Do analfabetismo em massa à renda recorde: a transformação social do Brasil em 137 anos de República
Indicadores mostram avanços expressivos na educação, na saúde e no padrão de vida desde a República da Espada, mas também revelam baixo crescimento recente e desigualdades que atravessaram todos os regimes políticos
Quando a República foi proclamada, em 1889, o Brasil era um país predominantemente rural, recém-saído da escravidão e no qual a educação formal permanecia restrita a uma minoria. O Censo de 1890 apontou uma taxa de analfabetismo de aproximadamente 82,6%, considerando a população a partir de cinco anos — critério diferente do adotado atualmente.
Em 2026, o retrato é radicalmente distinto. A taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais caiu para 4,9% em 2025; a mortalidade infantil chegou a 12,3 óbitos por mil nascidos vivos em 2024; e a parcela da população abaixo da linha de pobreza recuou para 23,1%. Ao mesmo tempo, o PIB per capita alcançou R$ 59.687,49 em 2025.
A evolução, no entanto, não foi linear. O país alternou ciclos de industrialização acelerada, estagnação, inflação, expansão de políticas sociais e crises econômicas. Além disso, as estatísticas antigas têm limitações: não existe uma série nacional e diretamente comparável de pobreza monetária desde o século XIX, e os critérios de alfabetização, renda e mortalidade foram aperfeiçoados ao longo do tempo.
As taxas de analfabetismo de 1900 a 2000 referem-se, em geral, às pessoas com 15 anos ou mais. A série registra 65,3% em 1900, 56,1% em 1940, 50,6% em 1950, 39,7% em 1960, 33,7% em 1970, 25,9% em 1980 e 13,6% em 2000.
Na pobreza, os números anteriores a 2012 não devem ser comparados diretamente com os atuais. As linhas monetárias, as pesquisas domiciliares e os critérios de paridade de poder de compra mudaram. Em uma série do Ipea, por exemplo, a pobreza caiu de 39,4% em 2003 para 25,3% em 2008. A série recente do IBGE, baseada na linha de US$ 6,85 por dia em paridade de poder de compra de 2017, começa em 2012.
República da Espada e Primeira República: cidadania para poucos
A República da Espada, entre 1889 e 1894, herdou uma estrutura social marcada pela escravidão, pela concentração fundiária e pela ausência de sistemas nacionais de educação, saúde e proteção social. Os libertos e seus descendentes ingressaram na nova ordem política sem políticas abrangentes de integração econômica, acesso à terra ou escolarização.
A situação pouco avançou durante grande parte da Primeira República. Em 1900, 65,3% dos brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler nem escrever. Duas décadas depois, o índice ainda estava perto de 65%, evidenciando a reduzida capacidade dos governos oligárquicos de universalizar o ensino básico.
A economia também crescia lentamente por habitante. A série histórica do Ipeadata, expressa em milhares de dólares de 2022, estima um PIB per capita de US$ 560 em 1900 e de US$ 730 em 1920. Em 1930, o valor havia chegado a US$ 980 — avanço modesto para um intervalo de três décadas.
Não há uma taxa nacional de pobreza monetária comparável para esse período. Salários, condições de moradia, alimentação, acesso à escola e mortalidade permitem afirmar que a privação era disseminada, mas transformar essas evidências em uma porcentagem equivalente às medidas atuais produziria uma falsa precisão estatística.
De Vargas a 1964: industrialização começa a mudar os indicadores
A Revolução de 1930 abriu um período de maior centralização estatal e industrialização. A expansão da administração pública, da legislação trabalhista e da educação urbana começou a alterar lentamente a estrutura social, embora os benefícios permanecessem desigualmente distribuídos entre regiões, áreas rurais e grupos raciais.
Em 1940, o analfabetismo ainda atingia 56,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais. A mortalidade infantil chegava a 146,6 óbitos por mil nascidos vivos — quase 15 mortes antes do primeiro aniversário para cada cem crianças nascidas. Em 1960, os indicadores haviam recuado para 39,7% e 117,7 por mil, respectivamente.
A renda avançou mais rapidamente. O PIB real per capita passou de cerca de US$ 1.300, em valores de 2022, em 1940, para US$ 1.830 em 1950 e US$ 2.760 em 1960. O crescimento refletiu a industrialização, a urbanização e os investimentos em energia, transportes e infraestrutura, mas não eliminou a concentração de renda nem a precariedade dos serviços públicos.
Regime militar: crescimento acelerado, ganhos sociais desiguais
Entre 1964 e 1985, sobretudo durante o chamado “milagre econômico”, o Brasil registrou uma das maiores expansões de renda por habitante de sua história. O PIB real per capita subiu de aproximadamente US$ 2.950 em 1964 para US$ 6.770 em 1980, mais que dobrando em 16 anos.
Os índices sociais também melhoraram, mas em ritmo desigual. O analfabetismo caiu de 33,7% em 1970 para 25,9% em 1980. A mortalidade infantil recuou de 97,6 para 69,1 mortes por mil nascidos vivos no mesmo intervalo — uma redução importante, embora o patamar ainda fosse elevado.
A expansão econômica conviveu com elevada concentração de renda, urbanização desordenada e acesso desigual a saneamento, educação e saúde. A crise da dívida externa encerrou o ciclo de crescimento. Entre 1980 e 1983, o PIB real per capita caiu de US$ 6.770 para US$ 5.930, antecipando a estagnação e a inflação que marcariam a transição democrática.
