O império que desligou a própria rádio: o fim da hegemonia americana no fluxo global de notícias

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Voice of America

Pela primeira vez desde 1945, os Estados Unidos estão desmontando o próprio aparato de comunicação externa — e a vaga não está sendo ocupada por um substituto simétrico, mas por um modelo mais barato, mais discreto e muito mais difícil de auditar


Em 14 de março de 2025, uma ordem executiva determinou o desmonte da U.S. Agency for Global Media “na máxima extensão compatível com a lei aplicável”. Sob a agência estavam a Voice of America, a Radio Free Europe/Radio Liberty, a Radio Free Asia, as Middle East Broadcasting Networks e as emissoras dirigidas a Cuba — o conjunto de instrumentos que Washington montou a partir da Segunda Guerra e afinou ao longo de toda a Guerra Fria para falar diretamente com públicos estrangeiros, muitas vezes por cima da vontade dos governos locais.

A disputa judicial que se seguiu ainda não terminou. Em março de 2026, o juiz federal Royce Lamberth considerou ilegal o exercício da chefia interina da agência e determinou a recondução de cerca de mil funcionários da VOA; o orçamento voltou a ser aprovado pelo Congresso em fevereiro de 2026, o que a Repórteres Sem Fronteiras leu como sinal de apoio bipartidário remanescente à radiodifusão internacional americana. Mas a operação, na prática, ficou congelada por mais de um ano. E no mesmo ciclo a RSF rebaixou os Estados Unidos à 64ª posição entre 180 países em seu ranking de liberdade de imprensa.

Não existe precedente moderno para isso. Impérios perdem influência informacional por erosão, por concorrência, por descrédito. Nenhum havia desligado voluntariamente o próprio transmissor enquanto ainda disputava influência global.

Vale registrar que a decisão tem defensores articulados: o argumento a favor sustenta que radiodifusão estatal financiada pelo contribuinte é um instrumento da era do rádio de ondas curtas, redundante num ambiente de internet aberta, e que a agência havia se tornado ineficiente e editorialmente enviesada. O contra-argumento — sustentado por entidades como o Committee to Protect Journalists e a própria RSF — é que esses veículos operam justamente onde a internet não é aberta, transmitindo em dezenas de idiomas para públicos sob censura, e que abandonar o campo não elimina a disputa: apenas a entrega a quem ficou.

A pergunta que interessa é o que acontece depois.

Hegemonia não é uma coisa só: são quatro camadas

O debate público trata “hegemonia americana no fluxo de notícias” como um bloco único. Não é. São quatro camadas distintas, que estão se desfazendo em velocidades diferentes — e uma delas não está se desfazendo.

A camada de coleta é quem mantém gente no lugar onde o fato acontece. Aqui o domínio americano sempre foi menor do que a retórica sugere: a Reuters é britânica, a AFP é francesa, e a Associated Press é uma cooperativa de veículos. É a camada mais cara, menos visível e mais decisiva.

A camada de agenda é o poder de definir o que é notícia mundial — historicamente exercido pelo New York Times, pelo Washington Post, pela CNN e por um punhado de redações que funcionavam como filtro de entrada para o restante do sistema.

A camada de infraestrutura é o encanamento: Google, Meta, YouTube e, agora, os modelos de linguagem que intermediam a busca por informação.

A camada de gramática é a mais silenciosa: o inglês como língua franca da profissão, a pirâmide invertida como formato universal, a concepção americana de objetividade exportada como padrão técnico de qualidade.

A camada que está ruindo depressa é a segunda. A terceira está mais concentrada do que em qualquer momento da história — e continua americana. Esse descompasso é o fato central da década, e explica por que “fim da hegemonia” é uma descrição imprecisa do que está acontecendo.

O que já é mensurável

O Digital News Report 2026 do Reuters Institute, publicado em 16 de junho com base em cerca de 100 mil entrevistas em 48 mercados, registra o ponto de inflexão estrutural. Pela primeira vez, o acesso a notícias por redes sociais e plataformas de vídeo (54%) superou o acesso direto aos sites e aplicativos dos próprios veículos (51%). É a consolidação do que o relatório chama de plataformização: a notícia deixa de ser algo que o público busca na fonte e passa a ser algo que encontra no caminho.

