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O poder nas relações internacionais – 3

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Os elementos do Poder

Os fatores do poder variam segundo os autores. Não podem, todavia, e em caso algum, limitar-se a elementos simplesmente materiais. Em Politcs among the nations (1947), o politólogo americano Hans J. Morgenthau enumera oito: os dados geográficos, os recursos naturais, a capacidade industrial, o estado de preparação militar, a população, o caráter nacional, a moral nacional e a qualidade da diplomacia.

O poder de um Estado resulta portanto da combinação e do domínio desses critérios,  e da vontade do Estado em os utilizar na cena internacional.

No entanto, nenhuma quantificação exata do poder de um país é concebível, porque, se é possível comparar o número de habitantes de dois Estados, é impossível, em contrapartida, avaliar de maneira rigorosa ou estatística, a moral nacional ou a qualidade da diplomacia.

A noção de poder é, portanto, sempre relativa.

Classificação e evolução dos fatores de poder

É difícil hierarquizar os elementos que contribuem para o poder. Esta hierarquia varia consoante as épocas. No entanto, se o fator militar foi muitas vezes considerado o elemento fundamental do poder, hoje o critério econômico parece ter adquirido uma importância pelo menos tão grande como aquele.

Pensa-se igualmente que o poder é adquirido, mais através do saber e da tecnologia – a “matéria cinzenta” –  do que pela posse de matérias-primas ou de um grande território. Um país pequeno desprovido de riquesas naturais, mas dotado de um nível de educação elevado, e que consagra uma parte importante dos seus rendimentos ao setor “pesquisa-desenvolvimento”, será potenciamente mais poderoso que um Estado maior contando unicamente com suas matérias-primas, mas negligenciando, por exemplo, seu sistema educativo. Pense-se no caso do Japão face ao da Argélia.

No entanto, os fatores de poder estão muitas vezes interligados, e nenhum pode verdadeiramente ser negligenciado: um exército, mesmo dotado dos melhores recursos militares, nada vale, em caso de guerra, se sua população não estiver unida em apoio aos seus dirigentes, e na medida em que estes últimos conseguirem definir uma boa estratégia.

Do mesmo modo, um país em vias de depauperação não poderá, a longo prazo, continuar a desenvolver suas capacidades militares importantes. O fim da União Soviética ocorreu devido, em grande parte, a um desenvolvimento militar acrescido operado em detrimento da economia.

A mobilização dos fatores de poder

Os elementos do poder não são todos utilizáveis em qualquer situação. Por exemplo, no quadro de um conflito armado, os meios militares não são utilizados em sua totalidade.
Além disso, parece que os fatores de poder são cada vez menos suscetíveis de pesar em domínios que não lhe são específicos.
É o caso da força militar, que pouco influi na capacidade de um Estado impor a sua vontade a outros, nas negociações cuja área é estritamente econômica.

Por exemplo, apesar da dependência do Japão face aos EUA, para a sua segurança, o Governo americano não consegue obter todas as concessões comerciais que desejaria da parte da administração japonesa. Consequentemente, nenhum Estado dispõe de um poder absoluto que lhe permita impor sua vontade em todas as circunstâncias.

Em próximo post, a hierarquia das potências.

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Flamenguista
Flamenguista
11 anos atrás

Concordo que não é possível quantificar em números a qualidade da diplomacia, mas podemos sim, de acordo com a eficácia, aceitação e respeito de outras nações, objetivos alcançados, excelência dos diplomatas, etc, dizer se a diplomacia de um estado é eficiente ou não. Já havia dito em outro post que, o peso econômico nem sempre se traduz em influência política, haja visto o Japão, que tem uma diplomacia sofrível, talvez pela forte influência americana naquele país, talvez pela falta de bons diplomatas ou ainda, os problemas que a diplomacia japonesa tem que enfrentar como, por exemplo, a vizinha Coréia do… Read more »

Lecen
Lecen
11 anos atrás

Flamenguista,

Culpar, como sempre, os EUA pela fraca influência regional do Japão não faz sentido algum.

O Japão, apesar de ser uma potência econômica, realmente não tem muita influência no Oriente, mas isso se deve a uma opção reiterada dos sucessivos Governos japoneses desde 1945.

