Brasil chega às eleições de 4 de outubro sob denúncias de interferência dos EUA e tensão diplomática

Eleições 2026

Suspensão de serviços consulares, suspeitas de financiamento americano e alertas de parlamentares dos Estados Unidos marcam a véspera da votação; Washington nega tentar interferir no processo eleitoral

O Brasil realizará neste domingo, 4 de outubro, o primeiro turno das eleições gerais em meio a uma disputa presidencial apertada e a uma escalada de questionamentos sobre a atuação dos Estados Unidos. Na reta final da campanha, a suspensão dos serviços consulares americanos e um pedido de investigação sobre possível financiamento estrangeiro a iniciativas contra o Supremo Tribunal Federal ampliaram a tensão entre Brasília e Washington.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aproximadamente 158,8 milhões de brasileiros estão aptos a votar. Além do presidente e do vice-presidente da República, serão escolhidos governadores, deputados federais, estaduais e distritais e 54 senadores, correspondentes a dois terços do Senado. A votação ocorrerá das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, em todo o território nacional.

Datafolha mostra Lula à frente no primeiro turno

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 2 de outubro, aponta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 45% dos votos válidos, contra 40% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Considerando todos os entrevistados, incluindo indecisos e eleitores que pretendem votar em branco ou anular, os percentuais são de 42% para Lula e 38% para o candidato do PL.

Em uma simulação de segundo turno, Lula aparece com 48% e Flávio Bolsonaro com 45%, resultado classificado pelo instituto como empate técnico. O levantamento ouviu presencialmente 2.506 eleitores em 152 municípios, entre 29 de setembro e 1º de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro BR-08039/2026 no TSE.

Para vencer a eleição presidencial no primeiro turno, é necessário obter mais da metade dos votos válidos, excluídos os brancos e nulos. Se nenhum candidato alcançar essa maioria, os dois mais votados disputarão uma nova votação em 25 de outubro. Os números das pesquisas representam intenções de voto e não antecipam o resultado das urnas.

Suspensão de serviços consulares aumenta a tensão

Os Estados Unidos suspenderam na sexta-feira os serviços consulares de sua embaixada e dos consulados no Brasil, alegando preocupações de segurança. A Austrália também fechou sua embaixada em Brasília. O Departamento de Estado americano informou que trabalha com autoridades brasileiras para enfrentar os riscos, mas não detalhou publicamente as ameaças nem estabeleceu uma ligação direta com a eleição.

Segundo informações apuradas pela CNN Brasil, o alerta teve origem em uma ameaça digital contra instalações americanas e de países aliados de língua inglesa durante o período eleitoral. A Polícia Federal realizou duas buscas, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal. Investigadores ouvidos pela emissora disseram não ter encontrado, até aquele momento, elementos concretos de planejamento efetivo de ataques.

A decisão provocou reação do presidente do PT, Edinho Silva, que a interpretou como tentativa de influenciar a opinião pública brasileira. Entretanto, a equipe diplomática do Planalto havia sido informada antecipadamente sobre a suspensão e, segundo a CNN, buscou evitar uma dramatização do episódio. As investigações sobre as ameaças prosseguem em cooperação entre autoridades brasileiras e americanas.

AGU pede investigação sobre programa de US$ 1 milhão

Outra frente de preocupação envolve um programa americano apresentado como iniciativa de combate ao lawfare — uso político de instrumentos judiciais — e à censura no Brasil. Na quinta-feira, 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal que apurem suspeitas de financiamento internacional destinadas a influenciar o debate político e deslegitimar o STF.

O pedido, assinado pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, baseia-se em reportagem do jornal britânico The Guardian. Segundo a denúncia reproduzida pela CNN Brasil, o Departamento de Estado teria destinado US$ 1 milhão do Fundo de Direitos Humanos e Democracia ao programa “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”. A execução dos recursos e seus eventuais destinatários brasileiros são questões a esclarecer na apuração.

Rockbridge entra no debate sobre influência estrangeira

A atuação de uma rede privada americana também ganhou destaque. Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 1º de outubro, afirma que empresários ligados à Rockbridge Network, cofundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, prestaram apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro por meio de relatórios e aconselhamento. O jornal ouviu seis pessoas próximas à campanha.

A assessoria de Flávio Bolsonaro nega que a campanha tenha recebido dinheiro ou estrutura estrangeira. Pedro Sang, citado na reportagem, afirma que não trabalhou na candidatura. Tallis Gomes declara que não integra campanhas eleitorais, não fez doações nem intermediou recursos estrangeiros. As acusações de financiamento são contestadas pelos envolvidos e motivaram pedidos de investigação na Justiça Eleitoral.

Senadores americanos cobram respeito ao resultado

As preocupações chegaram ao Congresso dos Estados Unidos. Em carta divulgada em 29 de setembro, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch pediram ao secretário de Estado, Marco Rubio, um compromisso com o reconhecimento do resultado certificado pela Justiça Eleitoral brasileira. Os parlamentares também questionaram o uso de pressões diplomáticas, econômicas e políticas contra instituições do Brasil.

O documento cita tarifas e sanções utilizadas em 2025 durante o julgamento de Jair Bolsonaro, além da aproximação entre Trump e Flávio Bolsonaro. A avaliação dos senadores acompanha alertas da inteligência brasileira: segundo reportagem da Reuters de 30 de setembro, integrantes da Abin apresentaram a uma delegação francesa e alemã informações sobre supostas interferências americanas e russas no processo eleitoral.

O Departamento de Estado já negou buscar interferir nas eleições brasileiras. Na quinta-feira, Trump declarou acompanhar a disputa “muito de perto” e classificou o Brasil como um país importante, sem anunciar apoio formal a um candidato naquela declaração. A fala ocorreu poucos dias antes da votação, enquanto persistiam os questionamentos sobre a postura de Washington diante do resultado.

Auditoria das urnas terá acompanhamento do TCU

Na preparação para domingo, o TSE anunciou que o Tribunal de Contas da União acompanhará os Testes de Integridade das Urnas Eletrônicas nas 27 unidades da Federação. A fiscalização abrangerá procedimentos realizados na véspera e no dia da eleição, incluindo testes com e sem biometria. O relatório consolidado deverá ser encaminhado ao TSE em até 30 dias corridos após o segundo turno.■



Redes Sociais

A Trilogia Forças de Defesa também está presente nas redes sociais. Para comentar e discutir as matérias com os editores e outros leitores, entre no nosso grupo no WhatsApp e no Facebook. Para correções, críticas e sugestões de pauta, contate os editores: redacao@fordefesa.com.br.