Ormuz

Teerã acredita que pode suportar por mais tempo os custos econômicos e militares da guerra, enquanto utiliza o controle sobre o Estreito de Ormuz como principal instrumento de pressão sobre Donald Trump

O Irã não demonstra urgência para retomar negociações formais com os Estados Unidos, apesar da interrupção temporária dos ataques entre os dois países e dos esforços de mediadores regionais para restaurar o cessar-fogo.

A postura iraniana reflete um cálculo estratégico: embora o país esteja sofrendo danos militares, escassez de combustíveis, bloqueios econômicos e uma deterioração ainda maior de sua economia, seus dirigentes acreditam que poderão suportar esses custos por mais tempo do que o presidente americano, Donald Trump, está disposto a tolerar as consequências políticas, financeiras e militares de uma guerra prolongada.

A principal fonte de influência iraniana continua sendo o Estreito de Ormuz, passagem marítima vital para as exportações de petróleo e gás do Golfo Pérsico. Ao restringir ou condicionar o trânsito de navios, Teerã consegue produzir efeitos econômicos muito superiores à sua capacidade militar convencional, afetando preços de energia, seguradoras, armadores e governos de diferentes regiões.

A estratégia não significa que o Irã tenha descartado completamente a diplomacia. Indica, porém, que Teerã pretende negociar somente quando considerar que o equilíbrio de pressão lhe permitirá obter condições mais favoráveis.

Trump fala em negociações, mas Irã nega ter solicitado diálogo

As declarações públicas dos dois governos revelam uma diferença fundamental sobre o estágio das negociações.

Trump afirmou que os Estados Unidos estavam mantendo “boas conversas” com o Irã e declarou acreditar na possibilidade de um acordo. O presidente americano também advertiu que poderia retomar uma campanha militar de grande intensidade caso os esforços diplomáticos fracassassem.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano, entretanto, negou que Teerã tenha solicitado a retomada das negociações. O porta-voz Esmaeil Baghaei afirmou que o Irã não pediu uma nova rodada de conversações e que não houve mudança na situação do Estreito de Ormuz.

A aparente contradição pode ser explicada pela natureza indireta dos contatos. Mediadores como Omã, Catar e Paquistão continuam transmitindo propostas entre as partes, mas isso não significa necessariamente que representantes americanos e iranianos estejam reunidos ou conduzindo uma negociação política formal.

Para Teerã, negar publicamente que solicitou conversações também cumpre uma função interna. O governo procura evitar a impressão de que os ataques americanos o obrigaram a retornar à mesa ou de que está negociando sob ameaça.

Irã aposta que o tempo está a seu favor

A avaliação de analistas é que os dirigentes iranianos enxergam uma diferença entre o significado da guerra para cada lado.

Para o regime iraniano, o confronto envolve sua sobrevivência, a preservação de sua capacidade militar e o controle sobre uma das principais rotas marítimas do mundo. Para Trump, a guerra representa uma operação externa cujo custo precisa ser justificado perante a população americana.

O cálculo iraniano é que uma estrutura política autoritária, habituada a sanções e capaz de reprimir manifestações internas, pode suportar um período prolongado de sofrimento econômico. Já o governo dos Estados Unidos enfrenta pressões decorrentes do preço dos combustíveis, dos gastos militares, das baixas americanas e da possibilidade de uma guerra sem solução clara. Especialistas ouvidos em análises do Council on Foreign Relations observaram que o conflito é existencial para Teerã, enquanto a tolerância política americana a uma campanha prolongada pode ser consideravelmente menor.

Esse raciocínio não significa que o Irã esteja em uma posição confortável. A economia do país enfrenta escassez de gasolina, problemas para financiar grupos aliados e os efeitos combinados de sanções e do bloqueio naval americano. Autoridades dos Estados Unidos acreditam que a pressão econômica poderá produzir mais danos de longo prazo do que os bombardeios.

Teerã, contudo, parece apostar que os custos também aumentarão rapidamente para Washington. A guerra já impôs bilhões de dólares em despesas aos Estados Unidos, provocou mortes e ferimentos entre militares americanos e consumiu grandes quantidades de munições defensivas e ofensivas.

Estreito de Ormuz tornou-se a principal arma iraniana

O controle sobre o Estreito de Ormuz oferece ao Irã uma forma de transformar sua posição geográfica em poder político.

