Ataque-as-Torres-Gemeas-em-11-de-setembro-de-2001-e1789125986263

Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)

1 – INTRODUÇÃO

O presente artigo tem o propósito de analisar, a luz dos seguintes conceitos estabelecidos por Clausewitz, o filósofo da guerra, as principais ações da Al Qaeda e dos EUA nos atentados de 11 de setembro de 2001: propósito político, uso ilimitado da força, centro de gravidade e os fatores morais, na visão dessa organização terrorista, e a trindade notável, analisada sob a ótica norte-americana.

Carl Von Clausewitz (1780-1831), um dos mais importantes pensadores da História Militar, influenciado pelas reflexões de Emmanuel Kant[1], produziu em seus manuscritos[2] conceitos de sólida construção filosófica para a compreensão da guerra e fomentou a elaboração de um pensamento crítico sobre esse complexo fenômeno social.

Ingressou prematuramente no exército prussiano, aos doze anos, participando ao longo de sua carreira de diversas campanhas militares. A partir de suas experiências obtidas nos campos de batalha associadas à sua irrefutável formação intelectual, analisou as guerras  num contexto histórico onde as mesmas eram travadas exclusivamente entre Estados soberanos com o emprego de tropas convencionais.

À despeito do hiato temporal existente entre a Europa do século 19 e os dias de hoje, a essência de sua obra, pela profundidade e abrangência, permanece atualizada para o entendimento da guerra clássica entre Estados com o emprego de suas Forças Armadas. Entretanto, para se fazer uma leitura contemporânea de Clausewitz é necessário considerar as transformações políticas, sociais e, principalmente, tecnológicas ocorridas ao longo dos séculos 20 e 21.

Nesse sentido, com a metamorfose do fenômeno da guerra ressurgiu o conceito de guerra assimétrica, caracterizado por uma significativa diferença na capacidade bélica dos envolvidos e pelo emprego de meios não-convencionais por aquele que se encontra inferiorizado para o combate. Na história, houve guerras assimétricas, contudo, o conceito voltou à tona, devido às novas ameaças, que surgiram com o fim da Guerra Fria (1989).

O terrorismo, fruto, na maioria das vezes, das diferenças políticas e religiosas existentes entre povos e civilizações é uma modalidade da guerra assimétrica. Portanto, os ataques realizados em 11 de setembro de 2001, pelos terroristas da Organização Al Qaeda, contra as torres gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, e o Pentágono, em Washington, nos Estados Unidos da América (EUA), foram atos de guerra assimétrica.

Um grupo radical de menor poder combatente impulsionado pela crença de que conseguiria destruir o mito dominador do mundo ocidental, agrediu um poderoso Estado soberano.

Esses atentados são considerados um ponto de inflexão na história do terrorismo, pois estabeleceram o chamado “novo terrorismo” ou terrorismo pós-moderno, cujas principais características são: ataques de natureza globalizada, exploração da mídia para ampliar e difundir o terror, não distinção entre as vítimas e escolha de alvos simbólicos para realizar os ataques.

Inicialmente, o trabalho abordará alguns aspectos da Organização Al Qaeda e descreverá de forma sucinta a Operação Aviões[3] para estabelecer um contexto histórico. Posteriormente, será demonstrada a aplicação dos conceitos supracitados, e finalmente, será realizada uma breve análise conclusiva.

2 – A ORGANIZAÇÃO AL QAEDA E A OPERAÇÃO AVIÕES

Osama Bin Laden

Logo após os ataques de 11 de setembro, quando se divulgou que a possível procedência dos terroristas era islâmica e que pertenceriam à Organização Al Qaeda, as idéias concebidas por Samuel Huntington[4], em seu livro “O Choque de Civilizações”, voltaram ao debate.

Segundo Huntington, com o fim da Guerra Fria (1989) a política mundial passou a ser unimultipolar[5] e multicivilizacional. As relações entre as diversas civilizações passaram a ser mais dinâmicas e intensas. Portanto, outra forma de deflagração de conflitos poderia ocorrer, o choque de diferentes civilizações como fonte de tensão entre Estados, entre elas, a ocidental e a islâmica.

