Os dois primeiros governos Lula: crescimento, inclusão social e a retomada dos grandes projetos de Defesa
Entre 2003 e 2010, Luiz Inácio Lula da Silva governou um Brasil que começou o período sob forte desconfiança dos mercados, juros elevados e vulnerabilidade externa e terminou com reservas internacionais próximas de US$ 289 bilhões, desemprego em mínima histórica e crescimento de 7,5% no último ano. A combinação de estabilidade macroeconômica, boom das commodities, expansão do crédito, valorização real do salário mínimo e políticas de transferência de renda produziu uma importante transformação social. Na Defesa, os oito anos também marcaram uma inflexão: surgiram a Estratégia Nacional de Defesa, o PROSUB, o Guarani, o KC-390 e o H-XBR, enquanto projetos como o F-X2 permaneceram sem decisão
Quando Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2003, sua chegada à Presidência representava uma ruptura histórica. Ex-metalúrgico, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e fundador do Partido dos Trabalhadores, Lula havia perdido três eleições presidenciais antes de finalmente vencer José Serra no segundo turno de 2002, com 61,3% dos votos válidos.
Sua eleição, entretanto, ocorreu em meio a uma grave crise de confiança financeira. Durante 2002, investidores temiam mudanças bruscas na política econômica, o Real sofreu forte desvalorização e o risco-país disparou. Uma das primeiras decisões do novo governo foi justamente surpreender parte de sua própria base política: em vez de abandonar o chamado tripé macroeconômico herdado do governo Fernando Henrique Cardoso, Lula manteve câmbio flutuante, metas de inflação e disciplina fiscal.
Essa combinação entre continuidade macroeconômica e mudanças importantes na política social e no papel do Estado acabaria caracterizando os dois primeiros governos Lula.
2003: o primeiro desafio foi recuperar a confiança
O início foi duro. O Banco Central, presidido por Henrique Meirelles, manteve uma política monetária severa para conter as pressões inflacionárias produzidas pela desvalorização cambial de 2002. A taxa Selic chegou a 26,5% ao ano no primeiro semestre de 2003, enquanto o governo elevou a meta de superávit primário para 4,25% do PIB.
O resultado foi uma forte desaceleração. O PIB cresceu apenas 1,1% em 2003, enquanto o IPCA terminou o ano em 9,30%. A política restritiva, porém, ajudou a reancorar expectativas: segundo o Banco Central, a inflação acumulada em 12 meses, que chegara a 17% em maio de 2003, havia recuado para 5,2% um ano depois.
A opção provocou críticas dentro do próprio PT, cujos setores mais à esquerda esperavam uma ruptura com a política econômica anterior. Na prática, Lula procurou demonstrar que a expansão dos programas sociais e a mudança das prioridades governamentais seriam realizadas sem abandonar a estabilidade monetária conquistada com o Plano Real.
Essa decisão seria fundamental para o restante do período.
A economia começa a acelerar
Depois do fraco desempenho de 2003, a economia reagiu. O PIB cresceu 5,7% em 2004, 3,2% em 2005, 4,0% em 2006, 6,1% em 2007 e 5,2% em 2008. Depois da recessão provocada pela crise financeira internacional em 2009, quando houve retração de aproximadamente 0,6%, o crescimento atingiu 7,5% em 2010.
Considerando os oito anos entre 2003 e 2010, a expansão média foi de aproximadamente 4% ao ano. Era significativamente superior à observada na década anterior, embora ainda distante das taxas do Milagre Econômico dos anos 1968-1973.
O crescimento não teve uma única causa. O país beneficiou-se de uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável, especialmente entre 2003 e 2008, com forte expansão da economia chinesa e valorização internacional de minério de ferro, soja, petróleo e outras commodities brasileiras. Ao mesmo tempo, políticas domésticas ampliaram o consumo, o crédito e a renda das famílias.
A China transforma o comércio exterior brasileiro
A ascensão chinesa foi um dos acontecimentos econômicos mais importantes do período. Entre 2000 e 2010, as exportações brasileiras destinadas à China saltaram de apenas US$ 1,1 bilhão, ou 2% das vendas externas, para US$ 30,8 bilhões, cerca de 15% do total.
A demanda chinesa ajudou a elevar os preços e os volumes exportados de minério de ferro, soja e outras matérias-primas. O resultado melhorou a balança comercial e trouxe grande quantidade de dólares para o país.