Entre 18 e 24 anos, mais da metade dos entrevistados aponta redes sociais, plataformas de vídeo ou inteligência artificial como principal fonte de notícias.

A confiança caiu em 29 dos 48 mercados pesquisados e chegou a 37% — o menor patamar desde que o indicador começou a ser medido. A evitação de notícias subiu dois pontos e alcançou 42% do público.

O uso semanal de chatbots de IA para notícias passou de 7% para 10% em um ano. Apenas 1% declara a IA como fonte principal, o que sugere função ainda complementar. Mas a distribuição do crescimento é o dado geopolítico: ele veio sobretudo de Ásia, África, América Latina e Europa meridional e oriental — precisamente as regiões que o sistema americano de difusão abastecia. Entre os mais jovens, 17% já usam chatbots para notícias semanalmente, contra 5% acima dos 55 anos.

Nota metodológica: o DNR mede consumo declarado por usuários de internet, não a população total, e sub-representa quem está offline — limitação relevante justamente nos mercados em que a disputa por narrativa é mais intensa.

Quem ocupa a vaga — e por que não é uma substituição simétrica

A leitura preguiçosa diz que a China assume o lugar. Não é isso que os dados mostram, e a diferença é mais interessante que a semelhança.

Pequim não está construindo uma CNN chinesa que o mundo assista voluntariamente. A CGTN existe, o China Daily existe, e o alcance direto de ambos permanece modesto fora de nichos. O que funciona é outra coisa: presença de agência e sindicalização gratuita de conteúdo.

A Xinhua mantém 37 sucursais na África — mais do que qualquer outra agência, africana ou estrangeira — segundo o número mais citado na literatura sobre o tema, que circula desde o início da década e convém tratar como ordem de grandeza, não como dado auditado deste ano. O Africa Center for Strategic Studies e o China Media Project descrevem o mecanismo central: acordos de compartilhamento em que material da Xinhua, e de operações russas como a Ruptly, é oferecido gratuitamente e republicado por veículos locais, frequentemente sem identificação de origem — prática que pesquisadores chamam de lavagem de informação. Na infraestrutura de distribuição, a StarTimes ocupa posição de destaque na TV digital africana.

Na América Latina, a Repórteres Sem Fronteiras documentou uma adaptação de estratégia. Em entrevista à entidade, o jornalista brasileiro Igor Patrick, especializado em geopolítica asiática, descreve a lógica: diante de um mercado de mídia concentrado e difícil de penetrar por fora, Pequim deixou de apostar em veículos próprios e passou a priorizar acordos com organizações já estabelecidas, além de investimento em redes sociais e produção adaptada a cada contexto nacional. O objetivo declarado não é vender uma visão de mundo completa — é reposicionar a percepção sobre a própria China, de potência autoritária para parceiro de desenvolvimento.

A diferença estratégica em relação ao modelo americano é decisiva. Difusão constrói uma marca estrangeira, que o público pode identificar e descontar. Sindicalização gratuita não constrói marca nenhuma — e é exatamente por isso que funciona: o conteúdo chega ao leitor com o selo de credibilidade de um veículo doméstico em que ele já confia. O gatilho da adesão, além disso, é econômico antes de ser ideológico. Redação sem orçamento para correspondente aceita material gratuito.

É um modelo que se alimenta da mesma crise que derruba a camada americana de agenda.

Cinco consequências prováveis

1. Acaba a pauta global única. Deixa de existir “a manchete do dia” no mundo. Isso soa democratizante, e em parte é — menos reprodução automática do enquadramento de Washington sobre o Oriente Médio, sobre a China, sobre a própria América Latina. Mas o sistema anterior cumpria uma função de coordenação: pandemias, crises financeiras e crimes de guerra dependiam de uma pauta comum para produzir resposta simultânea. Sem ela, cada acontecimento vira notícia local em quarenta versões incomunicáveis entre si.

