Exercício na Amazônia peruana e novas unidades na Bolívia ampliam cooperação regional com os EUA
Southern Vanguard 2026 reuniu quase 400 militares de quatro países; na fronteira brasileira, La Paz prepara forças policiais de elite com treinamento internacional
Dois movimentos de segurança anunciados em setembro reforçaram a cooperação dos Estados Unidos com países sul-americanos. No Peru, militares norte-americanos participaram do Southern Vanguard 2026 ao lado de tropas peruanas, chilenas e argentinas. Na Bolívia, o governo confirmou a criação de unidades policiais de elite que atuarão nos departamentos de Beni e Santa Cruz, junto à fronteira com o Brasil.
Os exercícios e treinamentos ocorrem em meio à expansão das alianças de Washington contra o crime transnacional no Hemisfério Ocidental.
Quase 400 militares treinam na selva peruana
O Southern Vanguard 2026 reuniu quase 400 militares na região de Sauce, no Peru, a partir de 7 de setembro. Sediado pela Escola de Selva do Exército peruano e coordenado com o Comando do Exército dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental, o exercício envolveu forças dos quatro países.
O treinamento incluiu seis dias de instrução em natação na selva, operações fluviais, sobrevivência e deslocamento em mata fechada. A etapa final foi um exercício de campo de três dias, no qual grupos multinacionais enfrentaram cenários simulados em terreno amazônico.
Os objetivos declarados foram aperfeiçoar a atuação conjunta dos estados-maiores, o planejamento de fogos e a coordenação de manobras, além de reduzir diferenças técnicas, humanas e de procedimento entre os participantes. Uma força-tarefa combinada, sob liderança peruana, foi organizada para a atividade.
Na apresentação institucional do Southern Vanguard, os organizadores afirmaram que exercícios desse tipo servem para elevar a prontidão regional, dissuadir agressões, enfrentar “ameaças” e responder rapidamente a crises. O material divulgado, entretanto, não identifica um inimigo específico nem relaciona o treinamento a uma operação real contra cartéis.
O Congresso peruano autorizou a entrada de militares norte-americanos armados entre 24 de agosto e 25 de setembro para atividades relacionadas ao exercício. A permissão foi aprovada por 16 votos a oito na Comissão Permanente.
Relação com o Escudo das Américas não foi formalizada
O exercício ocorreu no mesmo contexto político em que Washington amplia a Coalizão das Américas contra os Cartéis, também chamada de Escudo das Américas. Criada em março, a iniciativa liderada pelos Estados Unidos foi apresentada como uma aliança de segurança e articulação política contra cartéis transnacionais, migração irregular e interferência geopolítica externa.
Essa convergência de agendas não comprova, contudo, que o Southern Vanguard tenha servido como preparação operacional para o Escudo. Nos comunicados oficiais consultados, a finalidade informada foi a interoperabilidade militar e a capacitação para operações em selva. Uma vinculação direta entre as iniciativas deve, portanto, ser tratada como hipótese de contexto, não como fato confirmado.
Bolívia anuncia unidades policiais de elite
Na Bolívia, o Ministério de Governo anunciou duas unidades “superespecializadas” da Polícia Boliviana: uma na região de Santa Ana, em Beni, e outra no eixo entre San Ignacio de Velasco e San Matías, em Santa Cruz. Esta última ficará encarregada de patrulhar e controlar a linha de fronteira com o Brasil.
Os integrantes deverão ter concluído o curso internacional Garras del Valor. Segundo o governo boliviano, a formação avançada contará com instrutores dos Estados Unidos, da Colômbia, da Argentina e do Chile.
Plano é apresentado como cooperação com o Brasil
As unidades fazem parte do plano Fronteras Seguras, lançado para ampliar a presença permanente do Estado em corredores utilizados pelo tráfico de drogas e pelo crime organizado.
La Paz atribui parte da violência fronteiriça à disputa entre as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho. O governo boliviano passou a empregar o termo “narcoterrorismo” para descrever a atuação desses grupos — uma classificação política adotada pelas autoridades do país.
Apesar do reforço armado na faixa limítrofe, autoridades bolivianas o definem como iniciativa binacional, com intercâmbio de inteligência, coordenação de operações e cooperação com a Polícia Federal brasileira. Também foi anunciada uma representação permanente da PF em La Paz, com presença recíproca de agentes bolivianos no Brasil.
Para o Brasil, os movimentos têm impactos distintos. O Southern Vanguard eleva a capacidade de forças estrangeiras para atuar em ambiente amazônico, enquanto as unidades bolivianas podem alterar o patrulhamento de uma extensa fronteira marcada por rotas de drogas, pistas clandestinas e circulação de organizações criminosas. A ausência de vínculo formal entre as iniciativas não reduz sua relevância para o acompanhamento diplomático e militar brasileiro.■


