Morgan Stanley dedica relatório de 126 páginas às eleições brasileiras e alerta para risco fiscal no pós-2026

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Eleições brasileiras

A eleição presidencial brasileira de 2026 passou a ocupar posição central nas avaliações dos grandes bancos internacionais. Em um extenso relatório de 126 páginas distribuído a clientes, o Morgan Stanley traçou diferentes cenários para o Brasil depois das urnas e concluiu que o fator decisivo para a economia e para os mercados não será simplesmente quem vencerá a disputa, mas a capacidade do próximo governo de apresentar um programa fiscal considerado crível.

A análise ganhou repercussão principalmente por causa da dimensão do risco calculado pelo banco. No cenário mais adverso, no qual não ocorreria uma mudança relevante na trajetória das contas públicas, o Morgan Stanley estima que o Ibovespa poderia perder aproximadamente 25% em reais e 35% quando medido em dólares.

O documento foi divulgado aos clientes em 24 de agosto, quando a campanha presidencial entra em sua fase decisiva. No mesmo dia, pesquisa BTG Pactual/Nexus mostrou Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em eventual segundo turno, com 46% e 45%, respectivamente. No primeiro turno, Lula aparecia com 41%, contra 37% de Flávio, dentro de uma disputa que vem se estreitando nas últimas semanas.

Mais importante que o vencedor: o que acontecerá com as contas públicas

A principal mensagem do Morgan Stanley é que a eleição deverá funcionar como um divisor de águas para a política fiscal brasileira.

O banco considera que parte do mercado ainda trabalha com a hipótese de que, independentemente do resultado eleitoral, o Brasil acabará realizando algum ajuste suficiente para evitar uma deterioração descontrolada da dívida. O Morgan Stanley é mais cauteloso.

Segundo a instituição, a combinação de crescimento econômico mais fraco, inflação persistente e juros ainda elevados deixa pouco espaço para indefinições na política fiscal. Caso o próximo governo não apresente medidas convincentes, o país poderia entrar em um ciclo no qual aumento do prêmio de risco, desvalorização do real e juros elevados passariam a se alimentar mutuamente.

Nesse processo, o Banco Central teria menos liberdade para reduzir a Selic, a atividade econômica enfraqueceria e a relação entre dívida pública e PIB continuaria aumentando.

A preocupação encontra respaldo nos números recentes. Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026, equivalente a R$ 10,8 trilhões. Apenas nos seis primeiros meses do ano, a relação dívida/PIB subiu 3,3 pontos percentuais.

No período de 12 meses encerrado em junho, o setor público acumulava déficit primário equivalente a 1,19% do PIB. Quando incluídos os juros, o déficit nominal atingia 9,99% do PIB, enquanto as despesas com juros alcançavam 8,8% — números que ajudam a explicar por que a questão fiscal voltou ao centro das análises sobre o país.

Dois Brasis possíveis depois da eleição

O Morgan Stanley construiu cenários bastante diferentes para demonstrar o impacto que a política econômica poderá produzir a partir de 2027.

No cenário adverso, caracterizado pela ausência de um ajuste fiscal suficientemente convincente, o banco projeta crescimento econômico de apenas 0,2% e uma Selic de 15,5%. Nesse ambiente, a dívida pública continuaria avançando e poderia ultrapassar 100% do PIB até 2033.

A consequência seria uma combinação particularmente difícil para empresas voltadas ao mercado doméstico: custo de capital elevado, crescimento reduzido, crédito caro e pressão sobre lucros e avaliações das companhias.

Já no cenário favorável, baseado na implementação de um programa plurianual considerado confiável para estabilizar as contas públicas, o crescimento poderia chegar a 1,5%, enquanto a Selic cairia para 9,75%. Nesse caso, a dívida entraria em trajetória de estabilização.

Para o banco, um programa fiscal confiável poderia provocar efeitos financeiros antes mesmo de produzir superávits significativos. A simples percepção de que a dívida será estabilizada poderia reduzir os prêmios exigidos pelos investidores, fortalecer o real e abrir espaço para o Banco Central acelerar a queda dos juros.

É o que a instituição chama de um possível “choque de gradualismo”: o ajuste das contas levaria anos, mas os mercados poderiam reagir rapidamente à mudança de expectativas.

Morgan vê risco maior de queda do que o mercado

É justamente no cenário pessimista que o banco diz divergir mais do consenso.

Para o Morgan Stanley, investidores estão precificando uma deterioração relativamente administrável caso não haja mudança de política econômica. A instituição avalia que o processo pode ser mais severo e, principalmente, não linear.

Uma perda inicial de confiança poderia provocar desvalorização cambial. O real mais fraco pressionaria a inflação, restringindo os cortes da Selic. Juros maiores reduziriam investimentos e consumo, prejudicariam o crescimento e elevariam novamente as despesas financeiras do governo.

Seria, portanto, um mecanismo de retroalimentação.

A instituição resume a questão afirmando que a execução do ajuste dependerá não apenas do presidente eleito, mas também do Congresso, dos governadores e das coalizões políticas formadas depois da eleição.

Essa ressalva é importante porque mudanças estruturais no orçamento brasileiro dificilmente podem ser realizadas exclusivamente pelo Poder Executivo.

