos quais os estudantes aprendiam a trabalhar com máquinas, programas e padrões utilizados pelo futuro empregador.

Esse modelo não reproduziu integralmente o sistema dual alemão, no qual o aprendizado dentro da empresa é parte obrigatória e rigidamente regulamentada da formação. O sistema chinês foi mais descentralizado, desigual e frequentemente improvisado. Sua vantagem foi a velocidade: autoridades locais podiam criar cursos ou alterar currículos conforme uma nova indústria se instalava na região.

Cada polo industrial passou a formar sua própria mão de obra

A educação profissional chinesa desenvolveu-se em estreita relação com a geografia econômica.

Em Shenzhen, Dongguan e outras cidades do sul, escolas passaram a oferecer cursos de eletrônica, telecomunicações, programação, automação e manutenção de equipamentos. Em Xangai e Jiangsu, ganharam importância a mecatrônica, a fabricação de máquinas, a química e a logística. Em regiões com grandes estaleiros, foram ampliadas as formações em soldagem, tubulação, montagem naval e engenharia marítima.

Esse alinhamento era favorecido pelos governos locais, responsáveis por parte substancial do financiamento e da administração das instituições. A mesma prefeitura que construía uma zona industrial podia apoiar uma escola técnica destinada a fornecer trabalhadores às empresas atraídas para o local.

Até 2018, a China havia constituído aproximadamente 1.400 grupos de educação profissional, reunindo escolas e mais de 30 mil empresas. O país possuía naquele ano cerca de 11.700 instituições profissionais, com 26,9 milhões de estudantes matriculados.

Essas redes reduziam um dos principais riscos de qualquer sistema técnico: formar alunos em especialidades para as quais não existe demanda. Empresas participavam da elaboração de programas, forneciam equipamentos, recebiam estagiários e recrutavam diretamente nos estabelecimentos parceiros.

A proximidade também permitia que uma escola acompanhasse a transformação de seu polo industrial. Um curso inicialmente dedicado à manutenção elétrica podia incorporar controladores programáveis, robótica, visão artificial e sistemas digitais de produção à medida que as fábricas eram automatizadas.

As multinacionais também funcionaram como escolas

Os investimentos estrangeiros tiveram um papel importante na formação de competências.

Empresas japonesas, americanas, europeias, taiwanesas, sul-coreanas e de Hong Kong não levaram apenas capital e pedidos de exportação. Introduziram sistemas de qualidade, gestão de estoques, padronização, produção enxuta, manutenção preventiva e controle estatístico.

Muitos trabalhadores aprendiam esses procedimentos dentro das fábricas e, posteriormente, transferiam-se para fornecedores ou abriam seus próprios negócios. Engenheiros e gestores chineses passaram a conhecer os requisitos de grandes marcas internacionais e a reproduzir esses padrões em empresas locais.

Ao longo do tempo, o treinamento deixou de ocorrer apenas de maneira informal. Em 2020, por exemplo, o Ministério da Educação e a Bosch firmaram uma parceria para aprofundar modelos de formação dual em manufatura inteligente, engenharia automotiva e tecnologia da informação. O acordo ilustra como a China passou a incorporar práticas estrangeiras ao seu próprio sistema educacional.

A absorção de conhecimento também ocorreu entre fornecedores. Uma fábrica de eletrônicos dependia de empresas de moldes, cabos, placas, motores, embalagens, ferramentas e componentes. Cada contrato transmitia especificações e obrigava as companhias menores a melhorar seus processos.

Por isso, a principal vantagem chinesa não se limitou ao custo de um trabalhador individual. Ela passou a residir na possibilidade de encontrar, em uma mesma região, milhares de operadores e técnicos, além de fornecedores capazes de resolver rapidamente problemas de produção.

A universidade ampliou o topo da pirâmide

A partir de 1999, a China acelerou fortemente a expansão do ensino superior. O número de vagas cresceu, novas universidades foram criadas e antigas escolas técnicas foram transformadas em institutos ou faculdades profissionais.

