Resenha: O Brasil não cabe no quintal de ninguém e o desafio da autonomia nacional

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O Brasil não cabe no quintal de ninguém

Publicado em 2019, O Brasil não cabe no quintal de ninguém, de Paulo Nogueira Batista Jr., é ao mesmo tempo livro de memórias, coletânea de ensaios, análise da ordem internacional e manifesto em defesa da autonomia brasileira. A variedade pode sugerir dispersão, mas há um eixo que mantém o conjunto unido: a convicção de que um país com as dimensões, os recursos e o potencial do Brasil não pode aceitar uma posição subordinada no sistema internacional.

O autor fala de um lugar incomum. Economista, professor e servidor público, foi diretor-executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), participou das articulações do G20 e dos BRICS e ocupou a vice-presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado pelo agrupamento. Essa experiência dá ao livro o seu maior atrativo: a possibilidade de observar, por dentro, instituições geralmente apresentadas ao público apenas por comunicados diplomáticos e documentos técnicos.

Fragmentos unidos pelo nacionalismo

O volume reúne textos de diferentes épocas e formatos, distribuídos por seis capítulos. Os dois primeiros tratam da reforma do FMI, da ascensão do G20, da articulação dos BRICS e da criação do NBD. Os capítulos seguintes abordam nacionalismo, economia política brasileira, perfis de personagens históricos e, por fim, crônicas marcadas pelo humor e pela crítica ao poder financeiro.

O próprio Batista Jr. reconhece o caráter heterogêneo da obra. Em vez de apresentar um tratado sistemático, ele reúne aquilo que chama de fragmentos de três projetos inacabados: a recuperação da autonomia da política econômica brasileira, a reforma da governança financeira mundial e a construção, pelos BRICS, de mecanismos independentes de financiamento. A unidade não está na forma, mas no temperamento do autor e em sua persistente defesa do interesse nacional.

Esse nacionalismo não é apresentado como doutrina neutra ou universal. Batista Jr. admite seus perigos históricos, incluindo a degeneração em xenofobia, imperialismo e autoritarismo. Sua tese, porém, é que, nos países em desenvolvimento, o nacionalismo tende a assumir caráter defensivo: funciona como instrumento de preservação da autonomia diante de potências mais ricas, instituições internacionais assimétricas e elites locais inclinadas a reproduzir interesses externos.

Por dentro do FMI e da disputa pelo poder global

Os capítulos sobre o FMI constituem a parte mais sólida e informativa do livro. O autor descreve como a crise financeira de 2008 enfraqueceu a autoridade econômica dos países desenvolvidos e abriu espaço para que o G20 substituísse, ainda que parcialmente, o G7 como principal foro de coordenação econômica internacional. Nesse ambiente, Brasil, Rússia, Índia e China passaram a atuar de forma mais organizada.

Batista Jr. mostra que as discussões sobre cotas, votos e cadeiras no FMI estavam longe de ser meramente burocráticas. Elas expressavam uma disputa concreta pela distribuição do poder mundial. A Europa resistia à perda de privilégios acumulados desde a criação da instituição, enquanto os emergentes buscavam uma representação compatível com seu peso crescente na economia global.

O relato da reforma de 2010 é particularmente revelador. O Brasil avançou da 18ª para a 10ª posição entre os maiores cotistas do Fundo, depois de duas rodadas de mudanças. O resultado foi relevante, mas insuficiente para alterar a estrutura central da organização. Na avaliação do autor, a lentidão e os limites dessas reformas ajudaram a convencer os BRICS de que não bastava disputar espaço nas instituições existentes: era necessário criar mecanismos próprios.

A narrativa tem a força de um testemunho direto. Reuniões tensas, divergências entre europeus e norte-americanos, articulações dos emergentes e negociações de última hora aparecem com detalhes raramente encontrados em textos acadêmicos. O leitor percebe que fórmulas técnicas e percentuais de participação escondem conflitos políticos, interesses nacionais e decisões tomadas por um grupo muito restrito de autoridades.

O Banco dos BRICS entre a ambição e a frustração

O segundo grande núcleo do livro acompanha a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas. O NBD nasceu com a ambição de financiar infraestrutura e desenvolvimento sustentável, utilizar sistemas nacionais dos países tomadores, operar também em moedas locais e oferecer uma alternativa a instituições dominadas pelas potências ocidentais.

Batista Jr. participou da construção do banco e não esconde o entusiasmo inicial. A igualdade de participação entre os cinco fundadores, cada um com 20% do capital e dos votos, representava uma inovação importante. A sede em Xangai e o apoio estratégico da China ofereciam condições para que o NBD se tornasse uma instituição global relevante.

O balanço dos primeiros anos, contudo, é severo. O autor aponta lentidão, problemas de gestão, baixa qualidade de parte do corpo técnico, pouca inovação e dificuldade de ampliar o quadro de membros. A seção sobre sua demissão da vice-presidência brasileira é uma das mais pessoais e duras do volume. Batista Jr. relata acusações, investigações internas e procedimentos que considera arbitrários.