2. Fragmentação não é pluralismo. É a confusão mais frequente no debate. Um sistema multipolar de mídia pode significar apenas que cada região recebe a versão alinhada ao seu Estado, sem nenhuma instância de checagem cruzada. A Guerra Fria também era multipolar na informação, e produzia propaganda organizada dos dois lados. Pluralismo exige fontes independentes se contradizendo publicamente; multipolaridade exige apenas que haja mais de um emissor.

3. O risco mais subestimado está na camada de coleta. Enquanto se discute quem domina a narrativa, o que encolhe é o número de seres humanos presentes no lugar dos fatos. Se o modelo de negócio das agências e das grandes redações colapsa sob a intermediação de plataformas e de IA, desaparece a matéria-prima que todo o sistema recicla — inclusive a Xinhua, inclusive os criadores de conteúdo. Multipolaridade narrativa construída sobre base de apuração cada vez mais rala não é redistribuição de poder informacional. É rarefação geral.

4. A hegemonia migra de editorial para infraestrutural — e fica invisível. Se a notícia passa a chegar por interface conversacional, a pergunta “de quem é a mídia hegemônica” se transforma em “de quem são os dados de treinamento e o critério de recuperação”. Essa camada é americana e chinesa, e é muito menos auditável que uma primeira página. Uma capa do New York Times pode ser criticada, arquivada, comparada com a do dia seguinte. Um critério de ranqueamento, não. O poder de agenda não desaparece: perde endereço visível.

5. Acaba o “efeito CNN”. Em crises militares, deixa de existir uma realidade transmitida globalmente em tempo real forçando resposta política. Operações informacionais ficam mais baratas, a atribuição fica mais difícil e a janela entre o fato e a versão consolidada se alarga — que é precisamente o intervalo em que operam serviços de inteligência e assessorias de defesa.

A ressalva histórica que quase ninguém faz

Este anúncio já foi feito antes, e com mais respaldo institucional do que hoje.

Entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980, o debate sobre a Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação dominou a UNESCO. O Relatório MacBride, publicado em 1980, formulou o diagnóstico de forma clara: o fluxo de notícias era unidirecional, do Norte para o Sul, e um punhado de agências ocidentais decidia o que o mundo saberia sobre o Terceiro Mundo. A reação americana e britânica foi política e imediata — os Estados Unidos deixaram a UNESCO em 1984, o Reino Unido no ano seguinte.

Quarenta anos depois, o inglês segue sendo a língua franca do jornalismo, os formatos seguem sendo americanos e as plataformas também. Convém desconfiar de qualquer previsão de colapso hegemônico que não explique por que desta vez seria diferente.

O argumento honesto para “desta vez é diferente” é um só, e não tem nada a ver com militância anticolonial. Nas rodadas anteriores, a contestação vinha de Estados pedindo redistribuição a uma instituição multilateral — e podia ser derrotada politicamente, como foi. Agora ela vem de duas direções que não pedem licença: da tecnologia de distribuição, que não negocia com a UNESCO, e do próprio hegemon, que desmontou a parte estatal do seu sistema por decisão doméstica.

O que isso significa para o Brasil

A janela de conteúdo estrangeiro gratuito e editorialmente orientado vai se abrir mais, e vai se abrir exatamente onde os orçamentos estão mais apertados: cobertura internacional, defesa, tecnologia, economia global — as editorias mais caras de manter com apuração própria e as primeiras a serem cortadas.

Há um ganho real na equação. Menos reprodução automática do enquadramento americano significa espaço para pauta própria sobre Atlântico Sul, América do Sul, África lusófona e Indo-Pacífico — regiões que o sistema anterior cobria mal ou não cobria. Veículos regionais ganham peso relativo quando o centro perde autoridade.

O custo aparece na mesma porta. Aceitar material sindicalizado gratuito de agência estatal estrangeira é uma decisão de orçamento que se converte, silenciosamente, em decisão editorial. E o padrão documentado na África e já em curso na América Latina indica que a conversão raramente é declarada ao leitor.

A defesa contra isso não é ideológica, é procedimental, e é do tamanho de uma linha: identificar a origem de todo conteúdo sindicalizado, sempre, inclusive quando ele chega limpo e bem escrito. Sobretudo quando chega limpo e bem escrito.