A ampliação não serviu apenas para formar administradores ou profissionais liberais. Ela aumentou a disponibilidade de engenheiros mecânicos, eletrônicos, químicos, navais, de materiais, automação e computação.

Em 2022, o país já possuía mais de 46,5 milhões de estudantes no ensino superior, incluindo universidades acadêmicas, faculdades e instituições profissionais. A taxa bruta de matrícula havia alcançado 59,6%, em comparação com um sistema de elite restrito a uma pequena parcela da população nas primeiras décadas das reformas.

O crescimento do ensino superior profissional foi particularmente importante. Os dados oficiais de 2024 registram aproximadamente 18 milhões de estudantes em cursos profissionais superiores, além de 12,3 milhões na educação profissional secundária.

Essa camada de formação intermediária e superior permitiu que as fábricas chinesas deixassem de depender exclusivamente de máquinas e supervisores importados. Técnicos passaram a instalar, ajustar e reparar equipamentos; engenheiros começaram a modificar produtos, desenvolver ferramentas e reorganizar linhas de produção.

A formação universitária não substituiu a educação profissional. As duas estruturas tornaram-se complementares: os engenheiros projetavam processos e produtos, enquanto técnicos e operários especializados os transformavam em produção seriada.

Eletrônicos: da montagem manual à automação

A indústria eletrônica demonstra com clareza essa evolução.

Na década de 1980 e no início dos anos 1990, muitas fábricas chinesas realizavam operações relativamente simples e intensivas em mão de obra. Componentes e projetos vinham do exterior, enquanto trabalhadores locais montavam rádios, relógios, brinquedos, aparelhos domésticos e, posteriormente, computadores e telefones.

O aumento da escala criou demanda por inspetores, técnicos de teste, operadores de máquinas de inserção de componentes, especialistas em soldagem e manutenção. Com a difusão da tecnologia de montagem superficial, das máquinas CNC e dos sistemas automatizados, a exigência de conhecimento técnico aumentou.

As escolas das regiões eletrônicas começaram a oferecer cursos de automação, informação, microeletrônica e manutenção industrial. Paralelamente, os trabalhadores adquiriam experiência em linhas que produziam milhões de unidades, algo difícil de reproduzir apenas em laboratórios escolares.

Em 2024, as grandes empresas do setor chinês de fabricação de informações eletrônicas registraram receitas conjuntas de 16,19 trilhões de yuans. O resultado não decorre somente da educação, mas evidencia a escala alcançada por uma indústria que depende de operadores, técnicos de processo, programadores, engenheiros e especialistas em logística.

O conhecimento acumulado permitiu que empresas chinesas avançassem da simples montagem para o desenvolvimento de equipamentos de telecomunicações, drones, telas, baterias, sensores e componentes eletrônicos.

Estaleiros exigiram soldadores e engenheiros em grande escala

A construção naval representa outro nível de complexidade. Um navio reúne milhões de componentes e exige competências em soldagem, estruturas, tubulações, eletricidade, motores, automação, arquitetura naval, logística e gerenciamento de projetos.

A China preservou e ampliou instituições especializadas existentes antes das reformas. A Faculdade de Engenharia de Construção Naval da Harbin Engineering University, fundada em 1953, tornou-se um centro de pesquisa e formação para a indústria naval e de equipamentos marítimos.

Ao mesmo tempo, escolas profissionais situadas perto dos grandes estaleiros prepararam soldadores, montadores, eletricistas e técnicos. A padronização de blocos, o uso de projetos digitais e a construção modular exigiram que esses profissionais trabalhassem com tolerâncias e sequências de produção rigorosas.

Em 2024, a China respondeu por aproximadamente 55% da produção naval mundial medida em arqueação bruta, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

Esse domínio não pode ser atribuído somente à formação profissional. Crédito estatal, encomendas domésticas, consolidação empresarial, infraestrutura portuária e política industrial foram igualmente decisivos — e práticas chinesas no setor têm sido questionadas por governos e sindicatos estrangeiros.