A civilização ocidental é de origem européia, pratica o cristianismo como religião, é a mais desenvolvida em termos econômicos, tecnológicos e militares, e busca a universalização da sua cultura. A Europa, os EUA, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia são seus representantes.

A civilização islâmica teve origem na Península Arábica no século 7 DC, quando as leis do Corão, livro sagrado do islamismo, foram disseminadas a partir das pregações do profeta Maomé. Nesta civilização, a religião e o Estado se misturam, o que se reflete na política externa e é uma das supostas razões do choque com a cultura ocidental. Além disso, os muçulmanos vêem a cultura ocidental como materialista, individualista, corrupta e imoral. A Arábia Saudita, o Iraque, a Indonésia, o Irã e o Afeganistão são alguns dos seus representantes.

No século 21, a crescente degradação do Estado possibilitou que novos atores também tivessem a capacidade de deflagrar guerras, isto é, milícias irregulares, organizações terroristas e outros grupos radicais. Em muitas regiões do mundo, a proliferação de armas de destruição em massa[6], escapando, muitas vezes, ao controle governamental, facilitou o acesso das mesmas aos terroristas e contribuiu para a quebra do monopólio da violência pelo Estado.

A Organização terrorista multinacional Al Qaeda[7], que era liderada pelo saudita Osama Bin Laden, é um movimento revolucionário anti-ocidental, de inspiração religiosa, que começou a atuar em 1988 na luta dos muçulmanos contra a invasão soviética no Afeganistão. Sua estrutura é descentralizada e não se sabe ao certo o número total de militantes. Tem capacidade para realizar ataques em qualquer parte do globo; seus integrantes podem ainda se dispersar no povo, sua principal vantagem; e não é instrumento de nenhum governo. Também considerada um Estado-Rede[8], possui células que operam nos mais variados e desconhecidos pontos do mundo, cuja maioria desconhece a existência das demais.

Bin Laden estabeleceu como principal propósito de sua organização a redução da influência externa no mundo islâmico, em especial, às constantes intervenções norte-americanas nos assuntos do Oriente Médio. Sua ideologia se baseia na utilização da religião para a contestação da presença ocidental nos territórios sagrados da Arábia Saudita e é um instrumento para captação de massas políticas para a conquista de poder.

Desde a sua criação, os seguintes atentados cometidos contra os EUA merecem destaque: o primeiro contra o WTC, em 1993, onde foi empregado um carro bomba que matou 6 e feriu cerca de 1000 pessoas; os ataques às embaixadas na Tanzânia e no Quênia, em 1998; e o atentado contra o destroyer DDG 67 USS Cole, no porto de Aden, Iêmen, no ano 2000, com 17 mortos, 40 feridos e significativos danos estruturais nesse navio.

Em relação a este último atentado, Bin Laden esperava uma reação norte-americana e, assim, atingir o propósito de atrair os EUA para o combate no Afeganistão, onde seus guerreiros teriam a vantagem do terreno. Porém, não houve reação, acarretando a escalada do terror que culminou com os ataques de 11 de setembro.

A “Operação Aviões” aprovada em 1996 e executada em 11 de setembro de 2001, consistiu no seqüestro simultâneo de quatro aeronaves comerciais em solo norte-americano e posterior emprego das mesmas como mísseis para atacar importantes símbolos daquele Estado. Caracterizou-se, principalmente, pela originalidade na execução e exploração da mídia para ampliar e promover o terror.               

3 – PROPÓSITO POLÍTICO

Ninguém dá início a uma guerra – ou melhor, ninguém em sã consciência deveria fazê-lo – sem ter primeiro claro em sua mente o que pretende obter através dela e como pretende conduzi-la. O primeiro é o seu propósito político. O último, o seu propósito operativo. Este é o princípio orientador que estabelecerá a sua linha de ação, determinará o vulto dos meios e dos esforços necessários e fará com que a sua influência seja plenamente sentida até o menor detalhe operativo.

Para Clausewitz, “A guerra é um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade” e “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Assim, o propósito político é a meta a ser alcançada, à vontade, e a guerra, o instrumento para atingi-lo.