Mas essa transformação continha uma ambiguidade que se tornaria mais visível posteriormente. Enquanto o Brasil aumentava fortemente suas vendas de commodities para a China, os produtos industriais chineses ganhavam participação crescente no mercado brasileiro. A relação proporcionou receitas externas extraordinárias, mas também contribuiu para aumentar o peso dos produtos básicos na pauta exportadora.
Portanto, atribuir todo o crescimento dos anos Lula exclusivamente à política interna ou exclusivamente ao “boom das commodities” simplifica excessivamente o período. O ciclo resultou da combinação entre uma conjuntura internacional favorável e decisões domésticas que ampliaram a capacidade de o mercado interno absorver renda e crédito.
De devedor vulnerável a detentor de quase US$ 289 bilhões em reservas
Poucos indicadores mostram tão claramente a mudança da posição externa brasileira quanto as reservas internacionais.
Em dezembro de 2003, o país possuía aproximadamente US$ 49,3 bilhões em reservas brutas. Ao final de 2010, o Banco Central registrava US$ 288,57 bilhões — quase seis vezes mais.
O acúmulo criou uma enorme proteção contra crises cambiais. Em vez de depender de empréstimos emergenciais para defender a moeda, o Banco Central passou a dispor de centenas de bilhões de dólares para enfrentar movimentos abruptos de capitais.
Em dezembro de 2005, o Brasil antecipou o pagamento de aproximadamente US$ 15,5 bilhões ainda devidos ao Fundo Monetário Internacional. O cronograma original previa quitação posterior. O Banco Central calculou que as antecipações realizadas naquele ano produziriam economia de aproximadamente US$ 900 milhões em juros.
A operação teve forte valor simbólico. Poucos anos antes, acordos com o FMI faziam parte recorrente da política econômica brasileira. No final do primeiro mandato Lula, essa dependência havia diminuído significativamente.
A dívida líquida pública também caiu
Outro indicador utilizado pelo governo era a Dívida Líquida do Setor Público. Ela correspondia a 58,7% do PIB no final de 2003 e havia recuado para 40,4% do PIB em dezembro de 2010, segundo a metodologia do Banco Central.
Essa comparação exige uma ressalva. Dívida líquida não é sinônimo de dívida bruta: ela desconta ativos do setor público, entre eles reservas internacionais. O enorme acúmulo de reservas contribuiu, portanto, para melhorar o indicador líquido.
Ainda assim, a transformação da composição da dívida e a redução da exposição cambial diminuíram a vulnerabilidade fiscal a desvalorizações do Real. Em 2002, uma crise cambial podia elevar rapidamente a dívida pública porque parcela importante estava indexada ao dólar; ao final da década, essa relação havia mudado substancialmente.
O crédito praticamente dobrou em proporção ao PIB
Outra transformação silenciosa ocorreu no sistema financeiro.
No início do governo Lula, as operações de crédito equivaliam a aproximadamente 24,6% do PIB. Em 2010, já correspondiam a 46,4%, segundo o Banco Central.
Cartão de crédito, financiamento de automóveis, crédito imobiliário e, especialmente, crédito consignado ampliaram o acesso das famílias ao sistema bancário. A expansão coincidiu com crescimento do emprego formal e da renda, permitindo que milhões de consumidores passassem a adquirir bens duráveis anteriormente inacessíveis.
Essa foi uma das diferenças fundamentais em relação aos anos 1990. A estabilidade monetária havia criado as condições para o crédito de longo prazo; nos anos 2000, ele passou a atingir uma parcela muito maior da população.
O salário mínimo ganhou quase 50% de poder de compra
A política de valorização do salário mínimo teve importância igualmente grande.
Entre 2003 e 2010, o valor nominal passou de R$ 240 para R$ 510. No mesmo período, o INPC acumulou aproximadamente 42,2%, enquanto o aumento nominal do mínimo foi de 112,5%. Segundo estudo do Ipea, o resultado correspondeu a um ganho real de poder de compra de cerca de 49,5%.
O efeito ultrapassava os trabalhadores que recebiam diretamente o piso. O salário mínimo servia de referência para aposentadorias, pensões, benefícios assistenciais e diferentes remunerações no mercado de trabalho.
Assim, sua valorização funcionou também como um mecanismo de redistribuição de renda, especialmente para famílias de menor renda e pequenos municípios onde pagamentos previdenciários possuem peso elevado na economia local.
