Startup dos EUA admite que poderá armar robôs humanoides para o Pentágono
Foundation Future Industries testa o robô Phantom em funções logísticas e de reconhecimento, mas afirma que desenvolveria uma versão armada caso recebesse uma solicitação militar; especialistas alertam para riscos jurídicos, éticos e de proliferação
Uma empresa norte-americana que desenvolve robôs humanoides para uso industrial e militar afirmou estar disposta a equipar suas máquinas com armas caso receba uma solicitação das Forças Armadas dos Estados Unidos, reacendendo o debate sobre o emprego de sistemas autônomos em futuros campos de batalha.
A Foundation Future Industries, startup sediada em São Francisco, desenvolve o Phantom, um robô humanoide de aproximadamente 1,80 metro concebido para executar tarefas industriais, logísticas e militares consideradas perigosas ou repetitivas para seres humanos.
O equipamento ainda não está armado. Segundo o cofundador e CEO da companhia, Sankaet Pathak, os trabalhos militares atuais concentram-se no transporte de cargas, reconhecimento de instalações e produção de mapas antes da entrada de soldados em áreas potencialmente hostis. Pathak declarou, entretanto, que aceitaria desenvolver humanoides armados se o governo norte-americano apresentasse esse requisito.
Empresa vê robôs como meio de reduzir baixas
A Foundation sustenta que robôs humanoides poderiam realizar missões de alto risco com maior precisão do que determinados armamentos convencionais, preservando vidas de militares e reduzindo danos à população civil e à infraestrutura.
Na avaliação de Pathak, uma plataforma humanoide seria particularmente útil em operações que exigem movimentação dentro de edifícios, identificação de obstáculos, transporte de suprimentos ou aproximação de posições inimigas sem expor diretamente soldados.
O executivo argumenta que a utilização de robôs terrestres não teria como objetivo substituir bombardeios em larga escala. Seu valor estaria justamente em tarefas nas quais uma força militar necessita de maior discriminação e controle sobre os efeitos produzidos. A empresa considera que a crescente ameaça enfrentada pelos soldados em terra tornará essas plataformas progressivamente mais atraentes.
Phantom pode operar de forma autônoma ou remota
O Phantom utiliza câmeras instaladas na cabeça para obter uma visão de 360 graus do ambiente. A máquina pode operar por meio de sistemas de inteligência artificial embarcados ou ser controlada remotamente por uma pessoa.
O modelo atual consegue transportar cerca de 40 quilos. A empresa afirma estar desenvolvendo uma segunda geração, denominada Phantom MK-2, com maior capacidade de processamento e desempenho físico.
A Foundation anunciou em julho uma parceria com a fabricante de semicondutores AMD para utilizar processadores da família Ryzen AI Embedded X100 no novo robô. A empresa afirma que suas máquinas já participaram da produção de mais de 24 mil automóveis durante 2025.
No setor de defesa, os robôs destinados a transporte de materiais e reconhecimento são oferecidos ao governo por aproximadamente US$ 300 mil por unidade. A companhia planeja inaugurar uma fábrica com capacidade para produzir 5 mil humanoides por ano e, posteriormente, construir outra instalação capaz de chegar a 50 mil unidades anuais.
Testes foram realizados na Ucrânia
Robôs Phantom foram enviados à Ucrânia para avaliações em condições próximas das encontradas em uma guerra real. Os testes concentraram-se inicialmente em atividades logísticas e de reconhecimento, e não no emprego de armamentos.
Pathak afirmou que a empresa poderá começar a experimentar aplicações relacionadas à utilização de armas já em 2027. Isso não significa que uma versão armada esteja contratada ou pronta para entrar em combate, mas demonstra que a companhia considera a militarização do projeto uma etapa possível de seu desenvolvimento.
A experiência ucraniana é relevante porque o conflito acelerou o emprego de veículos terrestres não tripulados. Essas plataformas já são utilizadas para transportar munição, alimentos e medicamentos, retirar feridos, realizar reconhecimento e aproximar explosivos de posições inimigas.
A maior parte desses veículos não tem formato humanoide. Em geral, são plataformas sobre rodas ou esteiras, mais simples e resistentes. O formato semelhante ao corpo humano pode facilitar a operação em edifícios, escadas e ambientes projetados para pessoas, mas também acrescenta complexidade mecânica, custo e vulnerabilidade.
Robô armado não significa necessariamente arma autônoma
Existe uma diferença importante entre um robô armado e um sistema de armas completamente autônomo.
Uma plataforma pode portar uma metralhadora, mas depender de uma pessoa para identificar, autorizar e executar cada disparo. Em outro extremo, um sistema poderia utilizar sensores e inteligência artificial para selecionar e atacar alvos sem uma decisão humana específica.
As maiores preocupações jurídicas e éticas concentram-se nessa segunda possibilidade: a delegação a uma máquina da decisão sobre quem deve ser atacado.
Pathak afirma que a prioridade atual da Foundation é a navegação autônoma e a movimentação de materiais. Segundo o executivo, os robôs estão sendo treinados para reconhecer seres humanos como elementos do ambiente dos quais devem desviar, e não como alvos.