A educação, entretanto, forneceu algo que subsídios isolados não produzem rapidamente: um ecossistema humano composto por dezenas de milhares de profissionais capazes de projetar e construir vários tipos de navios simultaneamente.

Carros elétricos e baterias exigiram currículos mais rápidos

A ascensão dos veículos elétricos mostra como o sistema passou a responder a setores que mudam em poucos anos.

Uma fábrica de automóveis elétricos precisa de competências tradicionais — estampagem, soldagem, pintura e montagem — e de conhecimentos novos em baterias, eletrônica de potência, motores elétricos, programas embarcados, sistemas de alta tensão e gerenciamento térmico.

As autoridades passaram a orientar escolas profissionais para áreas consideradas estratégicas. Em 2023, instituições de nível profissional abriram 1.266 novas unidades ou programas ligados a indústrias emergentes, como tecnologia da informação, equipamentos avançados, novos materiais e biotecnologia. Essas áreas formaram mais de um milhão de graduados naquele ano.

Em 2024, o Ministério da Educação acrescentou 40 novas especialidades ao catálogo nacional do ensino profissional, buscando acompanhar mudanças na estrutura industrial. A revisão contínua dos cursos permite eliminar formações obsoletas e introduzir rapidamente conteúdos relacionados a baterias, automação, inteligência artificial e veículos de nova energia.

A escala produtiva atual mostra a dimensão da demanda. Segundo a Agência Internacional de Energia, a China fabricou cerca de 16 milhões de automóveis elétricos em 2025, volume superior ao consumo do próprio mercado e que sustentou uma rápida expansão das exportações.

Para produzir essa quantidade, não bastam alguns centros de excelência. É necessária uma rede nacional de técnicos de manutenção, operadores de robôs, inspetores, engenheiros de processo e especialistas em baterias.

Reformas transformaram cursos em instrumentos de política industrial

A partir de 2014, o governo intensificou a modernização da educação profissional. Foram criados programas de aprendizagem, sistemas de certificação e mecanismos destinados a aproximar escolas e empresas.

O Plano Nacional de Reforma da Educação Profissional, lançado em 2019, introduziu o modelo conhecido como “1+X”: um diploma escolar acompanhado de um ou mais certificados profissionais. O objetivo era permitir que o aluno demonstrasse competências específicas reconhecidas pelo mercado.

O mesmo programa ampliou matrículas, apoiou escolas consideradas de alto nível e estimulou empresas a administrar cursos ou participar diretamente da formação. Outro plano estabeleceu a meta de oferecer treinamento subsidiado a 50 milhões de trabalhadores em três anos.

A revisão da Lei da Educação Profissional, em 2022, declarou que a educação profissional deveria possuir importância equivalente à educação geral. A legislação reforçou a cooperação entre governo, escolas, empresas e organizações industriais, além de abrir caminhos para cursos profissionais de graduação.

Diretrizes posteriores priorizaram áreas como manufatura avançada, energia renovável e inteligência artificial. O sistema deixou de ser visto apenas como uma alternativa para estudantes que não ingressavam na universidade acadêmica e passou a ser tratado como uma ferramenta da estratégia industrial.

O país passou a formar milhões por ano

 

A escala acumulada é difícil de reproduzir.

Entre 2012 e 2021, aproximadamente 61 milhões de profissionais qualificados concluíram cursos em 7.294 escolas profissionais secundárias e 1.518 instituições profissionais superiores, segundo o Ministério da Educação chinês.

Dados governamentais indicavam em 2023 mais de 200 milhões de trabalhadores classificados oficialmente como qualificados, dos quais cerca de 60 milhões eram considerados altamente qualificados. Eles representavam aproximadamente 27% da população empregada.

Esses números devem ser interpretados com cautela. A definição chinesa de “trabalhador qualificado” inclui diferentes níveis de certificação e não corresponde necessariamente às classificações adotadas em outros países.