O desemprego caiu praticamente pela metade
O mercado de trabalho foi uma das áreas em que a mudança se tornou mais perceptível.
Nas seis regiões metropolitanas acompanhadas pela antiga Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, a taxa média de desemprego caiu de 12,4% em 2003 para 6,7% em 2010, então o menor resultado anual daquela série histórica.
Também ocorreu uma forte formalização. Entre janeiro de 2003 e junho de 2010, dados da RAIS e do CAGED compilados pelo Ipea apontavam a geração líquida de 13.996.953 empregos formais.
Ter carteira assinada significava mais que emprego: ampliava acesso a férias remuneradas, 13º salário, FGTS, Previdência e crédito. Por isso, a formalização teve repercussões sociais muito maiores que a simples redução da taxa de desocupação.
Bolsa Família transforma a política social
No campo social, o programa que se tornou símbolo dos governos Lula foi o Bolsa Família, criado em 2003 e institucionalizado pela Lei nº 10.836, de janeiro de 2004.
O programa integrou iniciativas anteriormente dispersas, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio Gás e Cartão Alimentação, estabelecendo transferência direta de renda condicionada, entre outros critérios, à frequência escolar das crianças e ao acompanhamento básico de saúde.
A escala cresceu rapidamente. Em dezembro de 2005, o programa atendia 8,7 milhões de famílias. Em 2010, os benefícios alcançavam aproximadamente 12,7 milhões de famílias — perto de 50 milhões de pessoas — e as transferências anuais ultrapassavam R$ 13 bilhões.
O Bolsa Família não explica sozinho a queda da pobreza. Emprego, salário mínimo, aposentadorias, crescimento econômico e outras políticas tiveram participação igualmente relevante. Mas estudos do Ipea encontraram efeitos importantes do programa sobre a pobreza e, especialmente, sobre a desigualdade devido à forte concentração dos benefícios nos estratos inferiores de renda.
Pobreza e desigualdade recuam
Os indicadores sociais refletiram essa combinação.
Uma série do Ipea mostra que a proporção da população abaixo da linha de pobreza passou de 39,4% em 2003 para 25,3% em 2008, mantendo uma trajetória contínua de queda naquele intervalo.
Outra análise do instituto registra que, entre 2001 e 2009, o coeficiente de Gini da renda domiciliar per capita caiu de aproximadamente 0,59 para 0,54. A redução da desigualdade já havia começado antes da posse de Lula, mas ganhou intensidade durante a década de 2000.
O processo combinou aumento do emprego, maior remuneração dos trabalhadores de menor renda, valorização do piso nacional e transferências sociais. Estudos do Ipea mostram que mudanças na distribuição dos rendimentos do trabalho responderam por parcela importante da queda da desigualdade, evitando a simplificação de atribuir todo o fenômeno a um único programa.
Universidades federais chegam ao interior
A expansão das políticas sociais também alcançou o ensino superior.
O Programa Universidade para Todos (ProUni) foi instituído em 2005 para conceder bolsas em instituições privadas a estudantes de menor renda. Dois anos depois, o governo criou o Reuni, destinado à expansão e reestruturação das universidades federais.
A interiorização foi expressiva. Segundo levantamento do Ipea, o número de campi das universidades federais passou de 151 em 2003 para 255 até 2010, levando instituições federais a cidades que até então não possuíam ensino superior público dessa natureza.
A expansão ampliou vagas, mas também trouxe desafios relacionados a infraestrutura, contratação de professores, assistência estudantil e manutenção. Parte importante das obras e do crescimento das matrículas somente seria concluída nos governos seguintes.
O PAC recoloca o investimento público na agenda
O segundo mandato começou em 2007 com uma política econômica mais explicitamente voltada à expansão do investimento.
Em janeiro daquele ano foi lançado o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), reunindo projetos públicos e privados de energia, transportes, saneamento, habitação e infraestrutura urbana. O programa inicialmente previa R$ 503,9 bilhões em investimentos entre 2007 e 2010.
O PAC não significava que todos esses recursos sairiam diretamente do orçamento federal. A cifra incluía investimentos de estatais, especialmente Petrobras e Eletrobras, financiamento público e recursos privados.
Mesmo assim, simbolizou uma mudança de ênfase. Depois de anos em que estabilização e ajuste fiscal dominaram o debate, o governo procurava recolocar planejamento e infraestrutura no centro da política econômica.
