Brasil ficou fora do grupo dos 15 maiores orçamentos militares do mundo em 2024
Estados Unidos gastaram US$ 968 bilhões em Defesa no ano; China e Rússia ampliam pressão sobre equilíbrio militar global
Os Estados Unidos permaneceram, por larga margem, como o país com o maior orçamento de Defesa do mundo em 2024, com gastos estimados em US$ 968 bilhões, valor superior à soma dos orçamentos da China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Índia, Arábia Saudita e França. Os números fazem parte do The Military Balance 2025, levantamento anual do International Institute for Strategic Studies (IISS).
O ranking dos 15 maiores orçamentos militares mostra ao mesmo tempo a persistência da supremacia financeira norte-americana e uma mudança acelerada no cenário internacional, impulsionada pela guerra na Ucrânia, pela modernização militar chinesa, pelo rearmamento europeu e pelo crescimento das tensões no Oriente Médio e no Indo-Pacífico.
Segundo o IISS, o gasto mundial com Defesa alcançou US$ 2,46 trilhões em 2024, contra US$ 2,24 trilhões em 2023, representando crescimento real de 7,4%. Foi mais uma aceleração depois das altas de 6,5% em 2023 e 3,5% em 2022.
Estados Unidos respondem por quase 40% do total mundial
O orçamento norte-americano de US$ 968 bilhões representou aproximadamente 39% de todo o gasto militar mundial calculado pelo instituto.
A diferença para o segundo colocado é enorme. A China aparece com orçamento oficial estimado em US$ 235 bilhões, aproximadamente um quarto do montante dos Estados Unidos. Em terceiro lugar está a Rússia, com US$ 145,9 bilhões.
Somados, os três países responderam por cerca de US$ 1,35 trilhão, mais da metade dos gastos militares mundiais em 2024.
O domínio financeiro dos Estados Unidos está ligado não apenas ao tamanho das Forças Armadas, mas à manutenção de uma estrutura militar global formada por bases no exterior, 11 porta-aviões nucleares, forças nucleares estratégicas, grandes frotas de aeronaves de combate, submarinos nucleares e extensos programas de pesquisa e desenvolvimento.
A comparação nominal, entretanto, não mostra toda a capacidade que China e Rússia conseguem adquirir internamente com seus respectivos orçamentos.
Poder de compra reduz distância de China e Rússia
O gráfico do IISS apresenta também estimativas ajustadas pela Paridade do Poder de Compra (PPP) para China e Rússia.
Quando considerado o custo relativo de salários, serviços, construção naval, produção de equipamentos e outros insumos dentro dessas economias, o orçamento chinês teria poder de compra equivalente a aproximadamente US$ 476,7 bilhões, enquanto o russo chegaria a US$ 461,6 bilhões.
Esses valores não significam que Pequim ou Moscou tenham efetivamente gasto essas quantias em dólares. O próprio IISS ressalta que as estimativas em PPP servem para analisar o poder de compra doméstico e não devem ser simplesmente comparadas aos valores nominais utilizados nos totais internacionais.
Ainda assim, elas ajudam a explicar por que a China consegue sustentar simultaneamente uma grande expansão da Marinha, modernização da Força Aérea, produção de mísseis, armas nucleares e infraestrutura militar com um orçamento oficialmente muito inferior ao norte-americano.
No caso russo, o efeito tornou-se especialmente relevante depois de 2022, já que grande parte dos salários, munições, veículos, mísseis e equipamentos utilizados na guerra da Ucrânia é produzida dentro do próprio país.
Rússia aumenta gastos em mais de 40%
Entre os grandes países, um dos aumentos mais expressivos ocorreu justamente na Rússia.
Segundo o IISS, o gasto militar russo cresceu 41,9% em termos reais entre 2023 e 2024, alcançando US$ 145,9 bilhões. O esforço reflete a transformação da economia russa para sustentar uma guerra prolongada contra a Ucrânia e repor as grandes perdas de equipamentos e munições sofridas desde 2022.
Moscou destinou recursos para aumentar a fabricação de tanques, veículos blindados, artilharia, drones, mísseis balísticos e de cruzeiro e munições, ao mesmo tempo em que ampliou efetivos e pagamentos às forças mobilizadas.
Mesmo em dólares correntes, o orçamento russo passou a superar significativamente o de qualquer país europeu individual.
Alemanha sobe para quarta posição mundial
A principal transformação dentro da Europa aparece imediatamente abaixo da Rússia.
A Alemanha alcançou US$ 86 bilhões, tornando-se o quarto maior orçamento militar do mundo. O Reino Unido ficou em quinto, com US$ 81,1 bilhões, e a França em oitavo, com US$ 64 bilhões.
O avanço alemão foi particularmente forte: segundo o IISS, os gastos do país cresceram 23,2% em termos reais em 2024, impulsionados tanto pelo orçamento regular quanto pelo fundo especial criado depois da invasão russa da Ucrânia.
