Das Jornadas de Junho ao impeachment: as grandes manifestações durante o governo Dilma
Entre 2013 e 2016, o Brasil viveu o maior ciclo de mobilizações populares desde a redemocratização. Protestos iniciados por causa de R$ 0,20 nas tarifas de transporte transformaram-se em manifestações contra a qualidade dos serviços públicos, corrupção e o sistema político; dois anos depois, as ruas já estavam profundamente polarizadas e milhões de brasileiros passaram a exigir a saída de Dilma Rousseff da Presidência
Quando Dilma Rousseff iniciou seu governo, em janeiro de 2011, poucos poderiam imaginar que as ruas se tornariam um dos principais elementos políticos de seu mandato. A presidente havia sido eleita com ampla vantagem, sucedia Luiz Inácio Lula da Silva — que deixara o governo com elevada popularidade — e, durante seus primeiros anos, também registrou altos índices de aprovação.
Em março de 2013, 65% dos brasileiros consideravam seu governo ótimo ou bom, segundo o Datafolha. Mesmo depois de uma primeira queda, no início de junho, Dilma ainda mantinha aprovação de 57%. O cenário mudaria radicalmente em poucas semanas.
O que começou como uma disputa municipal sobre o preço da passagem de ônibus em São Paulo rapidamente se transformaria em uma manifestação nacional contra problemas acumulados havia anos. Junho de 2013 abriu um ciclo de mobilização que mudou a maneira como brasileiros de diferentes posições ideológicas ocupavam as ruas, organizavam protestos pelas redes sociais e pressionavam diretamente as instituições.
Três anos depois, esse ciclo terminaria em um cenário completamente diferente: manifestações gigantescas a favor e contra o governo, uma profunda recessão econômica, a Operação Lava Jato e um processo de impeachment que encerrou antecipadamente o mandato presidencial.
Junho de 2013: a faísca dos vinte centavos
A primeira grande onda começou em São Paulo, em junho de 2013. O Movimento Passe Livre (MPL) convocou manifestações contra o reajuste da tarifa de ônibus, metrô e trens de R$ 3,00 para R$ 3,20.
A reivindicação inicial era concreta: cancelar o aumento.
Os primeiros atos reuniram principalmente estudantes e ativistas ligados à pauta da mobilidade urbana. Mas a reação policial mudou a dimensão política do movimento. Estudos posteriores sobre as Jornadas de Junho apontaram que a repressão aos primeiros protestos — incluindo uso de gás lacrimogêneo, balas de borracha e detenções — contribuiu decisivamente para ampliar a solidariedade aos manifestantes e transformar uma questão inicialmente local em fenômeno nacional.
A frase “não é só por vinte centavos” sintetizou o momento em que a pauta explodiu.
O preço das passagens continuava presente, mas agora se somavam reclamações contra corrupção, baixa qualidade da saúde e da educação, gastos públicos com a Copa do Mundo, violência policial, funcionamento do sistema político e a Proposta de Emenda à Constituição nº 37, a PEC 37, que restringiria o poder de investigação criminal do Ministério Público.
No protesto realizado na Avenida Paulista em 20 de junho, pesquisa do Datafolha mostrou que 50% dos entrevistados mencionaram o combate à corrupção como uma das principais razões para estarem nas ruas. A redução das tarifas foi mencionada por 32%, críticas aos políticos por 27%, melhoria dos transportes por 19% e oposição à PEC 37 por 16%. Os entrevistados podiam citar mais de uma motivação.
O fenômeno tinha mudado de natureza.
“Queremos hospitais padrão FIFA”
O momento das manifestações também era particularmente sensível para o governo.
O Brasil sediava a Copa das Confederações e preparava-se para receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016. Estádios novos ou reformados tornaram-se símbolos facilmente compreensíveis da crítica às prioridades do Estado.
Em Brasília, cerca de dez mil manifestantes ocuparam o gramado do Congresso em 17 de junho e parte deles subiu à cobertura do edifício. Entre as pautas estavam os gastos com a Copa e a percepção de insuficiência dos investimentos em educação e outros serviços públicos. No Rio de Janeiro, manifestações reuniram cerca de 100 mil pessoas naquele estágio da mobilização.
Cartazes pediam “hospitais padrão FIFA”, numa referência aos padrões exigidos pela entidade internacional para estádios e infraestrutura esportiva.