Minha Casa, Minha Vida surge depois da crise
Em 2009 surgiu outro programa de grande impacto posterior: o Minha Casa, Minha Vida.
Criado naquele ano e transformado em lei em julho, o programa estabeleceu mecanismos de subsídio e financiamento para ampliar a produção e aquisição de moradias, especialmente por famílias de menor renda.
Além do objetivo habitacional, o programa teve função anticíclica. Construção civil é intensiva em mão de obra e possui uma grande cadeia de fornecedores; estimular habitação ajudava simultaneamente a sustentar emprego e investimento no momento em que a crise internacional ameaçava reduzir fortemente a atividade econômica.
O Mensalão produz a maior crise política do primeiro mandato
Os resultados econômicos e sociais não impediram uma grave crise política.
Em 2005, as investigações da CPI dos Correios revelaram um esquema de financiamento político que ficaria conhecido como Mensalão. As denúncias atingiram integrantes importantes do PT, do governo e partidos da base parlamentar e provocaram a saída de figuras centrais da administração. A investigação parlamentar forneceria parte importante do material posteriormente utilizado na Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal.
A crise parecia inicialmente ameaçar a reeleição presidencial. Lula, entretanto, recuperou apoio político e venceu novamente em 2006, com cerca de 60,8% dos votos válidos no segundo turno.
A combinação entre expansão do emprego, valorização salarial e políticas sociais tornou-se particularmente importante para sua popularidade entre os segmentos de menor renda.
A crise mundial de 2008 coloca o modelo à prova
Em setembro de 2008, a quebra do Lehman Brothers transformou a crise imobiliária norte-americana numa crise financeira mundial. Mercados de crédito praticamente congelaram e o choque rapidamente alcançou o Brasil.
A situação era, contudo, muito diferente das crises externas vividas pelo país em 1998 ou 2002. O Brasil tinha reservas superiores a US$ 200 bilhões, dívida externa líquida drasticamente menor e um sistema bancário mais capitalizado. Isso deu ao governo maior espaço para reagir.
O Banco Central liberou liquidez, incluindo reduções de recolhimentos compulsórios. Bancos públicos ampliaram a concessão de crédito enquanto instituições privadas recuavam. Estudos posteriores do próprio Banco Central concluíram que essa atuação contribuiu para amortecer o impacto da crise sobre a oferta de financiamento.
Em janeiro de 2009, o Tesouro foi autorizado a disponibilizar R$ 100 bilhões adicionais ao BNDES, aumentando sua capacidade de financiar empresas e investimentos. Também foram utilizados desonerações tributárias e estímulos ao consumo.
A economia entrou em recessão em 2009, mas recuperou-se rapidamente. Em 2010, o PIB saltou 7,5%, maior expansão anual em décadas.
A velocidade dessa recuperação, entretanto, também deixaria uma discussão para os anos seguintes: até que ponto o crescimento de 2010 representava retorno sustentável da produtividade e do investimento, ou uma expansão excepcional impulsionada por crédito, estímulos fiscais e recuperação depois da recessão.
Inflação permaneceu controlada, mas os juros continuaram elevados
A estabilidade de preços foi preservada durante o período, embora não sem tensões. O IPCA caiu dos 9,30% de 2003 para 5,91% em 2010, passando por anos de inflação ainda menor no intervalo.
Ao mesmo tempo, o Brasil continuou convivendo com taxas reais de juros muito elevadas em comparação internacional. O primeiro mandato, principalmente, utilizou política monetária bastante restritiva para preservar a credibilidade do regime de metas.
Essa é uma das contradições econômicas dos anos Lula. O governo ampliou políticas sociais, crédito público e investimentos, mas preservou durante boa parte dos oito anos uma arquitetura macroeconômica fundada em superávits primários, câmbio flutuante e Banco Central fortemente comprometido com a meta de inflação.
A Defesa começa a ganhar uma estratégia de longo prazo
Nas Forças Armadas, talvez a transformação mais importante tenha sido conceitual e institucional.
Em 2005, o governo aprovou uma nova Política de Defesa Nacional. O documento reafirmou a prioridade da defesa externa, destacou a importância do entorno estratégico brasileiro e procurou aproximar os temas militares do planejamento nacional.