Em relação ao terrorismo, não existe um conceito oficial, o que possibilitou adotar a definição estabelecida pelo ex-Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, segundo a qual, “qualquer ato que tem como objetivo causar a morte ou provocar ferimentos graves em pessoas visando intimidar a população ou compelir um governo a fazer ou deixar de fazer qualquer ato”.

Por conseguinte, a guerra e o terrorismo possuem em comum o mesmo desdobramento, a utilização do ato de violência para compelir o adversário a submeter-se à uma vontade, porém, existem algumas ressalvas a serem feitas a partir desta assertiva. Nas relações entre Estados soberanos a guerra é o último estágio na evolução da crise. Já nas ações terroristas não existe a escalada da crise, mas sim, o emprego da violência como meio de coerção para obtenção de um propósito.

A vocação imperialista da sociedade norte-americana sempre se apoiou em justificativas de caráter ético que dessem sustentação as suas atitudes. Com o fim da Guerra Fria os EUA assumiram a liderança no cenário internacional e lançaram as bases para a manutenção da sua supremacia, dentre as quais, se destacam: promover a democracia e a globalização, valores universais para os norte-americanos, combater as ameaças do narcotráfico e, posteriormente, do terrorismo.

Nesse contexto, a intolerância no que se refere às diferenças étnicas, religiosas, econômicas e sociais, aumentou, e o modelo norte-americano de globalização começou a ser contestado por aqueles que possuem uma cultura baseada em outros valores.

Os EUA consideram o Oriente Médio como uma área de vital importância, principalmente, pela questão do suprimento de energia. A sua presença na região garante seus interesses no que se refere ao controle do petróleo da Arábia Saudita e impede que outro Estado o exerça. Bin Laden e seus seguidores queriam expulsá-los da região e construir um Estado teocrático na região com capacidade de controlar os recursos petrolíferos do Oriente Médio. Assim, sua capacidade de influência aumentaria no mundo muçulmano, bem como possibilitaria o desenvolvimento e a aquisição de armas de destruição em massa.

De modo geral, a Al Qaeda, subproduto do Islamismo, ao atacar a sociedade norte-americana tinha os seguintes propósitos: causar um número expressivo de baixas (cerca de 3000 pessoas morreram nos atentados); dar visibilidade aos atentados em tempo real, por meio da mídia internacional, para promover o terror como espetáculo; e produzir uma significativa alteração na política externa ocidental em relação ao oriente médio, mais especificamente, a retirada norte-americana dos territórios sagrados.

Mas afinal, qual era o propósito político dos terroristas nos atentados de 11 de setembro de 2001? os atentados foram uma forma de enfrentamento ao poderio norte- americano e uma maneira de intimidar seus aliados no Oriente Médio.

Para identificar o propósito político dos atentados, vale citar algumas declarações de Osama Bin Laden na TV Al-Jazeera[9], no dia 7 de outubro de 2001:

A Nação Islâmica tem experimentado medo, ódio e injustiça durante anos. Milhões de crianças estão sendo mortas no Iraque e na Palestina, e não ouvimos uma palavra dos infiéis. Não ouvimos uma voz se levantar. Os americanos nunca terão paz a não ser que deixem os mulçumanos – e em particular os palestinos – em paz. Os Estados Unidos tiveram o que mereceram por seu apoio a Israel e as sanções ao Iraque. Nunca terão segurança, a não ser que se retirem dos lugares muçulmanos sagrados [na Arábia Saudita]. Deus pediu a um grupo de muçulmanos de vanguarda para destruir os Estados Unidos. Todo muçulmano deve se erguer para defender sua religião. Os acontecimentos dividem o mundo em dois campos: o da fé e o da incredulidade.

Ao analisarmos seu discurso, podemos concluir, inicialmente, que Bin Laden ressaltou os sentimentos de medo e ódio dos islâmicos para influenciá-los emocionalmente. Além disso, ameaçou o povo norte-americano, principal inimigo, e estabeleceu as condições para a sua paz: a não intromissão nos assuntos dos muçulmanos e palestinos.

