Quando o Brasil chegou ao grupo dos maiores exportadores de armamentos do mundo
EE-9 Cascavel do Iraque
Na década de 1980, uma combinação de investimento estatal em ciência e tecnologia, empresas nacionais agressivas no mercado externo e guerras no Oriente Médio levou o Brasil ao auge de sua indústria de defesa. Engesa, Embraer e Avibras responderam por cerca de 95% das exportações militares e venderam milhares de blindados, centenas de aeronaves e sistemas de foguetes. O modelo, porém, dependia excessivamente do mercado externo e entrou em colapso quando a conjuntura internacional mudou
Durante a década de 1980, o Brasil alcançou uma posição no comércio internacional de armamentos que hoje parece difícil de imaginar. Blindados fabricados em São José dos Campos combatiam nos desertos do Oriente Médio e da África, aviões brasileiros eram empregados por forças aéreas europeias e asiáticas, e sistemas de foguetes da Avibras eram adquiridos por alguns dos maiores compradores militares do mundo.
A literatura brasileira de defesa consagrou a afirmação de que o país chegou a ser o oitavo maior exportador mundial de material bélico, posição citada em trabalhos do Ministério da Defesa, da Escola de Guerra Naval e do próprio Ipea. Algumas pesquisas chegam a colocar o Brasil em quinto lugar em determinados momentos de meados da década de 1980.
Essa classificação, entretanto, exige uma ressalva. Os rankings variam conforme o período considerado e, principalmente, segundo o conceito de “armamento” utilizado. A série do SIPRI restrita a grandes sistemas de armas coloca o Brasil em posições inferiores: no acumulado de 1974 a 1993, por exemplo, o país aparece em 16º lugar, com cerca de 0,32% do volume mundial; para 1984-1988, outro levantamento do instituto o classificou como 11º fornecedor.
O “oitavo lugar”, portanto, deve ser entendido como a classificação historicamente difundida para o conjunto mais amplo das exportações brasileiras de defesa, e não como uma posição universal em todas as metodologias. Essa diferença, contudo, não reduz o significado do fenômeno: entre os países que não eram grandes potências, o Brasil construiu uma das mais importantes indústrias militares do mundo em desenvolvimento.
As bases foram lançadas antes dos anos 1980

O sucesso não surgiu repentinamente. Desde as décadas de 1950 e 1960, as Forças Armadas haviam estruturado uma rede de formação de engenheiros, pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico que envolvia instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), o Instituto Militar de Engenharia (IME) e organizações que posteriormente dariam origem ao Centro Tecnológico do Exército.
No segmento terrestre, o Ipea identifica um “triângulo virtuoso” formado pelo IME, pelos centros de pesquisa do Exército e pelo Parque Regional de Manutenção da 2ª Região Militar, em São Paulo. Foi nesse ambiente que técnicos militares trabalharam em projetos de viaturas e transferiram conhecimento para empresas privadas que começavam a entrar no setor.

O regime militar também adotou deliberadamente uma política de fortalecimento da Base Industrial de Defesa. O Estado direcionava recursos, realizava encomendas iniciais, oferecia financiamento, concedia incentivos fiscais e utilizava sua estrutura diplomática para auxiliar empresas brasileiras na busca por mercados externos.
Em 1974, foi criada a Política Nacional de Exportação de Material de Emprego Militar, a PNEMEM. A exportação de produtos de defesa passava a ser tratada não apenas como atividade comercial, mas como instrumento de política externa, autonomia estratégica e sustentação da capacidade industrial brasileira.
O petróleo aproximou o Brasil do Oriente Médio
Outro fator decisivo foi a crise do petróleo. O Brasil dependia fortemente de importações de petróleo e precisava encontrar maneiras de compensar a enorme saída de divisas provocada pelo aumento dos preços internacionais durante os anos 1970.
Países como Iraque e Líbia, por outro lado, acumulavam receitas de petróleo e realizavam grandes programas de modernização militar. A aproximação comercial brasileira criou condições para que automóveis, serviços de engenharia, alimentos, produtos industriais e armamentos fossem utilizados como parte de uma relação econômica muito mais ampla.
A política brasileira encontrou, assim, um mercado ideal. Muitos países da África, Oriente Médio e América Latina procuravam equipamentos menos caros e menos complexos que os oferecidos pelas principais potências, mas suficientemente modernos para suas necessidades.