A crítica não significava necessariamente oposição ao futebol ou mesmo unanimidade contra a realização da Copa. Expressava principalmente uma comparação política: se o Estado conseguia construir arenas modernas dentro de prazos determinados, por que escolas, transportes e hospitais continuavam apresentando problemas?
Análises acadêmicas do período identificaram exatamente essa combinação entre insatisfação com os serviços públicos e rejeição à percepção de gastos excessivos com os megaeventos.
Mais de um milhão de pessoas nas ruas
Em poucos dias, protestos chegaram a dezenas de cidades.
No auge das mobilizações, mais de um milhão de pessoas participaram de atos em mais de cem municípios, segundo registros da época citados pelo Senado. Era uma mobilização sem uma liderança nacional única e, depois que o movimento ultrapassou a pauta original do MPL, tornou-se impossível condensar suas reivindicações em um programa político coerente.
Essa característica seria fundamental para compreender o legado de 2013.
Havia manifestantes de esquerda exigindo transporte público gratuito, maior investimento social e críticas ao modelo urbano. Outros protestavam contra corrupção, impostos e partidos. Havia grupos ambientalistas, sindicatos, estudantes, liberais, conservadores e pessoas que jamais haviam participado de qualquer movimento organizado.
Bandeiras partidárias passaram inclusive a ser rejeitadas por parcelas das multidões.
A heterogeneidade tornou Junho de 2013 objeto de disputa política desde o momento em que aconteceu. Diferentes correntes tentaram interpretar aquelas multidões como expressão de suas próprias agendas.
Pesquisas acadêmicas posteriores ressaltam justamente que o movimento não possuía um único sentido ideológico e que sua posterior associação direta com a ascensão da direita ou com o impeachment simplifica um fenômeno muito mais complexo.
O primeiro resultado concreto: as tarifas recuam
A pressão das ruas produziu resultados quase imediatos.
Prefeituras e governos estaduais começaram a cancelar aumentos de tarifas. São Paulo revogou o reajuste das passagens de ônibus, metrô e trens, e medidas semelhantes foram tomadas em várias cidades. O governo paulista também cancelou um aumento previsto nos pedágios.
Era uma demonstração incomum da capacidade das manifestações de obrigar governos a recuar em decisões já anunciadas.
Mas o efeito político foi muito maior.
A Presidência percebeu que enfrentava algo que os instrumentos tradicionais de negociação partidária não conseguiam responder.
Dilma reage e anuncia cinco pactos
Em 21 de junho, Dilma Rousseff fez pronunciamento em rede nacional. Reconheceu a legitimidade das manifestações pacíficas, condenou atos de vandalismo e anunciou que receberia representantes dos movimentos.
Três dias depois, reuniu governadores e prefeitos das capitais e propôs cinco grandes “pactos pelo Brasil”: responsabilidade fiscal, reforma política, saúde, transporte público e educação. Também sugeriu um plebiscito sobre reforma política e defendeu legislação mais severa contra a corrupção.
Na mobilidade, o governo propôs ampliar investimentos públicos.
Na saúde, o ambiente das manifestações ajudou a acelerar medidas que culminariam na expansão do Mais Médicos.
Na educação, a destinação de recursos do petróleo ganhou prioridade.
O Congresso também entrou em ritmo acelerado de votações, apresentando sua própria resposta às ruas. O Senado passou a realizar sessões deliberativas diárias e colocou em pauta projetos ligados a transporte, corrupção, saúde e educação.
A PEC 37 cai no Congresso
Um dos resultados mais simbólicos ocorreu em 25 de junho de 2013.
A Câmara dos Deputados rejeitou a PEC 37, que pretendia atribuir exclusivamente às polícias judiciárias a investigação criminal. A proposta havia se tornado um dos principais alvos das manifestações por ser interpretada pelos opositores como uma tentativa de limitar a atuação investigativa do Ministério Público. Documentos posteriores da própria Câmara relacionariam explicitamente a rejeição da PEC à pressão popular daquele momento.
Poucos dias depois, o Congresso acelerou a discussão sobre a destinação dos royalties do petróleo.
O Senado aprovou projeto estabelecendo que receitas determinadas da exploração petrolífera seriam destinadas na proporção de 75% à educação e 25% à saúde. A tramitação foi apresentada pelos próprios parlamentares como parte da resposta às mobilizações.