Invocou a união dos muçulmanos para o combate e utilizou a fé islâmica para ressaltar a importância do componente religioso. Ao conceder essa entrevista, pretendia também, insuflar o mundo islâmico para uma guerra santa contra os EUA, pelo seu permanente apoio ao Estado de Israel, pressupondo uma aliança judaico-norte-americana contra o islã, e para demonstrar a rejeição daquela cultura ao modelo de globalização imposto pelos norte-americanos.

Depreende-se, principalmente, das afirmações de Bin Laden que o propósito político dos atentados era compelir as forças norte-americanas a se retirarem dos lugares muçulmanos sagrados na Arábia Saudita.

As forças norte-americanas se mantiveram de forma permanente na região desde a Guerra do Golfo (1991), fato este que acarretou o rompimento de Bin Laden com o governo da Arábia Saudita.

4 – USO ILIMITADO DA FORÇA

Como o uso da força física na sua integralidade não exclui de modo nenhum a colaboração da inteligência, aquele que se utiliza sem piedade desta força e não recua perante nenhuma efusão de sangue ganhará vantagem sobre o seu adversário, se este não agir da mesma forma.

Este conceito, é um dos desdobramentos da definição da guerra para Clausewitz, pois se a guerra é um ato de violência e não existem limites para a sua manifestação, ignorar a brutalidade nos conflitos armados é um erro.

Em 1998, em declaração à rede ABC, Bin Laden já demonstrava a sua intenção em fazer o uso ilimitado da força:

A toda ação corresponde uma forma de reação. Os americanos nunca fizeram distinção entre civis e militares. Eles não jogaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki? não apoiaram o massacre de crianças e adolescentes na Palestina? nossa fatwa (sentença de morte) se dirige, então, a todos os americanos. Nós não os diferenciamos pelo trajes.

Percebe-se, portanto, o sentimento de ódio nas afirmações supracitadas, bem como a não distinção em relação a militares e civis. Para Bin Laden, não existem inocentes no povo norte-americano, todos deverão sofrer as conseqüências das políticas emanadas pelo seu governo.

O Estado-rede nas ações terroristas, com liberdade para agir no que se refere ao uso indiscriminado da violência, possui grande vantagem em relação aos seus adversários tradicionais, os Estados soberanos, além do que não está submetido às normas do direito internacional.

A brutalidade dos atentados de 11 de setembro infligiu danos colaterais de toda ordem nos EUA e associada ao marketing do terror, transmitidos em tempo real pela televisão, ampliou o impacto psicológico provocado pela destruição das torres potencializando o sucesso operacional dos ataques.  O uso ilimitado da força foi vantajoso para a Al Qaeda pela escolha e forma de destruição dos alvos (guerreiros suicidas pilotando aeronaves de uso comercial do próprio adversário para se chocar contra edifícios onde milhares de civis inocentes estavam trabalhando), por não ser um Estado nacional que possuísse território definido e pelo aspecto difuso da organização que impediu um contragolpe nas mesmas proporções. Entretanto, o contragolpe, foi dado no Afeganistão, Estado que dava respaldo a Al Qaeda, e era governado pelos Talibãs.

 5 – CENTRO DE GRAVIDADE

Segundo Clausewitz, “Centro de Gravidade” (CG) é “um centro de poder e de movimento de que tudo depende, formar-se-á por si próprio, e é contra esse centro de gravidade do inimigo que se deve desferir o golpe concentrado de todas as forças”.

Estudiosos de sua obra, após anos de análise de seus pensamentos chegaram a uma moderna definição de CG: “Um centro do poder onde a aplicação da força produzirá os melhores resultados, e, no limite, produzirá o êxito na guerra”. Este conceito se revestiu de especial importância no seu legado, tendo em vista que a correta identificação do CG é crucial para a obtenção do propósito político. Considerando ainda os preceitos estabelecidos pela estratégia operacional[10], o CG deverá ser analisado por meio das suas vulnerabilidades críticas. Estas, são possibilidades detectadas pelo adversário no planejamento da operação que demonstram caminhos exeqüíveis para atingir o nosso CG.

