Kurt von Hammerstein e a teoria dos quatro tipos de oficiais
Em janeiro de 1933, quando a Alemanha atravessava os últimos dias da República de Weimar e Adolf Hitler se aproximava do poder, uma curta declaração atribuída ao comandante do Exército alemão começou a circular na imprensa europeia. O general Kurt Freiherr von Hammerstein-Equord dizia avaliar seus oficiais a partir da combinação de apenas quatro características: inteligência, estupidez, diligência e preguiça.
Da combinação surgiam quatro tipos de militares. Os inteligentes e diligentes deveriam servir no Estado-Maior. Os pouco inteligentes e preguiçosos ainda podiam ser aproveitados em funções menos exigentes. Os inteligentes e preguiçosos, paradoxalmente, eram considerados os melhores candidatos aos postos mais elevados de comando. Já os estúpidos e diligentes precisavam ser afastados, porque sua energia associada à falta de julgamento os tornava perigosos.
A classificação sobreviveria por quase um século, migrando das escolas militares para livros de administração e liderança. Mas sua origem está ligada a um personagem muito mais complexo do que a frase espirituosa sugere: um general prussiano que comandou o pequeno e altamente profissionalizado Exército alemão entre 1930 e 1934, recusou-se a participar de um golpe contra a República de Weimar e posteriormente se tornou adversário de Hitler.
A classificação aparece documentada em 1933
Um dos registros contemporâneos mais importantes da frase foi publicado pela revista norte-americana Proceedings, do U.S. Naval Institute, em março de 1933.
Na seção dedicada à Alemanha, sob o título “Selecting Officers”, a publicação reproduziu uma matéria do britânico Army, Navy and Air Force Gazette, de 19 de janeiro daquele ano. O jornal britânico, por sua vez, dizia reproduzir a resposta dada por Hammerstein a um periódico de Berlim que lhe perguntara como julgava seus oficiais.
A formulação registrada naquele momento era direta.
Os “inteligentes e diligentes” deveriam ser destinados ao Estado-Maior. Dos “estúpidos e preguiçosos”, dizia Hammerstein, ainda se poderia fazer algum uso em determinadas circunstâncias. O homem “inteligente e preguiçoso” possuía os nervos e a clareza mental necessários às decisões difíceis e, por isso, qualificava-se para as posições superiores de liderança.
O último grupo recebia o julgamento mais duro: o “estúpido e diligente” deveria ser afastado, porque era perigoso.
Versões posteriores ampliaram a frase. Uma delas, hoje frequentemente reproduzida, afirma que os estúpidos e preguiçosos corresponderiam a “90% de todo Exército” e seriam adequados a tarefas rotineiras. Essa versão aparece inclusive em um estudo da Military Review, publicação profissional do Exército dos Estados Unidos, que em 2020 voltou a utilizar a chamada matriz de Hammerstein para discutir as diferenças entre comandantes e oficiais de Estado-Maior.
O registro de 1933, entretanto, não contém a referência aos 90%.
Um oficial formado na tradição do Estado-Maior alemão
Kurt Gebhard Adolf Philipp Freiherr von Hammerstein-Equord nasceu em 26 de setembro de 1878, em Hinrichshagen, no então Grão-Ducado de Mecklenburg-Strelitz.
Seguiu a trajetória tradicional de um oficial da elite militar prussiana. Serviu no 3º Regimento de Guardas a Pé e frequentou, entre 1907 e 1910, a prestigiosa Academia de Guerra prussiana. Durante a Primeira Guerra Mundial, já como capitão e posteriormente major, ocupou principalmente funções de Estado-Maior.
A experiência ajuda a compreender a classificação que produziria décadas depois. Hammerstein conhecia profundamente a diferença entre o oficial que planejava uma operação e aquele que teria de assumir a responsabilidade final por executá-la.
Depois da derrota alemã de 1918, ele esteve entre os oficiais que aceitaram servir ao novo regime republicano e participaram da criação das novas Forças Armadas alemãs. Era uma posição importante porque grande parte da antiga aristocracia militar enxergava a democracia parlamentar de Weimar com profunda hostilidade.
O contexto também tornava a seleção de oficiais especialmente importante.
Um Exército limitado a 100 mil homens
O Tratado de Versalhes havia reduzido drasticamente o poder militar alemão. O Exército poderia manter apenas 100 mil homens, incluindo no máximo 4 mil oficiais, distribuídos por sete divisões de infantaria e três de cavalaria.
O tratado também determinava a dissolução do Grande Estado-Maior alemão e proibia sua reconstrução sob qualquer forma.
Na prática, essas limitações transformaram a Reichswehr em uma força pequena e extremamente seletiva. Como não havia espaço para manter grandes contingentes, cada posição ganhava importância extraordinária.
