EUA bloqueiam novos robôs humanoides estrangeiros e colocam indústria chinesa no centro da disputa tecnológica

10
humanoids-featured

Da esquerda para a direita: G1 da Unitree, Atlas da Boston Dynamics, Figure 02 da Figure AI, Apollo da Apptronik e o robô Optimus da Tesla. | Fonte: Unitree, Boston Dynamics, Figure, Apptronik e Tesla

FCC inclui robôs móveis avançados e inversores de energia conectados em lista de equipamentos considerados de risco; medida atinge novos modelos, mas não determina a retirada imediata dos aparelhos já autorizados

Os Estados Unidos decidiram bloquear a entrada de novos modelos de robôs humanoides, quadrúpedes e outros equipamentos robóticos móveis produzidos no exterior, em uma medida voltada principalmente contra a crescente indústria tecnológica da China.

A Comissão Federal de Comunicações — FCC — anunciou em 28 de julho a inclusão de duas novas categorias em sua Covered List, relação de equipamentos e serviços considerados um risco inaceitável à segurança nacional americana: os “dispositivos robóticos avançados” produzidos no exterior e os inversores de energia conectados utilizados em redes elétricas, sistemas renováveis, baterias e centros de dados.

Embora a determinação não mencione exclusivamente a China, autoridades americanas reconheceram que os fabricantes chineses são o principal alvo. O país domina a produção mundial de robôs humanoides e possui algumas das maiores empresas globais de inversores solares e equipamentos de eletrônica de potência.

Proibição atinge novos modelos

A decisão não determina o recolhimento dos robôs que já estão em operação nos Estados Unidos. Também não impede automaticamente a venda de modelos anteriormente aprovados pela FCC.

As restrições aplicam-se principalmente aos novos modelos que ainda não receberam autorização para comercialização. Ao entrar na Covered List, esses equipamentos deixam de poder obter a certificação necessária para serem importados, anunciados ou vendidos regularmente no mercado americano.

A FCC, contudo, conserva autoridade para revogar autorizações já concedidas, caso conclua que determinado aparelho representa um risco específico. Fabricantes também poderão solicitar aprovações condicionais ou exceções aos departamentos de Defesa e de Segurança Interna. A expectativa é que fornecedores de países aliados sejam dispensados de parte das restrições, como ocorreu anteriormente com drones e roteadores.

Portanto, a medida é mais precisamente uma barreira à entrada de futuras gerações de robôs estrangeiros do que uma proibição retroativa de todos os equipamentos existentes.

Câmeras, microfones e sensores preocupam Washington

A FCC argumenta que os robôs modernos reúnem características que os tornam diferentes de equipamentos eletrônicos convencionais.

Humanoides e quadrúpedes geralmente possuem câmeras, microfones, sensores de profundidade, radares ou sistemas de detecção a laser, além de processadores conectados à internet. Esses componentes permitem que as máquinas reconheçam ambientes, evitem obstáculos, produzam mapas internos e interajam fisicamente com pessoas e objetos.

Na avaliação do órgão americano, os dados coletados poderiam ser utilizados para vigiar cidadãos, mapear fábricas e instalações sensíveis ou melhorar as capacidades de serviços estrangeiros de inteligência. Uma eventual invasão dos sistemas também poderia permitir que terceiros assumissem remotamente o controle físico das máquinas.

A preocupação não se limita à espionagem. Um robô comprometido poderia interromper atividades industriais, manipular objetos, bloquear passagens ou causar danos em locais onde possui liberdade de movimentação.

A combinação entre conectividade, sensores e capacidade de agir fisicamente transforma uma vulnerabilidade cibernética em um possível problema de segurança operacional.

Definição pode alcançar outros tipos de robôs

A expressão “dispositivo robótico avançado” é mais ampla do que sugerem as referências aos humanoides.

A definição apresentada pela FCC inclui robôs móveis capazes de se deslocar pelo solo, navegar, evitar obstáculos e perceber o ambiente por meio de sensores, desde que possuam conectividade de rede. O limite mínimo informado é de aproximadamente 4,4 libras, ou dois quilos.

