Ouro ilegal transforma garimpo na Amazônia em problema de segurança regional, alerta estudo
Relatório do IISS afirma que repressão isolada não será suficiente e defende rastreabilidade, coordenação entre órgãos públicos e cooperação entre os países amazônicos
O garimpo ilegal de ouro na Amazônia deixou de ser apenas um problema ambiental e passou a integrar uma rede de ameaças que envolve crime organizado, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e pessoas, trabalho forçado e invasão de terras indígenas. Essa é a principal conclusão de um novo estudo do International Institute for Strategic Studies (IISS), centro de pesquisa britânico especializado em segurança e relações internacionais.
Intitulado From Illegal Garimpo to Good Governance: Strengthening Responses to Illicit Gold in the Brazilian Amazon, o relatório foi elaborado pelas pesquisadoras Irene Mia e Fernanda Rios Herrera. O documento sustenta que o Brasil ocupa uma posição central na economia ilegal do ouro amazônico e que o enfrentamento do problema exigirá mais do que operações policiais pontuais.
Garimpo tornou-se uma crise de segurança
A bacia amazônica ocupa aproximadamente 8,4 milhões de quilômetros quadrados, distribuídos por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e pelo território ultramarino da Guiana Francesa. A região concentra cerca de 30% da biodiversidade mundial e desempenha papel essencial no sistema global de água doce e na absorção de carbono.
Nesse espaço vivem aproximadamente 380 povos indígenas identificados, dos quais 136 permanecem em isolamento voluntário. No Brasil, o Censo de 2022 contabilizou mais de 1,6 milhão de indígenas, grande parte deles residente na Amazônia.
Embora a agropecuária continue sendo a principal responsável pelo desmatamento, o IISS estima que práticas insustentáveis de mineração de ouro estejam associadas a entre 10% e 15% da perda florestal na região. Os impactos ultrapassam a remoção da vegetação e incluem destruição de rios, assoreamento, contaminação por mercúrio e degradação de ecossistemas usados por comunidades tradicionais.
O estudo alerta que a localização da Amazônia sobre importantes rotas internacionais do narcotráfico facilitou a convergência entre o ouro ilegal e outras economias criminosas. Facções, grupos armados, empresários, intermediários financeiros e operadores logísticos passaram a atuar numa mesma cadeia, utilizando o metal tanto como fonte de lucro quanto como mecanismo para lavar recursos de outras atividades ilícitas.
Preço elevado aumenta pressão sobre a floresta
A alta persistente do ouro no mercado internacional ampliou os incentivos econômicos para a abertura de novas frentes de mineração. Diferentemente de drogas ou armas, o ouro pode ser armazenado por longos períodos, transportado em pequenos volumes e misturado ao produto legal depois de refinado.
O problema é agravado pela informalidade. Segundo o IISS, entre 75% e 85% do setor de ouro na Amazônia funciona informalmente, muito acima da estimativa mundial, situada entre 40% e 50%.
O Brasil concentra mais de 60% da floresta amazônica e a maior parcela das atividades de mineração da região. Levantamento do Amazon Mining Watch estimou que a área acumulada afetada pela mineração na Amazônia brasileira chegou a aproximadamente 223 mil hectares no fim de 2025.
A expansão ocorre principalmente por meio do garimpo artesanal e de pequena escala, mas essa classificação pode esconder empreendimentos de caráter industrial. Muitas operações utilizam escavadeiras, balsas, aeronaves, pistas clandestinas, grandes volumes de combustível e redes sofisticadas de financiamento.
Ouro ilegal recebe aparência de produto regular
Um dos pontos mais vulneráveis da cadeia é o chamado “esquentamento” do ouro. O metal extraído de terras indígenas, unidades de conservação ou áreas sem autorização recebe documentação falsa e passa a circular como se tivesse origem legal.
Investigação divulgada em maio identificou 187 áreas com autorizações de mineração próximas a territórios protegidos. Em 98 delas, imagens de satélite não mostravam sinais compatíveis com a produção declarada.
Essas “permissões fantasmas” teriam sido usadas para justificar a comercialização de 26,8 toneladas de ouro, avaliadas em US$ 3,88 bilhões, entre 2018 e março de 2026. Nas proximidades de algumas áreas formalmente autorizadas, porém sem atividade visível, foram encontrados garimpos ativos dentro de territórios protegidos.