As empresas brasileiras passaram a ocupar precisamente esse espaço.
Engesa: o símbolo da ascensão
Nenhuma companhia representou melhor essa fase do que a Engesa – Engenheiros Especializados S.A.
Fundada em 1963, a empresa começou desenvolvendo soluções de tração e suspensão para veículos comerciais. A experiência acumulada em conjunto com o Exército acabou conduzindo ao desenvolvimento de uma família própria de veículos blindados sobre rodas.
Os dois grandes sucessos seriam o EE-9 Cascavel, veículo blindado de reconhecimento armado com canhão de 90 mm, e o EE-11 Urutu, transporte blindado de tropas 6×6.
Os projetos tinham características especialmente adequadas aos mercados que o Brasil pretendia conquistar. Utilizavam componentes comerciais disponíveis internacionalmente, eram relativamente simples de manter, suportavam condições severas e podiam ser modificados rapidamente de acordo com as exigências dos clientes.
A flexibilidade tornou-se uma vantagem competitiva. Pesquisas sobre a empresa mostram que a Engesa aceitava instalar diferentes motores, sistemas ópticos, torres e armamentos — inclusive equipamentos de origem soviética — caso isso fosse necessário para atender determinado comprador. Concorrentes europeus normalmente cobravam muito mais por modificações semelhantes.
Mais de 1.300 Cascavéis exportados
Os números alcançados pela Engesa foram extraordinários para uma empresa brasileira. Segundo levantamento baseado nos arquivos da companhia citado pelo Ipea, foram exportados aproximadamente 1.329 EE-9 Cascavel, 625 EE-11 Urutu e 63 EE-3 Jararaca.
O próprio Ipea registra uma divergência com os dados históricos do SIPRI, que apontavam 1.484 Cascavéis, 699 Urutus e 354 Jararacas. A pesquisa documental de Expedito Carlos Stephani Bastos encontrou números inferiores, particularmente no caso do Jararaca.
Outra pesquisa do Ipea contabiliza 1.738 Cascavéis produzidos, dos quais 409 foram adquiridos pelo Exército Brasileiro, confirmando que aproximadamente três quartos da produção seguiram para clientes estrangeiros. As transferências de equipamentos militares da Engesa entre 1975 e 1992 são estimadas em mais de US$ 2 bilhões, a valores de 2010.
A dependência externa era enorme: cerca de 78% dos Cascavéis e 76% dos Urutus produzidos foram exportados. No caso do Jararaca, praticamente toda a produção destinou-se ao exterior.
Líbia transforma o Cascavel em produto de exportação
A Líbia foi um dos primeiros grandes clientes. Documentação da Engesa analisada posteriormente indica exportações de aproximadamente 400 Cascavéis e 40 Urutus para o país — números inferiores às estimativas antigas do SIPRI, que indicavam respectivamente 500 e 180 veículos.
O emprego dos blindados em conflitos no norte da África funcionou como uma vitrine internacional. Cascavéis apareceram nos confrontos envolvendo Líbia e Egito e, posteriormente, nas guerras entre forças líbias e chadianas.
O veículo demonstrava que um produto de um país sem tradição entre os grandes fabricantes de armamentos podia funcionar em condições reais de deserto e enfrentar longas operações longe de grandes estruturas logísticas.
Outros contratos vieram em seguida.
O Iraque torna-se o maior cliente brasileiro
A Guerra Irã-Iraque, iniciada em setembro de 1980, produziu uma explosão na demanda por armamentos. Entre 1980 e 1988, o Iraque tornou-se o maior importador de armas do mundo, respondendo por cerca de 8,1% de todas as importações internacionais de grandes sistemas militares registradas no período.
O Brasil tornou-se seu quarto principal fornecedor, embora permanecesse muito atrás da União Soviética, China e França.
Segundo levantamento baseado nos registros da Engesa, o Iraque recebeu 364 EE-9 Cascavel e 148 EE-11 Urutu, além de caminhões militares e outros equipamentos. Os blindados brasileiros foram efetivamente empregados durante a guerra contra o Irã.
Mas o relacionamento militar não ficou restrito à Engesa.
O Iraque também compraria 80 aeronaves EMB-312 Tucano, fabricadas pela Embraer, e se tornaria fundamental para o desenvolvimento de uma das armas brasileiras de maior sucesso de todos os tempos: o sistema ASTROS II, da Avibras.