Fontes

  • Reuters Institute for the Study of JournalismDigital News Report 2026, 15ª edição, publicado em 16 de junho de 2026 (cerca de 100 mil entrevistas em 48 mercados). Sumário executivo e capítulos sobre plataformização, confiança e uso de IA.
  • U.S. Agency for Global Media — ordem executiva de 14 de março de 2025; decisões do juiz Royce Lamberth (2025 e março de 2026); dotação orçamentária sancionada em 3 de fevereiro de 2026.
  • Repórteres Sem Fronteiras (RSF) — nota sobre o financiamento da USAGM (fevereiro de 2026); Índice Mundial da Liberdade de Imprensa 2026; entrevista com Igor Patrick sobre a estratégia chinesa de mídia na América Latina.
  • Committee to Protect Journalists (CPJ) — manifestações sobre o desmonte da USAGM e dados de alcance da VOA (mais de 350 milhões em 2023, cifra da própria agência).
  • State Media Monitor — reclassificação da USAGM de “financiada e gerida pelo Estado” para “controlada pelo Estado” nos ciclos 2025 e 2026.
  • Africa Center for Strategic StudiesChina’s Strategy to Shape Africa’s Media Space; dados sobre sucursais da Xinhua, StarTimes e acordos com grupos como o Nation Media Group (Quênia).
  • China Media Project — entrevistas e análises sobre acordos de compartilhamento de conteúdo chinês e russo na África e o conceito de information laundering.
  • Human Rights FoundationBeyond Borders: China’s Grip on Global Media.
  • UNESCOMany Voices, One World (Relatório MacBride, 1980) e o debate da NOMIC.

 


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deadeye
deadeye
11 dias atrás

Tem também o fato, que o desmonte da U.S AID vai afetar o softpower dos EUA, dois tiros no pé.

GogVT4xWkAAOlpR
Última edição 11 dias atrás por deadeye
Pedro
Pedro
Responder para  deadeye
11 dias atrás

O desmonte da USAID foi a melhor coisa que fizeram.

Abymael
Abymael
Responder para  Pedro
11 dias atrás

Por quê?

deadeye
deadeye
Responder para  Abymael
11 dias atrás

Ele vai citar uma teoria da conspiração, inclusive no qual uma parte do congresso Brasileiro acredita, de que a US Aid financia o “comunismo” pelo mundo.

José de Souza
José de Souza
Responder para  deadeye
11 dias atrás

E vai citar agenda Woke e demais delírios…

Pedro
Pedro
Responder para  José de Souza
10 dias atrás

essa agenda é de qual lado ideológico mesmo? engraçado que depois que cortaram os fundos da USAID vários governos de esquerda cairam por aqui…mas é delírio meu, claro.

Pedro
Pedro
Responder para  deadeye
10 dias atrás

“No Brasil, a Usaid e o Tribunal Superior Eleitoral realizaram ao menos duas ações conjuntas no ano de 2021 alegadamente para combater o que consideravam ser “desinformação” e “notícias falsas” no período eleitoral.” só para citar um caso…ta ai sua teoria da conspiração…..

Deadeye
Deadeye
Responder para  Pedro
10 dias atrás

E de qual grupo do Telegram você tirou?

Faver
Faver
Responder para  deadeye
11 dias atrás

The voice of America foi substituido pelas mídias Truth Social e grupos de whatsapp/telegram.

BraZil
BraZil
11 dias atrás

Independente das motivações e resultados finais, eu sempre DESCONFIO imensamente de qualquer agência reguladora ou fiscalizadora ligada á ONU. Creio que, na maioria das vezes, quando os funcionários dessas entidades reclamam do que você está fazendo, significa que você DEVE continuar fazendo, pois está no caminho da independência e auto suficiência. Afinal, estes órgãos servem a governos de nações poderosas que querem que você ache que está errado, sempre que faz a coisa melhor para você e que está certo, quando faz a coisa melhor para elas…raras são as exceções

José de Souza
José de Souza
Responder para  BraZil
11 dias atrás

Parabéns, pensamento formado pelo prestigioso ITDC!