Nova República: direitos sociais, estabilidade e combate à pobreza
A Nova República começou, em 1985, com uma economia endividada e submetida à inflação elevada. A Constituição de 1988 ampliou direitos sociais e definiu a saúde como direito de todos e dever do Estado, estabelecendo as bases do Sistema Único de Saúde.
Os efeitos aparecem com clareza na saúde infantil. A mortalidade caiu de 69,1 por mil em 1980 para 45,1 em 1991, 29 em 2000, 16,7 em 2010 e 12,3 em 2024. O IBGE associa essa transformação à vacinação, ao pré-natal, ao aleitamento, à atuação de agentes comunitários, à melhoria da renda e da escolaridade e à ampliação do saneamento.
Na economia, porém, as décadas iniciais da democracia foram mais instáveis. O PIB real per capita era de US$ 6.470 em 1985 e ficou em US$ 6.510 em 1990. Após o Plano Real, que controlou a inflação, chegou a US$ 7.090 em 1995, mas avançou pouco até o início dos anos 2000.
Entre 2003 e 2014, crescimento econômico, valorização do salário mínimo, maior formalização do trabalho e ampliação das transferências de renda ajudaram a reduzir pobreza e desigualdade. Na série do Ipea, a proporção de pobres caiu de 39,4% em 2003 para 25,3% em 2008. Estudos do instituto também identificaram contribuição do Bolsa Família para a redução da pobreza e da evasão escolar.
Crises interrompem uma trajetória que parecia consolidada
A recessão de 2015 e 2016, seguida por anos de crescimento reduzido e pela pandemia de Covid-19, interrompeu parte dos avanços. Na série atualizada do IBGE, a pobreza passou de 34,7% em 2012 para 30,9% em 2014, mas voltou a crescer e atingiu 36,7% em 2021, o pior resultado da série recente.
O PIB real per capita ilustra a perda de dinamismo. Em valores constantes da série do Ipeadata, ele chegou a US$ 9.650 em 2014, recuou para US$ 8.880 em 2016 e terminou 2022 em US$ 9.610 — ainda ligeiramente abaixo do nível alcançado oito anos antes.
A recuperação do emprego e a ampliação das transferências reduziram a pobreza para 31,6% em 2022, 27,3% em 2023 e 23,1% em 2024, o menor percentual da série iniciada em 2012. O total de pessoas nessa condição caiu para aproximadamente 48,9 milhões.
O retrato do Brasil em 2026
Os dados mais recentes disponíveis em 2026 combinam recordes positivos com advertências. Em 2025, o analfabetismo ficou abaixo de 5% pela primeira vez na série anual da PNAD Contínua, embora 8,4 milhões de pessoas ainda não soubessem ler nem escrever.
No mesmo ano, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita chegou ao recorde de R$ 2.264. O PIB per capita, que mede a produção econômica por habitante e não o dinheiro efetivamente recebido por cada pessoa, alcançou R$ 59.687,49, com crescimento real de 1,9% em relação a 2024.
A distância percorrida desde 1889 é inequívoca: o analfabetismo deixou de abranger a maioria da população; a mortalidade infantil caiu mais de 90% desde 1940; e a renda real por habitante multiplicou-se aproximadamente 17 vezes entre 1900 e 2022. Mas as médias nacionais escondem diferenças profundas.
Em 2022, as taxas de analfabetismo entre pretos, pardos e indígenas continuavam superiores à média nacional. Em 2024, enquanto 23,1% dos brasileiros estavam abaixo da linha de pobreza, a proporção chegava a 39,4% no Nordeste.
O desafio da próxima etapa não é apenas fazer os indicadores continuarem caindo, mas impedir que os avanços dependam de ciclos econômicos curtos. Depois de mais de um século em que saúde e educação progrediram mais consistentemente que a produtividade, o Brasil chega a 2026 diante da necessidade de transformar direitos sociais, estabilidade de renda e crescimento econômico em conquistas menos vulneráveis às crises e menos determinadas pelo local de nascimento, pela raça ou pela condição familiar.■

Um dado comparativo:
-Taxa de analfabetismo no Brasil em 1890: 82,6% da população de 5 anos ou mais.
-Taxa de analfabetismo nos EUA em 1890: 13,3% da população com 14 anos ou mais.
–Taxa de analfabetismo no Brasil em 2000: 13,6%
…
O Brasil atingiu o índice de alfabetização que os EUA tinham em 1890, somente 110 anos depois!
Dados que informam sobre um fator fundamental do porquê da diferença no desenvolvimento de EUA e Brasil neste período…
Ótima comparação, Hamon!
Isso por que os EUA, França, Inglaterra, Alemanha e Japão tornaram a educação básica obrigatória e gratuita, ainda nos meados do século XIX e o Brasil só em 1988, final do século XX.
Muito interessante. Obrigado por compartilhar.
Peço desculpa falta algo aí que é de extrema importância.
A imigração brasileira que pode aumentar a economia com remessa do exterior.
Nada aí é abordado, porquê?
Nem tudo é um mar de rosas.
Um império que aqui em Portugal uma parte da nossa população tinha como destino para melhores condições de vida
E agora é o inverso.
Os políticos e os economistas brasileiros têm vergonha desse fator?
Agora como se diz na santa terrinha podem arriar á vontade que a verdade não desaparece.
¨Indicadores mostram avanços expressivos na educação¨parei de ler ai, um país onde 70% da população não consegue interpretar um texto simples< e olha que não estou falando de Machado de Assis, é dose. Com aprovação automática nunca teremos um povo instruído e esse é o objetivo dos governates, povo burro é mais fácil de ser dominado.