A grande reforma política prometida por Dilma, entretanto, não avançaria na dimensão proposta inicialmente.
O efeito mais devastador para Dilma: a popularidade desaba
Nenhuma consequência imediata foi tão importante para a presidente quanto o colapso de sua aprovação.
No começo de junho, 57% avaliavam seu governo como bom ou ótimo. Depois das grandes manifestações, o índice caiu para 30%.
Foram 27 pontos percentuais perdidos em apenas três semanas.
Até aquele momento, era a maior queda de aprovação registrada pelo Datafolha de um presidente entre duas pesquisas desde Fernando Collor em 1990. A reprovação de Dilma, considerada ruim ou péssima, subiu de 9% para 25%.
O impacto não atingiu apenas o Planalto. Governadores e prefeitos também sofreram perdas importantes.
Mas Dilma jamais recuperaria plenamente a condição política que possuía antes de junho.
O Datafolha registraria posteriormente que sua aprovação se recuperou parcialmente, porém não voltou aos níveis anteriores às manifestações.
Essa talvez tenha sido a primeira grande ruptura política de sua Presidência.
2014: a Copa e o “Não vai ter Copa”
As manifestações continuaram em menor escala durante 2014.
Grupos mobilizados desde o ano anterior passaram a organizar atos contra os gastos com a Copa do Mundo, utilizando o slogan “Não vai ter Copa”.
As manifestações questionavam recursos destinados aos estádios, remoções urbanas, segurança dos megaeventos e prioridades de investimento público. Entretanto, estudos sobre o período mostram que os atos durante a Copa foram significativamente menores que as multidões vistas em junho de 2013.
O torneio ocorreu normalmente, e o movimento perdeu força durante e depois da competição.
Politicamente, contudo, a experiência de mobilização em rede permanecera.
Novos grupos, de posições ideológicas muito diferentes dos movimentos que originalmente iniciaram Junho de 2013, haviam aprendido que era possível utilizar Facebook, WhatsApp e outras plataformas para colocar rapidamente milhares de pessoas nas ruas.
Esse instrumento seria decisivo depois da eleição de 2014.
A reeleição muda completamente o caráter das manifestações
Dilma venceu Aécio Neves em outubro de 2014 com 51,64% dos votos válidos contra 48,36%, na eleição presidencial mais apertada desde 1989 até então.
A partir daquele momento, as manifestações passaram por uma transformação.
O caráter difuso de 2013 deu lugar progressivamente a dois campos políticos claramente identificáveis: um contrário ao governo e favorável ao impeachment; outro contrário ao afastamento da presidente e associado majoritariamente à esquerda, sindicatos, movimentos sociais e partidos governistas.
Pesquisas acadêmicas sobre 2015 e 2016 identificam essa mudança como uma nova etapa da mobilização brasileira. Organizações como Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Revoltados Online passaram a desempenhar papel central na convocação das manifestações contra Dilma.
A pauta também mudara.
Já não se protestava principalmente por transporte público.
O centro agora era corrupção, rejeição ao PT, crise econômica e impeachment.
Lava Jato e recessão alimentam as ruas
O cenário econômico reforçou drasticamente a insatisfação.
Em 2015, o PIB brasileiro caiu 3,5%. A taxa média de desemprego subiu de 6,8% em 2014 para 8,5%, enquanto o número médio de desempregados aumentou de 6,7 milhões para 8,6 milhões. A inflação medida pelo IPCA chegou a 10,67%.
Ao mesmo tempo, a Operação Lava Jato revelava sucessivos episódios de corrupção envolvendo Petrobras, grandes empreiteiras, empresários e políticos de diversos partidos.
Embora os escândalos não fossem restritos ao PT, o partido ocupava a Presidência havia mais de uma década e tornou-se o principal alvo político da indignação de grande parte dos manifestantes.
O ambiente era incomparavelmente mais adverso que o de junho de 2013.
Naquele momento, Dilma havia enfrentado multidões enquanto a economia ainda apresentava baixo desemprego. Em 2015, pessoas começavam a perder empregos e renda em meio à mais grave recessão do país em décadas.
15 de março de 2015: a direita ocupa as ruas
Em 15 de março de 2015, manifestações contra o governo foram realizadas nos 26 estados e no Distrito Federal.