Assim, o conceito de CG tem sido utilizado pelos planejadores para alcançar os objetivos políticos nos conflitos armados, objetivando, desta forma, obter a vitória e o sucesso operacional diante dos adversários, onde a concentração de forças contra pontos vitais evita o desperdício de recursos materiais e humanos.

Khaled Sheik Mohamed declarou que o objetivo dos atentados contra as Torres Gêmeas era “despertar o povo americano”. Ele explicou que, se o alvo tivesse sido puramente militar ou governamental, o povo americano não teria tomado consciência das atrocidades que os EUA cometem ao apoiar Israel contra o povo palestino, nem do caráter egoísta da política externa americana, que corrompe os governos árabes e acentua a exploração dos povos árabes e muçulmanos.

Ao analisarmos as declarações de Khaled Mohammed, um dos principais assessores de Bin Laden, percebe-se que a escolha dos alvos foi realizada visando utilizar a opinião pública norte-americana como instrumento para obtenção do propósito político.

Uma vez estabelecida essa abordagem, vale relembrar que o propósito político dos atentados era forçar a retirada dos norte-americanos dos lugares mulçumanos sagrados na Arábia Saudita. Portanto, o CG sobre o qual os terroristas da rede Al Qaeda atuaram foi o governo norte-americano, por ser o próprio centro de controle do país, formulador da política externa e, principalmente, por acreditar que com os atentados as suas reivindicações seriam atendidas.

As vulnerabilidades críticas consideradas para atingir o CG foram as seguintes: de natureza subjetiva, a opinião pública norte-americana que seria afetada com as baixas decorrentes dos atentados, e de natureza simbólica, as torres gêmeas do WTC e o Pentágono, símbolos econômicos da globalização e militar dos EUA.

6 – FATORES MORAIS

A coragem pessoal é de duas espécies. Em primeiro lugar, pode derivar da indiferença, quer esta tenha origem na constituição individual, no desprezo pela morte ou no hábito; em todo caso, trata-se de um estado permanente. Em segundo lugar, a coragem pode derivar de motivos positivos, tais como a ambição, o patriotismo e todas as espécies de entusiasmo.

Para Clausewitz, a guerra é dominada pela presença de fatores morais (coragem, medo, confiança e audácia) que podem produzir um resultado desproporcional na aplicação da força, quando comparados aos elementos materiais.

O combate sagrado contra os infiéis é um dos pilares do islamismo, conforme descreve Bin Laden: […] “em nossa religião, acreditamos que Alá nos criou para adorá-lo, nos abençoou com essa religião e nos ordena a conduzir a luta sagrada para pôr sua palavra acima da palavra dos infiéis”.

A estratégia de recrutamento dos jovens muçulmanos para morrer em combate na “Operação Aviões” estabeleceu os seguintes requisitos para os guerreiros suicidas: coragem, envolvimento emocional, perda da individualidade, obediência cega e lealdade. As relações de confiança e lealdade, nas quais se baseiam os integrantes da Al Qaeda, e a coragem para morrer em combate, na crença de que Deus aprovará suas ações, produzem uma grande vantagem para organização.

Percebe-se, portanto, que a maior honra de um muçulmano é morrer lutando e, assim, a coragem para matar e morrer pela fé na crença do eterno reconhecimento e da garantia de um lugar de honra no paraíso é o que assegurou o sucesso operacional dos atentados de 11 de setembro de 2001.

7 – TRINDADE NOTÁVEL

Clausewitz estabeleceu que o ambiente da guerra é composto por três elementos que representam segmentos da sociedade e interagem constantemente numa alternância de predomínios: as forças da emoção, violência, ódio e animosidade são aquelas representadas pelo povo; acaso, incerteza e as probabilidades de vitória se referem ao comandante e suas Forças Armadas; e, finalmente, as forças da razão, ou seja, os propósitos políticos, que são relativos ao governo.