Avibras e o ASTROS II
Fundada em 1961 por engenheiros ligados ao ITA, a Avibras acumulou experiência no desenvolvimento dos foguetes brasileiros da família Sonda antes de ingressar de maneira decisiva no mercado de armamentos.
No início dos anos 1980, uma demanda do Iraque por um sistema de artilharia de foguetes de longo alcance ajudou a financiar o desenvolvimento do ASTROS II – Artillery Saturation Rocket System. O projeto começou em 1981 e entrou em produção seriada em 1983.
A arquitetura modular permitia utilizar foguetes de diferentes calibres em uma mesma família de veículos, proporcionando capacidade para atacar áreas extensas e objetivos a diferentes distâncias.
O momento não poderia ser mais favorável. A guerra entre Irã e Iraque consumia enormes quantidades de munições e sistemas de artilharia, enquanto outros países do Golfo aumentavam seus gastos militares diante da instabilidade regional.
Iraque, Arábia Saudita e Qatar compram o ASTROS

Segundo estudo do Ipea, os três principais compradores iniciais do ASTROS II foram Iraque, com 67 unidades; Arábia Saudita, com 76; e Qatar, com 18. Somados, apenas esses três clientes receberam 161 unidades contabilizadas pela pesquisa.
Entre 1975 e 1992, as transferências externas de produtos militares da Avibras são estimadas em aproximadamente US$ 364 milhões, a valores de 2010. O sistema foi, durante muitos anos, essencialmente um produto de exportação.

O contraste é revelador: enquanto países estrangeiros já operavam o ASTROS durante a década de 1980, o próprio Exército Brasileiro só faria sua primeira aquisição do sistema no fim dos anos 1990.
Essa situação ilustra tanto a força quanto a fragilidade do modelo brasileiro. A indústria conseguia desenvolver produtos competitivos, mas dependia de compradores estrangeiros para financiá-los e mantê-los em produção.
Embraer levou a indústria brasileira aos céus

A terceira grande protagonista foi a Embraer.
Criada em 1969 para transformar projetos desenvolvidos no ambiente do CTA e do ITA em produtos industriais, a empresa possuía uma característica que posteriormente seria fundamental para sua sobrevivência: atuava simultaneamente nos mercados civil e militar.
Bandeirante, Brasília e Xingu possuíam versões militares, mas o produto que transformaria a Embraer em importante exportadora de defesa foi o EMB-312 Tucano, cujo desenvolvimento começou no final da década de 1970.
O turboélice oferecia um conceito particularmente atraente. Era muito mais barato de operar que um jato de treinamento, possuía desempenho elevado e podia também executar missões de ataque leve e apoio aéreo.
455 Tucanos exportados ou fabricados sob licença

O Tucano tornou-se um dos maiores êxitos internacionais da indústria aeronáutica brasileira. Segundo o Ipea, a Força Aérea Brasileira adquiriu 133 exemplares, enquanto 455 aeronaves foram exportadas ou produzidas sob licença no exterior, correspondendo a aproximadamente 77% do total considerado pelo estudo.
O Iraque recebeu 80 unidades. O Reino Unido adotou uma versão modificada, fabricada localmente pela Short Brothers, em um programa de 130 aeronaves. A França comprou 50 Tucanos, enquanto outros países da América Latina, África e Oriente Médio também incorporaram o modelo.
A França havia adquirido anteriormente 43 EMB-121 Xingu, em um dos primeiros contratos importantes da Embraer com uma potência militar ocidental.
Entre 1975 e 1992, as transferências externas de equipamentos militares da Embraer são estimadas pelo Ipea em aproximadamente US$ 1,5 bilhão, em dólares de 2010.
Três empresas respondiam por 95% das exportações
Engesa, Avibras e Embraer formavam o núcleo da indústria militar brasileira. Segundo levantamento do Ipea, as três responderam juntas por cerca de 95% das exportações brasileiras de material bélico durante o período de maior expansão.
Ao redor delas existia, entretanto, um ecossistema muito maior. No auge, estima-se que a Base Industrial de Defesa reunisse entre 100 e 150 empresas, abrangendo munições, armas leves, ótica, eletrônica, explosivos, comunicações, veículos e componentes.
A IMBEL produzia armas, munições e equipamentos para as Forças Armadas. A Companhia Brasileira de Cartuchos desenvolvia uma importante presença internacional no setor de munições, enquanto empresas como Helibras, Bernardini, DF Vasconcelos e inúmeras fornecedoras participavam da cadeia.