As estimativas de público variaram enormemente. Segundo levantamento da Folha, os atos ocorreram em pelo menos 152 municípios e reuniram quase um milhão de participantes a partir das contagens adotadas pelo jornal. Polícias estaduais apresentaram números superiores. Na Avenida Paulista, o Datafolha calculou 210 mil pessoas, enquanto a Polícia Militar estimou um milhão.
A divergência metodológica nas contagens acompanharia todos os grandes protestos daquele período.
Mais importante que o número exato era a dimensão política.
Uma direita que durante muitos anos havia se mobilizado predominantemente através de partidos e eleições agora havia desenvolvido movimentos de rua próprios, com capacidade nacional de convocação.
Uma enquete do DataSenado realizada depois dos atos de agosto de 2015 mostraria com clareza a pauta predominante entre os participantes: 76% apontaram corrupção e 75% o impeachment de Dilma como motivações, enquanto gastos do governo e aumento de impostos também apareciam entre as principais razões.
O país se divide nas ruas
Movimentos ligados ao governo e à esquerda também passaram a responder com manifestações.
Centrais sindicais, organizações sociais, partidos e movimentos populares organizaram atos em defesa da democracia e contra o impeachment, ainda que parte desses grupos mantivesse críticas à política econômica adotada pelo segundo governo Dilma.
Formou-se uma dinâmica quase espelhada.
De um lado, manifestações vestidas predominantemente de verde e amarelo, defendendo a saída de Dilma e associando a Presidência à corrupção revelada pela Lava Jato.
Do outro, manifestações predominantemente vermelhas, defendendo o mandato presidencial e argumentando que retirar uma presidente eleita sem crime de responsabilidade configuraria ruptura democrática.
Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Ciências Sociais concluiu que as mobilizações de 2015 e 2016 eram muito mais claramente estruturadas pela posição política diante do governo e do impeachment do que as manifestações heterogêneas de 2013.
A polarização que marcaria a política brasileira nos anos seguintes já estava visível nas avenidas.
O impeachment chega oficialmente ao Congresso
Em 2 de dezembro de 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou um dos pedidos de impeachment contra Dilma.
A denúncia apresentada pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal estava fundamentada principalmente em supostas violações da legislação orçamentária e nas chamadas “pedaladas fiscais”.
A partir daquele momento, as manifestações deixaram de pressionar por uma possibilidade política e passaram a interferir no ambiente de um processo institucional efetivamente em andamento.
O ano de 2016 começou, portanto, com governo, oposição e movimentos sociais tratando as ruas como um importante instrumento de pressão sobre o Congresso.
13 de março de 2016: o auge das manifestações contra Dilma

O maior momento da mobilização pró-impeachment ocorreu em 13 de março de 2016.
Atos foram registrados em todos os estados e no Distrito Federal.
Na Avenida Paulista, o Datafolha estimou 500 mil participantes, mais que o dobro das 210 mil pessoas contabilizadas pelo instituto no protesto de março do ano anterior. Segundo a metodologia do Datafolha, tratava-se do maior ato político já medido pelo instituto em São Paulo até então. A Polícia Militar apresentou estimativa muito maior, de 1,4 milhão na capital paulista.
Em todo o Brasil, as estimativas das polícias estaduais chegavam a aproximadamente três milhões de participantes, embora não existisse uma metodologia nacional uniforme de contagem.
Combate à corrupção e apoio ao impeachment eram as principais razões apontadas pelos participantes pesquisados pelo DataSenado naquele período.
Politicamente, a imagem das avenidas lotadas aumentou dramaticamente a pressão sobre deputados e senadores.
As manifestações favoráveis a Dilma
Cinco dias depois, em 18 de março, organizações favoráveis ao governo realizaram manifestações em dezenas de cidades.
Na Avenida Paulista, o Datafolha estimou 95 mil participantes. Lula participou do ato, realizado num momento de enorme tensão política após sua nomeação para a Casa Civil e o aprofundamento das disputas relacionadas à Lava Jato.
Os atos mostraram que Dilma ainda possuía uma base social organizada e capacidade de mobilização.
Mas havia uma diferença evidente de escala naquele momento: as maiores manifestações favoráveis ao impeachment haviam conseguido colocar mais pessoas nas ruas.
As duas mobilizações também mostravam que o consenso social visto em determinados momentos de Junho de 2013 havia desaparecido.
O Brasil de 2016 estava dividido em campos políticos claramente opostos.