As funções do antigo Estado-Maior continuaram parcialmente preservadas sob o Truppenamt, ou Departamento de Tropas, designação que permitia manter capacidades de planejamento sem utilizar formalmente a organização proibida pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial.
Hammerstein tornou-se chefe do Truppenamt em 1929. Um ano depois, em 1º de novembro de 1930, foi promovido a general de infantaria e assumiu o posto de Chefe da Heeresleitung, tornando-se na prática o comandante do Exército alemão.
Foi desse posto que surgiu sua famosa classificação dos oficiais.
O inteligente e diligente: o homem do Estado-Maior
Para Hammerstein, o primeiro tipo reunia inteligência e disposição para trabalhar intensamente.
Esse oficial era ideal para o Estado-Maior.
Não se tratava de uma função secundária. Na tradição militar alemã, oficiais de Estado-Maior eram responsáveis por algumas das tarefas intelectualmente mais exigentes de uma força armada: análise de inteligência, logística, planejamento de campanhas, elaboração de ordens, movimentação de tropas e avaliação das possibilidades do inimigo.
O oficial inteligente e diligente conseguia processar grande volume de informações e transformar a intenção do comandante em planos detalhados.
Mas Hammerstein estabelecia uma distinção importante entre ser excelente planejador e possuir as características necessárias para ocupar a posição máxima de comando. Essa diferença continua sendo discutida na literatura militar moderna: a Military Review usou justamente sua classificação para analisar por que grandes oficiais de Estado-Maior não se transformam necessariamente em grandes comandantes.
O inteligente e preguiçoso: o comandante ideal
A categoria mais famosa — e aparentemente contraditória — era a dos inteligentes e preguiçosos.
Hammerstein os considerava adequados aos postos mais altos de liderança porque possuíam aquilo que descreveu como clareza mental e estabilidade de nervos diante de decisões difíceis.
“Preguiçoso”, nesse contexto, não deve necessariamente ser interpretado como incompetente ou indolente. O raciocínio atribuía maior valor ao comandante capaz de distinguir aquilo que realmente necessitava de sua intervenção daquilo que poderia ser resolvido pelos subordinados.
Um comandante cercado por centenas de problemas não poderia pessoalmente administrar todos eles. Sua função fundamental era decidir quais eram decisivos.
A lógica também representava uma crítica implícita ao excesso de atividade burocrática: trabalhar incessantemente não significava necessariamente produzir boas decisões.
O estúpido e preguiçoso ainda podia ser utilizado
A terceira categoria parece igualmente provocadora.
Para Hammerstein, um oficial que combinasse pouca capacidade intelectual com pouca disposição para agir não era necessariamente uma ameaça à organização.
A formulação registrada em 1933 dizia simplesmente que esse tipo poderia ser utilizado “sob certas circunstâncias”. Em versões posteriores, transformou-se no militar adequado às funções rotineiras.
O raciocínio era frio, mas coerente: alguém com capacidade limitada que também evitasse tomar iniciativas teria impacto previsível. Poderia executar tarefas simples dentro de procedimentos bem definidos e, principalmente, não tentaria modificar aquilo que não compreendia.
Era o quarto tipo que Hammerstein realmente temia.
O estúpido e diligente: “perigoso”
Um oficial pouco capaz, mas extraordinariamente ativo, representava a pior combinação.
Ele não apenas tomaria decisões erradas como trabalharia energicamente para implementá-las.
O registro contemporâneo reproduzido pelo U.S. Naval Institute termina justamente nesse ponto: esse indivíduo deveria ser afastado porque era “too dangerous” — perigoso demais.
Essa parte da classificação explica provavelmente sua longevidade.
Organizações conseguem frequentemente absorver funcionários medianos ou pouco produtivos. Muito mais difícil é neutralizar alguém que possui autoridade, iniciativa e enorme disposição para agir, mas não compreende adequadamente as consequências de suas decisões.
Por isso, a matriz de Hammerstein acabou ultrapassando o ambiente militar e passou a aparecer em discussões sobre empresas, administração pública e gestão de grandes organizações.
O general que recusou participar de um golpe
A própria carreira de Hammerstein revela que sua concepção de julgamento não se limitava à administração de pessoal.
Em março de 1920, ocorreu o Putsch de Kapp, tentativa de derrubar a jovem República de Weimar. Um dos principais dirigentes militares do golpe era o general Walther von Lüttwitz — comandante de Hammerstein e, mais significativamente, seu próprio sogro.
Hammerstein recusou-se a participar.
