Lula aposta em autonomia industrial; Flávio Bolsonaro prioriza emprego militar contra o crime

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Míssil Tático de Cruzeiro AV-TM-300 sendo lançado pelo ASTROS 2020, produzido pela Avibras

A Defesa Nacional propriamente dita ocupa apenas um parágrafo no programa de Flávio Bolsonaro

Os programas registrados no TSE apresentam concepções distintas para as Forças Armadas: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva associa Defesa à autonomia estratégica, dissuasão e desenvolvimento industrial, enquanto Flávio Bolsonaro concentra suas propostas mais concretas no emprego de militares contra o narcotráfico e o crime organizado.

A comparação abaixo considera as versões disponíveis em 11 de setembro de 2026 do programa de Lula, com 84 páginas, e do programa de Flávio Bolsonaro, com 76. A coligação governista informou que o documento de Lula ainda poderia receber adendos.

Forças Terrestres | Eleições 2026
Defesa nos programas de governo
Comparação das propostas apresentadas por Lula e Flávio Bolsonaro

Eixo Lula Flávio Bolsonaro
Orientação estratégica e recursos
Concepção de Defesa Associa a Defesa à autonomia estratégica, à inovação, ao desenvolvimento nacional e à combinação de diplomacia com capacidade de dissuasão. Vincula a Defesa principalmente ao enfrentamento do crime organizado, à proteção das fronteiras e à inserção econômica internacional do Brasil.
Orçamento militar Defende orçamento compatível com as atribuições das Forças Armadas e continuidade dos investimentos, mas não estabelece valor ou percentual do PIB. Promete investimentos condizentes com a posição internacional do Brasil, sem apresentar meta orçamentária específica para a Defesa.
Capacidades militares e indústria
Indústria de Defesa Propõe fortalecer a Base Industrial e Tecnológica de Defesa, ampliar o domínio de tecnologias sensíveis e apoiar a presença brasileira no mercado internacional. Não apresenta política específica para a Base Industrial de Defesa ou metas relacionadas à produção e à exportação de equipamentos militares.
Projetos estratégicos Cita o F-39 Gripen, o KC-390, as fragatas e os blindados entre os resultados do atual governo, mas não apresenta metas quantitativas para novas aquisições. Não identifica projetos estratégicos das Forças Armadas nem relaciona plataformas ou sistemas cuja aquisição seria priorizada.
Defesa cibernética Prevê desenvolver tecnologia nacional, proteger infraestruturas e bases de dados governamentais e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. Propõe ampliar a proteção dos serviços públicos, das infraestruturas críticas e dos cidadãos contra ataques cibernéticos.
Setores nuclear e espacial Defende autonomia no ciclo do combustível nuclear para fins exclusivamente pacíficos, sem estabelecer metas para programas militares nucleares ou espaciais. Relaciona urânio e minerais críticos à segurança e à Defesa, mas não apresenta programas nucleares ou espaciais específicos.
Emprego das Forças e proteção territorial
Fronteiras Prevê presença militar, patrulhamento fluvial e aéreo e emprego de radares, drones, sensores, satélites e sistemas integrados de comando e controle. Propõe um sistema nacional de fronteiras formado por unidades de elite do Exército, da Marinha e da Força Aérea para bloquear drogas e armas.
Portos e aeroportos Prioriza integração entre órgãos de segurança, inteligência e fiscalização, sem propor ocupação militar permanente dessas instalações. Defende ocupação e monitoramento permanentes de portos e aeroportos por tropas especiais da Marinha e da Força Aérea.
Amazônia e área marítima Inclui a Amazônia, as fronteiras terrestres e a Amazônia Azul entre os espaços estratégicos para a soberania brasileira. Enfatiza o combate a crimes ambientais e transnacionais na Amazônia e nas fronteiras, sem mencionar especificamente a Amazônia Azul.
Política externa
Inserção internacional Defende política externa universalista, integração da América do Sul e do Mercosul e preservação do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação. Propõe aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, diálogo econômico com China, União Europeia e países asiáticos e prioridade à entrada na OCDE.

Nota:
A comparação considera apenas propostas expressas nos programas registrados no TSE e procura distinguir políticas de Defesa Nacional de medidas destinadas à segurança pública.
A referência de Lula ao Gripen, ao KC-390, às fragatas e aos blindados descreve realizações atribuídas ao mandato em curso, e não metas quantitativas futuras. A promessa de Flávio Bolsonaro de duplicar investimentos refere-se à segurança pública, não especificamente ao orçamento militar.

Lula: dissuasão, tecnologia e indústria nacional

O programa de Lula apresenta a Defesa como complemento da política externa e instrumento para preservar a independência decisória do Brasil. O conceito está apoiado em quatro componentes: autonomia estratégica, inovação tecnológica, integração entre Defesa e desenvolvimento e combinação da diplomacia com capacidade militar de dissuasão.