No conjunto, os gastos europeus cresceram 11,7% em termos reais durante o ano. Em valores nominais, a região já gastava mais de 50% acima do nível registrado em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia.
A mudança representa o abandono gradual do chamado “dividendo da paz” que marcou as décadas posteriores ao fim da Guerra Fria.
Índia mantém sexto maior orçamento do mundo
A Índia aparece na sexta posição, com US$ 74,4 bilhões, refletindo tanto sua rivalidade histórica com o Paquistão quanto a crescente preocupação com a expansão do poder militar chinês.
Nova Délhi mantém grandes programas de modernização para suas forças terrestres, aéreas e navais, incluindo submarinos nucleares, porta-aviões, mísseis balísticos, caças e sistemas desenvolvidos nacionalmente.
A Índia é seguida pela Arábia Saudita, com US$ 71,7 bilhões, ainda um dos maiores orçamentos militares do Oriente Médio.
O Japão, com US$ 53 bilhões, ocupa a nona posição e vem aumentando rapidamente os investimentos como parte da estratégia de reforçar suas capacidades diante da China e da Coreia do Norte.
O IISS observa que o orçamento chinês cresceu 7,4% em termos reais em 2024, ritmo superior à média regional, enquanto diversos países asiáticos também ampliaram seus investimentos.
Coreia do Sul, Austrália e Itália completam grupo intermediário
A Coreia do Sul, com US$ 43,9 bilhões, aparece na décima posição, seguida pela Austrália, com US$ 36,4 bilhões, e pela Itália, com US$ 35,2 bilhões.
Tanto Seul quanto Canberra vêm aumentando gastos em novas capacidades de longo alcance, submarinos, aeronaves e sistemas de defesa aérea, em resposta à deterioração do ambiente estratégico no Indo-Pacífico.
A presença de quatro países da região — China, Índia, Japão e Coreia do Sul — entre os dez primeiros demonstra o deslocamento gradual do centro de gravidade militar mundial em direção à Ásia.
Em 2024, o Indo-Pacífico respondeu por cerca de 21,7% do gasto militar mundial, proporção superior à da Europa, segundo levantamento do IISS.
Israel, Ucrânia e Polônia entram entre os 15 maiores
As posições finais do ranking também refletem diretamente as guerras e tensões atuais.
Israel aparece em 13º lugar, com US$ 33,7 bilhões, depois de aumentar fortemente seus gastos em decorrência da guerra iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023. O IISS calcula que os gastos militares israelenses cresceram aproximadamente 73% em termos reais em 2024.
A Ucrânia ocupa a 14ª posição, com US$ 28,4 bilhões, apesar de sua economia ser muito menor que a das principais potências do ranking. O número não representa toda a capacidade militar disponível a Kyiv, pois grande parte de seus armamentos é fornecida diretamente por Estados Unidos e países europeus e aparece contabilizada nos orçamentos dos países doadores.
A Polônia, também com US$ 28,4 bilhões, fecha a lista dos 15 maiores. Varsóvia passou da 20ª posição mundial em 2022 para a 15ª em 2024, resultado de uma das mais rápidas expansões militares da Europa.
O país adquiriu grandes quantidades de tanques, obuseiros, sistemas de foguetes, aeronaves e defesa aérea dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, enquanto amplia simultaneamente sua indústria nacional.
Os 15 maiores concentram mais de 80% dos gastos
A concentração dos recursos militares é outro dado relevante do levantamento. A soma dos 15 países mostrados no gráfico chega a aproximadamente US$ 1,99 trilhão, equivalente a cerca de 81% de todo o gasto mundial de Defesa em 2024.
Somente os Estados Unidos gastaram quase o dobro do conjunto de todos os países que ficaram fora do grupo dos 15 maiores.
O cenário revela um sistema internacional em que o aumento das ameaças percebidas está novamente transformando prioridades orçamentárias. Em 2024, todas as regiões monitoradas pelo IISS, com exceção da África Subsaariana, elevaram seus gastos militares em termos reais. A participação da Defesa no PIB mundial subiu de 1,59% em 2022 para 1,94% em 2024.
Mais do que uma fotografia de um único ano, o ranking mostra como a guerra na Europa, a rivalidade entre Estados Unidos e China e a instabilidade no Oriente Médio estão redistribuindo recursos nacionais para as Forças Armadas e reconstruindo uma capacidade industrial militar que muitos governos haviam reduzido desde o fim da Guerra Fria.