O passo decisivo ocorreu em 18 de dezembro de 2008, com a publicação da primeira Estratégia Nacional de Defesa (END). O documento procurou organizar de maneira sistemática três dimensões: reorganização das Forças Armadas, reestruturação da indústria nacional de defesa e política de efetivos.
A END estabeleceu ainda três áreas tecnológicas consideradas estratégicas: nuclear, cibernética e espacial. Defendeu maior autonomia tecnológica, transferência de tecnologia nas aquisições externas e fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
O próprio documento, entretanto, reconhecia os problemas existentes: insuficiência e descontinuidade de recursos, obsolescência de equipamentos e elevada dependência de produtos estrangeiros.
PROSUB transforma o programa de submarinos da Marinha

O programa mais ambicioso lançado no período foi o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB).
A parceria estratégica com a França, assinada em 2008, estabeleceu a construção no Brasil de quatro submarinos convencionais, uma infraestrutura industrial e base naval em Itaguaí e, sobretudo, a capacitação necessária para projetar e construir o primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear.

A transferência francesa abrange técnicas de projeto e construção de submarinos, mas não a tecnologia nuclear, que permanece integralmente sob responsabilidade brasileira.
O programa nuclear naval era muito anterior ao governo Lula, remontando às décadas anteriores. O que aconteceu a partir de 2008 foi a criação de uma estrutura industrial e tecnológica de grande escala que conectou o desenvolvimento do reator brasileiro à construção efetiva do casco do futuro submarino nuclear.
Como se tratava de um projeto de décadas, praticamente todos os resultados materiais do PROSUB surgiriam depois de 2010.
Exército lança o Guarani

Para o Exército, um dos marcos mais importantes foi a criação da nova família de blindados VBTP-MR Guarani, destinada progressivamente a substituir os antigos EE-11 Urutu e parte da frota sobre rodas herdada da Engesa.
Em dezembro de 2007, foi firmado o contrato para desenvolver a nova Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Média sobre Rodas e produzir um lote piloto de 16 veículos, numa parceria com a então Fiat/Iveco.
O programa procurava recuperar no país competências industriais relacionadas a blindados sobre rodas, incorporando produção nacional, transferência de conhecimento e possibilidade de evolução para uma família com diferentes versões.
Assim como o PROSUB, o Guarani começou durante Lula, mas sua produção seriada em maior escala ocorreu posteriormente.
Leopard 1A5 reforça a força de carros de combate

O Exército também decidiu renovar seus carros de combate.
Em 2006, foi selecionado um lote de 250 Leopard 1A5 usados provenientes do Exército alemão. Os veículos passaram por revisão e adaptação antes de serem entregues ao Brasil, com as primeiras unidades chegando no final da década.
O Leopard 1A5 representava avanço importante em sistemas de tiro e capacidade de combate em relação aos Leopard 1A1 e M60 utilizados anteriormente, embora continuasse sendo uma plataforma desenvolvida durante a Guerra Fria.
A escolha revela uma característica da modernização do período: ao mesmo tempo em que o governo lançava programas nacionais de longo prazo, ainda recorria a compras de oportunidade de material usado para recuperar capacidades mais rapidamente.
SISFRON nasce nos últimos dias do governo
Outro projeto que se tornaria central para o Exército foi formalmente iniciado no final de 2010.
Em 22 de dezembro, a Portaria nº 193 do Estado-Maior do Exército aprovou a diretriz de implantação do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON).
O conceito previa integrar radares, sensores eletro-ópticos, comunicações, inteligência e unidades operacionais numa rede capaz de ampliar a vigilância dos milhares de quilômetros de fronteiras terrestres brasileiras.
Na prática, 2010 marcou apenas o nascimento administrativo do programa; desenvolvimento, contratação e implantação ocorreriam nos governos posteriores.
KC-390: a FAB aposta novamente em um grande avião brasileiro
Para a Força Aérea, um dos maiores legados industriais foi o início do KC-390, atual KC-390 Millennium.
Em abril de 2009, o governo contratou a Embraer para desenvolver uma aeronave de transporte militar e reabastecimento em voo destinada, entre outras funções, a substituir progressivamente os C-130 Hércules.
O programa recuperava uma lógica semelhante àquela que havia produzido o Bandeirante, o Tucano e o Super Tucano: a Força Aérea financiava um requisito militar brasileiro que, se bem-sucedido, poderia transformar-se também em produto de exportação.