Depois que o ouro é fundido e misturado a outros lotes, determinar sua procedência torna-se muito mais difícil. O produto pode atravessar vários intermediários até chegar a refinarias, instituições financeiras, joalherias e compradores internacionais.
Facções diversificam fontes de receita
O interesse do crime organizado pelo ouro decorre de sua elevada rentabilidade, da facilidade de transporte e das fragilidades de controle. Redes envolvidas no tráfico de drogas podem aproveitar as mesmas rotas aéreas, fluviais e terrestres para movimentar metal, mercúrio, combustível, armas e dinheiro.
O garimpo também permite às facções controlar territórios, cobrar taxas, fornecer segurança armada e lavar recursos por meio de empresas de fachada. Em algumas regiões, organizações criminosas passaram a financiar máquinas, aeronaves e infraestrutura em troca de participação na produção.
Para o IISS, essa convergência transforma o garimpo numa “policrise” de segurança: a atividade alimenta a violência, destrói meios de subsistência, enfraquece instituições públicas e amplia a presença de grupos criminosos em áreas onde o Estado já possui capacidade limitada.
Repressão teve resultados, mas não eliminou a rede
O governo federal intensificou as operações contra o garimpo a partir da crise humanitária na Terra Indígena Yanomami. Dados oficiais apontam uma redução de 98% dos alertas de novas áreas de mineração no território entre março de 2024 e setembro de 2025.
As ações envolveram Forças Armadas, Polícia Federal, Ibama, Funai, Força Nacional e outros órgãos. Até junho de 2026, o prejuízo imposto às estruturas do garimpo na Terra Yanomami era estimado em R$ 709 milhões.
O estudo reconhece esses avanços, mas adverte que a repressão em uma área pode provocar o deslocamento das operações para outros territórios ou países vizinhos. Sem presença permanente do Estado, recuperação ambiental e alternativas econômicas, os garimpeiros e financiadores podem retornar depois que as forças de fiscalização forem retiradas.
Também houve mudanças regulatórias. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional a norma que estabelecia a presunção de legalidade do ouro e de boa-fé do comprador. Para o tribunal, a regra facilitava a entrada de produto ilegal no mercado formal.
Rastreabilidade é apontada como prioridade
O relatório defende um sistema de rastreabilidade capaz de acompanhar o ouro desde o local de extração até o comprador final. Autorizações minerárias, capacidade estimada de produção, coordenadas geográficas, notas fiscais eletrônicas e registros financeiros precisariam ser integrados numa única estrutura de controle.
A Agência Nacional de Mineração reconhece que a convivência entre fluxos legais e ilegais constitui um dos principais problemas do setor. Segundo o órgão, documentos fraudulentos permitem dar aparência regular ao ouro retirado de áreas não autorizadas, enquanto sistemas digitais de rastreabilidade poderiam tornar a cadeia financeira mais confiável.
A Polícia Federal também está ampliando o uso da chamada “impressão digital do ouro”. A técnica analisa características químicas e morfológicas do metal para comparar amostras apreendidas com uma base de dados formada por depósitos de diferentes regiões.
O Brasil já iniciou a cooperação com países vizinhos e com a França, por meio da Guiana Francesa, para desenvolver uma biblioteca internacional de amostras. O objetivo é identificar a origem do ouro mesmo quando o metal atravessa fronteiras antes de ser refinado ou exportado.
Cooperação regional será indispensável
O IISS recomenda a harmonização das regras aplicadas pelos países amazônicos, uma vez que diferenças regulatórias permitem que organizações criminosas transfiram o ouro para jurisdições com fiscalização mais fraca.
A estratégia proposta inclui compartilhamento de inteligência, integração de bancos de dados, operações policiais conjuntas, controle do comércio de mercúrio e combustíveis e padrões comuns para certificação da origem do metal.
O estudo também defende programas de formalização para pequenos mineradores que atuem fora de territórios proibidos. Acesso a crédito, assistência técnica, cooperativas responsáveis, tecnologias sem mercúrio e canais legais de comercialização poderiam reduzir o espaço disponível para financiadores criminosos.
O principal desafio será transformar operações emergenciais em uma política permanente. Enquanto o ouro ilegal puder receber documentação regular e ingressar no sistema financeiro, a destruição de máquinas e acampamentos continuará atingindo apenas a parte mais visível de uma cadeia comandada por investidores, compradores e organizações que frequentemente operam a milhares de quilômetros da floresta.■


Um problemas conhecido a décadas pelo Estado e não resolvido por nenhum governo.
