Hydracobra: quando o blindado Urutu da Engesa quase foi fabricado nos Estados Unidos
EE-11 Urutu AFSV Uruvel (Hydracobra)
No início dos anos 1980, o sucesso internacional do EE-11 Urutu levou a norte-americana Bell Aerospace Textron a adquirir direitos para oferecer uma versão “americanizada” do blindado brasileiro ao Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA. Batizado Hydracobra, o veículo teria versões com canhões de 25 e 90 mm e seria produzido sob licença em território norte-americano caso vencesse o programa LAV
No início de 1981, a indústria brasileira de defesa vivia um momento que hoje parece extraordinário. Blindados projetados pela Engesa eram exportados para dezenas de países e começavam a chamar atenção não apenas de clientes da América Latina, África e Oriente Médio, mas também da própria indústria militar dos Estados Unidos.
Em 21 de fevereiro de 1981, o jornalista Roberto Godoy publicou em O Estado de S. Paulo que a norte-americana Bell Aerospace Textron pretendia fabricar nos Estados Unidos, sob licença, uma versão do blindado brasileiro EE-11 Urutu. A informação foi posteriormente recuperada pelo site Forças Terrestres, juntamente com material promocional da época.
O veículo receberia um nome bastante norte-americano: Hydracobra. O objetivo era disputar o nascente programa de veículos blindados leves destinado às forças de rápida intervenção dos Estados Unidos, particularmente ao U.S. Marine Corps.
Se a proposta tivesse prosperado, um veículo concebido pela Engesa em São José dos Campos poderia ter entrado em produção industrial nos Estados Unidos e, potencialmente, equipado unidades operacionais norte-americanas.
O Urutu chega aos Estados Unidos

O interesse da Bell não surgiu por acaso. Na segunda metade dos anos 1970, a Engesa havia se transformado em uma das empresas de defesa mais agressivas do mundo em desenvolvimento, especialmente graças ao binômio formado pelo EE-9 Cascavel e pelo EE-11 Urutu.
O Urutu era um blindado anfíbio 6×6 destinado principalmente ao transporte de tropas. Compartilhava diversos elementos mecânicos com o Cascavel e havia sido concebido com características particularmente atraentes para forças que precisavam operar em grandes distâncias e com estruturas logísticas relativamente simples.
Robustez, mobilidade sobre rodas, manutenção comparativamente simples e capacidade de receber diferentes motores, transmissões, torres e armamentos transformaram a família Engesa em um produto especialmente adaptável ao mercado internacional.
A escala das exportações ajuda a explicar por que uma empresa norte-americana decidiu observar tão atentamente o projeto. Pesquisa citada pelo Ipea, baseada em documentação da própria Engesa, calcula que aproximadamente 625 EE-11 Urutu foram exportados, enquanto os números do SIPRI chegam a 699 unidades. Cerca de 76% da produção do Urutu destinou-se ao mercado externo.
Blindados brasileiros já tinham experiência de combate
O Urutu e o Cascavel também possuíam algo extremamente valorizado no mercado militar: experiência operacional em condições severas.
Iraque e Líbia tornaram-se dois dos maiores clientes da Engesa. Os blindados brasileiros apareceram nos conflitos envolvendo Líbia e Egito, nas guerras entre forças líbias e chadianas e, posteriormente, na longa Guerra Irã-Iraque iniciada em 1980.
O emprego real funcionou como vitrine. O Ipea observa que os conflitos no Oriente Médio e na África ajudaram a divulgar internacionalmente os veículos brasileiros, demonstrando que não se tratava apenas de projetos interessantes apresentados em exposições militares, mas de equipamentos efetivamente empregados em combate.
Foi nesse contexto que o Urutu atravessou uma fronteira simbólica importante: deixou de ser somente um produto brasileiro oferecido a países em desenvolvimento e passou a ser considerado como base para um veículo destinado às próprias Forças Armadas dos Estados Unidos.
Nasce o Bell Hydracobra