Novamente, os resultados concretos viriam muitos anos depois. O primeiro protótipo somente voaria em 2015 e as entregas operacionais começariam posteriormente.
H-XBR reúne as três Forças em uma mesma família de helicópteros

Outro grande contrato foi o H-XBR, associado ao helicóptero EC725, posteriormente denominado H225M.
O acordo firmado em 2008 previa 50 aeronaves, sendo 16 para cada uma das três Forças Armadas e duas destinadas ao transporte presidencial, acompanhadas de produção no Brasil e compromissos de transferência tecnológica e compensação industrial.
A escolha representava também uma tentativa de padronização logística. Marinha, Exército e Aeronáutica passariam a operar variantes de uma plataforma comum, produzida pela Helibras em Itajubá.
Era um exemplo claro da filosofia defendida pela Estratégia Nacional de Defesa: adquirir no exterior sem simplesmente importar o produto acabado, buscando incorporar tecnologia e produção industrial ao país.
O F-X2 foi a grande decisão que Lula não tomou

Nem todos os grandes programas avançaram.
O projeto de substituição dos caças da FAB, iniciado ainda no governo FHC, foi retomado como F-X2. Em 2008, a concorrência chegou à lista final com três candidatos: o francês Dassault Rafale, o norte-americano Boeing F/A-18E/F Super Hornet e o sueco Saab Gripen NG.
Apesar de anos de avaliações técnicas e intensas negociações políticas, Lula terminou seu segundo mandato sem anunciar o vencedor. Para preencher a lacuna da desativação dos Mirage III da FAB, negociou a compra de 12 caças Mirage 2000 usados da Força Aérea Francesa.
A decisão foi transferida para Dilma Rousseff e somente seria tomada em 2013, quando o Gripen foi escolhido.
O episódio demonstra novamente os limites do ciclo de modernização: houve retomada do planejamento e lançamento de grandes projetos, mas nem sempre os recursos e as decisões acompanharam o ritmo das ambições estratégicas.
Em 2010 nasce o Estado-Maior Conjunto
No campo institucional, uma última mudança importante ocorreu poucos meses antes da saída de Lula.
A Lei Complementar nº 136, de 25 de agosto de 2010, fortaleceu as atribuições do Ministério da Defesa e criou formalmente o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), responsável pelo planejamento do emprego conjunto e pelo assessoramento ao ministro da Defesa.
Era uma consequência direta da END de 2008, que já defendia maior integração entre Marinha, Exército e Força Aérea.
A medida procurava superar uma tradição na qual cada Força planejava e executava grande parte de suas atividades de maneira relativamente independente.
Uma mudança importante, mas cujos resultados apareceriam depois
Ao contrário de ciclos anteriores de reaparelhamento, os maiores programas militares lançados nos anos Lula foram concebidos para produzir resultados durante décadas.
O PROSUB não entregaria submarinos durante seus dois primeiros governos. O KC-390 existia ainda no projeto. O Guarani estava em desenvolvimento. O SISFRON acabava de ser formalmente criado. A produção nacional dos EC725 estava apenas começando.
Por isso, o legado militar do período não deve ser medido apenas pela quantidade de novos equipamentos incorporados entre 2003 e 2010.
A principal mudança foi recolocar planejamento estratégico, autonomia tecnológica e indústria de Defesa numa agenda coordenada pelo Estado, culminando na Estratégia Nacional de Defesa de 2008. Ao mesmo tempo, a própria END admitia que orçamento irregular e obsolescência continuavam limitando a capacidade real das Forças.
O Brasil que Lula entregou em 2010
Quando Lula deixou o Palácio do Planalto em 31 de dezembro de 2010, o Brasil era economicamente e socialmente bastante diferente daquele recebido oito anos antes.
O PIB havia atravessado um ciclo médio de crescimento de aproximadamente 4% ao ano e avançara 7,5% no último ano. O desemprego nas principais regiões metropolitanas havia caído de 12,4% para 6,7%. O salário mínimo registrara ganho real de quase 50%. Quase 14 milhões de empregos formais haviam sido criados até meados de 2010.
As reservas internacionais haviam passado de US$ 49,3 bilhões para US$ 288,6 bilhões, a dívida com o FMI havia sido antecipadamente quitada, o crédito saltara de cerca de um quarto para quase metade do PIB e a dívida líquida do setor público recuara de 58,7% para 40,4% do produto.
