Assembleia Geral das Nações Unidas

Artigo publicado no Financial Times deste domingo, assinado pelo presidente Lula, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney e pelo presidente do Quênia, William Ruto

À medida que os líderes mundiais seguem para a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta semana, nos deparamos com um paradoxo. A comunidade internacional está mais interdependente do que nunca, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais fragmentada e polarizada.

Nossas economias estão profundamente interligadas. A tecnologia conecta bilhões de pessoas para além das fronteiras nacionais, enquanto capital, bens, dados e ideias circulam em velocidades que seriam inimagináveis quando as Nações Unidas foram fundadas, em 1945. O comércio global atingiu o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado, e seis bilhões de pessoas – quase três quartos da humanidade – estão conectadas à internet.

No entanto, a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles.

Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva. O mundo do pós-guerra há muito ficou para trás, mas a lógica fundamental que justificou a cooperação multilateral é mais evidente do que nunca.

A emergência climática está superando até mesmo as previsões mais alarmantes. A inteligência artificial avança mais rapidamente do que nossa capacidade de controlá-la. Pandemias podem se espalhar por continentes em questão de semanas, e choques financeiros podem abalar os mercados em poucas horas. Conflitos armados podem desestabilizar regiões inteiras e obrigar milhões de pessoas a fugir de suas casas. Pontos de estrangulamento das rotas marítimas globais, como o Estreito de Ormuz, quando afetados por conflitos, podem paralisar cadeias de abastecimento em todo o mundo. Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo.

É nesse contexto que nos unimos em torno de uma nova iniciativa: “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M, na sigla em inglês). A P4M não pretende criar mais um bloco exclusivo nem outra burocracia internacional. Seu propósito é justamente o oposto: oferecer uma estrutura flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas. A P4M apoiará a reforma das Nações Unidas e de outras instituições multilaterais, para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios contemporâneos, da inteligência artificial e das mudanças do clima à segurança sanitária e à transformação digital.

A P4M buscará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não o substituir, além de construir pontes e aproximar países que podem discordar em muitas questões, mas que compartilham o compromisso com os princípios básicos consagrados na Carta da ONU. São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente que “as superpotências estão descobrindo seus limites”. Acreditamos que a comunidade internacional precisa redescobrir o extraordinário potencial da ação coletiva.

A competição não precisa se transformar em confronto se criarmos canais de diálogo e cooperação. A soberania é fortalecida, e não diminuída, quando os países trabalham juntos para enfrentar desafios comuns. A promoção dos interesses nacionais muitas vezes passa pela ação coletiva diante de desafios compartilhados.

A verdadeira escolha não é entre preservar a ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial ou abandoná-la. É entre renovar a cooperação multilateral em um mundo em transformação ou permitir que a fragmentação, a polarização e a política de poder definam a próxima era.

Diante de uma ordem mundial que se transforma rapidamente, conclamamos líderes de todo o mundo a se juntarem a nós na iniciativa P4M, optando pela cooperação em vez da fragmentação, pelo direito em vez do poder e pela responsabilidade compartilhada em vez da divisão.■



Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.
Inscrever-se
Notificar de
guest

7 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Nilo
Nilo
16 dias atrás

Os grandes conflitos de hoje são resultados da tentativa de imposição do unilateralismo de EUA, envolvido em uma geopolítico anti multilateral. Pensar que o multilateralismo leva a maior número de conflitos ao redor do mundo é uma tese.

Última edição 16 dias atrás por Nilo
Filipe Prestes
Filipe Prestes
Responder para  Nilo
16 dias atrás

Não só do americanos mas de todos que tem relevância geopolítica para fazê-lo. Mas daí a pensar que o multilateralismo é a causa e não a baliza dos movimentos unilaterais, como pensam alguns, é ignorar a realidade dura do hegemon. É ainda mais estranho que em um país que é um poder médio/ regional como o Brasil, há quem defenda potência A ou B. Estados Unidos, UE, China e Japão farão o que for para atenderem seus interesses nacionais. O discurso de Carney em Davos foi certeiro ao reconhecer que na nova ordem que emerge os países médios precisam do multilateralismo e se não estiverem á mesa com as grandes potências, certamente estarão no menu. O problema é o paradoxo do poder compartido em esferas de influência dentro da multipolaridade, como vemos hoje a doutrina chinesa para o Pacífico e o revivalismo americano da doutrina Monroe para as Américas. Penso que o futuro será uma partição do mundo em esferas de poder regional num acordo de cavalheiros entre China e Estados Unidos, similar à partição da África no séc. XIX.

Nilo
Nilo
Responder para  Filipe Prestes
15 dias atrás

Lembrado essa partilha a qual vc se refere ignorou as fronteiras etnicas, linguísticas e culturais, foi o que EUA já propôs, a divisão, tendo a America como seu quintal e exclusividade de sua ocupação tendo principalmente a China e Rússia de se afastar o que não foi aceito, portanto acredito estarmos longe dessa alternativa e se aceito pela China e Rússia seria uma trapaça desses dois com o restante de países que estão no Brica ou que estão com pretensões de entrar.

Carlos Campos
Carlos Campos
Responder para  Nilo
15 dias atrás

Quando o mundo era Multilateral era mais Belicoso

Antunes 1980
Antunes 1980
16 dias atrás

O multilateralismo permite que mais países tenham voz, mas também pode tornar as decisões mais lentas.

Como cada país defende seus próprios interesses, chegar a um acordo pode ser difícil.

Isso pode acabar criando blocos rivais, em vez de verdadeira cooperação.
Em crises, muitas vezes fica difícil saber quem deve agir e assumir a responsabilidade.

E, no fim, uma decisão pode ser aprovada, mas não ter força suficiente para ser realmente cumprida.

Paulo
Paulo
16 dias atrás

Vejam o interessante caso de Sam Altman e Amodei, os respectivos CEOs da Open AI e Anthropic, candidatissimos ao troféu Frankstein do ano, por produzirem ” monstruosidades” que não conseguem controlar. Por bem, ou na marra, Trump foi arrastado para uma cúpula com o Sr. Xi para tentar fazer algo em conjunto, afim de mitigar pelo menos parcialmente a Cag* que os 2 CEOs fizeram. Aliás na cúpula, Sam Altman, que vai participar dela, terá a chance de explicar pessoalmente para os Chinos o que fez, e terá a incomoda participação de Elon Musk, ( exigência do Sr.Xi ) que poderá responder pessoalmente a Altman :
Eu avisei !!!!!

Carlos Campos
Carlos Campos
15 dias atrás

Acreditar que o Multilateralismo vai trazer a paz é uma ilusão, mas ele é inevitável, vai acontecer querendo ou não, o mundo vai ser coberto em zonas de controle de potencias regionais. que caso confrontados gerará a repressão contra os Estados mais fracos.