Dependendo da aplicação da regra, a categoria poderá incluir:

  • robôs humanoides e quadrúpedes;
  • máquinas autônomas de entrega;
  • robôs móveis utilizados em armazéns;
  • cortadores de grama robotizados;
  • determinados aspiradores robóticos;
  • plataformas móveis de vigilância e inspeção.

A norma prevê exclusões para automóveis autônomos, trens, aeronaves não tripuladas, veículos subaquáticos, cadeiras de rodas, robôs cirúrgicos e braços industriais fixos, entre outras categorias.

Isso significa que os braços robóticos instalados permanentemente em linhas automobilísticas não são necessariamente abrangidos pela mesma determinação. O foco está nas plataformas móveis, conectadas e capazes de circular de maneira autônoma.

Unitree poderá ser uma das empresas mais afetadas

Unitree G1

Entre as companhias mais expostas está a chinesa Unitree Robotics, conhecida por seus cães-robôs e por modelos humanoides relativamente acessíveis.

A Unitree detém pouco menos de um quinto do mercado mundial de humanoides, segundo dados citados pela Reuters, e integra o grupo de empresas que transformou a China no maior centro de fabricação dessas máquinas. O Departamento de Defesa americano incluiu recentemente a companhia em uma relação de empresas que supostamente mantêm vínculos com o aparato militar chinês, classificação contestada por Pequim.

A empresa também havia anunciado uma parceria com a Nvidia para utilizar processadores Blackwell no sistema computacional de seus robôs. A Nvidia declarou que os dados produzidos pelas máquinas permaneceriam nos Estados Unidos e que instituições acadêmicas e centros de pesquisa estavam entre os principais compradores americanos da Unitree.

A restrição poderá, portanto, atingir não apenas empresas e consumidores, mas também universidades e laboratórios que utilizam plataformas chinesas relativamente baratas para desenvolver programas de inteligência artificial, controle motor e interação entre pessoas e máquinas.

China lidera mercado ainda pequeno, mas de rápido crescimento

A indústria mundial de humanoides ainda se encontra em uma fase inicial. Muitas máquinas são utilizadas em testes, demonstrações, pesquisa e tarefas industriais limitadas.

Apesar disso, a China já ocupa uma posição dominante. Estimativas citadas pela Associated Press indicam que fabricantes chineses responderam por cerca de 85% das implantações mundiais de humanoides em 2025.

Das aproximadamente 15 mil unidades enviadas globalmente naquele ano, Unitree e AgiBot teriam fornecido mais de cinco mil exemplares cada. Empresas americanas, incluindo Tesla e Figure AI, entregaram apenas algumas centenas ou menos, segundo dados da consultoria Omdia.

Essa diferença industrial ajuda a explicar a preocupação de Washington. O governo americano não deseja que o mercado doméstico de robótica se torne dependente de plataformas chinesas antes que as empresas dos Estados Unidos alcancem a produção em escala.

A decisão poderá proteger fabricantes americanos da concorrência de preços, mas não deverá interromper o desenvolvimento chinês, sustentado por um grande mercado interno, políticas governamentais e oportunidades de exportação para Europa, Ásia, Oriente Médio e outros destinos.

Inversores de energia também foram bloqueados

A segunda categoria acrescentada à Covered List envolve os inversores de energia conectados.

Esses equipamentos convertem a corrente contínua produzida por painéis solares ou armazenada em baterias em corrente alternada utilizada pelas redes elétricas, edifícios e centros de dados. Modelos modernos podem ser controlados remotamente, receber atualizações e transmitir informações sobre geração, consumo e condições da rede.

A FCC teme que acessos indevidos permitam desligar equipamentos simultaneamente, exfiltrar dados, facilitar vigilância ou provocar perturbações em infraestruturas críticas. O risco cresce à medida que milhares de inversores conectados passam a funcionar como componentes distribuídos do sistema elétrico.