A Bell Aerospace estabeleceu uma parceria com a Engesa para comercializar uma família derivada do Urutu no mercado norte-americano. Estudos históricos posteriores sobre o programa indicam que o acordo previa a adaptação do veículo aos padrões exigidos pelas Forças Armadas dos EUA e sua eventual fabricação sob licença.
O nome comercial escolhido foi Hydracobra.
Documentação histórica da Bell reproduzida em estudos posteriores mostra que o conceito não se limitava a um simples transporte blindado. A intenção era desenvolver uma família de veículos, exatamente de acordo com a filosofia que começava a orientar o programa Light Armored Vehicle dos Estados Unidos.
Entre as configurações mais importantes estavam uma versão de combate equipada com canhão de 25 mm e uma variante de apoio de fogo armada com canhão de 90 mm. O material publicado em 1981 também indicava que outras versões especializadas poderiam surgir posteriormente.
Um Urutu com canhão de 90 mm
A variante mais poderosa estava relacionada ao desenvolvimento conhecido como Urutu AFSV — Armored Fire Support Vehicle, também associado na literatura ao nome Uruvel.
A Engesa instalou sobre o chassi do Urutu uma torre derivada das soluções utilizadas no Cascavel, criando um blindado sobre rodas com capacidade de apoio de fogo direto. O veículo podia utilizar o canhão de 90 mm da família Cockerill/Engesa e munições anticarro, alto explosivo e de apoio à infantaria.
O conceito antecipava em várias décadas uma tendência que posteriormente se tornaria comum: viaturas blindadas sobre rodas equipadas com armamento de grande calibre para proporcionar apoio de fogo às unidades mecanizadas.
Para a proposta norte-americana, essa configuração seria apresentada como um dos componentes da família Hydracobra, ao lado da versão mais leve equipada com canhão automático de 25 mm.
O que os Marines estavam procurando

No início dos anos 1980, o Corpo de Fuzileiros Navais buscava uma nova família de blindados leves capaz de acompanhar uma mudança mais ampla na estratégia dos Estados Unidos.
Depois da Revolução Iraniana de 1979, da crise dos reféns em Teerã e da invasão soviética do Afeganistão, Washington atribuiu crescente importância à capacidade de enviar rapidamente forças para regiões distantes, especialmente o Oriente Médio.
Uma nova geração de veículos precisava combinar mobilidade estratégica, velocidade terrestre, capacidade anfíbia e poder de fogo, sem possuir o peso de um carro de combate ou de um veículo sobre lagartas convencional.
Os requisitos associados ao programa contemplavam uma plataforma suficientemente leve para acompanhar forças de rápida projeção e capaz de receber diferentes sistemas de armas. Entre as possibilidades estavam canhão automático de 25 mm, armamento pesado na faixa de 75 a 105 mm, mísseis anticarro e morteiros.
Era justamente o tipo de flexibilidade que a Engesa vinha oferecendo aos clientes internacionais.
Bell pretendia fabricar o veículo em Nova York