A passagem conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e concentra parte significativa das exportações energéticas de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Iraque. Mesmo sem fechar completamente o estreito, o Irã pode aumentar os riscos e os custos do transporte por meio de inspeções, ameaças, ataques seletivos e restrições a determinadas embarcações.

O impacto é ampliado porque companhias marítimas e seguradoras não precisam esperar por uma proibição formal. A simples possibilidade de ataques, apreensões ou minas pode levar armadores a suspender travessias e manter navios ancorados fora da região.

O Council on Foreign Relations observa que o controle de Ormuz oferece ao Irã simultaneamente uma capacidade de dissuasão e uma possível fonte de receita. Teerã já demonstrou que consegue interromper o tráfego e pretende evitar um retorno completo à situação anterior à guerra, na qual navios transitavam sem pagamentos ou supervisão iraniana.

Essa capacidade também alterou os objetivos do conflito. Embora a guerra tenha começado em torno do programa nuclear, dos mísseis e das estruturas militares iranianas, a liberdade de navegação em Ormuz tornou-se uma das principais exigências americanas para encerrar a crise.

Omã apresenta proposta para gestão regional da passagem

Omã apresentou ao governo iraniano uma proposta apoiada por países do Golfo para criar um mecanismo regional de gestão do Estreito de Ormuz.

O plano prevê contribuições voluntárias das companhias marítimas para financiar segurança da navegação, serviços ambientais e outras atividades relacionadas à passagem. O sistema seria inspirado no modelo utilizado no Estreito de Malaca, na Ásia, evitando a imposição de uma tarifa obrigatória diretamente controlada por Teerã.

Os Estados Unidos defendem o retorno às condições anteriores à guerra: trânsito livre, ausência de cobranças compulsórias e nenhuma capacidade iraniana de escolher quais embarcações podem atravessar.

O Irã ainda não anunciou uma resposta definitiva. Para Teerã, aceitar simplesmente as exigências americanas equivaleria a abandonar o principal instrumento de pressão obtido durante o conflito.

A provável estratégia iraniana será preservar alguma forma de participação formal na segurança ou na administração do estreito. Isso permitiria ao regime apresentar um eventual acordo como reconhecimento internacional de sua posição regional, em vez de uma capitulação diante dos bombardeios.

Pausa militar não representa cessar-fogo consolidado

Estados Unidos e Irã interromperam seus ataques diretos após quase duas semanas de escalada, abrindo uma janela para a atuação dos mediadores. A pausa foi acompanhada por sinais de progresso diplomático, mas não resultou até agora em um cessar-fogo permanente.

Ataques de grupos armados associados ao Irã continuaram atingindo ou ameaçando instalações na região. A permanência dessas ações permite que Teerã mantenha pressão sobre os aliados de Washington sem assumir necessariamente a responsabilidade direta por cada operação.

Trump, por sua vez, mantém a ameaça de novos bombardeios. Essa combinação produz uma trégua instável: os dois governos reduzem momentaneamente os ataques, mas preservam meios militares e argumentos políticos para retomar a guerra.

A própria experiência das negociações anteriores aumenta a desconfiança. Um acordo provisório alcançado em junho conseguiu ampliar temporariamente o trânsito em Ormuz, mas entrou em colapso em julho, depois que navios considerados não autorizados pelo Irã foram atacados e os Estados Unidos retomaram sua campanha aérea.

Teerã não quer parecer enfraquecido pelos ataques

Outra razão para a demora iraniana está relacionada à política interna.

O governo precisa demonstrar que os ataques americanos não destruíram sua capacidade de resistir. Um retorno imediato às conversações poderia ser interpretado por setores da Guarda Revolucionária e da elite política como uma demonstração de fraqueza.

A liderança iraniana também procura preservar a coesão nacional construída em torno da ameaça externa. Bombardeios estrangeiros permitem ao regime apresentar o conflito como uma guerra de defesa nacional, desviando parte da atenção das dificuldades econômicas e da repressão interna.

Uma retomada diplomática exige, portanto, uma narrativa que permita às autoridades afirmar que os Estados Unidos foram obrigados a reconhecer a força do Irã e não que Teerã regressou à mesa por não suportar os ataques.

Esse fator ajuda a explicar por que autoridades iranianas negam as declarações de Trump sobre negociações em andamento, mesmo quando representantes do país mantêm contatos com Omã e outros mediadores.

