Wesley Clark diz que recuo diante do Irã colocaria liderança global dos EUA em risco
Ex-comandante supremo da NATO defendeu pressão militar contínua para manter o Estreito de Ormuz aberto, mas rejeitou o emprego de forças terrestres em uma ofensiva de grande escala
O general reformado Wesley Clark, ex-comandante supremo aliado da NATO na Europa, afirmou que uma retirada norte-americana diante do Irã e a aceitação do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz provocariam consequências duradouras para a liderança global dos Estados Unidos.
Durante participação no programa Piers Morgan Uncensored, Clark sustentou que Washington chegou a um ponto de decisão no conflito e não deveria interromper as operações destinadas a manter aberta uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
Segundo o ex-comandante, aceitar um memorando de entendimento menos favorável do que o negociado anteriormente representaria uma demonstração de fraqueza diante de adversários e aliados.
“Recuar não é bom”, declarou Clark. Para o general, permitir que Teerã mantenha controle efetivo sobre Ormuz afetaria a capacidade de dissuasão dos Estados Unidos, sua influência na Ásia e a segurança da Europa.
Liderança global em jogo
Clark afirmou que a crise deixou de ser apenas uma disputa regional sobre o Irã e passou a envolver a credibilidade estratégica dos Estados Unidos.
“Se permitirmos que o Irã controle o Estreito de Ormuz, isso atinge nossa liderança global, nossa dissuasão, nossa capacidade de liderar na Ásia e a segurança da Europa”, afirmou, durante o debate.
Na avaliação do ex-comandante da NATO, uma retirada combinada com um acordo desfavorável faria com que os Estados Unidos estivessem “sacrificando” sua liderança internacional. Ele acrescentou que a questão deveria ser analisada para além das eleições legislativas norte-americanas previstas para novembro.
Clark serviu como comandante supremo aliado da NATO na Europa entre 1997 e 2000 e liderou a Operação Allied Force, campanha aérea da Aliança durante a Guerra do Kosovo, em 1999.
General rejeita interrupção dos ataques
Um dos principais argumentos apresentados por Clark foi que uma pausa prolongada permitiria às forças iranianas substituir radares, embarcações de patrulha e outros meios destruídos durante os ataques norte-americanos.
O general comparou a situação às discussões sobre pausas nos bombardeios durante a Guerra do Vietnã e também à experiência que teve no comando da operação da NATO no Kosovo.
Para Clark, a prioridade imediata deveria permanecer concentrada no Estreito de Ormuz. Ele defendeu operações contínuas de inteligência, vigilância e reconhecimento, acompanhadas da capacidade de atacar rapidamente forças iranianas que tentem ameaçar os navios mercantes.
O ex-comandante também mencionou escoltas para petroleiros, apoio de países do Golfo, possíveis embarcações operadas por prestadores civis e mecanismos de subsídio aos seguros marítimos como componentes de uma estratégia para restabelecer a navegação.
Sem invasão terrestre
Questionado diretamente por Piers Morgan sobre a possibilidade de enviar tropas terrestres ao Irã, Clark respondeu negativamente.
Em vez de uma invasão, ele sugeriu que as operações fossem limitadas a uma faixa de aproximadamente 10 a 15 quilômetros ao redor da costa do Golfo, com o objetivo de neutralizar minas, lanchas, drones, radares e lançadores que ameacem a passagem dos navios.
A proposta indicaria uma campanha militar geograficamente restrita, mas potencialmente prolongada, destinada a impedir que o Irã volte a estabelecer sua capacidade de interdição sobre a rota.
Clark reconheceu, no entanto, que não existe uma solução militar simples. Além da questão imediata de Ormuz, o general apontou como problemas de longo prazo o programa de mísseis iraniano, as instalações subterrâneas e uma eventual capacidade nuclear.
China e Rússia entram no cálculo estratégico
O ex-comandante afirmou que o apoio material e tecnológico proporcionado por China e Rússia dificulta o isolamento do Irã.
Segundo Clark, Teerã estaria recebendo recursos, componentes, combustíveis para foguetes e tecnologias destinadas a drones e mísseis. Ele comparou essa situação às dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos no Vietnã, quando o adversário também recebia apoio de grandes potências externas.
Na avaliação do general, Pequim e Moscou observam favoravelmente as dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos. Uma retirada norte-americana fortaleceria a percepção de que Washington não consegue sustentar seus compromissos quando confrontado por uma estratégia de desgaste.
Clark não apresentou provas específicas sobre o volume ou a natureza das entregas recentes chinesas e russas. Suas declarações representaram uma avaliação estratégica pessoal, e não uma informação oficial divulgada pelo Pentágono.
Visão foi contestada durante o debate
A posição de Clark foi confrontada pelo cientista político John Mearsheimer, que participou do mesmo programa.
Mearsheimer argumentou que os Estados Unidos sofreram uma derrota estratégica, não alcançaram seus principais objetivos e deveriam procurar rapidamente um novo acordo com o Irã. Para ele, as diferentes estratégias militares utilizadas até agora não conseguiram retirar de Teerã o controle sobre Ormuz.
Clark discordou da ideia de encerrar a campanha nas condições atuais. Embora tenha admitido que o conflito possa terminar em um memorando de entendimento, sustentou que Washington não deveria aceitar um documento mais fraco nem interromper a pressão militar enquanto o Irã mantiver capacidade de bloquear ou controlar a navegação.
Irã procura transformar Ormuz em instrumento de pressão
As declarações ocorrem em um momento no qual Teerã procura utilizar as rotas marítimas e a infraestrutura energética regional como instrumentos de negociação.
Fontes diplomáticas e analistas ouvidos pela Reuters afirmam que o Irã busca elevar gradualmente os custos econômicos e militares impostos aos Estados Unidos e aos países do Golfo, evitando, ao mesmo tempo, uma confrontação convencional decisiva.
O governo iraniano pretende obter maior autoridade administrativa sobre o Estreito de Ormuz e a possibilidade de cobrar tarifas por serviços prestados aos navios. Washington rejeita essas exigências e sustenta que o estreito deve continuar funcionando como uma via marítima internacional sem controle unilateral iraniano.
Aproximadamente um quinto do petróleo consumido mundialmente passava por Ormuz antes do conflito, tornando qualquer interrupção prolongada uma ameaça ao mercado energético e à economia internacional.■