A parceria previa mais do que simplesmente importar Urutus brasileiros.
Segundo a reconstrução histórica baseada também no livro Aerospace Technologies of Bell Aircraft Company: A Pictorial History (1935–1985), a Bell pretendia adaptar o projeto aos padrões norte-americanos e produzir o Hydracobra em sua fábrica de Wheatfield, no estado de Nova York, caso obtivesse o contrato.
Isso transformava a proposta numa operação industrial muito mais ambiciosa. A Engesa forneceria a base tecnológica e receberia os benefícios decorrentes do licenciamento, enquanto a Bell colocaria o produto dentro da estrutura industrial e política necessária para disputar uma grande concorrência do Pentágono.
Era uma estratégia inteligente. Programas militares norte-americanos tradicionalmente favorecem produção doméstica, cadeias de fornecedores locais e capacidade de manutenção dentro dos Estados Unidos.
Assim, o Urutu deixaria de ser apresentado simplesmente como “um blindado brasileiro” e passaria a concorrer como um veículo produzido por uma importante empresa norte-americana.
O Urutu precisava ser “americanizado”
A adaptação não significava apenas trocar a placa do fabricante.
O veículo teria de atender normas norte-americanas de segurança, comunicações, proteção NBC — nuclear, biológica e química —, ergonomia, armamentos, componentes, manutenção e integração logística.
Também era necessário adequá-lo ao conceito operacional do Marine Corps, que exigia elevado nível de mobilidade e uma família capaz de cumprir diversas missões utilizando a maior quantidade possível de componentes comuns.
A capacidade da Engesa de adaptar rapidamente seus produtos era uma de suas maiores vantagens. Ao longo de sua história, Cascavel e Urutu receberam diferentes motores, transmissões, torres, sistemas ópticos e armamentos conforme as exigências de cada comprador.
O Hydracobra representava a aplicação dessa filosofia no mercado mais exigente e competitivo do mundo.
A proposta brasileira não chegou à fase final

Apesar de seu potencial, a proposta Bell-Engesa não avançou até as etapas decisivas do programa.
Fontes especializadas que reconstruíram os testes indicam que o Urutu/Hydracobra foi apresentado à concorrência, mas não passou para as fases seguintes da seleção. Um registro coloca sua eliminação em setembro de 1981.
O Departamento de Defesa prosseguiu com um grupo reduzido de candidatos. Entre os finalistas estavam propostas da britânica Alvis, da norte-americana Cadillac Gage e da General Motors Diesel do Canadá, esta última baseada na família suíça MOWAG Piranha.
Em setembro de 1982, a solução da General Motors foi selecionada. Dela surgiu o LAV-25, blindado 8×8 equipado com canhão automático M242 Bushmaster de 25 mm, que entrou em serviço no Marine Corps em 1983 e daria origem a uma extensa família de veículos.
Por que o Piranha levou vantagem?
A documentação disponível não apresenta uma única razão simples para a eliminação do Hydracobra. O resultado deve ser observado dentro de uma concorrência que colocava frente a frente soluções com arquiteturas bastante diferentes.
O Urutu era um projeto 6×6, originalmente concebido como transporte blindado anfíbio. O veículo apresentado pela General Motors Diesel evoluía do MOWAG Piranha e utilizava uma configuração 8×8, oferecendo maior volume interno e capacidade de crescimento para uma ampla família de variantes.
A proposta canadense também se beneficiava da forte integração da indústria de defesa dos Estados Unidos e Canadá. Um estudo do Center for Strategic and International Studies destaca justamente a longa cooperação industrial entre os dois países e a importância adquirida pela General Motors Diesel no desenvolvimento dos veículos LAV.
Independentemente das razões específicas da escolha, a eliminação do Hydracobra encerrou a possibilidade imediata de produção do Urutu pela Bell.
A história, entretanto, não terminou ali
Curiosamente, o interesse norte-americano pelo veículo brasileiro reapareceria alguns anos depois.
Por volta de 1985-1986, a FMC — Food Machinery Corporation, uma das mais importantes fabricantes de veículos militares dos Estados Unidos — voltou a avaliar o Urutu para possíveis aplicações em forças de rápido desdobramento e outras unidades norte-americanas.
Um veículo chegou a ser submetido a testes em Fort Lewis, no estado de Washington. Fontes especializadas mencionam inclusive estudos para fabricação de centenas de unidades, embora o projeto novamente não tenha resultado em produção seriada.
É importante não confundir os dois episódios: o Hydracobra original estava associado à Bell Aerospace e à concorrência LAV do começo dos anos 1980; a tentativa envolvendo a FMC ocorreu posteriormente.
Nenhuma das duas chegou à linha de produção.
O tamanho do feito da Engesa