Washington também precisa de uma saída negociada

Embora mantenha superioridade militar, os Estados Unidos não possuem uma solução simples para obrigar o Irã a abandonar seu controle sobre Ormuz.

Bombardeios podem destruir radares, lançadores, embarcações e instalações costeiras. Entretanto, impedir permanentemente ataques contra navios exigiria vigilância contínua, grande quantidade de munições, escolta marítima e operações potencialmente prolongadas em uma região extensa.

A escalada de julho mostrou os limites dessa estratégia. Depois de dias de ataques, o Irã continuou capaz de ameaçar o tráfego marítimo e retaliar contra bases e aliados americanos. A intensificação dos bombardeios também elevou os custos e aumentou o risco de os Estados Unidos serem arrastados para uma campanha sem prazo definido.

A suspensão das operações americanas foi influenciada não apenas pelos esforços diplomáticos, mas também pela necessidade de preservar estoques de interceptadores e outras munições de defesa aérea. A guerra obrigou o Pentágono a utilizar grandes quantidades de armamentos caros contra mísseis e drones iranianos.

Dessa forma, os dois lados possuem razões para evitar uma nova escalada, mas nenhum deles quer demonstrar maior necessidade de alcançar um acordo.

Negociação deverá começar por Ormuz, não pelo programa nuclear

Uma eventual retomada das conversações deverá concentrar-se inicialmente na navegação pelo Estreito de Ormuz.

O objetivo imediato seria criar regras para o trânsito de navios, reduzir o risco de ataques e restaurar gradualmente o fluxo de petróleo e gás. As questões mais difíceis — programa nuclear, mísseis balísticos, sanções, bloqueio dos portos iranianos e atuação dos grupos aliados de Teerã — provavelmente seriam transferidas para etapas posteriores.

O formato mais provável continua sendo o das negociações indiretas. Autoridades americanas e iranianas permaneceriam em locais separados, enquanto representantes de Omã, Catar ou Paquistão transmitiriam propostas e respostas entre as delegações. Rodadas anteriores em Doha já utilizaram esse método.

Para o Irã, a ausência de pressa é parte da própria negociação. Quanto mais tempo Ormuz permanecer parcialmente restrito, maior será a pressão econômica sobre os países dependentes da rota.

Para os Estados Unidos, entretanto, o prolongamento do impasse também aumenta a pressão para encontrar uma solução antes que novos ataques, uma crise energética ou um erro de cálculo destruam a atual pausa.

Uma disputa para determinar quem cederá primeiro

A crise transformou-se em uma competição de resistência.

Trump aposta que sanções, bloqueios e ataques militares acabarão obrigando o Irã a aceitar a livre navegação e limitar suas capacidades estratégicas. Teerã aposta que a Casa Branca não suportará indefinidamente os custos econômicos, políticos e militares de manter a campanha.

Nenhum dos lados está livre de vulnerabilidades. A população iraniana sofre os efeitos mais graves da guerra e da deterioração econômica. Os Estados Unidos, por outro lado, enfrentam o risco de consumir munições essenciais, elevar os preços de energia e permanecer presos a mais um conflito prolongado no Oriente Médio.

A pausa nos ataques oferece uma oportunidade diplomática, mas não eliminou o confronto fundamental. Enquanto o Irã acreditar que o controle sobre Ormuz aumenta seu poder de barganha, não terá incentivo para regressar rapidamente às negociações sob as condições definidas por Washington.

O resultado dependerá menos de qual lado possui maior poder de fogo e mais de qual governo aceitará primeiro que o custo de continuar resistindo ultrapassou o benefício de manter o impasse.■



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Sergio Machado
Sergio Machado
11 dias atrás

Deve ter algo errado.
Segundo a mídias corporativas, comentaristas, o CENTCOM e o governo dos EUA, o Irã estava de joelhos, totalmente destruído, sem mísseis ou qualquer força de reação.
Alguém mentiu. E muitos acreditaram.

NBS
NBS
Responder para  Sergio Machado
11 dias atrás

HAHAHAHA. Quem será?

George A.
George A.
Responder para  Sergio Machado
11 dias atrás

Toda rodada de ataques o CENTCOM anuncia que destruiu centenas de lançadores de mísseis e sistemas de defesa aéreos, o que me faz acreditar que o Irã é a maior potência militar do planeta pra ter tantos exemplares assim desses armamentos pra serem destruídos e repostos todo dia.