O documento promete fortalecer a Base Industrial e Tecnológica de Defesa, associando-a ao domínio de tecnologias sensíveis, à geração de empregos qualificados, às exportações e à neoindustrialização. É a principal diferença em relação ao adversário, cujo programa não trata nominalmente da indústria de material militar.

Lula também usa entregas do atual mandato como argumento para a continuidade: sete caças F-39 Gripen, três cargueiros KC-390, quatro fragatas em construção e 226 blindados. Esses números, porém, são um balanço retrospectivo. O programa não define novos lotes, calendários, valores ou prioridades para o período 2027–2030. O documento também afirma que R$ 20,4 bilhões foram executados desde 2023 em projetos estratégicos.

Na dimensão territorial, o petista propõe manter as Forças Armadas nas fronteiras amazônicas, com patrulhamento fluvial e aéreo, radares, drones, sensores, imagens de satélite e centros integrados de comando e controle. A proposta combina repressão aos ilícitos, proteção ambiental, desenvolvimento regional e cooperação com os países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.

O plano ainda prevê tecnologias nacionais para Defesa cibernética e uma Inteligência de Estado de caráter civil, submetida ao controle democrático e à neutralidade partidária. Não trata, entretanto, de mudanças no artigo 142 da Constituição, das regras para operações de Garantia da Lei e da Ordem ou de uma reforma mais ampla das relações entre civis e militares.

Flávio: Defesa orientada pela segurança interna

Militares do EB treinando GLO

A Defesa Nacional propriamente dita ocupa apenas um parágrafo no programa de Flávio Bolsonaro. Nele, o candidato promete concentrar esforços contra o crime organizado e outras ameaças, incentivar drones e inteligência artificial e manter investimentos militares compatíveis com a participação brasileira em diferentes blocos internacionais.

As propostas militares mais concretas aparecem no capítulo de segurança pública. Flávio promete criar o Sistema Nacional de Fronteira, descrito como uma tropa de elite formada por Exército, Marinha e Força Aérea, dotada de “armas de guerra”, inteligência e tecnologia. A missão seria interceptar drogas e armamentos por terra, mar e ar. O plano também prevê tropas especiais da Marinha e da Aeronáutica ocupando e monitorando permanentemente portos e aeroportos.

Embora prometa dobrar os investimentos federais em segurança pública, Flávio não estende essa meta nominalmente ao orçamento da Defesa. O texto não informa efetivo, comando, custos ou origem dos recursos para a nova estrutura de fronteiras, tampouco esclarece se ela seria uma organização militar permanente ou um arranjo de coordenação com as polícias.

A proposta não parte de um vazio jurídico. A Lei Complementar nº 97 já permite às Forças Armadas atuar preventivamente e repressivamente contra delitos transfronteiriços e ambientais, inclusive com patrulhamento, revistas e prisões em flagrante. Ao mesmo tempo, a Constituição atribui à Polícia Federal a repressão ao tráfico e as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras. A ausência de um modelo de comando deixa sem resposta como essas competências seriam conciliadas.

Na política externa, Flávio sinaliza reaproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, mas não propõe um alinhamento exclusivo. O programa também defende negociações com China, União Europeia e mercados asiáticos, além de colocar a adesão à OCDE entre suas prioridades. Na área tecnológica, relaciona minerais críticos — incluindo urânio e terras-raras — às cadeias de Defesa, mas não apresenta uma política para transformá-los em sistemas militares nacionais.

O problema que os dois evitam

Nenhum dos candidatos enfrenta a estrutura do orçamento militar. Em 2025, 77,7% dos R$ 133,3 bilhões gastos em Defesa foram destinados a pessoal ativo e inativo, enquanto os programas militares receberam 8,25%, segundo dados do Siga Brasil publicados pela Folha de S.Paulo.

Os dois programas silenciam sobre dimensionamento de efetivos, militares temporários, previdência, pensões, serviço militar, disponibilidade operacional e equilíbrio entre pessoal, custeio e investimento. Também não fixam prioridades para defesa antiaérea, estoques de munições, capacidade espacial, guerra eletrônica ou manutenção dos equipamentos já adquiridos.

Lula menciona a legislação que separou R$ 30 bilhões em seis anos para projetos estratégicos como prova de previsibilidade. Até agosto, contudo, os recursos previstos para 2026 ainda não haviam sido liberados e o Ministério da Defesa fora atingido pelo congelamento de verbas discricionárias, conforme a mesma apuração.

Assim, Lula apresenta o programa mais abrangente de Defesa Nacional no sentido tradicional, especialmente em indústria, tecnologia, dissuasão e proteção territorial. Flávio oferece a proposta mais incisiva de emprego operacional das Forças Armadas, mas direcionada sobretudo à segurança pública.■



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