A Neue Deutsche Biographie registra que ele se negou a apoiar o golpe mesmo estando diretamente subordinado a Lüttwitz. Posteriormente continuou avançando na hierarquia da Reichswehr.
Sua postura constitucional era suficientemente incomum no ambiente militar alemão para render-lhe posteriormente o apelido de “general vermelho”.
Isso não significava que Hammerstein fosse comunista. O Memorial da Resistência Alemã explica que o apelido estava ligado à sua defesa da Constituição de Weimar e à distância que mantinha dos setores cada vez mais radicalizados da direita alemã.
Hammerstein tenta impedir a chegada de Hitler
No final de 1932 e início de 1933, a situação política alemã deteriorava-se rapidamente.
Hammerstein era próximo de Kurt von Schleicher, último chanceler da República de Weimar antes de Hitler. Inicialmente, ambos acreditaram que seria possível controlar politicamente o Partido Nazista e mantê-lo limitado pelas instituições do Estado.
A avaliação revelou-se equivocada.
Em janeiro de 1933, enquanto políticos conservadores negociavam a chegada de Hitler ao governo, altos oficiais da Reichswehr reuniram-se no Bendlerblock, sede do comando militar em Berlim, para discutir se sua nomeação como chanceler ainda poderia ser impedida. Hammerstein levou ao presidente Paul von Hindenburg as preocupações da chefia do Exército, mas não conseguiu alterar a decisão.
Hitler assumiu o cargo em 30 de janeiro.
A ironia histórica é marcante. Enquanto a classificação de Hammerstein sobre julgamento e capacidade de liderança começava a circular na imprensa internacional, a Alemanha iniciava justamente a experiência política que destruiria a República à qual o general permanecera institucionalmente ligado.
De comandante do Exército a opositor do regime

Hammerstein permaneceu inicialmente no comando, mas perdeu progressivamente influência diante dos militares que aderiam ao novo regime e dos homens favorecidos por Hitler.
Em 31 de janeiro de 1934, pediu para deixar o cargo. Recebeu o caráter de generaloberst e foi substituído pelo general Werner von Fritsch.
Afastado da chefia militar, não escondeu sua oposição ao nazismo.
Manteve contatos com figuras que posteriormente formariam a resistência alemã, incluindo os generais Ludwig Beck e Franz Halder e o político conservador Carl Friedrich Goerdeler. Quando foi chamado novamente ao serviço com o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, comandou temporariamente uma formação no oeste da Alemanha.
Segundo a Neue Deutsche Biographie, estava disposto a participar da prisão de Hitler caso o ditador visitasse a área sob seu comando. A oportunidade não ocorreu, e Hammerstein foi novamente afastado do serviço ativo pouco depois.
O Memorial da Resistência Alemã registra que por muito tempo ele foi considerado um dos poucos oficiais superiores alemães capazes de tentar efetivamente prender Hitler.
Hammerstein morreu em Berlim em 24 de abril de 1943, aos 64 anos, pouco mais de um ano antes do atentado de 20 de julho de 1944.
Sua ligação com a resistência continuou através da própria família. Seu filho Ludwig, por exemplo, participou dos acontecimentos de 20 de julho e esteve envolvido na prisão de um general que se recusou a apoiar o golpe contra Hitler. Depois do fracasso da conspiração, conseguiu escapar e permanecer escondido até o fim da guerra.
Uma classificação que sobreviveu ao homem que a criou
Noventa anos depois, praticamente ninguém precisa conhecer a estrutura da Reichswehr para reconhecer a lógica de Hammerstein.
Sua divisão dos oficiais continua sendo reproduzida porque resume um problema permanente das organizações hierarquizadas: competência e esforço não são a mesma coisa, assim como capacidade técnica e capacidade de comando não são necessariamente equivalentes.
A parte mais provocadora permanece sendo a inversão da expectativa convencional. Para Hammerstein, trabalhar muito não salvava um oficial incapaz — tornava-o ainda mais perigoso. E o comandante superior não precisava ser aquele que mais interferia, escrevia mais ordens ou permanecia mais horas diante de uma mesa, mas aquele capaz de compreender a situação, conservar os nervos e decidir corretamente quando realmente importava.
Em uma carreira vivida entre a derrota da Alemanha imperial, a turbulência da República de Weimar e a ascensão do nazismo, Hammerstein acabou deixando uma contribuição para a teoria da liderança muito mais duradoura do que qualquer comando operacional que exerceu: o julgamento sobre uma pessoa não deveria medir apenas quanto ela faz, mas sobretudo se ela sabe o que deve ser feito.■


Formação ilustrativa do exercito de caxias é a memorável operação de logística no carregamento de garrafas d’agua para caminhão em auxilio nas enchentes no RS.