Esse episódio deve ser lido como testemunho de uma das partes, e não como reconstrução definitiva do conflito. A proximidade do autor com os acontecimentos dá vivacidade à narrativa, mas também impõe limites evidentes. Ainda assim, o caso ilustra um dos paradoxos centrais do livro: instituições criadas para romper práticas tradicionais podem reproduzir rapidamente os mesmos vícios burocráticos e políticos que pretendiam superar.

Defesa nacional além dos quartéis

De todos os povos que conheci mais de perto, o brasileiro é o menos
patriótico, o menos nacionalista – e essa falta de apego ao país nos tem
atrapalhado muito. Desde que me entendo por gente, isso sempre foi assim.
O brasileiro só se lembrava de ser brasileiro durante a Copa do Mundo
(agora talvez nem isso…). A esse dado psicológico estrutural,
acrescentaram-se nos anos recentes muitos fenômenos que configuram
verdadeiro adoecimento e desagregação da sociedade brasileira e de suas
instituições. Nunca o Brasil me causou tanta preocupação – angústia seria
palavra melhor. Nunca vi nosso país tão dividido, fragilizado e vulnerável à
ação de interesses estrangeiros. – trecho do livro

A passagem mais diretamente relacionada à defesa está no ensaio “Brasil, um país desarmado”. Batista Jr. argumenta que um país de território continental, grandes recursos naturais e reduzido poder de dissuasão permanece vulnerável, sobretudo em um sistema internacional no qual garantias jurídicas não substituem capacidade própria de defesa.

O autor recorda a perda da Crimeia pela Ucrânia, em 2014, apesar das garantias de integridade territorial recebidas quando Kiev abriu mão do arsenal nuclear herdado da União Soviética. Também recupera o debate brasileiro sobre o Tratado de Não Proliferação Nuclear e as restrições externas ao desenvolvimento de tecnologias sensíveis. O tom é provocador e busca romper a complacência com que o tema da segurança nacional costuma ser tratado no debate público.

Não vamos nos enganar. O Brasil é um país desarmado. E um país indefeso se expõe a riscos graves, especialmente se tem vasto território e imensas riquezas e recursos naturais. Ninguém vai nos defender. As mais solenes garantias internacionais não são confiáveis, muitas delas não valem o papel em que foram escritas.

O livro não apresenta um programa detalhado de reequipamento militar nem desenvolve uma doutrina de defesa. Sua contribuição está em outro plano: mostrar que soberania militar, autonomia tecnológica, capacidade industrial, reservas internacionais, política cambial e liberdade de ação diplomática fazem parte do mesmo problema estratégico. Um Estado financeiramente dependente ou tecnologicamente vulnerável terá dificuldades para sustentar uma política de defesa verdadeiramente independente.

Essa concepção ampliada é um dos pontos mais valiosos da obra. Batista Jr. sugere que a segurança nacional começa antes da mobilização das Forças Armadas. Ela depende da capacidade de financiar o Estado, proteger setores estratégicos, dominar tecnologias críticas, resistir a pressões externas e formular políticas públicas sem pedir autorização aos centros de poder econômico.

Uma escrita combativa e assumidamente parcial

Batista Jr. escreve com clareza, ironia e gosto pela polêmica. Referências a Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Nietzsche, De Gaulle, Celso Furtado e outros personagens dão ao livro uma dimensão literária pouco comum em obras de economia. O autor evita o jargão sempre que possível e procura dialogar com o leitor não especializado.

A mesma voz que torna a leitura envolvente também produz excessos. Algumas generalizações sobre o caráter nacional, as elites brasileiras, os europeus e os norte-americanos são mais contundentes do que demonstradas. Os ataques aos governos Temer e Bolsonaro refletem a temperatura política de 2019 e, em certos momentos, aproximam o texto do discurso de tribuna. Os capítulos de perfis e crônicas, embora revelem influências e afetos do autor, reduzem a coesão temática do volume.

Essas limitações não anulam o mérito principal do livro. Batista Jr. não disfarça sua posição, nem tenta apresentar como neutralidade técnica aquilo que é uma interpretação política e histórica. Sua parcialidade é explícita e pode ser confrontada pelo leitor. Mais problemáticos são os discursos que defendem interesses nacionais alheios sob a aparência de recomendações universais e inevitáveis.

Autonomia sem isolamento

O nacionalismo defendido na obra não equivale a autarquia ou rejeição do mundo exterior. O autor propõe cooperação internacional, participação ativa em organismos multilaterais e relações importantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China. O que rejeita é o alinhamento automático, a importação acrítica de modelos e a renúncia antecipada aos instrumentos de desenvolvimento.