O peso da derrota por uma guerra que o Japão INICIOU foi e ainda é muito grande. O mesmo vale para a Alemanha.

A questão é: e o Brasil? É a décima maior economia do mundo, mas as Forças Armadas estão sucateadas e sua diplomacia externa é focada em ideologias e não interesses da Nação.

Aluisio
Aluisio
11 anos atrás

Lecen,discordo sobre a sua opnião sobre a diplomacia brasileira. Pode-se apontar que o projeto de hegemonia brasileira na AL,e a pretenção a um assento no CS sejam focados em ideologia,a primeira análise. Porém,ao atingir esses objetivos,haveriam muitos benefícios para a nação,na forma de uma maior segurança,maior influencia (que nos permitiria negociar termos mais vantajosos para a Nação…),entre outros. Sem falar que a nossa PE almejou,e obteve êxito em estreitar nossos laços comerciais e diplomáticos com vários países do globo,diversificando assim o destino das noças exportações e importações,tornando a Nação menos dependente de apenas alguns países,sendo um benefício em segurança,outro interesse… Read more »

Dalton
Dalton
11 anos atrás

Lecen,

ou estamos ambos errados, ou ambos certos, pois compartilho da sua opiniao já há muito tempo sobre a opçao japonesa nao só quanto a PE deles mas até quanto a elaboraçao da Constituiçao deles, ou seja,
era hora de dar um tempo, deixar a poeira baixar, afinal os ressentimentos por parte de chineses e coreanos entre outros,ainda é grande mas tem sido amenizado com a passagem das novas geraçoes.

abraços

Lecen
Lecen
11 anos atrás

Aluisio, não me refiro a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, coisa que o Brasil não conseguirá jamais. Me refiro ao apoio do Governo brsileiro atual a ditadura venezuelana e também as FARCs, organização terrorista colombiana. Também gosto de lembrar os prejuízos causados pela Bolívia e Equador, assim como a Argentina com o seu proteceinismo (ao mesmo tempo que exige e consegue que o Brasil retire o seu protecionismo), etc… Também é bom lembrar que o presidente Lula visitou diversas ditadores árabes e africanos, mas não se encontrou com o primeiro ministro da única diplomacia do Oriente… Read more »

Aluisio
Aluisio
11 anos atrás

Lecen, Sua opinião é contraditória. Você é que está colocando ideologias acima dos interesses nacionais,nao o governo. Condenar Chavez,nao traria nenhum benefício para nós,muito pelo contrário. E além do mais,vale lembrar o que Lula disse sobre isso na entrevista a Fareed Zakharia: “Não se pode dizer que não há democracia na Venezuela”,o que é de certa forma correto,afinal,foi o povo que elegeu Chavez… (Embora eu concorde que seja uma ditadura de facto,mas não uma tradicional,mas talvez o termo mais correto seria algo como “Populismo Autoritário”…).Não,é preferível tolerar o Chavez e colher os benefícios disso: O Brasil é hoje o maior… Read more »

Noel
Noel
11 anos atrás

Caro Aloísio, a nossa PE tem um viés ideológico sim, afinal o PT é de esquerda, ou não…o Sr Emb Samuel Pinheiro Guimarães, que é o 02 do Itamaraty, determinou que literaturas dessa vertente fossem adotados no Instituto Rio Branco, e isso até causou mal estar perante outros embaixadores. Outro sinal das posições, pró esquerda, é a existência dessa anomalia chamada Assessoria Especial para Assuntos Internacionais, fora da esfera de nossa diplomacia, na pessoa do Prof Marco Aurélio TOP TOP Garcia. Porém creio que temos como ponto positivo, que é o fato de mesmo sendo com vertente esquerdista, nossa diplomacia,… Read more »

Hornet
Hornet
11 anos atrás

Toda PE, no mundo todo, tem um viés ideológico. A idelogia é inerente à política, não tem como escapar.

Não existe apenas a ideologia, ou melhor, as ideologias de esquerda. Existem também as ideologias de direita.

E podemos graduar isso, da extrema esquerda autoritária e anti-democrática, até a extrema direita autoritária e anti-democrática. Os extremos, aliás, costumam se encontrar no caso da política.

A inteligência do Brasil está em não se colocar de forma extremada no mundo. Ao meu ver, a maneira mais inteligente de se fazer PE.

abraços a todos