Por que o Brasil ficou fora dos 15 maiores orçamentos militares
O Brasil, apesar de possuir a maior economia e as maiores Forças Armadas da América Latina, ficou fora da relação dos 15 maiores orçamentos de Defesa em 2024. A principal razão é o baixo esforço militar brasileiro em relação ao tamanho de sua economia. Enquanto várias das potências presentes no ranking destinavam naquele ano algo próximo ou superior a 2% do PIB à Defesa — e países diretamente envolvidos ou ameaçados por conflitos chegaram muito além desse patamar —, o gasto militar brasileiro permaneceu próximo de 1% do PIB.
Essa diferença produz um efeito expressivo quando comparada com países de economia semelhante. Alemanha, Reino Unido e França destinam volumes muito maiores à Defesa, enquanto Polônia, Israel e Ucrânia aparecem no grupo dos 15 maiores mesmo possuindo economias consideravelmente menores que a brasileira. No caso polonês, por exemplo, a percepção da ameaça russa levou Varsóvia a elevar rapidamente o esforço militar para vários pontos percentuais do PIB. O Brasil, por não enfrentar atualmente uma ameaça militar externa imediata e por manter historicamente outras prioridades orçamentárias, não realizou movimento semelhante.
Outro fator é a própria composição do orçamento brasileiro de Defesa. Uma parcela elevada dos recursos é absorvida por despesas de pessoal, aposentadorias, pensões e manutenção da estrutura existente, reduzindo proporcionalmente o montante disponível para aquisição de armamentos, pesquisa, desenvolvimento e modernização. Assim, mesmo quando o orçamento nominal cresce, o aumento não se converte necessariamente na mesma proporção em novos navios, aeronaves, veículos, munições ou sistemas de defesa.
O resultado é um contraste entre o peso econômico do país e seu investimento militar. O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo, dispõe de uma extensa costa marítima, aproximadamente 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, uma Zona Econômica Exclusiva de milhões de quilômetros quadrados e importantes reservas de petróleo, minerais e outros recursos estratégicos, mas seu orçamento de Defesa permanece abaixo daquele dos países que encerram o Top 15 do IISS.
Para entrar nesse grupo com alguma consistência, o Brasil precisaria não apenas elevar nominalmente as despesas militares, mas aumentar de maneira sustentada a participação da Defesa no PIB e, principalmente, ampliar a parcela destinada a investimentos, prontidão operacional e aquisição de equipamentos. A diferença ajuda a explicar por que programas estratégicos como o PROSUB, as fragatas classe Tamandaré, o Gripen, o SISFRON e a renovação dos meios do Exército precisam ser executados ao longo de décadas, frequentemente sujeitos a contingenciamentos e alongamentos de cronograma.■


O importante é ter efetivo.
Sem dúvida.
Rússia, Ucrânia, Alemanha, Espanha, Inglaterra, França, Israel, Irã etc etc estão vendo q sim e já começaram a correr atrás.
O texto erra quando diz que o aumento no orçamento tem perda, por conta de pensões, manutenção etc.
Pensões e salários não aumento em valor e quantidade com o aumento do orçamento.
Nem as estruturas aumentam.
Em sentido oposto, o Brasil tem diminuído seu orçamento de defesa, pois não vislumbra ameaças.
O problema é q defesa tem de ser construída, para caso apareça uma ameaça. Não é rápido.
Jurava que o orçamento militar da Rússia era de 336 bilhões e o da Rússia 190 bilhões.
Não sei onde eu vi mas vi.
U$ 336 Bi é a estimativa do SIPRI para o orçamento militar Chinês.
Ou talvez você viu uma estimativa antiga do orçamento militar russo calculado em PPC (Paridade do Poder de Compra).
Como o Rublo é muito desvalorizado em relação ao dólar americano, quando pegamos o orçamento militar russo que é obviamente em Rublos e convertemos para dólar americano, o valor fica mais baixo por causa do câmbio, mas na prática esse orçamento tem um Poder de Compra muito maior do que parece, justamente porque a Rússia paga soldados em rublos e produz seus equipamentos em Rublos.
Hoje o orçamento militar da Rússia esta em U$ 190 bi quando convertido e em U$ 462 bi no poder de compra.
A China divulga oficialmente U$ 277 bi
Mas deixa muitas coisas fora do orçamento
Então o SIPRI estima em U$ 336 bi (número que vc trouxe)
O Pentágono estima em U$ 450 bi
E corrigindo pelo Poder de compra o valor atinge U$ 540 bi.
Corrigindo,vi em algum lugar que o orçamento da china é de 336 bilhões e o da Rússia 190 bilhões.
Me passei e coloquei Rússia duas vezes.
É essa a tal da “soberania” que o atual governo prega, né?
A única “soberania” que esse atual governo sabe é eles ficarem soberanos por tempo indeterminado no poder fazendo o que querem.
a ucrania devia ficar de fora, visto nem um euro ser deles
Felizmente, o Brasil não caiu na corrida desenfreada pelo rearme e pela economia de guerra, como aconteceu na Europa.