As ruas derrubaram Dilma?
As manifestações não constituíram o fundamento jurídico do impeachment.
O processo aprovado pelo Congresso responsabilizou Dilma pela edição de decretos de créditos suplementares e pelos atrasos relacionados às subvenções do Plano Safra. Em 31 de agosto de 2016, o Senado decidiu por 61 votos a 20 retirar seu mandato.
Também seria incorreto afirmar que as manifestações, isoladamente, produziram o impeachment.
A queda do governo resultou da combinação de uma profunda recessão, colapso de popularidade, ruptura da coalizão parlamentar, perda de apoio no Congresso, efeitos políticos da Lava Jato, conflito com Eduardo Cunha e avanço do processo constitucional de impedimento.
Mas seria igualmente difícil compreender o resultado sem considerar as ruas.
As manifestações demonstraram aos parlamentares a existência de uma grande base social mobilizada favorável ao afastamento da presidente. O protesto de 13 de março de 2016, realizado pouco mais de um mês antes da votação na Câmara, aumentou a percepção de que apoiar o impeachment possuía respaldo eleitoral significativo.
No dia 17 de abril, a Câmara autorizou o prosseguimento do processo. Em 12 de maio, o Senado afastou Dilma temporariamente. Em 31 de agosto, confirmou sua perda do mandato.
Junho de 2013 abriu a porta para 2015?
Esta é uma das questões mais discutidas pelos pesquisadores.
Uma interpretação sustenta que Junho de 2013 rompeu barreiras psicológicas e organizacionais: milhões de brasileiros descobriram novamente a rua como instrumento de pressão política, enquanto as redes sociais permitiram mobilizações fora das estruturas tradicionais de sindicatos e partidos.
Nesse ambiente, movimentos de direita posteriormente aprenderam a utilizar o repertório de mobilização que havia ressurgido em 2013. Pesquisas acadêmicas identificam uma transição entre as mobilizações heterogêneas de Junho e a constituição de um campo antipetista e pró-impeachment muito mais organizado em 2015 e 2016.
Outra interpretação rejeita a ideia de uma linha direta entre Junho e o impeachment.
Os manifestantes de 2013 apresentavam demandas extremamente diversas e muitos pertenciam à esquerda, a movimentos estudantis e a organizações urbanas que posteriormente se colocariam contra o afastamento de Dilma. Pesquisadores ressaltam que o sentido original das jornadas foi disputado posteriormente e que parte da insatisfação foi apropriada e redirecionada por novos movimentos políticos.
As duas leituras não são necessariamente incompatíveis.
Junho de 2013 não nasceu como movimento destinado a derrubar Dilma, mas alterou profundamente o ecossistema da mobilização política brasileira.
O maior efeito foi sobre o próprio sistema político
As manifestações dos governos Dilma produziram consequências que ultrapassaram sua Presidência.
Primeiro, demonstraram o poder das redes sociais como ferramentas de mobilização política em massa. Organizações pequenas podiam alcançar milhões de pessoas sem depender de grandes partidos, sindicatos ou emissoras de televisão.
Segundo, aprofundaram a rejeição aos mecanismos tradicionais de representação. A hostilidade contra partidos e políticos, já evidente em 2013, transformou-se posteriormente em um poderoso discurso antipolítico.
Terceiro, ajudaram a reorganizar a direita brasileira. MBL, Vem Pra Rua e outros grupos mostraram que setores conservadores e liberais podiam ocupar as ruas em escala comparável àquela historicamente associada a movimentos sindicais e de esquerda.
Quarto, as manifestações intensificaram uma polarização que se aprofundaria depois do impeachment e desempenharia papel decisivo na eleição de Jair Bolsonaro em 2018.
Mas interpretar Junho exclusivamente como origem do bolsonarismo seria igualmente reducionista. O ciclo posterior também dependeu da recessão, Lava Jato, impeachment, crise dos partidos tradicionais e inúmeros acontecimentos posteriores.
De R$ 0,20 à queda de uma presidente
Entre junho de 2013 e agosto de 2016, as ruas brasileiras passaram por uma transformação extraordinária.
No início, jovens protestavam contra vinte centavos.
Em poucas semanas, multidões exigiam melhores hospitais, escolas e transportes, questionavam gastos com estádios, denunciavam corrupção e rejeitavam o funcionamento do sistema político.