Ainda assim, a ordem de grandeza revela o diferencial chinês. Uma fabricante pode instalar uma nova unidade em uma região onde já existem escolas, centros de treinamento, empresas fornecedoras e trabalhadores familiarizados com processos industriais semelhantes.

Essa disponibilidade reduz o tempo necessário para ampliar a produção. Também permite substituir equipes, abrir turnos adicionais e transferir trabalhadores entre fábricas quando a demanda muda.

O sistema também possui falhas profundas

Feira de empregos na China

O êxito quantitativo não eliminou problemas de qualidade, prestígio e desigualdade.

A educação profissional secundária continua sendo vista por muitas famílias como uma opção inferior. Como os estudantes com melhores resultados nos exames geralmente ingressam no ensino secundário acadêmico, as escolas técnicas recebem frequentemente jovens com desempenho escolar mais baixo. O próprio Ministério da Educação reconheceu o estigma associado a esse mecanismo de seleção.

A cooperação com empresas também nem sempre produz formação efetiva. Uma pesquisa citada pela OCDE constatou que 91% das escolas examinadas mantinham algum tipo de parceria industrial, mas muitas relações limitavam-se ao encaminhamento de graduados para empregos. Em certos casos, os estágios colocavam alunos em tarefas repetitivas e pouco educativas.

Persistem grandes diferenças entre instituições urbanas bem equipadas e escolas rurais com menos recursos. O sistema de registro residencial, o hukou, também dificultou durante décadas o acesso de filhos de trabalhadores migrantes a serviços educacionais nas cidades onde seus pais trabalhavam.

Há ainda uma contradição criada pelo próprio sucesso industrial. Quando fábricas oferecem empregos imediatos, jovens podem abandonar os estudos antes de concluir o ensino secundário. Uma pesquisa do Banco Mundial encontrou redução da matrícula no ensino médio em localidades mais expostas à expansão exportadora depois da entrada da China na Organização Mundial do Comércio.

Por fim, o país ainda enfrenta escassez de técnicos altamente especializados. Possuir milhões de operadores de produção não resolve automaticamente a falta de profissionais capazes de desenvolver máquinas de precisão, equipamentos para semicondutores, programas industriais e materiais avançados.

Educação foi necessária, mas não suficiente

A ascensão industrial chinesa não foi consequência exclusiva de escolas técnicas.

O país combinou educação com investimentos em eletricidade, estradas, ferrovias, portos, moradia urbana e telecomunicações. Criou zonas econômicas especiais, atraiu capital estrangeiro, manteve políticas favoráveis às exportações e apoiou setores considerados estratégicos.

O Banco Mundial observa que o modelo chinês de crescimento se apoiou fortemente no investimento e na manufatura exportadora, uma combinação que gerou resultados extraordinários, mas também desequilíbrios econômicos e ambientais.

A mão de obra qualificada foi, portanto, uma condição necessária dentro de um sistema maior. Uma escola profissional sem empresas próximas poderia formar jovens sem emprego. Uma fábrica sem escolas precisaria importar técnicos ou gastar anos preparando trabalhadores.

A força chinesa surgiu quando esses elementos foram reunidos no mesmo território: indústria, infraestrutura, educação, migração e financiamento.

A verdadeira vantagem é a velocidade de aprendizado

Durante a primeira fase da industrialização, a China oferecia principalmente trabalhadores abundantes e relativamente baratos. Sua vantagem atual é mais complexa.

Uma empresa pode encontrar operários, técnicos, engenheiros, fornecedores, laboratórios, oficinas de moldes e empresas de logística dentro da mesma região. Quando um produto muda, milhares de pessoas podem ser requalificadas, novas linhas podem ser instaladas e os currículos das escolas locais podem ser adaptados.

Foi essa velocidade de aprendizado coletivo que permitiu ao país passar da montagem de rádios e brinquedos para a fabricação de smartphones, robôs industriais, navios porta-contêineres, automóveis elétricos e baterias.