No campo social, pobreza e desigualdade caíram significativamente, o Bolsa Família atingiu cerca de 12,7 milhões de famílias e a rede universitária federal passou por forte processo de interiorização.
Esse balanço, contudo, não elimina as contradições. O país continuava apresentando desigualdade elevada, infraestrutura deficiente, juros altos e forte dependência de commodities em parte de sua expansão externa. Alguns mecanismos utilizados na recuperação de 2009-2010 — expansão acelerada do crédito público, incentivos setoriais e crescente protagonismo do BNDES — também alimentariam debates econômicos nos anos seguintes.
Politicamente, o período ficou marcado tanto pela ampliação da inclusão social quanto pelo Mensalão, a maior crise do primeiro mandato.
Na Defesa, ocorreu algo semelhante: houve uma ambição estratégica muito superior à disponibilidade imediata de recursos. O governo lançou programas que modificariam profundamente as Forças Armadas, mas praticamente todos dependiam de continuidade orçamentária durante administrações posteriores.
Vista em perspectiva histórica, talvez a característica central dos dois primeiros governos Lula tenha sido justamente a combinação de continuidade e transformação.
Lula manteve a estabilidade monetária, o câmbio flutuante e a responsabilidade fiscal que haviam estruturado o Brasil pós-Plano Real, mas acrescentou uma política de valorização salarial, expansão do crédito, transferências de renda e maior intervenção estatal no investimento. Na Defesa, preservou instituições criadas na década anterior, mas procurou convertê-las em uma estratégia mais ambiciosa de autonomia tecnológica.
Os oito anos não criaram do zero as bases econômicas que encontraram em 2003, nem podem ser explicados apenas pela conjuntura internacional excepcionalmente favorável. O resultado nasceu da interação entre aquilo que o governo herdou, aquilo que decidiu preservar, as políticas que acrescentou e uma oportunidade histórica proporcionada pela ascensão da China e pelo maior ciclo mundial de commodities em décadas.
Quando esse ciclo se encontrou com aumento do emprego, do salário, do crédito e da proteção social, seus efeitos chegaram a milhões de brasileiros.
E quando o mesmo ambiente de maior capacidade financeira encontrou uma nova concepção de Defesa, surgiram projetos como PROSUB, Guarani, KC-390 e H-XBR — programas cujo verdadeiro impacto somente se tornaria plenamente visível muitos anos depois do fim do segundo governo Lula.
FONTES: IBGE, Banco Central do Brasil, Ipea, BNDES, Ministério da Defesa, Marinha do Brasil, Exército Brasileiro, Força Aérea Brasileira, Presidência da República e Tribunal Superior Eleitoral.
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Sarkozy adorou!
Faltou citar a corrupção desenfreada que destruiu o que restava das instituições desse país. Que nunca mais vai se recuperar do estrago que foi feito.
O estrago com as roubalheiras foi realmente gigantesco e vai demorar para recuperar.
Mas o estrago maior foi ideológico.
Com os reitores nas universidades federais, novos professores, cursos do MEC para professores das escolas estaduais, pós graduação de graça para esses professores e muita lavagem cerebral + muitos bilhões em publicidade governamental e das estatais + muitos jornalistas que ganhavam 20 mil e fizeram um blog e começaram a receber 200 mil por mês de verbas federais + os artistas com apresentações milionárias
E hoje a quantidade de esquerdista no Brasil está gigantesca.
Tudo calculado lá atrás para o projeto de transformar o Brasil em um país comunista e se perpetuarem no poder.
Lá na década de 90 Lula já falava para não terem medo, que não tinha como transformar o Brasil em um país socialista em apenas 4 anos, que demoraria uns 30 anos.
Pois é, já chegamos em 20 anos do PT, com uma pequena interrupção.
Se ele ganhar esse ano, iremos para 24 anos.
Sucesso absoluto. Economia destruída, criminalidade protegida. Mas as grandes mídias, os bancos e as empresas companheiras ganhando absurdamente bem.
O povo brasileiro é ingrato, né?
Tanta gente querendo melhorar o País e lá vem a população eleger esse sujeito de novo.
Pense pelo lado positivo no que diz respeito aos investimentos militares.
Teve um Governo que veio depois que o incluso investimento no setor foi em laboratórios militares para produzir cloroquina.
E o dinheiro sumiu e nada aconteceu.