As tarifas diminuíram. A PEC 37 foi rejeitada. Saúde e educação ganharam prioridade legislativa. Dilma propôs reforma política e cinco pactos nacionais.
Mas o resultado mais profundo não apareceu em nenhuma lei.
A relação entre sociedade, política e rua havia mudado.
Em 2015, aquela energia já possuía outra composição e outra pauta. A recessão e a Lava Jato transformaram a insatisfação difusa em oposição explícita ao governo. Em 2016, milhões de brasileiros passaram a pedir diretamente a saída da presidente, enquanto outras multidões denunciavam o impeachment como golpe e defendiam a continuidade de seu mandato.
As manifestações não explicam sozinhas a queda de Dilma Rousseff. Também não podem ser tratadas apenas como episódios secundários de um processo decidido exclusivamente dentro do Congresso.
Elas foram o termômetro e, ao mesmo tempo, um dos aceleradores da crise política.
Quando Dilma chegou ao poder em 2011, herdava um Brasil em que grandes manifestações nacionais pareciam pertencer às memórias das Diretas Já, do impeachment de Fernando Collor e das mobilizações sindicais das décadas anteriores.
Quando deixou o Palácio do Planalto em agosto de 2016, entregava o país a uma nova realidade: a rua havia voltado definitivamente ao centro da política brasileira — mais conectada, mais rápida, mais fragmentada e muito mais polarizada.■









Lembro dos protestos contra o aumento das passagens daquele pessoal que estava de saco cheio de pagar transporte caro, ineficiente, cujos donos dessas empresas tinham políticos de estimação e eram metidos em toda sorte de cambalachos para manterem as concessões.
No início foi ótimo. As manifestações eram espontâneas, apartidárias.
Aí vieram os partidos políticos e ferraram com tudo.
Ah não reclamaram? Kings, você não é do Rio mesmo, então.
Um cara de Niterói vem pelas Barcas (concessão do Estado). Outro de São Gonçalo, pega a ponte (Governo Federal). Outro vem de Duque de Caxias, outro de São João de Meriti, outro de Copacabana, vem de metrô… E toda essa galera usando Bilhete Único (Governo do Estado). E TODOS se ferrando por causa do valor dos combustíveis. Que a sua amada cumpanheira ajudou à elevar fazendo os incríveis e inexplicáveis esquemas na Petrobrás quando ela era da Diretoria da Empresa e justamente quando a empresa estava toda aparelhada de cumpanheiros e quase FALIU.
A Petrobrás. Que sempre deu lucro. Quase F A L I U. E esse jum3nt@ estava junto de todas as decisões controversas que jamais foram explicadas. Se fosse uma galera do governo do cara do nariz vermelho, haveria uma verdadeira caça às bruxas, e com razão. Mas como era a cumpanheirada, ficou por isso mesmo.
Nós temos no poder atualmente um cumpanheiro que fez campanha para outro cumpanheiro (e isso conta como interferência nas eleições de outro país), cuja plataforma era a nacionalização de hidrocarbonetos. Alguns desses ativos eram da Petrobrás, e o cara foi lá e tomou com TROPAS. Foi uima agressão com aval do comandante em chefe. Com aval de Celsim Amorim. Ativos Brasileiros, investimentos Brasileiros e tivemos que pagar mais caro pelo gás que abastece nossas termelétricas. Esse custo foi para na gente, no consumidor.
Temos uma galera que glorifica a cultura das favelas. As favelas não pagam energia elétrica. NÓS, os consumidores registrados, pagamos uma energia altíssima, fora da realidade, para que os barracos fiquem com seus aparelhos de ar condicionado ligados o dia inteiro, redes elétricas clandestinas e ineficientes, que gastam ainda mais, e ainda fazem politicagem ideológica que nos faz pagar mais caro pelo gás na fonte, depois de BILHÕES de investimento do Estado Brasileiro?
Sério Kings. Vai dormir. E larga esse seu nick novo que seu modus operandi é bem conhecido. Você não se aguenta.
Em 2013 o governador do estado do RJ era Sérgio Cabral.
Está preso. Serve como reclamação?
O Prefeito do Rio era, e que surpresa, Eduardo Paes. Que vai ser o próximo governador.
Ambos eram (Paes ainda é) alinhado com o governo federal.
Obrigado por confirmar a ID.