Ao confrontar a trindade notável norte-americana com os atentados de 11 de setembro de 2001, ressalto inicialmente, que a própria escolha simbólica dos alvos teve os seguintes propósitos: desestabilizar o governo norte-americano, atingir a opinião pública, por meio das baixas procedentes dos ataques, e, principalmente, demonstrar ao mundo islâmico que era possível atacar a maior potência militar do mundo para tentar obter uma vitória política.

Com relação ao elemento povo, foi observada inicialmente a perplexidade, causada pelo impacto psicológico com a destruição dos edifícios em Nova York. O atentado demonstrou que o território continental norte-americano era vulnerável, apesar de todo poderio bélico e o reconhecido serviço de inteligência voltado para a segurança, causando um clima de insegurança sem precedentes na história daquele país.

Em pesquisa realizada pela rede ABC News e pelo Jornal Washington Post, em 30 de novembro de 2001, 70 % da sociedade norte-americana estava mais preocupada com a segurança do que com a privacidade, no caso da necessidade de se realizar gravações telefônicas para identificar possíveis atos terroristas.

A revista Newsweek, em 2002, dizia que 79% dos norte-americanos esperavam novos atentados. A transmissão de imagens dos palestinos comemorando os atentados provocou revolta e intensificou o ódio em relação aos muçulmanos. O povo norte-americano, que se encontrava com o moral abalado, realizou manifestações patrióticas de repúdio ao terrorismo internacional e deu apoio incondicional ao governo para deflagrar uma retaliação contra os responsáveis. As liberdades civis nos EUA sofreram restrições e diversas medidas de segurança foram adotadas, em território norte-americano, para coibir a presença de terroristas.

As Forças Armadas, que se destinam a defender o país, não conseguiram impedir os ataques. A fragilidade do sistema de defesa do espaço aéreo e a vulnerabilidade do território, neste atentado, ficaram evidenciadas.

A reação era inevitável e, em outubro de 2001, a aviação norte-americana iniciou os bombardeios no Afeganistão nas cidades de Cabul, Kandahar, Mazar-I-Sharif, Cunduz, Farah.

Esta campanha tinha por objetivos derrotar o regime Talibã[11] que dava proteção a terroristas da Al Qaeda, destruir seus campos de treinamento e prender Bin Laden . Em novembro, as forças da Aliança do Norte, rivais do Talibã, invadiram a capital Cabul.

Em dezembro, o regime Talibã foi derrubado. Nesta ofensiva, o emprego da aviação associado as operações terrestres realizadas por tropas especiais produziu uma rápida vitória militar, porém, Bin Laden e o principal líder Talibã, Mulá Omar, não foram presos.

Quanto ao governo, George W. Bush assumiu a presidência dos EUA no início do ano 2001. No período que antecede os atentados, seu governo trabalhava no projeto do escudo antimíssil para se prevenir contra supostos ataques. Logo após os atentados, este projeto foi questionado, os meios utilizados nos ataques foram muito mais baratos do que a utilização de mísseis sofisticados.

Os ataques também demonstraram que nem mesmo o reconhecido serviço de inteligência, no qual se investem bilhões de dólares, foi capaz de deter este atentado.

O Presidente Bush declarou inicialmente que considerou os ataques ao território norte-americano como “um ato de guerra” e foi prontamente apoiado pela sociedade, que exigia vingança na mesma proporção. Em pesquisa realizada pela rede Cable News Network (CNN) e pelo Jornal USA Today, o Presidente teve 90% de aprovação para realizar a guerra contra o terrorismo.

O governo, responsável pela política de defesa, deflagrou duas campanhas militares como forma de retaliação aos atentados e combate ao terrorismo. Inicialmente, com o total apoio da opinião pública e aprovação do Conselho de Segurança da ONU, os EUA estabelecem, ainda em 2001, a Operação Liberdade Duradoura[12] no Afeganistão. Posteriormente, em 2003, atacam o Iraque de Sadam Hussein à revelia do Conselho de Segurança sob a alegação da existência de armas de destruição em massa naquele país.

A Estratégia de Segurança Nacional lançada em 2002, conhecida como Doutrina Bush[13], fortemente influenciada pelos atentados, privilegiou o unilateralismo em relação a política externa e trouxe o conceito de guerra preventiva[14].

