O impacto da manobra exterior — ou de sua ausência — na capacidade de projeção de poder dos Estados Unidos
Por Walter da Costa Ferreira
Oficial da Reserva do Exército Brasileiro
Segundo os ensinamentos de André Beaufre (1998, p. 123), ilustre general e pensador estratégico francês, “A ideia central da manobra exterior é assegurar o máximo de liberdade de ação”. Trata-se, em síntese, das ações político-diplomáticas e informacionais realizadas pelo Estado na esfera internacional, criando condições favoráveis no ambiente estratégico para desencadear as operações armadas preponderantes (Cardoso, 1987).
De acordo com Ferreira e Teixeira Júnior (2021), a liberdade de ação do Estado está intrinsecamente associada ao uso da violência, sublinhando-se que o emprego do poder militar se mostra por demais dependente do apoio da comunidade mundial, bem como da opinião pública nacional e internacional. Nesse mister, é plausível atestar que a constituição de alianças, coalizões e parcerias estratégicas representa uma expressiva vertente da manobra exterior dos Estados.
Conforme o pensamento de Mearsheimer (2001), alianças militares são arranjos temporários de balanceamento de poder,[1] constituídas para a promoção de interesses securitários comuns das partes signatárias, afiançando proteção mútua contra agressões armadas aos seus membros.
Não são mecanismos permanentes de cooperação interestatal alicerçados em valores universais; são, essencialmente, instrumentos de segurança dependentes da convergência dos interesses estratégicos de seus membros. Em princípio, alianças têm caráter defensivo, todavia, não é regra. Para fins ofensivos, no sentido de alterar a situação político-estratégica vigente, usualmente formam-se coalizões ad hoc, como a observada na Primeira Guerra do Golfo em 1991.
Como exemplo de uma típica manobra exterior, cita-se a visita do Sr. Putin à China no início de fevereiro de 2022, reunião bilateral que resultou em declaração conjunta, descrevendo a parceria sino-russa como “sem limites” e criticando a expansão da OTAN. Ademais, foram estabelecidos novos contratos relativos ao setor de energia e metas de comércio bilateral.
Esse evento contribuiu para assegurar o necessário apoio político-diplomático e o suporte econômico chinês antes da invasão da Ucrânia. Nesse contexto, registra-se que as importações de Pequim, sobretudo de petróleo bruto e gás natural, alimentam consideravelmente o esforço de guerra de Moscou, assim como se percebe que diversificados suprimentos oriundos de empresas chinesas viabilizam a produção de boa parte dos sistemas militares russos.
Em contrapartida, a errática política externa estadunidense, sob a liderança do Sr. Trump, tem ocasionado perigosas tensões político-econômicas entre os norte-americanos e seus aliados, em quase todas as áreas de interesse estratégico dos Estados Unidos. Assim o foi nas crises com o Canadá, a Dinamarca e outros aliados da OTAN, assim como, recentemente, com a Coreia do Sul.
Por ocasião da Terceira Guerra do Golfo, empreendida contra Teerã, não se constatou atenção de Washington com sua manobra exterior, preliminar ao conflito armado, no intuito de moldar o ambiente estratégico em favor dos interesses norte-americanos.
Nesse sentido, o governo Trump negligenciou contatos diplomáticos prévios[2] com seus aliados europeus e asiáticos aptos a contribuir para a projeção de poder dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Por conseguinte, países que poderiam reforçar as ações militares de Washington ignoraram seus apelos para colaborarem com a segurança do tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz.
A deterioração das relações dos Estados Unidos com países tradicionalmente alinhados com Washington pode, consequentemente, produzir impacto desfavorável à sua liberdade de ação militar. A erosão da confiança política tende a reduzir a disposição dos mencionados Estados para disponibilizar tropas, bases de apoio, informações e outras capacidades essenciais às operações militares, elevando substancialmente os custos político-estratégicos do emprego da força. Destarte, a despeito de sua considerável capacidade bélica, Washington pode encontrar dificuldades para sustentar operações prolongadas no contexto de missões de projeção de poder em determinados teatros de guerra.
Em suma, a capacidade de projeção de poder dos Estados Unidos nas diversas áreas geográficas do planeta que consubstanciam os interesses geopolíticos de Washington revela-se dependente, para fins de máxima eficácia e eficiência, de suas alianças e parcerias estratégicas. A cooperação aliada, sustentada por um esforço multilateral continuado, robustece a dissuasão integrada,[3] na medida em que alinha o discurso político para a construção de uma narrativa favorável, consolida acordos comerciais entre seus membros, fomenta o desenvolvimento conjunto e/ou a transferência de tecnologias críticas, otimiza a interoperabilidade combinada[4] e amplifica a capacidade de apoio logístico às forças aliadas.