As Jornadas de Junho de 2013 nasceram de insatisfações legítimas, muitas delas ligadas a problemas concretos da vida urbana: tarifas, transporte precário, violência policial e serviços públicos deficientes. Boa parte dessas demandas estava diretamente nas alçadas municipais e estaduais. Ainda assim, a indignação difusa acabou sendo progressivamente concentrada sobre o governo federal. Um movimento heterogêneo, que não nasceu para derrubar Dilma, tornou-se terreno fértil para uma posterior apropriação política.
Entre 2014 e 2016, a nova direita percebeu a oportunidade. MBL, Vem Pra Rua e outros grupos transformaram a insatisfação dispersa em militância antipetista organizada. A pauta mudou: já não era principalmente transporte ou serviços públicos, mas o impeachment de uma presidente recém-reeleita. O afastamento teve rito constitucional, mas sua fundamentação material permaneceu controversa, inclusive porque a responsabilidade pessoal de Dilma pelas chamadas pedaladas fiscais nunca foi tão simples ou inequívoca quanto a narrativa política daquele momento fazia parecer.
A ironia veio depois. Parte dos trabalhadores e da classe média que foi às ruas acreditando combater a corrupção e a ineficiência ajudou a abrir caminho para um governo que aprovou a reforma trabalhista, ampliou a terceirização e impôs o teto de gastos. No fim, muitos marcharam contra vinte centavos e receberam de volta uma conta muito maior: menos proteção trabalhista, menor poder de negociação e um Estado social mais comprimido. É a velha habilidade política de convencer o trabalhador a ajudar a construir a própria perda. Trabalhadores sem consciência de classe tornam-se presas fáceis em um jogo político financiado e conduzido por grupos muito mais poderosos.
“Consciência de Classe” é o termo mais elitista e esnobe já aceito como parte do rol de ‘slogans’ de efeito de uma galera canhota. Parece nem prestam atenção nas besteiras que cunham.
A consciência de classe é importante porque ajuda o trabalhador a perceber que sua posição na sociedade não muda apenas porque ele admira o estilo de vida de quem está no topo. Quem vive de salário, depende de emprego, aposentadoria e serviços públicos tem interesses bastante diferentes de quem vive de grandes patrimônios, rendas financeiras e lucros. Parece óbvio, mas nem sempre é: há trabalhadores que votam como se fossem acionistas de banco, defendem a redução de direitos trabalhistas como se fossem grandes empregadores e comemoram políticas favoráveis aos milionários na esperança quase religiosa de que um dia também estarão entre eles. É uma espécie de capitalismo por antecipação: ainda não possuem a fortuna, mas já adquiriram os interesses dela. A consciência de classe serve justamente para desfazer essa pequena fantasia e lembrar que, na política, convém votar de acordo com a vida que se tem — e não com a fortuna que se sonha ter.
O termo ‘consciência de classe’ é tão importante quanto alguém que fica inventando slogans chamativos para dar uma de esnobe na mesa de bar do DCE local e impressionar garotas revoltadas, inocentes e que ainda tem muito que aprender sobre a vida.
Trabalhador de verdade está se lixando para isso. O cara quer trabalhar, ganhar dinheiro e poder viver nas horas vagas. E isso vale para trabalhador de TODAS as esferas, seja executivo industrial, dono de terra do agro, seja médico, seja burocrata, funcionário público, pedreiro, soldador ou catador de latinha na Lapa (fenômeno de alumínio que não chega no chão).
É o termo que nunca chega nas massas que diz querer ‘proteger’ ou ‘conscientizar’ porque nunca sai dos círculos acadêmicos de esquerda, provavelmente o pessoal mais esnobe da existência, que se auto-entitulam os arautos das mazelas sociais. E nunca foram. Sempre tiveram projeto de poder próprio. O povo e a maioria dos que arrotam slogans como ‘consciência de classe’ ou ‘apropriação cultural’ como tópico de conversas pseudo-inteligentes.
Não adiantou nada. O partido que é sinônimo de corrupção, conseguiu voltar à cena do crime. E o pior: são palavras do próprio vice presidente.
A lei brasileira exige que para dirigir veículos ou exercer determinadas profissões, é necessário que você faça um curso e seja habilitado para dirigir ou trabalhar. É incrível que isso também não seja necessário para votar. Por isso que o Brasil é o eterno país do futuro que nunca chega.