A “fábrica do mundo” não foi construída somente nos galpões industriais. Começou nas campanhas de alfabetização, ganhou escala com os nove anos de ensino obrigatório e adquiriu capacidade tecnológica nas oficinas escolares, nos institutos profissionais, nas universidades e dentro das próprias empresas.

Quarenta anos depois, o maior ativo industrial da China talvez não seja uma fábrica específica, mas o ecossistema capaz de formar, treinar e redistribuir milhões de trabalhadores conforme a tecnologia e o mercado se transformam.■



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Francisco
Francisco
11 dias atrás

Enquanto isso o Brasil parou no tempo e no modelo educacional.

MARCELO TADEU
MARCELO TADEU
Responder para  Francisco
11 dias atrás

Pior ainda amigo, não vejo melhorias. Todo ano eleitoral vira uma eterna guerra ideológica entre a esquerda e a direita, entre os conservadores e os avançados, os machos e os gays, etc…. Não se discute mais o Brasil!!! Triste o que minhas filhas vão herdar.

Willian
Willian
Responder para  MARCELO TADEU
11 dias atrás

Quer um conselho, ensine voce mesmo suas filhas e não se iluda com o brasil, foque em ir para algum lugar melhor.

Renato B.
Renato B.
Responder para  Willian
10 dias atrás

Mudanças climáticas, se isso não for encarado como devido, não vai haver esse tal lugar melhor.

MARCELO TADEU
MARCELO TADEU
Responder para  Willian
10 dias atrás

Mudar do meu país, nunca, apesar de uma das minhas filhas hoje morar na Irlanda e vir aqui passear todos os anos, rsrsrs, mas tento fazer a minha parte como cidadão, mas confesso que as vezes é dificil ser honesto neste país.

Wagner
Wagner
Responder para  Willian
10 dias atrás

Você está de brincadeira né? Onde uma família média tem capacidade de ensinar um filho,trigonometria,geometria, física etc.
Quem pede ensino domiciliar tinha que ser preso e criminalizado por ameaçar a existência da pátria.

Renato B.
Renato B.
Responder para  MARCELO TADEU
10 dias atrás

Sistemas educacionais envolvem décadas de mudanças, mas tivemos avanços: Saímos de um sistema pequeno, pobre, elitista e ruim. Para um sistema grande, mais inclusivo e ainda ruim.

Underground
Underground
Responder para  Francisco
10 dias atrás

No Brasil, aqueles “doutores” das universidades públicas, com especialização em doutrinação ideológica, ganhando R$ 80k por mês, que não colocam o pé numa sala de aula faz trinta anos, não colocam o pé lá porque são “pexquizadorex”, defendem o avanço sistemática dos alunos sem qualquer aprendizado e a não correção dos alunos porque isso ofenderam a dignidade humana.
Em complemento, enquanto outros países formam engenheiros, aqui se formam advogados, transformando o Brasil no país com maior número de advogados, seja por números absolutos ou relativos. Só a cidade do Rio de Janeiro tem mais advogados que a Coreia do Sul inteira. E o que tanta gente formada nessa área produz? Burocracia.

MARCELO TADEU
MARCELO TADEU
11 dias atrás

Quando leio isso não consigo deixar de pensar em nosso país que já foi igual a China no passado, teve várias chances de se desenvolver e ser hoje uma potência , mas prefere ser o eterno perdedor de oportunidades ou alças seus “voos de galinha”!

Palpiteiro
Palpiteiro
Responder para  MARCELO TADEU
10 dias atrás

Em 2004 me perguntavam lá como o presidente no Brasil não tem nível superior. Hoje devem perguntar a mesma coisa. A evolução da qualidade da mão de evoluiu muito por lá nos últimos 20 anos.

Wagner
Wagner
11 dias atrás

A China e Urss,deram valor a educação,ambas agraria,hoje a China se destaca como superpotencia miltar,espacial e tecnologica, em menos de 100 anos

Cassini
Cassini
Responder para  Wagner
10 dias atrás

A universalização do ensino e a erradicação do analfabetismo em todas as faixas etárias foram grandes conquistas das nações socialistas. Não por acaso, os países do bloco socialista eram destaques em todas as olimpíadas de conhecimento e em avaliações internacionais.