Esse argumento torna o livro especialmente pertinente para o debate estratégico. Em uma ordem internacional marcada pela competição entre grandes potências, países intermediários são pressionados a escolher lados, adaptar suas políticas e limitar suas ambições. Para Batista Jr., o Brasil deve negociar caso a caso, preservar margem de manobra e transformar seu peso territorial, econômico, populacional e diplomático em poder efetivo.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém não oferece um roteiro pronto para essa transformação. Oferece algo anterior e talvez mais necessário: uma contestação frontal à ideia de que a subordinação é realista e de que a autonomia seria apenas retórica. Para um país que frequentemente trata defesa, desenvolvimento e política externa como assuntos separados, o livro lembra que a soberania depende da articulação dos três — e, sobretudo, da disposição política de exercê-la.


Livro: O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata
Autor: Paulo Nogueira Batista Jr.
Editora: Casa da Palavra/LeYa
Ano: 2019
Extensão: 448 páginas
ISBN: 978-85-7734-684-4



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Rodrigo@acr.ind.br
Rodrigo@acr.ind.br
18 dias atrás

Quer defesa realmente eficaz tenha a capacidade Nuclear plenamente desenvolvida, com armas nucleares prontas para serem empregadas, Veja a Coreia do Norte, é um “paíseco” mas todos tem receio do que podem fazer e pensam duas , três vezes antes de se meter com eles,

Nilo
Nilo
Responder para  Rodrigo@acr.ind.br
18 dias atrás

País de bananas, tem até especialista do setor, militares, que defende o Brasil ficar sob o guarda chuva do EUA.

Comenteiro
Comenteiro
Responder para  Nilo
18 dias atrás

Até outro dia o Oriente Médio estava…

André E.
André E.
Responder para  Rodrigo@acr.ind.br
18 dias atrás

Pra ontem.

Plinio Jr
Plinio Jr
Responder para  Rodrigo@acr.ind.br
18 dias atrás

Em partes sim, mas vale ressaltar que durante todo este tempo quem permitiu e deu garantias para os norte coreanos terem suas armas nucleares é a China…..arrumar confusão com eles, é arrumar confusão com os chineses.

Saldanha da Gama
Saldanha da Gama
18 dias atrás

Não podemos nos dobrar a nenhum país.
Soberania também se aplica internamente…
Não podemos aceitar e permitir que facções dominem territórios.

Nilo
Nilo
Responder para  Saldanha da Gama
18 dias atrás

Votou no Centrão, votou nas lideranças em torno da família Bonzo.
Então me diz das relações republicanas que majoritariamente está turma tem com a lavanderia do crime organizado, ou não? Tomar Ypê faz isso, uma limpeza, não sobra nada inteligível.

Macgarem
Macgarem
Responder para  Saldanha da Gama
18 dias atrás

Melhor coment’ario

Fábio CDC
Fábio CDC
18 dias atrás

Não é Síndrome de Vira-Lata, é encarar a realidade: O Brasil é uma bodega e sempre será.

Eromaster
Eromaster
Responder para  Fábio CDC
18 dias atrás

Mude para Miami então….

Sergio Machado
Sergio Machado
18 dias atrás

“O que rejeita é o alinhamento automático, a importação acrítica de modelos e a renúncia antecipada aos instrumentos de desenvolvimento“

Qualquer ser vivo que tenha 1 único neurônio em atividade sabe que alinhamento automático é coisa de doido estúpido, servo ou puxa-saco sem noção.
Não tem como dar certo.

Nilo
Nilo
Responder para  Sergio Machado
18 dias atrás

Segundo a patriotada deu certo na Argentina, deu certo na Venezuela, querem importar o modelo, da serra para a tesoura rsrs

Macgarem
Macgarem
18 dias atrás

Concordo sobre soberania!

Primeira coisa agora é retormar o mais de 20% de territorio tomado por facçoes.

Nilo
Nilo
Responder para  Macgarem
18 dias atrás

*”O Brasil não cabe no quintal de ninguém, de Paulo Nogueira Batista Jr,*”
Esse é o tema principal do artigo, a soberania em primeiro, o sujeito da uma de João sem braço, diz concordar com a soberania mas é a soberania interna, a externa coloca em segundo plano. * Eu amo Trump *. Rsrs

ln(0)
ln(0)
Responder para  Nilo
16 dias atrás

Sr Nilo, o senhor nunca ouviu falar em blackspots? Regiões dentro do território nacional em que o estado não tem liberdade de exercer seu poder? Querer um estado nacional que não tenha regiões controladas pelo crime não necessariamente significa amar o Trump. Podemos ter as duas coisas, um estado em que o cidadão tenha liberdade total dentro do nosso país e não ter alinhamento automático..

Aranha
Aranha
18 dias atrás

Cia usa escritórios do Banco Mundial para manter espiões na Colômbia e Brasil… Pentágono cria curso de português para inteligência cibernética de ….Noticias da semana… Senhor Rubio trabalhando.

Última edição 18 dias atrás por Aranha
João Vieira
João Vieira
18 dias atrás

Sim, estamos desarmados e agora parece que estamos compreendendo as antigas palavras de John Foster Dulles ,que nenhum país tem amigos, têm interesses.
Mas parece que metade da nossa população ainda acredita nos bons propósitos do grande irmão do norte

Kornet
Kornet
18 dias atrás

Será que cabemos no da CHINA?