Pelo menos, nesse caso, foi excelente.
Igual Maluf …rouba mais faz…excelente mesmo..por isso somos essa potência militar que somos hj..
Não vamos ser potência, colocando militares no serviço público, como o gênio das machadinhas fez.
verdade..a fórmula certa é falar em soberania pro público e cortar orçamento da Defesa ao mesmo tempo.
Não seremos potência com essa sociedade mediocre, hipócrita e sem cidadania que elege políticos de carreira de 2 em 2 anos!
O Governo que veio depois poderia ter congelado ou cancelado todos os Projetos Militares para focar na Pandemia, mas deu continuidade. Não votaria na Família Bolsonaro mas acho injusto comparar com qualquer Governo pois passamos praticamente 90% do mandato sob uma Pandemia!!!
Com a devida vênia, Brasil segue líder em a$$#tos, corr%ç@o, burocracia, eneficiência, estradas esburacadas, falta de saneamento.
propaganda pro governo no 15….
O título resume tudo.
E muito bem.
E não me venham com chororô.
Aguardo os 8 anos de Dilma
E uma análise explicando que o que o Lula fez nos seus 8 anos, contribuiu fortemente para o país quebrar completamente no governo da Dilma.
E a tal retomada dos grandes projetos de defesa também foi um total Fiasco.
O único grande foi o PROSUB e demorou mais de 15 anos para receber o primeiro submarino convencional e vai levar uns 25 anos para receber o primeiro nuclear.
Algo que vale à pena lembrar é que várias construtoras resolveram montar divisões focadas na área da Defesa.
Inclusive comprando e absorvendo empresas menores que já eram do ramo.
Como a Odebrecht Defesa (a mesma do sítio de Atibaia), OAS Defesa (a mesma do Triplex no Guarujá), a AG Defesa e Segurança (Andrade e Gutierrez) entre outras.
Realmente o L queria comprar alguns brinquedos para as forças armadas, mas tinha que ser no Padrão “Petralhas” como estava acostumado a fazer com as grandes obras na aérea da construção civil.
Sério ? Poh em plena campanha onde Lula concorre a eleição ? Ai ta muito na cara
A verdade dói nos reaças. Existe um tipo de corrupção que é muito pior do que aconteceu no Brasil: a institucionalizada, a colocada na lei, e essa não pode ser investigada e punida.
Todo ano, 20% do orçamento,…ou bilhões de reais, na mão do Centrão. Todo ano, bilhões em sonegação, no tipico jeitinho brasileiro, dos “patriotas” empresarios e milionários. Todo ano, bilhões em renúncia fiscal. Dessas, ninguém fala. Só nessas 3, o que houve no passado vira troco de padaria.
Institucionalizada..certo…duas décadas no poder……preciso falar mais?
“As reservas internacionais haviam passado de US$ 49,3 bilhões para US$ 288,6 bilhões, a dívida com o FMI havia sido antecipadamente quitada, o crédito saltara de cerca de um quarto para quase metade do PIB e a dívida líquida do setor público recuara de 58,7% para 40,4% do produto.”
Trocaram uma divida com juros internacionais e baixos, por uma dívida com juros brasileiros, os maiores do mundo. Os banqueiros, que foi a classa que mais ganhou dinheiro no Brasil durante os governos do Lula/Dilma, ficaram eufóricos.
Cara, que propaganda forte para o Lula, credo! E é imprecionante o quanto foi enviesada a visão do artigo.
Com o nível de reservas internacionais que o Governo conseguiu, estava tudo controle.
E sem os percalços de dever no exterior com as frequentes visitas do FMI.
Basta ver o que está acontecendo com a Argentina.
Impressionante é escrever imprecionante.
Essa matéria já é comunista na Austrália.
Mensalão, petrólao, dinheiro na cueca…tempos bons…apesar que já retomaram essas empreitadas nesse mandato. Dobrando a meta sempre
Fontes, o oráculo do ZAP
tava em coma e acordou hoje?
A turma reaça fica muito doida não aceita a realidade. A gente precisa torce pelo Brasil ser nacionalista doa aquém doer. A Ideologia precisa ficar em segundo plano. Jamais sermos entreguistas e pedir intervenção no Brasil.
Ninguém pediu.
Fez 2 bons governos, porem com Dilma 1 e 2 e esse governo atual afundaram o país
Esta reportagem deveria ter sido escrita com tinta vermelha.