Por essa razão, rankings que incluem munições, armas leves e outros produtos não contabilizados na metodologia do SIPRI podem produzir resultados bastante diferentes daqueles baseados somente nos chamados “major arms”.
Em valores, blindados lideraram a década

Dados compilados pelo Ipea a partir do SIPRI ajudam a visualizar o peso dos principais segmentos. Entre 1980 e 1989, os grandes sistemas militares brasileiros contabilizados pelo instituto somaram aproximadamente US$ 1,603 bilhão, a preços de 1990.
Desse total, os veículos blindados responderam por US$ 793 milhões, aeronaves por US$ 667 milhões, artilharia por US$ 73 milhões, sensores por US$ 58 milhões e navios por US$ 13 milhões.
Os blindados representaram, em média, aproximadamente 57% das exportações brasileiras de defesa durante a década. Em determinados anos sua predominância foi ainda maior.
A fotografia do período era, portanto, clara: o Brasil havia encontrado nichos nos quais conseguia competir sem tentar reproduzir integralmente a indústria das superpotências.
Por que os produtos brasileiros vendiam?
Um dos segredos era não tentar competir diretamente com Estados Unidos e União Soviética nos sistemas mais sofisticados.
Cascavel, Urutu, Tucano e ASTROS ocupavam segmentos nos quais custo, robustez, facilidade de manutenção e flexibilidade de configuração eram frequentemente mais importantes para o cliente que possuir a tecnologia mais avançada disponível.
A Engesa utilizava componentes amplamente conhecidos, como motores Mercedes-Benz e transmissões comerciais, reduzindo dificuldades de manutenção em países que não possuíam cadeias logísticas sofisticadas. A empresa também modificava rapidamente seus produtos segundo as exigências locais.
Além disso, o Brasil possuía uma vantagem política. Não integrava a OTAN nem o Pacto de Varsóvia e podia negociar com governos que desejavam diversificar fornecedores, reduzir dependências e evitar determinadas restrições impostas pelas grandes potências.
O governo brasileiro ajudava a vender
A atuação comercial das empresas era acompanhada por considerável apoio do Estado.
A Engesa recebeu créditos do BNDES e da CACEX, benefícios fiscais e apoio dos adidos militares brasileiros. Alguns contratos no Oriente Médio faziam parte de negociações mais amplas envolvendo petróleo, commodities, serviços de engenharia e relações entre governos.
O modelo permitia também que produtos fossem desenvolvidos com uma combinação de encomendas iniciais nacionais, financiamento estatal e perspectivas de exportação.
Durante algum tempo, funcionou extraordinariamente bem.
O problema é que o sucesso criou empresas estruturadas para um mercado internacional que parecia continuar crescendo indefinidamente.
Não continuou.
O primeiro sinal de alerta apareceu ainda nos anos 1980
O auge escondia vulnerabilidades. Já em 1981, a Engesa sofreu uma queda de 51,7% nas vendas e precisou recorrer a apoio financeiro. Mais tarde, sua rápida diversificação levou à compra de diversas empresas e ao aumento do endividamento.
Em vez de permanecer essencialmente uma fabricante de blindados, a companhia expandiu-se para caminhões, eletrônica, equipamentos industriais, tratores e outros negócios.
Ao mesmo tempo, decidiu entrar no segmento mais caro e tecnologicamente arriscado da guerra terrestre: o carro de combate principal.
Nascia o EE-T1 Osório.
O Osório e a aposta de tudo ou nada

O Osório foi desenvolvido principalmente para uma concorrência da Arábia Saudita. A Engesa investiu cerca de US$ 60 milhões no programa, esperando que uma grande encomenda internacional proporcionasse escala suficiente para tornar o tanque comercialmente viável.
O veículo apresentou excelente desempenho nos testes realizados no deserto saudita e disputou a concorrência com alguns dos melhores carros de combate ocidentais.
Em 1989, segundo documentação citada pelo Ipea e pelo Congresso norte-americano, o governo saudita chegou a sinalizar uma possível compra de 318 Osórios.
Se concretizado, seria um dos maiores contratos da história da indústria brasileira de defesa.
Mas o cenário geopolítico mudou antes da assinatura.