A preocupação também está relacionada à expansão da inteligência artificial. Grandes centros de dados dependem de um fornecimento elétrico estável e de sistemas capazes de integrar energia da rede, baterias e fontes renováveis.

Um ataque coordenado contra esses equipamentos poderia interromper servidores, reduzir a disponibilidade de eletricidade ou criar instabilidade na rede.

A China lidera a fabricação mundial de inversores, com empresas como Sungrow e Huawei, que ampliaram sua presença internacional por meio de preços competitivos e produção em grande escala.

Política combina segurança e reindustrialização

A Casa Branca apresenta a medida como uma ação de segurança nacional, mas ela também possui um objetivo industrial explícito.

O governo Trump pretende estimular empresas a transferir a fabricação de robôs, inversores e outros equipamentos estratégicos para os Estados Unidos. Autoridades afirmam que o país precisa evitar uma dependência semelhante à existente no mercado de terras raras, dominado pela China e utilizado por Pequim como instrumento de pressão econômica.

A restrição poderá beneficiar desenvolvedores americanos ao reduzir a concorrência de equipamentos chineses de menor custo. Ao mesmo tempo, existe o risco de que laboratórios e startups percam acesso a plataformas necessárias para treinar programas de inteligência artificial e testar novas aplicações.

Especialistas ouvidos pela imprensa americana alertam que a indústria local ainda não oferece, em todas as categorias, alternativas com preço e escala comparáveis aos produtos chineses. A proteção pode favorecer a fabricação doméstica no longo prazo, mas elevar custos e retardar projetos no período de transição.

Drones e equipamentos de telecomunicações já enfrentam restrições

A decisão sobre robôs faz parte de uma campanha mais ampla contra tecnologias estrangeiras conectadas.

Em dezembro de 2025, a FCC bloqueou a autorização de novos modelos de drones produzidos no exterior, medida que atingiu principalmente as chinesas DJI e Autel. Algumas plataformas fabricadas em países aliados receberam exceções temporárias.

Em julho de 2026, a comissão também abriu um processo para proibir determinados drones estrangeiros de categoria militar, incluindo modelos capazes de operar em enxames ou equipados com sensores infravermelhos avançados. A proposta ainda depende da análise dos comentários públicos e não afeta aeronaves já compradas.

O órgão ampliou ainda as restrições contra equipamentos de telecomunicações e vigilância associados a fabricantes chineses como Huawei, ZTE, Hikvision, Dahua e Hytera. Parte das novas proibições entrou em vigor em 16 de julho.

China acusa Washington de protecionismo

A embaixada chinesa em Washington pediu que os Estados Unidos deixassem de atacar a reputação de companhias do país e ameaçá-las com sanções.

Segundo a representação diplomática, Pequim adotará as medidas necessárias caso as ações americanas provoquem danos materiais aos interesses chineses.

O governo chinês sustenta que suas empresas estão sendo punidas pela competitividade e pelo rápido avanço tecnológico, e não por evidências concretas de espionagem.

Washington, por outro lado, argumenta que não pode esperar a ocorrência de um grande incidente antes de agir. Para o governo americano, permitir a disseminação de milhares de máquinas conectadas e capazes de circular por residências, fábricas e instalações estratégicas criaria uma vulnerabilidade difícil de eliminar posteriormente.

Robótica entra no centro da rivalidade entre Estados Unidos e China

A decisão da FCC mostra que a disputa tecnológica entre os dois países está avançando dos equipamentos de telecomunicações e semicondutores para sistemas que combinam inteligência artificial, sensores e movimentação física.

Os robôs humanoides ainda não alcançaram a presença cotidiana prevista por seus fabricantes. Entretanto, governos e empresas acreditam que eles poderão ser empregados em fábricas, armazéns, hospitais, residências, segurança, logística e atendimento ao público.

Quem controlar essa indústria poderá dominar uma nova camada da automação, reunindo produção mecânica, chips, inteligência artificial, baterias, motores elétricos e grandes volumes de dados.