Este documento, estabeleceu ainda, uma série de atribuições ao governo-norte-americano no plano internacional: atacar organizações terroristas, defender os ideais democráticos, combater o uso de armas de destruição em massa e promover o crescimento econômico global.

O Presidente Bush considerou ainda, o terrorismo como principal inimigo da humanidade e buscou influenciar o Ocidente para estabelecer uma guerra contra o terror. Além disso, os atentados acentuaram as tendências intervencionistas e imperialistas da política externa norte-americana, onde a guerra contra o sistema comunista foi substituída pela guerra contra o terrorismo. Os Estados que abrigam grupos terroristas, em seus territórios, estão sob permanente vigilância da ONU e dos EUA.

Nenhum outro evento da história contemporânea teve tamanha divulgação pela mídia, possibilitando inclusive que o mundo assistisse em tempo real os ataques. Os meios e métodos assimétricos utilizados nos atentados foram inovadores e produziram na opinião pública norte-americana um sentimento inicial de impotência, seguido de revolta que se transformaria em desejo de vingança. Ato contínuo, resultou em pressão popular sobre o governo para não transigir à vontade do inimigo e revidar os ataques contra a organização terrorista Al Qaeda.

A trindade norte-americana foi gravemente desestabilizada, tendo em vista a forma (brutalidade dos atos e as dificuldades existentes na previsão de um atentado de natureza tão singular) pela qual os terroristas exploraram estes elementos para provocar o desequilíbrio deste sistema e tentaram comprometer a vontade de lutar do povo norte-americano. Os três elementos que acabamos de analisar, o povo, as Forças Armadas e o governo dos EUA reagiram aos atentados de 11 de setembro com orgulho e patriotismo, em consonância com a sua cultura diante das derrotas.

8 – CONCLUSÃO

Os Estados não são mais os detentores do monopólio exclusivo da violência organizada e a metamorfose da guerra é uma realidade. Grupos radicais não controlados por nenhum Estado e com acesso as armas de destruição em massa também têm a capacidade de deflagrar guerras.

A prolongada guerra assimétrica conduzida pela Al Qaeda contra os EUA, iniciada em 1993, no primeiro atentado contra o WTC, não é produto de um “Choque de Civilizações”, mas sim, do componente religioso.

A Al Qaeda tem o propósito de obter vitórias políticas e não de derrotar os EUA, pois terroristas não ganham guerras convencionais e não conquistam territórios.

No que concerne, especificamente, a análise neoclausewitziana dos atentados de 11 de setembro de 2001, pudemos constatar, inicialmente, que Bin Laden nunca se conformou com a continuada presença dos norte-americanos nos países árabes e afastá-los dos lugares sagrados sempre foi seu objetivo. Os atentados se constituíram em uma vitória tática da Al Qaeda, mas não garantiram a consecução de seu propósito político, a retirada norte-americana dos lugares muçulmanos sagrados na Arábia Saudita, que motivou a decisão do emprego da força.

Com relação ao uso ilimitado da força, o estudo revelou que a brutal violência dos atentados aplicada pelos terroristas foi vantajosa, apesar da derrota militar no Afeganistão, pois os EUA não tiveram como revidar os ataques na mesma proporção.

O centro de gravidade, caracterizado pela essência política, foi o próprio governo norte-americano. A Al Qaeda esperava que o governo cedesse às pressões decorrentes dos atentados e atendesse às reivindicações declaradas por Bin Laden, o que não ocorreu.

No tocante aos fatores morais se destacou a coragem para morrer em combate em nome da glória, onde o componente religioso teve forte influência nos ataques suicidas praticados.

No que se refere ao conceito da trindade notável, ressalto que a rede terrorista Al Qaeda atingiu o povo norte-americano por meio das baixas resultantes dos ataques realizados com as aeronaves civis e pela destruição das torres, importantes símbolos para aquela sociedade. O poder militar e o governo também foram atingidos, pois não conseguiram impedir os ataques no seu próprio território.