Como síntese dos argumentos expostos, é cabível inferir que o desapreço do governo Trump em relação aos seus aliados e parceiros estratégicos, evidenciado pela utilização sistemática de instrumentos geoeconômicos e pela ameaça de uso da força, em vários episódios coercitivos por parte de Washington, tende a produzir prejuízos significativos, inclusive de longo prazo, à capacidade de projeção de poder dos Estados Unidos.
Em verdade, as alianças e parcerias estratégicas de Washington não configuram condição necessária para a projeção de poder estadunidense, considerando seu estatuto de superpotência, mas são importantes para ampliar sua liberdade de ação, reduzir custos operacionais e político-estratégicos, aumentar a legitimidade de suas ações e melhorar a sustentabilidade de suas operações militares.■
Referências
- BEAUFRE, André. Introdução à estratégia. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.
- CARDOSO, Alberto Mendes. Os treze momentos: análise da obra de Sun Tzu. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1987.
- FERREIRA, Walter da Costa; TEIXEIRA JÚNIOR, Augusto W. M. Estratégia militar aplicada: metodologia de emprego. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2021.
- FERREIRA, Walter da Costa. Defesa nacional no Brasil: avaliação, projetos e propostas. In: TEIXEIRA JÚNIOR, Augusto W. M. (Org.). Estratégia, tecnologia e inovação militar: horizontes para a defesa no Brasil. João Pessoa: Editora UFPB, 2025. p. 171-196.
- MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton, 2001.
[1] Segundo Mearsheimer (2001), o balanceamento de poder corresponde à estratégia em que o Estado busca restabelecer o equilíbrio de poder, contendo uma grave ameaça aos seus interesses ou à sua sobrevivência. Nesse contexto, cabe destacar que o balanceamento duro está ancorado no aumento de poder militar (interno) e no fomento de alianças (externo), ao passo que o balanceamento brando se refere ao uso da diplomacia, das organizações multilaterais e do direito internacional (Ferreira, 2025).
[2] Os contatos supracitados permitem sondar a disposição política dos aliados e parceiros para apoiar a iniciativa estratégica, bem como avaliar a utilização de bases militares e o envio de tropas, além de coordenar ações estratégicas interdependentes.
[3] Dissuasão integrada consiste em desencorajar adversários de empreenderem atos contrários aos interesses dos Estados aliados ou parceiros, mediante a aplicação coordenada de todos os recursos do poder nacional, para além dos instrumentos militares. A dissuasão integrada é multinacional.
[4] Interoperabilidade combinada é a capacidade de forças militares de dois ou mais países atuarem sinergicamente no cumprimento de missões táticas ou estratégicas, compartilhando informações e utilizando sistemas, doutrinas e estruturas de comando compatíveis entre si.


Queria que isso fosse um aviso pra cupula das forças armadas que ensistem em comprar equipamento automaticamente dos Estados Unidos.
Será que um dia iremos diversificar os nossos forncedores, ou precisamos esperar todos esses cabeças brancas se aposentarem e rezar para que os que estão chegando tenham outra visão do mundo?
Temo que não seja tão simples assim, pois, na ascensão ao generalato, aqueles que estão saindo têm influência na escolha dos que chegam, e os escolhidos tendem a reproduzir os mesmos valores, visões e padrões daqueles que os antecederam. Ademais, não conheço, de coronel para cima, quem não nutra uma visão positiva das virtudes dos EUA, principalmente aqueles que foram adidos, participaram de intercâmbios ou passaram uma temporada naquele país. Voltam encantados e maravilhados com o mundo da bolha de sua classe social. Vê-se o poder da ideologia implantada na camaradagem e nas escolas de guerra.
Os EUA são um laboratório vivo para as ciências sociais. Um império maduro, cuja força econômica transborda para o campo militar, enquanto as elites econômicas se dissociam de seu próprio povo e da preocupação maior de um Estado: o bem-estar da população. Passa-se, assim, a favorecer essas elites em seu processo de apropriação de poder e riqueza. Essas mesmas elites, porém, possuem interesses distintos e, por vezes, conflitantes entre si. As rachaduras estão por todos os lados. Mais preocupante é que se trata de um devedor fortemente armado, talvez disposto a ingressar no mundo do crime aberto, sem disfarces, despido das aparências e dos vernizes que antes revestiam o exercício de seu poder.
“Queria que isso fosse um aviso pra cúpula das forças armadas que insistem em comprar equipamento automaticamente dos Estados Unidos”.
Fosse eu o governo, já teria cancelado aquela compra de BlackHawk e SeaHawk desde que esse palhaço alaranjado começou as hostilidades contra o país.
Teria comprado dos europeus,poderia ser um Airbus H175M,Leonardo AW149M ou 139M…
Enquanto esse Senhor instável estivesse no salão oval, eu não compraria nem a porcaria de um Robinson R22 dos estados unidos…