Abin relatou a europeus suspeitas de interferência de EUA e Rússia nas eleições, diz Reuters
Informações teriam sido apresentadas a representantes da França e da Alemanha; agência brasileira não se manifestou publicamente e não foram divulgadas evidências sobre uma ação russa
Representantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teriam informado a autoridades da França e da Alemanha que Estados Unidos e Rússia estariam interferindo no processo eleitoral brasileiro de 2026. A informação foi publicada pela Reuters com base em fontes e documentos aos quais a agência de notícias teve acesso.
O relato não partiu de uma manifestação pública da Abin. Segundo a Reuters, a agência brasileira não respondeu ao pedido de comentário sobre as reuniões ou sobre os elementos usados para atribuir interferência aos dois países.
Os encontros ocorreram em Brasília entre 9 e 11 de setembro, durante uma visita de representantes europeus destinada a discutir segurança digital e a aplicação da Lei de Serviços Digitais da União Europeia. Um relatório elaborado por um dos participantes afirma que integrantes da Abin “confirmaram a existência de interferência” norte-americana e russa.
Alegação contra os EUA inclui “lawfare”
De acordo com o documento citado pela Reuters, a suposta atuação dos Estados Unidos iria “da instrumentalização do sistema jurídico à interferência admitida abertamente”. O primeiro conceito corresponde ao termo inglês lawfare, empregado para descrever o uso de instrumentos jurídicos com objetivos políticos.
Não foram divulgados detalhes sobre quais processos, medidas ou agentes teriam sido enquadrados nessa classificação pela inteligência brasileira. Também não está claro se a expressão “interferência admitida” se refere a ações clandestinas ou ao apoio político público do governo de Donald Trump a candidatos ideologicamente alinhados.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos não respondeu ao pedido de comentário feito pela Reuters. Washington, entretanto, já havia negado anteriormente que estivesse tentando interferir nas eleições brasileiras.
Separadamente, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral em 23 de setembro para solicitar a investigação de uma possível interferência norte-americana.
As petições citam tarifas, sanções, revogações de vistos e articulações políticas envolvendo integrantes da família Bolsonaro. Os pedidos, porém, representam alegações da campanha e ainda dependem de apuração e decisão judicial.
Suposta ação russa não foi detalhada
O relatório da reunião não apresentou informações sobre a natureza da alegada interferência da Rússia, seus possíveis objetivos, os meios empregados ou os candidatos que poderiam ser beneficiados. Também não foram tornadas públicas evidências técnicas que sustentem essa atribuição.
A Embaixada da Rússia em Brasília não respondeu à Reuters. Moscou rejeitou, em ocasiões anteriores, acusações de interferência em processos eleitorais de outros países.
A falta de detalhes impede avaliar se a referência à Rússia envolve campanhas de desinformação, atividade cibernética, redes de perfis falsos ou apenas uma avaliação preventiva da inteligência brasileira. Interferência política, operações de influência e ataques contra sistemas digitais são categorias diferentes e exigem evidências específicas para que haja atribuição a um Estado.
França e Alemanha integraram delegação europeia
Os representantes franceses pertenciam à Viginum, agência encarregada de identificar interferência digital estrangeira, e à Arcom, órgão regulador dos setores de mídia e comunicações. A delegação alemã incluiu integrantes da Agência Federal de Redes, responsável por telecomunicações e outros setores de infraestrutura.
A Arcom e a Viginum confirmaram à Reuters a participação de representantes na viagem. A agência alemã também confirmou o encontro, mas afirmou que uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições da Alemanha não foi discutida.
Além da aplicação da Lei de Serviços Digitais da União Europeia, documentos consultados pela Reuters indicam que a visita pretendia preparar “respostas coordenadas” antes das eleições de 2026. Washington critica a legislação europeia sob o argumento de que suas regras atingem de maneira desproporcional empresas norte-americanas de tecnologia.
Ataques cibernéticos quase dobraram, diz autoridade
Uma autoridade brasileira da área cibernética que participou dos encontros, ouvida sob condição de anonimato, afirmou que o número de ataques digitais contra o país quase dobrou em comparação com 2025. Também teria ocorrido um aumento expressivo de invasões e tentativas de phishing dirigidas à Presidência da República.
Segundo essa autoridade, a intensificação estaria relacionada ao período eleitoral. Os números completos, a metodologia da comparação e a origem dos ataques, contudo, não foram publicados. O aumento de incidentes cibernéticos, isoladamente, não comprova que eles tenham sido conduzidos ou patrocinados pelos governos dos Estados Unidos ou da Rússia.
Eleição entra na reta final
O primeiro turno das eleições brasileiras será realizado em 4 de outubro. O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro aparecem como os principais concorrentes em uma disputa apertada. Caso nenhum candidato alcance a maioria necessária, o segundo turno será realizado em 25 de outubro.
Na reta final da campanha, o relato amplia a pressão sobre os órgãos encarregados de proteger o processo eleitoral e investigar operações estrangeiras. Uma eventual atribuição oficial, entretanto, dependerá da apresentação de elementos verificáveis que permitam distinguir apoio político público, pressão diplomática, campanhas de influência e ações cibernéticas patrocinadas por governos.■