Hoje, a China, como também herdeira de tal modelo educacional, colhe os bons frutos.

Palpiteiro
Palpiteiro
Responder para  Cassini
10 dias atrás

Nem se compara com o modelo do passado e é preciso entender que está em constante evolução, as coisas não são estáticas por lá. Um erro do brasileiro é achar que russia, China e outros países socialistas são a mesma coisa, o que não tem nada a ver. Também por ser restrita a migração entre cidades, a contratação por uma empresa é um passaporte para se conseguir se mudar para uma cidade de categoria melhor.

Renato B.
Renato B.
Responder para  Palpiteiro
9 dias atrás

A base, especialmente chinesa continua sendo comunista, o estado continua totalitário.

Renato B.
Renato B.
Responder para  Cassini
9 dias atrás

Tem alguns pontos que eles levaram em conta que são fundamentais, um sistema de educação público tem como foco o coletivo e não o individual. Ainda que não se tenha um mercado gerenciando o sistema é altamente competitivo, a questão é que o planejamento tem que se bom para atender demandas, mas lembrando que o mercado também não é perfeito, a as “profissões da moda estão aí para provar. O sistema chines ilustra bem que questão da competição, a vantagem é que seleciona; a desvantagem são as doenças mentais e índices de suicídio.

Palpiteiro
Palpiteiro
Responder para  Wagner
10 dias atrás

É superpotência Agrícola também com a maior produção agrícola do planeta.

Wagner
Wagner
11 dias atrás

Enquanto a India trata sua juventude como “baratas”.

Askindian
Askindian
Responder para  Wagner
10 dias atrás

Still indian youth is building rockets and satellites

Renato B.
Renato B.
Responder para  Wagner
9 dias atrás

Assim como o Brasil, a Índia é um país muito desigual: tem gênios em locais de ponta outros que foram cooptados pelos países do norte e tem gente a míngua.

Alex Barreto Cypriano
Alex Barreto Cypriano
10 dias atrás

Ah, por isso o bait sobre Humboldt, formação e universidade no XIX: pra lubrificar a penetração da propaganda triunfalista (e arrivista) chinesa sobre modelo de educação pro mercado industrial. Vocês acham que formação é isso, produzir trabalhadores tecnicamente capacitados organizados em estamentos previamente planejados por um Estado totalitario que aceitou seu engajamento na reorganização das cadeias produtivas imposta pelo capitalismo ocidental? Putzgrilo…

Renato B.
Renato B.
Responder para  Alex Barreto Cypriano
10 dias atrás

O professor Rodrigo Zeidan, economista brasileiro e professor da NYU Shanghai acredita que a maioria dos sistemas educacionais é ruim e propôs alguns pontos:

  • Ciência é um método, não um diploma – decisões devem ser baseadas em evidências e, para isso, pesquisa é essencial. As conclusões serão baseadas em dados e, se novos dados surgirem as conclusões podem mudar.
  • Nada vêm de graça nem é perfeito – todas as soluções tem custos e uma análise racional vai depender da relação custo x benefício.
  • todos têm interesses e não dá para agradar todo mundo – A idéia é ajudar o máximo de pessoas e desagradar o mínimo.
  • Foco no longo prazo – Aceitemos que as mudanças não virão rápido, mas seus impactos devem ser duradouros. E assim, os jovens importam mais que os velhos.
  • Rótulos são irrelevantes – pouco importa ser liberal, comunista, conservador ou revolucionário. O que importa é se as soluções funcionam, de Marx a Mises.

Acho que os pontos dele são interessante para analisar o sistema chinês. Ele os usou em uma análise do sistema educacional brasileiro sob o título: Tudo que você sabia sobre Educação no Brasil está errado.

Alexandre Galante
Responder para  Renato B.
10 dias atrás

Não importa a cor do gato, desde que ele pegue o rato. – Deng Xiaoping