Quem ganha e quem perde na Bolsa

Mesmo diante dos riscos, o Morgan Stanley não abandonou completamente as ações brasileiras. O banco mantém uma posição moderadamente positiva, mas estruturada para resistir a cenários políticos muito diferentes.

Parte relevante da estratégia está concentrada em empresas defensivas ou com receitas denominadas em dólar, que estariam menos expostas a uma deterioração da economia doméstica.

Petrobras e Embraer permanecem entre as recomendações de compra do banco tanto no cenário favorável quanto no adverso.

Se houver continuidade da atual trajetória de política econômica, o Morgan Stanley favorece empresas como Suzano, Vale e JBS, beneficiadas por receitas externas e maior exposição ao dólar.

Se o resultado eleitoral for acompanhado por uma mudança de política fiscal capaz de reduzir juros e melhorar a confiança, o banco prefere companhias mais diretamente beneficiadas pela recuperação do mercado doméstico e dos mercados de capitais, como XP, B3 e BTG Pactual.

O setor financeiro aparece como uma das maneiras preferidas pelo Morgan Stanley de apostar em uma eventual mudança no regime econômico.

Juros podem reagir antes das ações

Na renda fixa, a instituição demonstra maior cautela.

O banco acredita que a curva de juros poderá incorporar prêmio adicional de risco à medida que a eleição se aproxima, comportamento que já foi observado em ciclos eleitorais brasileiros anteriores. Depois da votação, a assimetria também preocupa: os mercados tenderiam a precificar rapidamente um cenário fiscal negativo, enquanto uma melhora seria incorporada de maneira mais gradual.

Por essa razão, o Morgan Stanley prefere expressar parte de sua visão por meio dos contratos de DI de longo prazo, em vez de simplesmente apostar contra o real. Os juros brasileiros continuam oferecendo um elevado “carrego”, capaz de proporcionar sustentação à moeda mesmo em períodos de incerteza política.

A preocupação com o fiscal não surgiu apenas agora. Em junho, Ana Madeira, economista-chefe do Morgan Stanley para a América Latina, já havia afirmado que as contas públicas haviam voltado ao centro das conversas com investidores estrangeiros e poderiam se tornar importante fonte de volatilidade conforme as eleições se aproximassem.

Brasil ainda oferece uma oportunidade

O tom de alerta do novo relatório contrasta apenas parcialmente com avaliações anteriores do próprio banco.

Em julho, o Morgan Stanley ainda classificava o Brasil como seu mercado preferido na América Latina, citando preços atrativos das ações, perspectiva de redução dos juros, desaceleração da inflação e baixo posicionamento de investidores estrangeiros.

Em março, a instituição chegou a calcular que, em um cenário particularmente favorável para a América Latina, reformas e maior credibilidade fiscal poderiam levar a uma valorização de aproximadamente 30% do real, enquanto o investimento brasileiro poderia subir dos atuais níveis próximos de 17% do PIB para cerca de 20% ao longo da próxima década.

O relatório eleitoral não elimina esse potencial. Ele amplia, porém, a distância entre os dois caminhos possíveis.

Com as pesquisas indicando uma eleição competitiva e o endividamento público avançando em um ambiente de juros elevados, investidores internacionais começam a deslocar sua atenção das pesquisas eleitorais propriamente ditas para aquilo que Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos apresentarão como estratégia para 2027.

Para o Morgan Stanley, a questão que deverá determinar o valor do real, a direção da Bolsa e a trajetória dos juros após outubro não será apenas o nome anunciado como vencedor pelo Tribunal Superior Eleitoral. Será a resposta à pergunta que provavelmente dominará os mercados no dia seguinte: como o próximo governo pretende estabilizar a dívida brasileira?■



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amarante
amarante
17 dias atrás

Já estão preparando os disparos nos grupinhos de zap da caipirada brasileira.

Carlos Campos
Carlos Campos
17 dias atrás

Proprio Haddad avisou 2027 não tem dinheiro

Adriano Madureira
Adriano Madureira
17 dias atrás

“Morgan Stanley dedica relatório de 126 páginas às eleições brasileiras e alerta para risco fiscal no pós-2026”
Relatório do Morgan Stanley….
Sei,sei…

Ao invés de ficarem dedicando relatórios sobre o Brasil pós-2026,a Morgan Stanley deveria estar se dedicando a fazer relatórios sobre o Estados Unidos, cuja situação não é nada confortável.

Macgarem
Macgarem
17 dias atrás

Nenhuma novidade que o painho engatou cavalo de pau e est’a gastando ate a tampa para se reeleger.

Carlos Campos
Carlos Campos
Responder para  Macgarem
17 dias atrás

calma com o Calabouço Fiscal, ops digo Arabouço Fiscal teremos superávit esse ano, e a Campanha do PR já disse que dessa vez eles terão responsabilidade fiscal, então confia a dívida cair, o Juros vai abaixo de 10 por cento ao ano, Confia na alma mais honesta do Brasil

Macgarem
Macgarem
17 dias atrás

A sim, juros do japão sáo 14 vezes menores, igualzinho o brasil kkkk

Dos EUA é 3 x menor ainda que estão táo ferrados quanto ao brasil quanto a divida publica.