A Guerra do Golfo muda o jogo

Em agosto de 1990, o Iraque invadiu o Kuwait. A Arábia Saudita tornou-se o centro da enorme mobilização militar liderada pelos Estados Unidos que resultaria na Operação Desert Storm.
A relação entre Washington e Riad tornou-se ainda mais estreita. Ao final, os sauditas optaram pelo norte-americano M1 Abrams, e o contrato que poderia garantir o futuro do Osório desapareceu.
Para a Engesa, a consequência foi devastadora. A companhia havia investido pesadamente em um produto que não possuía encomenda relevante do Exército Brasileiro e dependia praticamente de um grande contrato externo para alcançar escala.
O episódio costuma ser apresentado como a causa da falência da empresa, embora os estudos indiquem que a realidade tenha sido mais ampla: elevado endividamento, diversificação excessiva, retração mundial das compras e desaparecimento dos grandes clientes foram igualmente importantes.
O fim da Guerra Irã-Iraque fechou o principal mercado
O conflito entre Irã e Iraque terminou em 1988. Com ele, desapareceu uma das maiores fontes de demanda para a indústria militar brasileira.
O Iraque havia sido o maior comprador individual do Brasil. Entre 1974 e 1993, o país respondeu por cerca de 21,8% das exportações brasileiras de grandes equipamentos militares contabilizadas pelo SIPRI. A Líbia, segunda colocada, respondeu por 15,3%.
Mais de um terço das vendas brasileiras estava, portanto, concentrado em apenas dois países altamente dependentes da renda do petróleo e envolvidos em conflitos regionais.
Quando a demanda desses mercados diminuiu, o impacto chegou imediatamente às fábricas brasileiras.
O mercado mundial também encolheu
Não foi apenas o Oriente Médio.
O fim da Guerra Fria provocou uma redução geral dos gastos e das importações militares. Exércitos europeus diminuíram efetivos, estoques excedentes foram colocados no mercado e países que antes importavam novos equipamentos passaram a adquirir material usado a preços muito menores.
Segundo o levantamento do Ipea, as importações mundiais de equipamentos militares caíram de aproximadamente US$ 670 bilhões na década de 1980 para US$ 423 bilhões nos anos 1990, uma retração de cerca de 37%.
A situação dos clientes brasileiros foi ainda pior. As importações militares dos dez maiores compradores do Brasil despencaram de aproximadamente US$ 96 bilhões para US$ 37 bilhões, queda de cerca de 61%.
Era exatamente o cenário para o qual o modelo brasileiro estava menos preparado.
Uma indústria excessivamente dependente das exportações

Em meados dos anos 1980, segundo estudo citado pelo Ipea, a indústria militar brasileira era a mais dependente do mercado externo entre as analisadas internacionalmente.
Os números explicam a vulnerabilidade. Mais de três quartos dos Cascavéis, Urutus e Tucanos iam para o exterior. O ASTROS II praticamente nasceu como produto de exportação.
Enquanto os contratos internacionais chegavam, essa estrutura permitia grandes escalas sem exigir que as Forças Armadas brasileiras comprassem volumes equivalentes.
Quando o mercado externo desapareceu, porém, não existia uma demanda doméstica suficientemente grande para ocupar a capacidade industrial instalada.
O Estado também perdeu capacidade de sustentação
A retração externa coincidiu com uma profunda crise econômica brasileira.
A dívida pública, inflação, dificuldades fiscais e a própria reorganização das prioridades nacionais depois da redemocratização limitaram os recursos disponíveis para grandes programas militares.
O Ipea identifica justamente a combinação entre excessiva dependência das exportações e ausência de uma política estatal capaz de substituir temporariamente a demanda externa como um dos elementos estruturais centrais do colapso.
Ao mesmo tempo, a abertura da economia brasileira permitiu às Forças Armadas maior acesso a equipamentos estrangeiros, inclusive excedentes militares baratos produzidos no final da Guerra Fria. Em determinados casos, adquirir material importado tornou-se financeiramente mais atraente que sustentar linhas nacionais de produção.
A tecnologia também estava mudando
Havia ainda outro problema.
Os anos 1990 marcaram uma aceleração do uso de eletrônica digital, sensores avançados, comunicações integradas, guiamento de precisão e sistemas de comando e controle nos equipamentos militares.