A medida americana não elimina imediatamente os robôs chineses já existentes no país. Seu efeito mais importante é impedir que futuras gerações entrem livremente no mercado antes que Washington defina quais fabricantes, componentes e sistemas considera aceitáveis.

A proibição é, simultaneamente, uma medida de cibersegurança, uma barreira comercial e uma tentativa de ganhar tempo para a indústria americana. A robótica deixou de ser tratada apenas como um mercado emergente e passou a integrar a competição estratégica entre as duas maiores potências tecnológicas do mundo.■



Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.
Inscrever-se
Notificar de
guest

10 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Lucas
Lucas
10 dias atrás

Chineses dando show.
Aos americanos, basta tentar fazer coisa melhor.

Felipe
Felipe
Responder para  Lucas
9 dias atrás

E estão, mesmo com o avanço da china, os melhores robôs humanóides são americanos!

EUA desenvolvem robôs humanóides desde o século passado, é muita ingênuidade achar que os EUA ficam para trás em relação a china no desenvolvimento de robôs humanóides, ainda mais sendo que a fundação científica dessa tecnologia quem detem é os EUA!

Cassini
Cassini
10 dias atrás

“Na avaliação do órgão americano, os dados coletados poderiam ser utilizados para vigiar cidadãos, mapear fábricas e instalações sensíveis ou melhorar as capacidades de serviços estrangeiros de inteligência. Uma eventual invasão dos sistemas também poderia permitir que terceiros assumissem remotamente o controle físico das máquinas”.

Ora, ora, ora… Nada como um dia após o outro.

Décadas atrás, criaram o maior aparato de vigilância e espionagem da História – que deixaria 1984, de George Orwell, no chinelo – que espionava tudo e todos quase que em qualquer lugar eagora temem ser vigiados?

É, agora não há volta.

Eromaster
Eromaster
Responder para  Cassini
10 dias atrás

È exatamente o que google, intel, microsoft, MacOS, Android ,Face e Insta fazem hoje em dia. São espiões coletando dados 24h por dia.

Só eles podem faz isso, mas os Chineses não podem fazer. Hipocrisia pura.

Felipe
Felipe
Responder para  Eromaster
9 dias atrás

“Espiões coletando dados” Corrigindo: “EMPRESAS” e não espiões, isso é a coisa mais normal, tudo da sua vida hoje é monitorado, até pq vc se cadastra para ter acesso aos produtos deles, mesmo coisa com os cartões de créditos, bancos etc… Não quer ter sua vida monitorada, vai viver em uma caverna!

Felipe
Felipe
Responder para  Eromaster
9 dias atrás

A china faz o mesmo com relação aos produtos americanos.

Coleta de dados é a coisa mais normal que existe, até pq vc se cadastra nos serviços deles, assim como bancos cartões de crédito e etc..

O problema é quando vc corre o risco de ser monitorando pelo seu principal inimigo e ter seus dados sensiveis descobertos colocando até a segurança nacional em risco.

EUA estão mais que certos!

Lucas
Lucas
Responder para  Cassini
10 dias atrás

E, pior.
No estágio de desenvolvimento técnico/científico que os chineses estão vão querer copiar o que dos americanos?

Felipe
Felipe
Responder para  Lucas
9 dias atrás

Tudo eles copiam dos americanos, principalmente patentes, além de espionagem industrial! Os EUA estão mais que certos!

A fundação científica de robôs humanóides quem detem é os EUA, e não a china!

Felipe
Felipe
Responder para  Felipe
9 dias atrás

A china é o país que mais pratica espionagem industrial contra os EUA. É só pesquisar!

Felipe
Felipe
Responder para  Cassini
9 dias atrás

Todo mundo espiona todo mundo. A diferença é de quem espiona, pior é ser espionado por um regime autoritário do que por uma país democratico e mais transparente na minha opnião.

Uma coisa é você monitorar cidadãos que não são nenhuma ameaça pra vc, e a outra é correr o risco de ser monitorado e ter seus dados sensíveis rastreados pelo seu principal inimigo, colocando em risco a soberania nacional. A china faria o mesmo nesse sentido!