Mesmo fracassando, o episódio ajuda a dimensionar a posição alcançada pela indústria brasileira de defesa naquela época.
A Engesa não estava apenas tentando vender um pequeno lote de blindados a um país estrangeiro. Uma grande empresa norte-americana havia considerado suficientemente competitivo um projeto brasileiro para licenciá-lo, adaptá-lo e tentar colocá-lo em produção nos Estados Unidos para disputar um programa do Pentágono.
Apenas alguns anos antes, a indústria militar brasileira ainda dependia em larga medida da importação e da modernização de equipamentos estrangeiros.
Na virada dos anos 1970 para os 1980, o fluxo tecnológico, em pelo menos alguns casos, começava a percorrer o caminho contrário.
Uma oportunidade que poderia ter mudado a história da Engesa
É impossível saber qual teria sido o impacto de uma vitória na concorrência.
O futuro programa LAV do Marine Corps resultou em centenas de veículos e criou uma família que permanece em serviço mais de quatro décadas depois. A seleção do Hydracobra teria colocado a Engesa dentro da cadeia de suprimentos militares dos Estados Unidos e proporcionado uma referência internacional de enorme valor.
Também poderia ter fortalecido a empresa financeiramente e tecnologicamente antes de sua posterior aventura no desenvolvimento do carro de combate EE-T1 Osório e das dificuldades econômicas que culminariam com sua falência em 1993.
Essa possibilidade pertence, naturalmente, ao terreno da história contrafactual. O fato concreto é que o negócio não prosperou.
Quando um Urutu esteve perto de vestir uniforme americano
O Hydracobra acabou tornando-se uma nota pouco conhecida da extraordinária expansão da indústria brasileira de defesa no final dos anos 1970 e início dos 1980.
O episódio ocorreu justamente quando a Engesa alcançava seus maiores mercados. Estudos baseados em seus arquivos estimam exportações de 1.329 Cascavéis e 625 Urutus, números que colocavam a empresa numa posição incomum entre fabricantes de blindados fora das grandes potências.
O Urutu não venceu o programa norte-americano. O contrato acabou contribuindo para o nascimento do LAV-25 baseado no Piranha, enquanto o Hydracobra desapareceu dos catálogos.
Mas, durante alguns meses no começo dos anos 1980, existiu uma possibilidade bastante real de que um blindado concebido no Brasil fosse modificado por uma empresa norte-americana, produzido em uma fábrica no estado de Nova York e adotado pelas forças de rápida intervenção dos Estados Unidos.
Para uma indústria de defesa que poucas décadas antes praticamente não projetava veículos blindados próprios, chegar tão perto de colocar um produto brasileiro nas linhas de montagem dos Estados Unidos já foi, por si só, um feito histórico.■
FONTES: O Estado de S. Paulo (registro histórico reproduzido pelo Forças Terrestres); Ipea; Center for Strategic and International Studies; documentação histórica da Bell Aerospace e estudos especializados sobre o EE-11 Urutu e o programa norte-americano LAV.




Esse kkkkkkkkkkk aí é riso de nervoso de ver um sujeito falar que aqui no Brasil temos soberania.
Já tivemos bem mais soberania no passado. Para ser bem específico, na época do Geisel, parecia que iríamos decolar de verdade, mas fatores internos e externos bem conhecidos, nos derrubaram (de novo). Geisel é aliás, um dos maiores estadistas de nossa história e a história lhe faz jus, mesmo que timidamente, pois ao mesmo tempo em que é impossível não reconhecer seus feitos como governante, é também impossível não lembrar que ele era o Presidente na época do endurecimento da luta armada sectária, por ambas as partes. Mas foi um grande governante, grande comandante, grande soldado e até onde se sabe, grande homem. Pena que o Brasil costuma destruir seus melhores, sejam políticos, atletas, artistas, cientistas, anônimos, enfim. Temos um complexo de iconoclastia crônico…
Falou de disse tudo!
Sgtº Moreno
Que pena…talvez nossa ENGESA estaria em atividades ainda…
Sgtº Moreno