A indústria brasileira havia sido extremamente bem-sucedida em produtos de tecnologia intermediária, robustos e acessíveis. Mas vários clientes começaram a demandar sistemas tecnologicamente mais sofisticados, enquanto empresas norte-americanas e europeias buscavam agressivamente mercados externos para compensar a redução das compras em seus próprios países.
O Ipea inclui justamente a dificuldade brasileira de acompanhar produtos de maior intensidade tecnológica entre as razões para a perda de competitividade da Base Industrial de Defesa.
Engesa desaparece, Avibras entra em crise e Embraer muda de rumo
O colapso tornou-se visível no início dos anos 1990.
A Engesa teve sua falência decretada em 1993. Com ela desapareceu uma empresa que havia exportado milhares de veículos e criado uma cadeia nacional de fornecedores e conhecimento especializado.
A Avibras não registrou vendas externas relevantes de produtos militares entre 1993 e 1999, segundo o Ipea, e passou por sucessivas dificuldades financeiras.
A Embraer também chegou à beira de uma situação crítica. Menor demanda militar, dificuldades do mercado aeronáutico e redução do apoio estatal levaram à inclusão da empresa no programa de desestatização. A companhia foi privatizada em dezembro de 1994 e, posteriormente, encontrou sua recuperação principalmente no mercado de jatos regionais civis.
A diversificação que distinguia a Embraer das empresas quase exclusivamente militares acabou sendo fundamental para sua sobrevivência.
De oitavo exportador ao fim de uma era
A dimensão da queda aparece claramente nas estatísticas. No levantamento do SIPRI analisado pelo Ipea, o Brasil respondeu por aproximadamente US$ 4 bilhões, a preços de 2009, em grandes transferências militares entre 1974 e 1993. Entre 1994 e 2009, esse volume caiu para apenas cerca de US$ 600 milhões.
O país não havia perdido subitamente sua capacidade de engenharia. O que desaparecera era o sistema econômico, político e geopolítico que havia permitido transformar essa engenharia em produção seriada e grandes contratos internacionais.
O auge brasileiro dependia simultaneamente de guerra no Oriente Médio, petrodólares, financiamento estatal, capacidade diplomática, encomendas iniciais das Forças Armadas e uma faixa específica do mercado mundial interessada em sistemas robustos de custo relativamente baixo.
Quase todos esses fatores mudaram ao mesmo tempo.
Um sucesso real, mas construído sobre bases frágeis
É tentador interpretar a história da indústria de defesa brasileira dos anos 1980 como simplesmente uma sucessão de grandes projetos destruídos por decisões políticas equivocadas.
A realidade é mais complexa.
O Brasil efetivamente demonstrou capacidade extraordinária para um país em desenvolvimento. Criou centros tecnológicos, formou engenheiros, desenvolveu veículos blindados, aeronaves e sistemas de foguetes competitivos e estabeleceu uma rede industrial capaz de disputar contratos em dezenas de países.
A Engesa exportou aproximadamente 1,3 mil Cascavéis e centenas de Urutus. O Tucano alcançou 455 exemplares exportados ou fabricados sob licença. O ASTROS conquistou grandes contratos no Oriente Médio. Apenas Engesa, Embraer e Avibras concentraram aproximadamente 95% das vendas militares brasileiras.
Mas grande parte dessa estrutura não possuía o elemento que sustenta as principais indústrias militares do mundo: uma demanda nacional relativamente previsível capaz de manter empresas, engenheiros, fornecedores e linhas de produção durante os intervalos entre grandes contratos externos.
Quando as exportações desapareceram, o Estado brasileiro não conseguiu preencher esse vazio.
A principal lição dos anos 1980
O fato de diferentes levantamentos classificarem o Brasil em quinto, oitavo, 11º ou 16º lugar dependendo da metodologia é menos importante que a transformação histórica representada pelo período.
Por cerca de duas décadas, o Brasil esteve entre o pequeno grupo de países capazes de projetar, fabricar e exportar sistemas militares complexos em escala internacional, condição muito incomum fora dos Estados Unidos, União Soviética e principais potências europeias.
O país chegou a esse patamar porque combinou ciência, engenharia, indústria, financiamento estatal, diplomacia e uma estratégia deliberada de exportação.
E perdeu grande parte daquela posição porque a arquitetura que sustentava o modelo dependia excessivamente de circunstâncias externas excepcionais.