Sergio Machado
Sergio Machado
Responder para  George A.
11 dias atrás

Militares americanos embarcaram nesse mar de descredibilidade.
Ontem o Pentágono retirou os dados de baixas no site oficial a pretexto de incorporar dados de todos os conflitos dos EUA. Na prática, evita expor mortos e feridos no conflito com o Irã.
Viraram piada.

Lucas
Lucas
Responder para  Sergio Machado
11 dias atrás

Soldados americanos não morrem.
Sofrem concussão cerebral.
Aviões não são derrubados.
Voltam avariados para as bases.
Navios não são atingidos.
Pegam fogo na lavanderia.
E por aí vai.

NBS
NBS
Responder para  Sergio Machado
10 dias atrás

Trump anuncia vitórias com a delicadeza de quem espera que a realidade leia suas postagens.
O Irã, porém, parece ter compreendido que o tempo também é uma arma.
Cada semana de conflito reduz os estoques norte-americanos de mísseis e interceptadores.Ao mesmo tempo, as reservas estratégicas de petróleo ficam menores e mais preciosas.
O combustível encarece, os transportes sentem e a inflação discretamente ocupa seu lugar à mesa.
Curiosamente, refinarias e mercados não costumam obedecer a bravatas presidenciais.
Teerã aposta que a paciência do eleitor americano acabará antes de sua resistência.
Trump aposta que repetir uma vitória imaginária será suficiente para torná-la verdadeira.
Tal método pode entusiasmar comícios, mas apresenta desempenho modesto nos postos de gasolina.
No fim, a realidade mantém o hábito inconveniente de cobrar a conta das encenações.

Fábio De Souza
Fábio De Souza
Responder para  Sergio Machado
10 dias atrás

Ah !!A CNN Portuguesa , vive dizendo que a Rússia , está sem munição , que está perdendo a guerra , que não tem míssil de cruzeiro , etc , etc. Ou seja , a Mídia não é confiável ,eles tem uma torcida e esquece que o verdadeiro Jornalismo é ( Imparcial ).

Wagner
Wagner
11 dias atrás

A verdade que ninguém sabe a verdadeira economia do Irã, especula.
As ” Bule de Chá” da China que está segurando a economia do Irã.

comenteiro
comenteiro
Responder para  Wagner
11 dias atrás

Quem tem padrinho não morre pagão.

Lucas
Lucas
11 dias atrás

China e Rússia nunca deixarão de apoiar o Irã.
A China tem total interesse em manter Teerã em sua esfera de influência, pois é rota vital para seu comércio internacional.
Certamente, pode entregar alguns de seus trilhões de dólares de reservas que possui.
A Rússia já vem prestando auxílio aos iranianos que estão causando sérios estragos aos ativos americanos na região.
Trump calculou muito mal sua estratégia (ou seria falta de ?).
Achou que estrangularia a China.
Infantil engano.

sub urbano
sub urbano
11 dias atrás

Esse golpe de mão do Irã contra os EUA é algo q nos faz questionar até onde a decadencia americana seria apenas diplomatica, politica e economica. Em alguns momentos parece q eles desaprenderam a fazer guerra.

Contra o Vietnã eles perderam em campo, mas lutaram bem, sem erros grosseiros, perderam pq um dos lados tinha q perder mesmo e eles nao quiseram usar armas nucleares (foram homens). Na Coreia idem. Agora essa guerra do Irã é uma patacoada atrás da outra, é como se o Trump tivesse se tornado um ditador maluco q atropela a decisão dos seus generais. É como o H1tler ordenando a ofensiva do lago balaton com 0 chances de vencer e os generais obedecendo como bons puxa sacos.

Fábio De Souza
Fábio De Souza
10 dias atrás

O Trump em um de seu Comentário , mencionou que a Rússia ,era um Tigre de Papel por não ter vencido a Ucrânia durante esses mais de dois anos de conflito. Mesmo com a Rússia , lutando contra a OTAN e a Ucrânia , recebendo ajuda militar de Inúmeros países Europeus . Pois bem o Irã , já está dando um sufoco nos Americanos , e detalhe sem nenhuma ajuda militar ou financeira , como o que está ocorrendo com a Ucrânia.