Ainda assim, a futura integração de armas exigirá definições claras sobre o nível de controle exercido pelos operadores, as condições em que o robô poderá abrir fogo e quem será responsabilizado por uma identificação incorreta ou ataque ilegal.
Especialistas alertam para erros e falta de responsabilização
Verity Coyle, representante da divisão de crises, conflitos e armas da Human Rights Watch, reconhece que robôs humanoides podem ser úteis em missões humanitárias e na retirada de pessoas de áreas perigosas.
A especialista alerta, porém, que o ritmo acelerado adotado por empresas de tecnologia e governos pode provocar consequências graves caso os sistemas sejam introduzidos sem salvaguardas jurídicas, testes suficientes e mecanismos claros de responsabilização.
Sistemas de inteligência artificial podem interpretar incorretamente informações, confundir civis com combatentes ou agir de maneira inesperada diante de interferência eletrônica, perda de comunicações e situações que não estavam presentes durante o treinamento.
Outro risco é a redução do custo político de iniciar ou prolongar uma guerra. Joe Costa, ex-funcionário do Pentágono e especialista do Atlantic Council, argumenta que governos poderiam tornar-se mais dispostos a realizar intervenções caso não precisassem expor seus próprios soldados diretamente ao combate.
Em um cenário com grandes quantidades de máquinas, uma potência poderia enviar robôs para ocupar uma cidade ou atravessar uma fronteira sem enfrentar imediatamente a pressão pública provocada pela morte de militares humanos.
Pentágono exige participação humana no emprego da força
A política oficial do Departamento de Defesa dos Estados Unidos determina que sistemas autônomos e semiautônomos sejam projetados de forma a permitir que comandantes e operadores exerçam níveis apropriados de julgamento humano sobre o emprego da força.
A norma também exige verificações de hardware e software, testes em ambientes operacionais realistas, treinamento dos operadores e mecanismos para reduzir a possibilidade de ataques não intencionais.
Militares que autorizem ou empreguem esses sistemas continuam sujeitos às leis da guerra, aos tratados aplicáveis, às regras de segurança e às normas de engajamento. Sistemas classificados como autônomos também podem necessitar de avaliações adicionais antes do desenvolvimento formal e da entrada em serviço.
Essa política não representa uma proibição da utilização de armas autônomas. A Human Rights Watch considera que as regras norte-americanas não garantem necessariamente o chamado “controle humano significativo” defendido por organizações humanitárias.
Pressão por um tratado internacional
Atualmente não existe um tratado internacional específico que proíba os robôs humanoides militares. Qualquer emprego, contudo, permanece sujeito ao Direito Internacional Humanitário, incluindo os princípios de distinção entre combatentes e civis, proporcionalidade e precaução.
A Human Rights Watch e outras organizações defendem um instrumento internacional juridicamente vinculante que proíba sistemas que operem sem controle humano significativo ou que sejam concebidos para selecionar pessoas como alvos.
Mais de 120 países já demonstraram apoio à negociação de normas internacionais sobre armas autônomas, embora permaneçam divergências sobre a definição dos sistemas que deveriam ser proibidos e sobre o nível mínimo de intervenção humana exigido.
Em 2022, empresas como Boston Dynamics, Agility Robotics, ANYbotics, Clearpath Robotics e Open Robotics divulgaram uma carta comprometendo-se a não transformar robôs móveis de uso geral em armas. As companhias argumentaram que a militarização prejudicaria a confiança pública em tecnologias que também podem ser utilizadas em resgates, inspeções e atividades industriais.
A Foundation adotou uma posição diferente, sustentando que os Estados Unidos não devem abandonar o desenvolvimento militar enquanto China, Rússia e outros possíveis adversários investem em sistemas semelhantes.
Relação com Eric Trump chama atenção
A companhia possui entre seus investidores Eric Trump, filho do presidente Donald Trump, que também atua como consultor estratégico da empresa.
A participação provocou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, considerando que a Foundation busca contratos com órgãos governamentais e desenvolve produtos para as Forças Armadas.
A empresa e representantes de Eric Trump negam qualquer favorecimento. Segundo eles, o investidor não participa da administração cotidiana nem das decisões operacionais relacionadas aos contratos públicos.
Uma tecnologia ainda em desenvolvimento
Apesar das imagens que lembram obras de ficção científica, os humanoides militares ainda enfrentam limitações importantes. Autonomia energética, equilíbrio em terrenos irregulares, resistência a impactos, manutenção, proteção contra interferência eletrônica e capacidade de tomar decisões seguras continuam sendo desafios relevantes.
O Phantom ainda não é um soldado robótico armado e não há informação pública de que tenha sido contratado para selecionar ou atacar alvos de forma autônoma.
A disposição da Foundation para militarizar a plataforma, no entanto, mostra que a distância entre robôs industriais e máquinas destinadas ao combate está diminuindo. A discussão central já não é apenas se os humanoides chegarão aos campos de batalha, mas quais decisões poderão tomar, quem permanecerá no controle e quem responderá quando algo der errado.■


Skynet