O fim da Guerra Irã-Iraque, a queda dos gastos militares após a Guerra Fria, a crise fiscal brasileira, o fracasso comercial do Osório, a redução das encomendas nacionais e a ausência de uma política capaz de preservar capacidades industriais durante a retração externa produziram, em conjunto, o ocaso daquela que ficou conhecida como a “era de ouro” da indústria brasileira de defesa.
O legado, contudo, não desapareceu completamente. A sobrevivência da Embraer, a continuidade tecnológica do ASTROS e a experiência industrial acumulada demonstraram que o conhecimento desenvolvido naquele período podia atravessar crises profundas.
A história dos anos 1980 deixou, sobretudo, uma lição que permanece válida para qualquer país que pretenda manter uma indústria estratégica: exportações podem proporcionar escala e transformar empresas nacionais em competidores globais, mas dificilmente substituem por completo uma política doméstica de defesa estável, de longo prazo e capaz de preservar conhecimento quando o mercado internacional muda.■
FONTES: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea); Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI); Ministério da Defesa; Escola de Guerra Naval; Fundação Alexandre de Gusmão; Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); SciELO; estudos de Expedito Carlos Stephani Bastos e documentação histórica sobre Engesa, Avibras e Embraer.









Quando o Brasil poderia ter trilhado antes o caminho que a China trilhou. Viramos piada no exterior. Anão diplomático.
A China observou e copiou os melhores exemplos dos demais países que deram certo, principalmente o de educação (modeloe alemão e modelo americano). O Brasil observou e copiou só as coisas ruim.
Verdade.Nossa sociedade paga diariamente o preço dessas escolhas.Pior que os conflitos atuais pelo mundo mostram como o Brasil estava indo no caminho certo de depender o mínimo possível de outros países para ter armamentos para nossa realidade.Lembrando que países que lideram as vendas de armas ainda sim não são autossuficientes nessa questão.
Aproveitando a deixa dessas matérias fantásticas temos de lembrar que antes dessa gente toda que está aí no mercado tipo BYD,Tesla do Elon Musk e outras marcas chinesas de carro elétrico o Gurgel Itaipu E150 surgiu como um projeto pioneiro de mobilidade elétrica no Brasil.
E foi sufocado pelo estado que de vez apoia uma indústria 100% nacional preferiu dá benefícios para multinacionais…o mesmo erro que esta acontecendo agora com a entrada das montadoras chinesas
Fico muito triste com isso.O Brasil tinha até equipe de F1.Hoje eles usam um lá um motor turbo e híbrido.Já pensou um Copersucar que usasse um motor híbrido brasileiro na categoria? Se tudo tivesse dado certo.
O estado foi o maior comprador da Gurgel e deu diversos incentivos fiscais para a empresa. O carro da gurgel pagava menos ipi que os dos concorrentes alem de ter recebido diversos empréstimos do governo sem garantias.O problema é que o carro era ruim, ninguem queria aquilo. O que matou a gurgel foi a lei do 1.0. E carro elétrico existia desde o século xix, e o dele não era na melhor que um carrinho de golfe da epoca
“A literatura brasileira de defesa consagrou a afirmação de que o país chegou a ser o oitavo maior exportador mundial de material bélico, posição citada em trabalhos do Ministério da Defesa, da Escola de Guerra Naval e do próprio Ipea. Algumas pesquisas chegam a colocar o Brasil em quinto lugar em determinados momentos de meados da década de 1980.
Essa classificação, entretanto, exige uma ressalva. Os rankings variam conforme o período considerado e, principalmente, segundo o conceito de “armamento” utilizado. A série do SIPRI restrita a grandes sistemas de armas coloca o Brasil em posições inferiores: no acumulado de 1974 a 1993, por exemplo, o país aparece em 16º lugar, com cerca de 0,32% do volume mundial; para 1984-1988, outro levantamento do instituto o classificou como 11º fornecedor.”
Inúmeras vezes eu contestei a “informação” que o Brasil chegou a ser o 5° maior exportador de armas do mundo nos anos 1980 porque simplesmente não faz o menor sentido achar que o conjunto de armamentos vendidos pelo Brasil na época, que eram relativamente baratos (Tucano, Astros, Cascavel e Urutu), fosse suficiente para ultrapassar países que vendiam armamentos mais caros, como caças, MBTS, navios e submarinos. Então, no mínimo, EUA, URSS, Alemanha, França, Reino Unido e Itália estariam na frente do Brasil, o que o afastaria da 5ª posição com folga.