Sob o ponto de vista norte-americano, a coordenação entre os elementos da trindade foi fundamental para deflagrar a reação. Inicialmente, o povo demonstrou apoio ao seu governo, que também foi eficaz na administração daquele, por não ter sucumbido às forças irracionais que podem emanar da sociedade nos momentos de crise; as Forças Armadas falharam na defesa do território, contudo, seriam eficientes na reação; e, finalmente, cerca de um mês após os atentados, a trindade já estava integrada para promover a guerra contra o terrorismo no Afeganistão.

Finalmente, ficou evidenciado que diversas ações adotadas pela Al Qaeda e pelos norte-americanos são explicáveis à luz do pensamento de Carl Von Clausewitz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ALLAIN, Clara. Como preparei o 11 de setembro. Disponível em: http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe.asp. Acesso em: 09 jun. 2007.
  • CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 930 p.
  • DIÉGUES, Fernando Manoel Fontes. Ainda o Ato Terrorista de 11 de Setembro. Revista Marítima Brasileira, Rio de Janeiro, v. 122, n. 10/12, out/dez. 2002.
  • GRAY, John. Al – Qaeda e o que significa ser moderno. tradução de Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Record, 2004. 174p.
  • HUNTINGTON, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Tradução de M.H.C. Côrtes. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996. 410p.
  • PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora. 2001. Tomo 1. 680p.
  •  PECEQUILO, Cristina Soreanu. Introdução às Relações Internacionais: temas, atores e visões. Rio de Janeiro: Vozes, 2004. 246p.
  • SANT’ANNA, Ivan. Plano de Ataque: a história dos vôos de 11 de setembro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. 275p.
  • WRIGHT, Lawrence. O vulto das torres: a Al Qaeda e o caminho até 11/9. tradução de Ivo Korytowski. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 506p.

[1]  Filósofo prussiano (1724-1804).

[2] A partir de 1816 começou a escrever sua obra, Da Guerra, mas só foi publicada em 1832, um ano após sua morte.

[3]  Nome que Khaled Sheik Mohamed, um dos líderes da Al Qaeda, deu para os atentados.

[4]  Professor universitário de Harvard, publicou em 1996, o livro O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. O autor considera a existência das seguintes civilizações: ocidental, ortodoxa, islâmica, confuciana, japonesa, hindu, budista, africana e latino-americana.

[5] Sistema internacional híbrido com uma superpotência global, grandes potências regionais e potências secundárias.

[6]  Armas dotadas de um elevado potencial de destruição e que pode ser empregada de forma a destruir um grande número de pessoas, as infra-estruturas ou recursos de qualquer espécie.

[7] “A Base” em árabe.

[8] Aquele que não possui território, população e nem infra-estrutura econômica, mas é dotado de armas, inteligência e capacidade de declarar a guerra.

[9]  Al-Jazeera ou a Ilha: Cadeia de televisão de língua árabe do Catar, fundada em 1996, para ser a primeira fonte de noticias do mundo muçulmano.

[10] Arte de deslocar, desdobrar, preparar e empregar as Forças Armadas, visando a atender, nas melhores condições, objetivos que lhes forem designados. Tem por finalidade aplicar forças em uma operação para atingir os objetivos fixados pela estratégia militar, conciliando-as com as possibilidades táticas e técnicas dos meios, buscando superioridade no momento e local adequados, usufruindo da liberdade de ação.

[11] Movimento nacionalista islâmico que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001.

[12] Ofensiva deflagrada em Outubro de 2001 por forças americanas estacionadas no golfo pérsico, contra o Afeganistão, em  resposta aos atentados de 11 de Setembro de 2001.

[13] Conjunto de princípios e métodos adotados pelo presidente George W. Bush para proteger os EUA depois  dos atentados de 11 de setembro e consolidar a hegemonia americana no mundo.

[14]  Conflito armado iniciado quando os decisores acreditam que os ataques inimigos são inevitáveis no futuro e que os atrasos na tomada de decisão aumentariam os riscos.


NOTA DA REDAÇÃO: As opiniões, interpretações e conclusões expressas neste artigo são de seu autor e não representam a posição editorial da Trilogia Forças de Defesa nem de seus portais Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres.



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