Os recursos que nos falta são de toda ordem, entre eles falta de satélites, a Marinha não tem navios novos o suficiente, o exército mal equipado, queimar só equipamentos não e suficiente é preciso prender e resgatar recursos de quem financia.
Agora mesmo saiu a notícia.
https://iclnoticias.com.br/trump-14-paises-latinos-sancionar-pcc-e-cv/
Como na Venezuela entre os recursos e os problemas com os traficantes acabam.
Põe muito tempo nisso.
Buscou-se regularizar muitos, para q o controle ficasse melhor, e até teria arrecadação, mas……. foi vendido na mídia como “apoio ao desmatamento etc”.
Barro….
O Brasil se tornou um Narcoestado… as facções estão em todas as esferas do poder. Adivinha em quem as facções vão votar em outubro???
Em São Paulo e no RJ, o voto e certo para a turma de “honestos” e “santos” que você e sua turma idolatra, já que nesses estados os negócios do crime vão muito bem obrigado, já possuindo empresas regulares e apoio de pastores.
Começa assim…depois todo mundo sabe como termina.
“Ouro ilegal transforma garimpo na Amazônia em problema de segurança regional, alerta estudo”
Um problema que persiste por décadas e o Estado já demonstrou não ter capacidade de impedi-lo.
E nosso atual Chefe de Estado estufa o peito para falar de soberania ainda.
Os Presidentes que passaram, mas principalmente este que está há 12 anos no poder, tem uma visão bastante limitada do que a palavra significa.
A soberania envolve não apenas território, mas capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico, defesa capacitada e um judiciário eficiente.
Sem esse pacote, continuaremos vulneráveis à influência externa.
Referente apenas ao assunto do artigo, infelizmente acabamos passando péssimos recados:
* Perda de controle legal e tansfronteiriço, uma vez que o crime organizado domina garimpos com suas próprias leis e a evasão de recursos acaba sendo para países estrangeiros;
* Ameaça à soberania econômica, uma vez que o ouro é recurso mineral estratégico;
* Vulnerabilidade da imagem internacional, uma vez o
avanço da devastação e do crime organizado na região fragiliza a posição diplomática que nosso país tenta passar;
Enquanto isso continuamos persistindo com discursos vazios (agora não apenas em nível regional), onde o crime organizado avança nitidamente pela administração pública (como Executivo e Legislativo) e judiciário (como STF e STJ).
Onde vemos a corrupção instalada na cúpula dos órgãos (como a PF) que deveria exatamente investiga-las e puni-las.
Onde vemos Forças Armadas sem recursos suficientes para manter os parques instalados, sem recursos para executar suas funções e participar de mais operações, sem recursos para aquisição de equipamentos e sem recursos para se atualizar tecnologicamente.
Mas vamos continuar mantendo tudo do jeito que está e não se importar com o avanço dessa falta de moralidade.
Se não garantimos a soberania interna, como vamos garanti-la contra paises estrangeiros?
Talvez, como alguns acreditam, com os mesmos discursos vazios.
Diferença do presidente atual para o anterior, é que no anterior já estaria tudo legalizado (garimpo ilegal, desmatamento, queimadas, milicias, PCC, etc)
Então é assim que você qualifica a falta de capacidade do Presidente atual, com a incapacidade do anterior?
Não consegue encontrar argumento exatamente porque não existe.
Ambos são péssimos.
A única opção que poderia trazer uma possível melhora é escolher um candidato fora dessa bolha que criaram para a população.
A mídia (inclusive diversos blogs e canais de defesa) nos fazem acreditar existirem apenas estas duas propostas.
Um lado engano.
Existem duas outras opções com ótimas propostas mas, principalmente, com otimo histórico como gestor público.
Olha aí mais um capítulo da guerra híbrida que estamos sofrendo.
Vai ter muito “instituto” fazendo estudo e divulgando relatório contra o Brasil.
Vão falar que é defesa do meio ambiente, combate a traficantes e demais desculpas até o Brasil ser ainda mais capacho dos EUA e alguns países europeus; obrigando a entregar o que temos a eles.
Ricardo Salles ansioso para mandar abrir a porteira. Como bem disse uma amiga que já é avó “como será o mundo que minha neta vai viver?”. Será muito pior que o que vivemos, muito pior mesmo.